terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Nós... desfocados



Traçámos uma linha a preto que nos disfarça o olhar, e nas faces colámos um tom rosado que importámos directamente de um boião com código, anti-alérgico e devidamente padronizado.
Abrigámos o cabelo do ar rebelde com que usualmente o beija a brisa do mar, e mais tarde, mascarámos os gestos e as palavras vestindo-lhes um albornoz de sensatez e calçando-lhes as discretas alpergatas do correcto.
Sustivemos o suspiro e o grito, diluindo-os no interior de uma discreta máscara cinzenta; aquela que é preta, branca, que pode ser tudo... não sendo quase nada.
E não nos esquecemos do aplicador que espalha sobre nós o perfume da mediana discrição.
Nós... desfocados.
Talvez nos dispamos de disfarces e possamos mostrar-nos na transparência que nos revela a identidade e a vontade, nem que seja apenas no hiato breve de uma qualquer Terça-feira.
Que a riqueza do mundo é a diversidade na festa de sermos autênticos, e tudo mais é um ridículo e estranho Carnaval.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

A poesia jamais será cativa das mãos que a pintam ou dos lábios que a cantam…



A poesia jamais será cativa das mãos que a pintam ou dos lábios que a cantam… das palavras.
O coração é o amor, muito mais do que o fisiológico detalhe que nos mantém vivos em corpos de qualquer dimensão.
Há pois uma essência como a das rosas que persiste e brilha no silêncio dos gestos e de tudo aquilo que se possa dizer.
Uma essência que vive para lá da tão ténue cortina de um adeus.
Em poucos dias...
O meu amigo Zé ficou a saber que não vai pintar por uns tempos e a Fernanda aguarda também no hospital a oportunidade de se restabelecer e não tardar a poder dançar com a alegria com que o fez connosco no último sábado.
Porque os dias às vezes nos calam os gestos.
A minha querida Céu Seabra partiu deixando-nos o silêncio por entre o amor gigante que semeou por nós nas tardes em que nos sentámos juntos a sonhar coisas bonitas para os seus meninos.
Foi um anjo que passou para me ensinar a sorrir na festa de ser eu.
Mas os anjos são pertença do Céu.
Também esta semana partilhei com a Natália e a Manuela, o texto do meu primeiro romance, aquele que publicarei em breve e que tem tanto de mim.
A Natália confessou que ficou acordada até tarde para o ler. E quando eu lhe perguntei pela reacção no final respondeu-me:
- Deu-me vontade de te abraçar para cantarmos juntos uma das nossas canções de sempre: "só o amor levará todo o Homem a unir as suas mãos".
O amor que persistirá sempre como essência e poesia nestas semanas em que nos sentimos tristes.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Um Santo, uma Rainha, um Thriller e um especialíssimo dia 3 de Fevereiro



Não são comparáveis em qualquer escala, sobretudo no impacto que tiveram  e têm para estes meus quase cinquenta anos.
Na série “O melhor de…” partilho hoje convosco dez emoções em outros tantos momentos daqueles que não se esquecem.
Uns totalmente inesperados e outros para os quais até comprei bilhete.

UM SANTO A PASSAR-NOS À PORTA
Na manhã do dia 14 de Maio de 1982, o Papa João Paulo II visitou Vila Viçosa e passou literalmente pela porta da nossa casa.
Não me deitei e passei a noite no Castelo com os meus amigos. De manhã e depois da Celebração da Palavra, juro que cruzei o meu olhar com o do Papa ali à esquina da Casa dos Cantoneiros.
Já terei cruzado o meu olhar com o de muitos Santos anónimos, mas este tocou-me especialmente.
Uma paz que soube a beijo do Céu.

UM THRILLER EM MILÃO
No final de uma tarde de Junho de 1997 ao chegar ao Hotel Principe di Savoia, em Milão, tive de fazer prova de hóspede para poder ultrapassar a barreira policial.
Michael Jackson estava a chegar ao hotel onde nessa manhã já tínhamos encontrado o Brian Adams na sala do Pequeno-Almoço.
Fiquei na recepção e o “mito” passou por mim de sobretudo vermelho e mascarilha preta de cetim.

O MEU POMAR DAS LARANJEIRAS
É como plantar uma árvore…
No dia 23 de Novembro de 2012 apresentei na livraria da Fábrica de Braço de Prata, o “Pomar das Laranjeiras”. O meu primeiro livro.
A magia das nossas histórias fica tão especial quando elas são contadas pelas palavras impressas e com cheiro de biblioteca.

UM JANTAR NO GRÉMIO LITERÁRIO
Por uma daquelas coincidências fantásticas da vida, fui há alguns anos jantar ao Grémio Literário, ficando sentado numa mesa redonda com umas doze pessoas, mas tendo ao meu lado o Doutor Gentil Martins.
Para lá das conversas envolvendo todos os comensais, tive também a oportunidade de dialogar com o meu “vizinho”, que há relativamente pouco tempo tinha separado com êxito duas gémeas siamesas.
Falando da minha admiração profunda pelo seu trabalho, ele responde de forma simples, explicando-me órgão a órgão, a lógica que tinha seguido na cirurgia.
- Estava tudo lá e eu limitei-me a interpretar e a pôr as coisas no seu sítio. É quase sempre assim relativamente àquilo que parece estranho e difícil.

QUANDO UMA CIDADE ESMAGA A NOSSA CAPACIDADE DE A IMAGINAR
Cheguei a Veneza com o Juan Blas e apanhámos o Vaporetto junto à Estação de Santa Lucia seguindo pelo Grande Canal. Nessa primeira visita à cidade procurámos o hotel, pousámos as malas e seguimos depois pelo emaranhado de ruas estreitas até chegarmos de repente à Praça de São Marcos.
Talvez em mais nenhum sítio do mundo experimentei a emoção de sentir a grandeza e a beleza a surpreenderem a minha capacidade de sonhar.
E a vida regista sempre aquilo que nos surpreende.

“LIKE A VIRGIN” NAS MARGENS DO MONDEGO
Mais do que uma cantora ou uma rainha Pop, a Madonna é um ícone para a minha geração, cúmplice da rebeldia de ousar sonhar um mundo mais livre e patrocinador da inclusão.
Paguei o bilhete para o Golden Circle no Estádio Cidade de Coimbra, vi o suor da Madonna ali mesmo ao pé e cantei com ela o “Like a Virgin”.
Como se não tivéssemos idade e fosse sempre “como a primeira vez”. A 24 de Junho de 2012.

UM CAMAROTE NO COLISEU
Os Madredeus estavam no auge e reconciliavam definitivamente a minha geração com o toque da melhor música Portuguesa.
Teresa Salgueiro, Pedro Aires Magalhães, Rodrigo Leão… Carlos Paredes na única vez em que tive o privilégio de o ver actuar.
Elejo o concerto dos Madredeus no Coliseu de Lisboa a 30 de Abril de 1991, o melhor a que assisti.
E ainda hoje o recordo no álbum Lisboa.

UM LANCHE COM A ROSA
Assumo aqui publicamente que o/a compatriota desportista que mais admiro é a Rosa Mota.
Já muito depois das Maratonas, o trabalho juntou-nos numa reunião no Porto. Eu fiquei nervoso, ela deu-me uma fotografia autografada e eu disse-lhe que o equipamento era o da terceira vitória consecutiva em Campeonatos da Europa, em 1990 em Split.
Admirou-se.
Depois comecei a contar a história a partir de Atenas 1982 (Ouro nos Campeonato da Europa), Los Angeles 1984 (Bronze nos Jogos Olímpicos), Estugarda 1986 (Ouro nos Campeonato da Europa), Roma 1987 (Ouro nos Campeonatos do Mundo), Seul 1988 (Ouro nos Jogos Olímpicos) e Spilt 1990.
Ela assumiu ter medo da minha memória mas eu ainda tive coragem para lhe perguntar o que sentiu naquela tarde de 1988 em Seul quando a Dorre e a Martin não a largavam.
E ela:
- Nunca pensei que poderia perder.

“EU GOSTO TANTO DE TI”
Não me recordo do dia, mas sei que era uma tarde daquelas de passear e nós descíamos juntos a Rua Augusta.
Já nos aproximávamos do Arco, caminhando um pouco desviados para a esquerda, quando a meio da conversa tu paras de repente e dizes:
- Eu gosto tanto de ti.
De repente senti-me o homem mais feliz do universo.

O DIA 3 DE FEVEREIRO DE 1971
Houve uma “ameaça” a 29 de Janeiro, dia de feira anual em Vila Viçosa, e até foram buscar-me à Creche para poder despedir-me da minha mãe que iria “receber a mana” do bico de uma qualquer cegonha bem disposta vinda de Paris.
Na altura não existiam ecografias e por isso só se falava na mana, que eu pedia para se chamar Maria Bonita.
A verdade é que o meu irmão contrariou todas as previsões acabou por nascer no dia 3 de Fevereiro, faz hoje precisamente 45 anos, ganhando então a vida aquele toque de excelência de quem partilha os seus dias com a melhor pessoa e o melhor amigo. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Somos tudo do tanto que de nós se espreita num beijo…



Há mãos que nos destapam os sentidos por entre o muito subtil encontro à esquina de um instante qualquer.
Mãos eleitas de entre tantas que nos abraçam.
E enquanto as palavras saem toscas mas enleadas nos aromas das flores que são prenúncio do melhor mel, quem nos olhar com atenção percebe claramente que já nada separa esse tempo, do sonho que fomos guardando na mais recôndita intimidade de nós mesmos.
Morreram então já os equívocos na muito estreita e tão curta viela que se abre em nós para um beijo.
Com janelas com vista para o rio.
Como que se quiséssemos tomar de um trago todas as palavras de amor.
Nós somos tudo do tanto que de nós se espreita num beijo…
E seguimos depois empurrando o tempo, e até inventando Fevereiro, só para que não tarde nunca a primavera, e para que ela possa entrelaçar as flores nas palavras que as tuas mãos vão descobrindo por entre a festa completa dos meus sentidos.  

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Trago um vestido de linho do mesmo tom da lua, e aqui sentada num Rossio debruado de amoras, vou enfeitando o tempo…



Trago um vestido de linho do mesmo tom da lua, e aqui sentada num Rossio debruado de amoras, vou enfeitando o tempo… e tudo, com os segredos que guardo em mim com o sentido doce e grená dos bagos de uma romã.
De vez em quando passa o inverno que emudece o horizonte.
Ressuscitam pássaros pelas manhãs depois de Abril despertar a primavera.
O verão queima a campina…
Mas o Outono aproxima-nos das tangerinas mais doces que nos fazem trepar às árvores do pomar.
Uma casa, um piano, um violino, as telas, as palavras…
E as minhas mãos desenhando sobre o tempo… e tudo, uma rua.
A minha rua.
Com a tinta dos segredos que trago nas mãos. Grená.
E eu que visto a eterna essência do linho. Do mesmo tom da lua.

A minha querida amiga e pintora Ana Cravo cumpre hoje 50 anos. É a primeira do nosso mega grupo Calipolense de 1966.
Pedi-lhe uma das suas pinturas, ela enviou esta e eu escrevi sobre ela.
Tina, um beijo de parabéns.


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A laca da D. Mariana Aurélio e todos os aromas



O mundo descoberto pelo desfrutar dos seus aromas.
Mais um ranking...
Desta vez os dez melhores "perfumes" que nestes cinquenta anos foram registados pelo meu olfacto.

AS LARANJEIRAS EM FLOR NAS RUAS DE VILA VIÇOSA
Por alturas da primavera, dispensam-se as jarras enfeitando de flores os altares da minha terra, que em cada um dos seus muitos largos tem sempre três igrejas.
A Páscoa celebra-se pelas ruas na ressurreição da terra que agradece as bênçãos do sol.

O BAZAR DAS ESPECIARIAS EM ISTAMBUL
Os olhos perdem-se na imensidão das cores enquanto nós vamos tentando decifrar cada detalhe do aroma perfeito que nos abraça.
Em vão...
É o Oriente incessante a chamar por nós.

OS MORANGOS MADUROS NO ROSSIO DE LISBOA
O verão chegara há pouco e trouxe com ele os vendedores e uns triciclos carregados de morangos maduros vendidos ao quilo em cartuxos de papel pardo, depois de terem sido pesados em grandes balanças de metal.
Não resisto e compro sempre um quilo para levar para casa, perfumando-a com verão da cidade mais bonita do mundo.

O PÃO QUENTE POR ENTRE A ESTEVA
Em Vila Viçosa quando pela madrugada passávamos junto aos fornos das padarias, o pão quente parecia apelar à manteiga, "sorrindo" por entre o aroma da esteva seca que aguardava a hora de reacender o forno.

O INCENSO NA CATEDRAL DE ST. PATRICK EM NOVA IORQUE
A Quinta Avenida desce-se de forma muito entretida. Miramo-nos ao espelho nas montras da Tiffanys, entramos na mega loja da Disney, e com alguma sorte, aquela que eu já tive, vemos o Wim Wenders parar o descapotável num semáforo para que nós possamos atravessar na passadeira.
Depois, antes de atravessar a Avenida para o Rockfeller Center ou para o MoMa, entramos na Catedral de St. Patrick.
Cheira a incenso para nos lembrar que a casa de Deus é onde nós estivermos, no campo, como na avenida mais famosa do planeta.

OS LENÇÓIS LAVADOS NO RIBEIRO
A Avó Chica levava os lençóis até ao ribeiro esfregando-os na sua pedra favorita. Depois coravam e secavam ao sol entre os ramos da giesta, da esteva e do rosmaninho.
O ferro quente ao passar por eles sobre a velha tábua bem que tentava roubar-lhes o cheiro, mas este persistia embalando-nos durante a noite.

AS MANHÃS JUNTO AO MAR DE PORTUGAL
De Moledo a Vila Real de Santo António.
Os areais, as brumas, o bater das ondas, o sal, a espuma, Sophia...
O mar de Portugal nas manhãs perfeitas nascidas para sonhar.

A TERRA MOLHADA
Diz-se pelo Alentejo que o cheiro da terra molhada dá azar e é prenúncio de morte.
Nunca entendi.
Será sinal, isso sim, de fertilidade. E eu gosto.

OS MANJERICOS DE SANTO ANTÓNIO
Cheira bem...
Aos milhares nas bancas da Praça da Figueira na noite em que cheira a sardinhas em Alfama e em que Lisboa consegue ser ainda mais Lisboa.

A LACA DA D. MARIANA AURÉLIO
A minha mãe é a mulher mais bonita do mundo e eu sou pródigo em arranjar pretextos para lhe dar um beijo.
Sempre que regressava do Salão de Cabeleireira da D. Mariana Aurélio, o beijo acompanhava o pretexto de sentir o cheiro da laca.
A saudosa senhora punha-a num pequeno recipiente redondo de vidro cuja tampa era de borracha, servindo ao mesmo tempo de propulsor para o fixador de cabelo.
Ainda hoje dou um beijo e cheiro o cabelo, se estou por perto quando a minha mãe regressa do cabeleireiro. Só o aroma não é igual.

domingo, 24 de janeiro de 2016

A liberdade é muito mais do que apenas o capricho de uma madrugada de Abril...



A liberdade é muito mais do que apenas o capricho de uma madrugada de Abril...
Somos nós pulsando verdade nas mãos e na alma, cumprindo-nos sem reservas e tal qual ousámos sonhar por entre o rubro tom dos cravos... e de todas flores.
E voa o pensamento na morte de todas as grades, quando o canto traz para a rua, a voz e a palavra que os poetas insistem em fazer rimar com um novo e louco sentido oferecido ao tempo.
Os beijos são transparentes, as carícias calam o preconceito, os modos vestem a paz, a fé não é um preceito mas um caminho.
A liberdade... somos nós.
E nós somos um país que pulsa pela nossa vontade.