sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Quando chegam as tardes boas, que são aquelas de estarmos juntos, damos apenas dois dedos de conversa; que de mão cheia por ali, só mesmo os beijos



Quando chegam as tardes boas, que são aquelas de estarmos juntos, damos apenas dois dedos de conversa; que de mão cheia por ali, só mesmo os beijos.
E essas muito poucas palavras a que os lábios excepcionalmente cedem, ficam às duas por três a falar de amor, de paixão… com manifesta dificuldade em abordar uma perspectiva histórica: com o amor aqui dois passos (muito pequenos), tudo o de antes tem sabor a léguas de tal sentimento.
Mas deixamo-nos sorrir por entre esta doce incapacidade.
Depois, quando o sol já dobrou o horizonte e os copos de tinto já repousam vazios na mesa ainda posta, eu às vezes reclino a cabeça no teu colo como se fosse adormecer, e juro que diagnostico a perfeição nesses tão informais instantes.
A verdadeira estrada de um Homem despreza o asfalto, e assenta nos beijos e nas palavras que são expressão de quem o ama.
Então eu deixo-me ir… a passos largos.
Contigo e sem nunca adormecer, pelos instantes que são fruta doce e madura entrelaçada ao inverno frio dos dias de Janeiro.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

E os egrégios avós à volta nas tumbas


Mas vi num noticiário desta semana.
Um tal candidato de nome Vitorino, ou Tino, de nome, que “tino” parece ter efectivamente pouco, apareceu a abrir um buraco na areia de uma praia de Espinho para depois aí colocar um tronco seco. Segundo as suas palavras imitava os Descobridores de quinhentos e os padrões que deixavam nas “novas terras”.
Vasco da Gama ainda deve andar às voltas na sua tumba nos Jerónimos e todos os egrégios avós devem ter ficado roucos e loucos.
O facto é que estando como está a República, porque é que a campanha para a presidência da dita poderia ser diferente e para melhor?
Até a Simone, que nós acreditávamos ter derrotado a Madalena Iglésias com a garra do milho rei nas desfolhadas da vida, veio agora revelar que o segredo do seu sucesso é o Calcitrin que toma para as articulações e que compra na TV Shop…
No mesmo noticiário desta semana, Marisa Matias aparece a visitar o Museu da CP no entroncamento, e aquela que pretende ser a tal “uma por todos”, só poderá ter ido em romagem de fé à terra onde os nabos podem virar fenómenos.
Maria de Belém, cada vez mais parecida com a boneca do Contra, “Maria de Ninguém”, cumpria o seu estatuto de “Maria de Nada” e visitava mais um lar de idosos no âmbito do processo de selecção de locais para servir refeições a Chefes de Estado estrangeiros em visita oficial.
Sampaio da Nóvoa imitava Paulo Portas em mais uma ronda de Feiras, com uma vendedora a gritar o seu apoio mas sem se recordar do nome do candidato. Aliás, nem do nome nem de nada, que fica a sensação de que se este candidato tiver sucesso, tal se ficará a dever única e exclusivamente ao vício por Raspadinhas que atacou Portugal. O que é que ele pensa? Surpresa por entre a coerência do seu silêncio de décadas.
Sabe-se que aqui há uns anos fez um excelente discurso no Dia de Portugal.
Marcelo apareceu em Santarém na sede do Nóvoa a comer croissants em formato miniatura, com ar de que está tudo bem e que a Presidência é afinal um Petit four; não parecendo nada preocupado com o diagnóstico de hiperactividade feito pela Maria de Belém, ou até com a possibilidade de alguém descobrir que ele com cinco anos roubava Sugus aos colegas numa creche do Estoril.
Poderia pelo menos ter comido um Portuguesíssimo e Ribatejano Pampilho…
Dos outros candidatos nada a assinalar para lá das arruadas sem gente.
Pelo meio…
O Primeiro-ministro, que já varreu a dívida ao FMI para debaixo do tapete, “lixando” quem vier a seguir e tiver que lidar com a Troika, já se precaveu contra eventuais derrotas e dividiu o apoio como Salomão. Mandou no entanto a mãe sentar-se ao lado do Nóvoa. Lá na rua quando brincávamos e um tipo fugia das brigas para mandar depois a mãe em sua representação, raramente beneficiava da atribuição de nomes muito bonitos.
Mas as mães, vivas ou mortas, andam na berra.
O Ministro da Cultura, a comprovar que a existência de um Ministério da Cultura não é garantia de Cultura num Ministério, pelo menos para a cultura do bom senso; veio afirmar que se a sua mãe fosse viva por certo apoiaria Maria de Belém. Estará a candidatar-se aqueles programas da TVI em que alguém fala com mortos?
Também não se sabe ao certo em quem a Amália votaria se ainda fosse viva, mas fontes do Panteão, e muito bem informadas, garantem que ela e o Almeida Garrett já estão em negociações com o Eusébio para que ele dê um chuto nisto tudo.
Mas um chuto valente… à campeão.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O tempo e o distante… Crescer ou acreditar que afinal tudo é tão breve



Quando percorríamos a pé a estrada de terra batida entre a Porta Real da Tapada e a Fonte dos Castanheiros, parando para descansar a meio do caminho junto a um forno de cal abandonado, com tempo para acariciar as estevas e tomar-lhes o odor da sua resina, nós achávamos sempre que o mundo era gigante.
No regresso à Vila e já cansados, ainda conseguiamos cimentar a ideia de uma dimensão infinitamente maior.
Depois mais tarde quando vínhamos a Lisboa no autocarro da Setubalense ou na automotora da CP que nos deixava no Barreiro, aí achávamos que cumpríamos uma experiência limite e radical.
O mundo tinha afinal uma dimensão inimaginável.
E o tempo passava devagar, contando-se em estações, muito mais do que qualquer outra medida, com o Verão a chegar definitivamente no instante da primeira salada de tomate de cada ano, e prolongando-se depois pelos meses longuíssimos de férias em que os calções curtos nos punham os joelhos à mercê do mercurocromo.
A primavera tinha laranjeiras floridas na Praça e mesmo que chovesse muito em Abril, “escampava” depressa e vinham tardes de sol.
O Outono tinha gosto a castanhas e bolotas assadas, para além do tom especial dos dióspiros agarrados aos troncos quase vazios de folhas.
Era também quando íamos às papelarias pedir horários impressos em papel com publicidade às marcas, para podermos passar na escola e copiar aquele que correspondia à nossa turma.
No inverno os serões eram imensos, longos, e passados a preto e branco em frente ao televisor onde o Professor Hermano Saraiva me apresentava Fernão Lopes e me ensinava a detestar a Dona Leonor Teles e o Conde de Andeiro numa Lisboa cercada
Até as faúlhas que saiam da braseira quando a mexíamos com a “ferra” tinham sido baptizadas de “Castelhanos”.
Deitarmo-nos para lá das dez da noite era uma loucura que no inverno apenas se tolerava em dia de Festival da Canção, com a emissão a ir sempre muito para lá do previsto porque eram dificeis as ligações telefónicas aos júris reunidos nas redacções dos jornais distritais.
A propósito, eu ainda hoje sei que em Viana do Castelo o júri se reunia no “Aurora do Lima” e em Castelo Branco no jornal “A Reconquista”.
No inverno também usávamos capotes castanhos ou cinzentos, ou então qualquer outro “abafo” que nos tivessem comprado; sempre folgado para poder durar pelo menos para duas temporadas.
Porque crescíamos depressa.
O tempo e o distante…
Crescer ou acreditar que afinal tudo é tão breve.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Quem não tem uma bicicleta e tem um livro, muito pouco se importa, pois poderá sempre ir de avião para qualquer lado



Quem não tem uma bicicleta e tem um livro, muito pouco se importa, poderá sempre ir de avião para qualquer lado.
Isso pensava sentado no pequeno banco de madeira da Livraria Escolar enquanto lia os livros com cuidado para não lhes estragar a lombada, inviabilizando-lhes a venda.
Seis, sete, oito… muitos anos.
Mas para além dos livros existiam as bolas de serradura envoltas em papel prateado e colorido, que presas a um elástico subiam e desciam como no estranho bailado de um planeta à mercê da minha vontade. Estas bolas chegavam sempre com um saco de torrão ou um brinquedo de lata ou madeira nos dias 29 de Janeiro, Maio ou Agosto, quando os tios e os avós saiam da feira, então no Rossio, subindo a Rua de Três para poderem dar-nos "as feiras".
Os berlindes tilintavam nos bolsos em sacos costurados pela minha mãe, existindo sempre um que era o da sorte e que permitia ganhar o jogo nas três covas em linha que preparávamos na terra; os piões tinham marcas gravadas por mim com um canivete e faziam cócegas quando os púnhamos a rodar na palma da mão; um macaco de corda que tocava pratos e bombo, servia para brincar e para chamar a minha mãe quando fui operado às amígdalas e, entre o paraíso de iogurtes e gelados, não era aconselhável falar alto; um carro do James Bond movia-se a pilhas e tinha um boneco que me assustava ao saltar pelo tejadilho; uma ambulância também a pilhas avançava e recuava quando batia nos móveis, presente de Natal no ano em que o meu pai trabalhou no Baptista Russo.
Nos Trabalhos Manuais fazíamos brinquedos, e eu fiz um Alentejano de capote com a inevitável cortiça, objecto que ainda hoje uso para guardar coisas muito especiais…
E no dia em que fiz três anos, a Tia Carlota ofereceu-me um Lego, o primeiro que eu vi; brinquedo que achei algo estranho porque aquilo que na caixa prometia ser um camião, era afinal um conjunto de peças coloridas e soltas.
Aprendi mais tarde a alinhá-las para construir a prometida viatura, e a realinhá-las de muitas outras formas dando corpo àquilo que ia ditando a imaginação.
Voar como com as páginas de um livro e fazer girar a Terra como uma pequeníssima bola de serradura.
Aprender a conquistar o mundo mesmo sem bicicleta, apesar do Manuel generosamente me emprestar a dele para darmos umas voltas no passeio em frente ao Framar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Joaquim Francisco... é tão só um pequeníssimo detalhe



O meu nome devo-o ao avô materno, Joaquim Miguel, e ao avô paterno, Francisco da Conceição.
O avô Chico era carpinteiro e fazia de propósito para mim, réguas de madeira com a escala certíssima ao milímetro, que eu usava orgulhosamente na escola.
Também me ofereceu um leitor de cassetes para celebrar o sucesso no exame da quarta classe e, juntamente com a avó levou-me a passear ao norte de Portugal numa viagem de oito dias. Foi na sua companhia que subi pela primeira vez à Serra da Estrela.
Conheceu a Florbela Espanca e o Bento de Jesus Caraça, contava-me histórias fantásticas nos serões que passávamos ao redor da braseira posta num estrado feito por ele, mas morreu em 1990 sem acreditar que o Homem tinha ido à lua.
- Os pantomineiros dos Americanos.
O avô Joaquim trabalhava no campo e oferecia-me todas as moedas que encontrava enquanto tratava a terra. Ainda hoje as guardo numa caixa de cortiça.
Ensinou-me a apanhar azeitona, a podar uma parreira, a plantar nabiças... e era um homem de fé e muito optimista que nunca desanimava, mesmo quando os melões que colhia tinham crescido até à fantástica dimensão de... uma maçã.
Quando ia a nossa casa levava sempre um saco com o melhor que o campo lhe dera nesse dia, e nunca nos deixava sair da sua casa sem igual presente.
Levava tão a peito as suas crenças, que confiando que uma canja de mocho abre o apetite a uma criança, caçou um exemplar da dita ave e escancarou-me o apetite até hoje; para lá de me ter oferecido esta culpa que trago tatuada na alma por ter consumido uma ave que me é tão simpática.
Com as aparas que o avô Francisco trazia da carpintaria, o lume acendia-se maravilhosamente; com o tubo de ferro por onde o avô Joaquim me ensinou a soprar, o lume de chão jamais se apagava.
É tudo uma questão de fogo, que também esse nome pode dar-se ao amor que nos constrói.
Joaquim Francisco...
É tão só um pequeníssimo detalhe.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Um Homem velho é um Homem cheio de inflexíveis certezas…



Um Homem velho é um Homem cheio de inflexíveis certezas, e por oposição, um Homem é novo quando, indiferente ao número de anos que já viveu, segue feliz pelas dúvidas dos dias, moldando-se aos poucos à luz da sua fé, de mãos dadas com quem ama, e no usufruto de uma imensa liberdade.
E as certezas de um Homem velho oferecem-lhe a moribunda solidão de uma ilha onde nunca desembarcam quaisquer palavras ou novas ideias.
Um Homem é novo quando tem esperança, quando nunca sente nada como inevitabilidade da vida; e até uma longa e dura sede poderá ser o prenúncio para a beleza de uma fonte na próxima esquina do caminho.
Em 2016 cumprirei cinquenta anos, eu e mais um grupo fantástico de amigos de sempre. Anunciamos festa rija e não é apenas pela celebração deste número redondo na idade...
É por estarmos cada vez mais novos.
E até o Pomar das Laranjeiras se vai encher de memórias com a dimensão de meio século.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Já que o tempo insiste em ter as suas esquinas, dobremos todos os instantes enchendo-os com o melhor da vida: a poesia



Já que o tempo insiste em ter as suas esquinas, dobremos todos os instantes enchendo-os com o melhor da vida: a poesia.
No tempo em anos contado como nas ruas todas por onde passamos, sejam os nossos passos expressão da mais pura e genética vontade, enraizada nos sonhos e infinita na força de acontecer.
E se um dia nos travarem bruscamente a marcha reunamos todas as forças, e por mérito de idílicos esquadros e compassos, rasguemos janelas por onde o olhar nos leve pelo seu mérito de voar, até aquele ponto no horizonte onde somos nós.
O ponto onde me esperas sentado olhando um rio que o sol reveste da tua cor, e onde as palavras soçobram perante a linguagem verdadeira e honesta dos beijos de amor.
Feliz 2016... com poesia.