terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O tempo e o distante… Crescer ou acreditar que afinal tudo é tão breve



Quando percorríamos a pé a estrada de terra batida entre a Porta Real da Tapada e a Fonte dos Castanheiros, parando para descansar a meio do caminho junto a um forno de cal abandonado, com tempo para acariciar as estevas e tomar-lhes o odor da sua resina, nós achávamos sempre que o mundo era gigante.
No regresso à Vila e já cansados, ainda conseguiamos cimentar a ideia de uma dimensão infinitamente maior.
Depois mais tarde quando vínhamos a Lisboa no autocarro da Setubalense ou na automotora da CP que nos deixava no Barreiro, aí achávamos que cumpríamos uma experiência limite e radical.
O mundo tinha afinal uma dimensão inimaginável.
E o tempo passava devagar, contando-se em estações, muito mais do que qualquer outra medida, com o Verão a chegar definitivamente no instante da primeira salada de tomate de cada ano, e prolongando-se depois pelos meses longuíssimos de férias em que os calções curtos nos punham os joelhos à mercê do mercurocromo.
A primavera tinha laranjeiras floridas na Praça e mesmo que chovesse muito em Abril, “escampava” depressa e vinham tardes de sol.
O Outono tinha gosto a castanhas e bolotas assadas, para além do tom especial dos dióspiros agarrados aos troncos quase vazios de folhas.
Era também quando íamos às papelarias pedir horários impressos em papel com publicidade às marcas, para podermos passar na escola e copiar aquele que correspondia à nossa turma.
No inverno os serões eram imensos, longos, e passados a preto e branco em frente ao televisor onde o Professor Hermano Saraiva me apresentava Fernão Lopes e me ensinava a detestar a Dona Leonor Teles e o Conde de Andeiro numa Lisboa cercada
Até as faúlhas que saiam da braseira quando a mexíamos com a “ferra” tinham sido baptizadas de “Castelhanos”.
Deitarmo-nos para lá das dez da noite era uma loucura que no inverno apenas se tolerava em dia de Festival da Canção, com a emissão a ir sempre muito para lá do previsto porque eram dificeis as ligações telefónicas aos júris reunidos nas redacções dos jornais distritais.
A propósito, eu ainda hoje sei que em Viana do Castelo o júri se reunia no “Aurora do Lima” e em Castelo Branco no jornal “A Reconquista”.
No inverno também usávamos capotes castanhos ou cinzentos, ou então qualquer outro “abafo” que nos tivessem comprado; sempre folgado para poder durar pelo menos para duas temporadas.
Porque crescíamos depressa.
O tempo e o distante…
Crescer ou acreditar que afinal tudo é tão breve.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Quem não tem uma bicicleta e tem um livro, muito pouco se importa, pois poderá sempre ir de avião para qualquer lado



Quem não tem uma bicicleta e tem um livro, muito pouco se importa, poderá sempre ir de avião para qualquer lado.
Isso pensava sentado no pequeno banco de madeira da Livraria Escolar enquanto lia os livros com cuidado para não lhes estragar a lombada, inviabilizando-lhes a venda.
Seis, sete, oito… muitos anos.
Mas para além dos livros existiam as bolas de serradura envoltas em papel prateado e colorido, que presas a um elástico subiam e desciam como no estranho bailado de um planeta à mercê da minha vontade. Estas bolas chegavam sempre com um saco de torrão ou um brinquedo de lata ou madeira nos dias 29 de Janeiro, Maio ou Agosto, quando os tios e os avós saiam da feira, então no Rossio, subindo a Rua de Três para poderem dar-nos "as feiras".
Os berlindes tilintavam nos bolsos em sacos costurados pela minha mãe, existindo sempre um que era o da sorte e que permitia ganhar o jogo nas três covas em linha que preparávamos na terra; os piões tinham marcas gravadas por mim com um canivete e faziam cócegas quando os púnhamos a rodar na palma da mão; um macaco de corda que tocava pratos e bombo, servia para brincar e para chamar a minha mãe quando fui operado às amígdalas e, entre o paraíso de iogurtes e gelados, não era aconselhável falar alto; um carro do James Bond movia-se a pilhas e tinha um boneco que me assustava ao saltar pelo tejadilho; uma ambulância também a pilhas avançava e recuava quando batia nos móveis, presente de Natal no ano em que o meu pai trabalhou no Baptista Russo.
Nos Trabalhos Manuais fazíamos brinquedos, e eu fiz um Alentejano de capote com a inevitável cortiça, objecto que ainda hoje uso para guardar coisas muito especiais…
E no dia em que fiz três anos, a Tia Carlota ofereceu-me um Lego, o primeiro que eu vi; brinquedo que achei algo estranho porque aquilo que na caixa prometia ser um camião, era afinal um conjunto de peças coloridas e soltas.
Aprendi mais tarde a alinhá-las para construir a prometida viatura, e a realinhá-las de muitas outras formas dando corpo àquilo que ia ditando a imaginação.
Voar como com as páginas de um livro e fazer girar a Terra como uma pequeníssima bola de serradura.
Aprender a conquistar o mundo mesmo sem bicicleta, apesar do Manuel generosamente me emprestar a dele para darmos umas voltas no passeio em frente ao Framar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Joaquim Francisco... é tão só um pequeníssimo detalhe



O meu nome devo-o ao avô materno, Joaquim Miguel, e ao avô paterno, Francisco da Conceição.
O avô Chico era carpinteiro e fazia de propósito para mim, réguas de madeira com a escala certíssima ao milímetro, que eu usava orgulhosamente na escola.
Também me ofereceu um leitor de cassetes para celebrar o sucesso no exame da quarta classe e, juntamente com a avó levou-me a passear ao norte de Portugal numa viagem de oito dias. Foi na sua companhia que subi pela primeira vez à Serra da Estrela.
Conheceu a Florbela Espanca e o Bento de Jesus Caraça, contava-me histórias fantásticas nos serões que passávamos ao redor da braseira posta num estrado feito por ele, mas morreu em 1990 sem acreditar que o Homem tinha ido à lua.
- Os pantomineiros dos Americanos.
O avô Joaquim trabalhava no campo e oferecia-me todas as moedas que encontrava enquanto tratava a terra. Ainda hoje as guardo numa caixa de cortiça.
Ensinou-me a apanhar azeitona, a podar uma parreira, a plantar nabiças... e era um homem de fé e muito optimista que nunca desanimava, mesmo quando os melões que colhia tinham crescido até à fantástica dimensão de... uma maçã.
Quando ia a nossa casa levava sempre um saco com o melhor que o campo lhe dera nesse dia, e nunca nos deixava sair da sua casa sem igual presente.
Levava tão a peito as suas crenças, que confiando que uma canja de mocho abre o apetite a uma criança, caçou um exemplar da dita ave e escancarou-me o apetite até hoje; para lá de me ter oferecido esta culpa que trago tatuada na alma por ter consumido uma ave que me é tão simpática.
Com as aparas que o avô Francisco trazia da carpintaria, o lume acendia-se maravilhosamente; com o tubo de ferro por onde o avô Joaquim me ensinou a soprar, o lume de chão jamais se apagava.
É tudo uma questão de fogo, que também esse nome pode dar-se ao amor que nos constrói.
Joaquim Francisco...
É tão só um pequeníssimo detalhe.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Um Homem velho é um Homem cheio de inflexíveis certezas…



Um Homem velho é um Homem cheio de inflexíveis certezas, e por oposição, um Homem é novo quando, indiferente ao número de anos que já viveu, segue feliz pelas dúvidas dos dias, moldando-se aos poucos à luz da sua fé, de mãos dadas com quem ama, e no usufruto de uma imensa liberdade.
E as certezas de um Homem velho oferecem-lhe a moribunda solidão de uma ilha onde nunca desembarcam quaisquer palavras ou novas ideias.
Um Homem é novo quando tem esperança, quando nunca sente nada como inevitabilidade da vida; e até uma longa e dura sede poderá ser o prenúncio para a beleza de uma fonte na próxima esquina do caminho.
Em 2016 cumprirei cinquenta anos, eu e mais um grupo fantástico de amigos de sempre. Anunciamos festa rija e não é apenas pela celebração deste número redondo na idade...
É por estarmos cada vez mais novos.
E até o Pomar das Laranjeiras se vai encher de memórias com a dimensão de meio século.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Já que o tempo insiste em ter as suas esquinas, dobremos todos os instantes enchendo-os com o melhor da vida: a poesia



Já que o tempo insiste em ter as suas esquinas, dobremos todos os instantes enchendo-os com o melhor da vida: a poesia.
No tempo em anos contado como nas ruas todas por onde passamos, sejam os nossos passos expressão da mais pura e genética vontade, enraizada nos sonhos e infinita na força de acontecer.
E se um dia nos travarem bruscamente a marcha reunamos todas as forças, e por mérito de idílicos esquadros e compassos, rasguemos janelas por onde o olhar nos leve pelo seu mérito de voar, até aquele ponto no horizonte onde somos nós.
O ponto onde me esperas sentado olhando um rio que o sol reveste da tua cor, e onde as palavras soçobram perante a linguagem verdadeira e honesta dos beijos de amor.
Feliz 2016... com poesia.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Jamais importará qualquer numérico detalhe com que baptizarmos o tempo…



O calendário assinala hoje a mudança de um ano velho para outro que chega com rótulo de novo, sendo tudo tão só e afinal, o fim de um dia e a chegada de outro dia.
Jamais importará qualquer numérico detalhe com que baptizarmos o tempo no lógico e irreversível cumprimento da sua passagem, importa isso sim que os dias tenham o nosso nome inscrito nos benefícios nascidos do usufruto da mais doce liberdade.      
O meu… o nosso tempo.
Perdi-me na contagem dos dias no exacto momento em que chegaste.
Sinto apenas as estações a passarem por nós, palpando-as no frio ou no calor, nos aromas… em tudo o que se vai incorporando na aragem do Tejo, o rio que nos oferece as margens para sonhar.
Sei que entrançámos as nossas histórias na primavera lilás dos jacarandás, sonhámos e tecemos os dias à luz de um pôr-do-sol de verão, partilhámos vontades por entre as castanhas compradas numa banca que o Outono trouxe ao Rossio, ensaiámos passos e abraços à chuva dos entardeceres de inverno, voámos juntos por sobre o próprio tempo quando nos demos um beijo a ver tão pequeno o Chiado e o Carmo do alto do Elevador de Eiffel…
Nunca saberei dizer o tudo que me diz o teu olhar, jamais a minha pele conhecerá a fórmula secreta da expressão da tua quando se beijam.
E as minhas mãos que te adoram...
O calendário assinala hoje a mudança de um ano velho para outro que chega e se faz novo…
Mas eu jamais partirei ou te deixarei partir nas mãos de um tempo qualquer que passa por nós e que às vezes voa.
Num dia qualquer.
Viverei a eternidade de mão dada contigo a sentir o Tejo, a amar-te como nunca e a olhar Lisboa.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

2015



Refugiados, Costa, Esquerda, Direita, Islâmico, Jesus, Paris, Terrorismo, Chocalhos, Corrupção, Sócrates, BANIF…

No primeiro de Janeiro do ano que agora finda propus-me escrever um diário, não deixando passar um dia sem um texto partilhado no Pomar das Laranjeiras.
Missão cumprida.
E de cada mês destaco alguns títulos que resumem o ano que por aqui vivi no privilégio da vossa companhia.

Janeiro
“Je suis Charlie”.
“O aroma das rosas persiste entre os dedos muito para lá dos instantes em que as pétalas voam”.
“O amor é um eterno abraço sem pausas para a solidão”.
“O sofá de um Homem enamorado é um parapeito de vistas infinitas e ilimitados horizontes”.

Fevereiro
“Liberdade, frutos, flores, asas, amor… um rio azul e nós que gostamos tanto de nos ver assim”.
“A laje de onde varremos as cinzas é a mesma que servirá de chão ao lume que nos aquece”.
“Começou a terceira guerra mundial ou a segunda ainda não acabou?”.
  
Março
“O meu país entre o pântano e a tanga”.
“E há flores e beijos perfeitos no fim de todos os invernos”.
“A poesia é o perfume perfeito que se colhe de cada momento que vivemos intensamente pelo prazer de sermos nós”.

Abril
“Viver é o exercício da minha liberdade”.
“A tarde adoptou-nos, calou a orfandade das palavras de amor e passeou connosco por entre a gente e o riso de um domingo de primavera”.
“Os poetas não compram flores”.

Maio
“Há dias que sonhámos muito”.
“Os pássaros e os Homens que gostam de voar”.
“A primavera às vezes encontra-nos campeões”.

Junho
“Os canteiros que o dia me oferece”.
“Portugal… pois claro”.
“Sob o luar de Santo António”.
“Procurem-me sempre entre as palavras que escrevo”.
“Enquanto as hortênsias da Praça se espreguiçavam de cor ao sol do meio-dia”.

Julho
“Para podermos caminhar só precisamos de ter vontade”.
“Porque um marinheiro nunca deixa envelhecer o seu amor pelo mar”.
“Já viste a lua?”
“Lá fora chove… mas é verão”.

Agosto
“Perdemo-nos na idade por ganharmos uma nova história”.
“O importante é o Homem”.

Setembro
“As tardes de Lisboa são eternas”.
“Os poetas às vezes choram enquanto rezam”.
“Há dias que nascem para que nós cumpramos a festa que devemos à vida”.
“A minha estação preferida”.

Outubro
“Eu irei votar no próximo domingo”.
“Não há sequer um pequeno recanto de mim que não more contigo”.
“O silêncio é a casa onde habitam todas as palavras”.

Novembro
 “Quem quer aprender a voar e não tem um avião constrói um papagaio de papel”.
“Que mais poderá ser o Homem para lá da sua fé”.
“Porque razão resistiria eu a falar de Direita e de Esquerda”?
“Notre coeur est lá liberte”.

Dezembro
“Neste beijo para onde trouxemos a vida toda”.
“Que importa o que não se vê, se o universo está todo naquilo que se sente”.
“O amor é o doce e perfeito sossego que se colhe de dentro de uma alma alegremente desassossegada”.
“Não adianta inventarem mais coisas acerca do Natal, ele é apenas Cristo que acontece”.