quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Faremos voar o nosso abraço por sobre o asfalto que calou a giesta, e seremos nós a primavera que cumprirá os desígnios deste chão que se fez nosso.


Faremos voar o nosso abraço por sobre o asfalto que calou a giesta, e seremos nós a primavera que cumprirá os desígnios deste chão que há muito se fez nosso.
Porque sonhámos brincando sobre ele, acariciando o barro fresco da terra sob a luz de todas as luas.
No irreverente rodopiar com que rasgarmos o vento, o nosso respirar cruzado nos contornos de um beijo inédito deixará palavras desenhadas como pétalas que se espreguiçam ao sol dos meios-dias de Maio.
E ao longe os rouxinóis que cantam de dentro dos balsedos adornados de amoras reconhecerão neste voo o gesto cúmplice do seu destino de liberdade.
Aquela liberdade que só o amor sabe fazer cumprir.
Um beijo que voa dentro dos mais feliz dos abraços.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

E quantas palavras tomo eu do mar nessas manhãs de inverno em que ando pelas praias, incessante, a procurar-me?


Trouxe comigo no porão entre os meus segredos, um bolbo de estrelícias a que tu oferecerás terra, água, cuidados... e o sol que todos os dias beija a tua janela.
Veio ali aconchegado entre o tanto de mim que floresce quando os teus beijos tomam a forma de um arado e rasgam a letargia da terra, o chão adormecido da minha espera.
Por mais que a Terra dê razão a Foucault e imite o seu pêndulo, girando sobre si mesma e ao redor da luz, a verdade é que nem todos os dias se vestem de sol.
Há instantes em que as nuvens escondem o azul do Atlântico, não conseguindo no entanto calar a voz das ondas que o vento amplia num eco imenso em tons de cinza.
Monásticos segredos revelados…
E quantas palavras tomo eu do mar nessas manhãs de inverno em que ando pelas praias, incessante, a procurar-me?
O azul onde persistimos, os bolbos das flores que um dia se espreguiçarão ao sol da tua janela.
Estrelícias… em nome da rosa ou de todas as outras flores. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O Homem é muito mais aquilo que sente do que a idade que tem


O amor, tal como tudo aquilo que é doce, deixa-nos sempre com a sensação de ter o tempo contado; e às duas por três, julgamos esse tanto do calendário, que até pode ser tudo e a eternidade, atribuindo-lhe um assinalável tom de escassez.
Porque o tempo é teimoso e insiste em contrariar o pensamento.
Sempre e em qualquer momento…
Se não estou contigo e voa acelerado (para ti) o dito pensamento, o tempo espreguiça-se por entre uma inexplicável letargia que incomoda e tem gosto de saudade. Mas por outro lado, em qualquer outro dia, se estou nos teus braços ou estamos os dois sentados ao redor de um chá de cidreira, o pensamento fica quieto saboreando o mundo que os teus olhos lhe dão, voando o tempo como um louco a galgar etapas e a consumir minutos de qualquer maneira.
É então que sentimos que escasseia.
Ora, se atentarmos que todos os dias têm vinte e quatro horas, cada hora sessenta minutos, e estes sessenta segundos, num puríssimo e muito racional matemático rigor…
Sempre poderemos dizer que o pragmatismo e a razão sucumbem fatalmente às mãos de um grande amor.
Tudo porque como convém, todo o Homem é muito mais aquilo que sente do que a idade que tem.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Que estranho arranjar-se um dia para falar de amor, se é a vida toda que me ofereces quando saímos os dois para namorar...



Que estranho arranjar-se um dia para falar de amor, se é a vida toda que me ofereces quando saímos os dois para namorar.
O previsível apaga-se rendido à surpresa e até o calendário acaba por se desmoronar...
Pode até ser Fevereiro, chover ou fazer frio, mas o teu abraço que me aconchega debaixo de um chapéu verde enquanto caminhamos pelo Rossio, traz com ele o sol que inflama o céu nos dias quentes de Lisboa.
Somos nós quem inventa e desenha as pétalas que ressoam das roseiras que suplantam o musgo da calçada, são nossos os corações doces que se escutam um ao outro trazendo-nos à memória aquelas letras das velhas canções que aprendemos no vinil…
E dispensamos o chocolate.
Deixamos que os gestos acompanhem os olhares no redigir de longas cartas sem papel e sem letras, mas que falam inevitavelmente de amor. Poemas com a rima informal da cumplicidade de quem se deseja com a profundidade de todas as células.
Eu amo-te.
É claro que sim, e não é só muito, é todo.
Porque se tu não existisses eu jamais seria eu… assim.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

E os “Judas” que nunca se “enforcam”…


Exceptuando o contexto litúrgico e alguns enterros do entrudo realizados numas quantas localidades, a verdade é que a comemoração da Quarta-feira de Cinzas não é algo que se veja muito por aí.
Eu acho que a principal razão se prende com a interminável Via Crucis e a contínua Quaresma de jejuns onde nos obrigam a passar o tempo.
Jejuns do corpo e sobretudo da alma, naquele estado em que já nada se estranha.
Vejamos…
O fim-de-semana do Carnaval, supostamente de folia, é a estação perfeita para anunciar que “Portugal cai pela enésima vez” com a cruz da Economia sobre os ombros e com um “Simão de Cirene” em versão União Europeia que cobra demasiado para nos “ajuda” a chegar… ao Calvário, que é afinal onde tudo isto sempre acaba.
- Classe média toma lá mais austeridade. Levas com uma folga no recibo de ordenado e vai gastá-la na Galp.
A multidão divide-se e inverte os papéis. Os que antes cantavam “Grândola” agora assobiam (para o lado) a “Mula da Cooperativa”; e vice-versa.
Pôncio “Costa” Pilatos lava as mãos e culpa “Caifás Passos”, mas o certo é que a coroa de espinhos em versão “Lagarde” já ninguém nos tira.
Começamos a ficar habituados a ela e às vergastadas:
- Não andem de carro, não fumem e não recorram tanto ao crédito…
Toma lá o rótulo de caloteiro e vai viver ao nível das tuas possibilidades, ou então selecciona algum amigo que faça de “Verónica” e que te desafogue o rosto com uma toalha, perdão, envelopes grandes cheios de notas.
Por desespero pedimos de beber às “Mulheres de Jerusalém” ligando a televisão.
Em vão.
Já ninguém nos distrai por entre o epíteto de “esqueletos frágeis”, pobres criaturas a necessitar de Calcitrin e Cálcio Mais; sabendo que mesmo assim, o melhor a que conseguiremos é ficar igual à Serenela Andrade.
Deus nos livre.
Chamam-nos fraquinhos e… novamente caloteiros:
- Você por certo terá uma conta para pagar. Vá lá… ligue o 800 300 400 e vai ver como a sua vida muda.
Pois muda…
É o sorteio das nossas pobres vestes em números de valor acrescentado mais IVA.
E o calvário logo ali, a cruz, os pregos…
Para quando a Ressurreição?
- Nós tentámos tudo mas os que estiveram antes de nós puseram uma pedra demasiado pesada sobre o “sepulcro”.
Já ouvimos isto tantas vezes…
E entre negações antes (ou depois) dos galos cantarem, o problema persiste porque nesta versão os “Judas” nunca se enforcam, antes pelo contrário, guardam as moedas, fazem um restyling enquanto atravessam o deserto, e voltam logo que possível para cumprir aquilo que melhor fazem: a traição.
Dizem que é o ciclo do poder e é possível que sim; nós acabamos por andar sempre à volta do mesmo, cruxificados entre “ladrões”… à esquerda e à direita.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Nós... desfocados



Traçámos uma linha a preto que nos disfarça o olhar, e nas faces colámos um tom rosado que importámos directamente de um boião com código, anti-alérgico e devidamente padronizado.
Abrigámos o cabelo do ar rebelde com que usualmente o beija a brisa do mar, e mais tarde, mascarámos os gestos e as palavras vestindo-lhes um albornoz de sensatez e calçando-lhes as discretas alpergatas do correcto.
Sustivemos o suspiro e o grito, diluindo-os no interior de uma discreta máscara cinzenta; aquela que é preta, branca, que pode ser tudo... não sendo quase nada.
E não nos esquecemos do aplicador que espalha sobre nós o perfume da mediana discrição.
Nós... desfocados.
Talvez nos dispamos de disfarces e possamos mostrar-nos na transparência que nos revela a identidade e a vontade, nem que seja apenas no hiato breve de uma qualquer Terça-feira.
Que a riqueza do mundo é a diversidade na festa de sermos autênticos, e tudo mais é um ridículo e estranho Carnaval.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

A poesia jamais será cativa das mãos que a pintam ou dos lábios que a cantam…



A poesia jamais será cativa das mãos que a pintam ou dos lábios que a cantam… das palavras.
O coração é o amor, muito mais do que o fisiológico detalhe que nos mantém vivos em corpos de qualquer dimensão.
Há pois uma essência como a das rosas que persiste e brilha no silêncio dos gestos e de tudo aquilo que se possa dizer.
Uma essência que vive para lá da tão ténue cortina de um adeus.
Em poucos dias...
O meu amigo Zé ficou a saber que não vai pintar por uns tempos e a Fernanda aguarda também no hospital a oportunidade de se restabelecer e não tardar a poder dançar com a alegria com que o fez connosco no último sábado.
Porque os dias às vezes nos calam os gestos.
A minha querida Céu Seabra partiu deixando-nos o silêncio por entre o amor gigante que semeou por nós nas tardes em que nos sentámos juntos a sonhar coisas bonitas para os seus meninos.
Foi um anjo que passou para me ensinar a sorrir na festa de ser eu.
Mas os anjos são pertença do Céu.
Também esta semana partilhei com a Natália e a Manuela, o texto do meu primeiro romance, aquele que publicarei em breve e que tem tanto de mim.
A Natália confessou que ficou acordada até tarde para o ler. E quando eu lhe perguntei pela reacção no final respondeu-me:
- Deu-me vontade de te abraçar para cantarmos juntos uma das nossas canções de sempre: "só o amor levará todo o Homem a unir as suas mãos".
O amor que persistirá sempre como essência e poesia nestas semanas em que nos sentimos tristes.