quarta-feira, 9 de março de 2016

É de primavera o teu olhar, e são de liberdade e rubros, todos os beijos que nos damos ao entardecer...



Meu amor,
Trouxe de Fevereiro, a festa, até aqui onde me sento contigo à espera da primavera que já não tarda.
A chuva semeou tapetes de flores amarelas, e de todas as outras cores, oferecendo ao campo um ar doce a Páscoa e a vida.
E entre a vida e a festa, canto eu em verso o teu amor que me abraça os sentidos, perfume da alma que se junta à Terra e ao tempo na poesia do renascer.
É de primavera o teu olhar, e são de liberdade e rubros, todos os beijos que nos damos ao entardecer.
Sem nunca deixar que o inverno e os ventos nos apartem.
Mil beijos do melhor e maior amor.
Teu,
Francisco

sábado, 5 de março de 2016

No Alentejo...



No Alentejo as mãos não desistem e revolvem e acordam a terra adormecida no longo estio a que a sede oferece sabor de infinito.
Ficamos com o ouro colado ao peito pelas searas maduras do trigo que colhemos ou então pelo fio que escorre do despertar da geada nos olivos entregues às manhãs de inverno.
No Alentejo... Vivemos e cantamos sobre todas as dores porque nos matamos a trabalhar.
E nunca cantamos ou estamos sós, cantamos de braço de dado com os amigos na dolência que aprendemos com o sol, que nunca corre.
À lareira no inverno gelado, buscando aquela nesga de sol que irrompe por Dezembro, ou então tentando agarrar alguma brisa fresca nas noites de verão em que não se fecha a porta; estamos sempre juntos à conversa e matamo-nos a rir, de nós, porque vivemos bem com tudo aquilo que somos, e às vezes até rimos da má sorte que derrotamos com as mãos e com esta forma de ser feliz.
As mulheres que louvam o Céu na genuflexão sobre a água fria dos ribeiros ou na carícia das ervas a quem pedem aroma para os almoços de pão, carregam a dignidade de quem luta com a alma toda. E há sempre uma força à espreita para agarrar o "caco" da cal e oferecer às casas a alvura que não se vê em mais nenhum sítio de Portugal.
Os horizontes são longos, os dias sem pão e sem afectos são ainda maiores, os montes são casas perdidas no meio de onde mais nenhuma alma espreita... e às vezes acreditamos que o mundo acabou e deixamo-nos levar pelo silêncio e pelo choro que os olhos não deixam ver.
Mas deixamos sempre alguém que chora por nós nos recantos brancos de mármore onde o corpo se rende à terra por entre o dolente tom dos sinos.
No Alentejo a alma sabe gritar e sabe dizer não à injustiça. Desde as terras de Grândola a Baleizão, nós somos lume aceso e somos o povo que assume o gesto e o querer de quem não desiste e reinventa as madrugadas com uma revolução.
Alentejo...
O paraíso não é de quem o quer mas de quem tem alma para o entender, e a luz não é de quem a procura, é de quem tem “olhos” para a poder ver.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Desapertámos a alma para que os braços perdessem o pudor...



Desapertámos a alma para que os braços perdessem o pudor, as mãos deitassem fora os limites entregando-se inteiras, e para que os nossos olhares tingissem os dias de um inesquecível tom de azul.
O céu é este instante que nós sabemos criar, na praia onde os meninos brincam ao sol em rima perfeita com o ouro do meio-dia.
Meninos que nasceram assim apenas para nos ensinarem a ser grandes...
Porque somos maiores na área aumentada de um abraço, mais altos quando nos deixamos ser colo de alguém, somos pão de riso pelos gestos e pelas palavras, somos gigantes quando as mãos se oferecem em cadeias que parecem não ter fim.
E a alma que flui em liberdade nessas praias onde todos brincamos com a areia e as ondas que vão e vêm cumprindo os caprichos da lua.
Todos juntos não há quem não ande e quem não sorria…
Não há mãos que faltem
Todos juntos...

sábado, 27 de fevereiro de 2016

A menina que construía girassóis com as palavras...



Na terra onde os pardais passam a primavera a brincar com as laranjas das árvores que adornam os passeios, existia uma menina com o inevitável nome de Maria, que vivia numa rua muito larga ladeada por casas imensas e com portas grandes onde tartarugas de metal serviam de puxadores e "campainha" para chamar os vizinhos.
Nas portas fechadas, porque aquela que dava acesso à casa da pequena Maria estava quase sempre aberta, e era o cão que dormitava no tapete, que se espreguiçava ladrando ao ver-nos por perto, alertando os da casa que alguém se preparava para entrar.
Entre risos e as gargalhadas mais sonoras da rua, a Maria era feliz e brincava com todos os outros meninos, apercebendo-se no entanto que eles cresciam mais do que ela; o que às vezes a deixava triste.
A mãe, pessoa sábia e generosa, vendo-a assim apreensiva, oferecia-lhe palavras bonitas, ensinando-a a juntá-las para construir enormes girassóis onde ela se montava depois às cavalitas, ficando bem mais alta do que os outros meninos.
A sorrir entre essas flores que guardam em si o esplendor do astro-rei.
Tudo isso se passava nas tardes fantásticas da Rua dos Fidalgos, onde às vezes uma fada de nome Eugénia chegava para fabricar compotas que perfumavam a cozinha decorada com azulejos azuis e brancos.
E o tempo passou...
A mãe e a fada partiram para o Céu, que é privilégio de quem é especial, e a menina tornou-se uma mulher... muito grande à boleia dos seus girassóis e das infinitas palavras que guarda com ela num lugar secreto mas infinito.
Uma mulher grande que nunca deixará de sorrir e dar gargalhadas.

A minha amiga Maria José Duarte, a Zinha para todos nós, faz hoje 50 anos. Encontrei-a em Vila Viçosa na tarde do último sábado e voltei a pedir-lhe um mote especial para um texto-presente que eu escreveria aqui no Pomar.
Respondeu-me que não tinha nada para me mandar, e não me surpreendeu pois conheço-a desde o Jardim Escola da Irmã Celeste e sei que ela é mesmo assim, sobretudo modesta.
Criou-me então o desafio de arranjar uma forma eficaz de dizer aqui que sendo ela a mais pequena de entre todos os amigos, é indiscutivelmente a maior.
Saiu o que leram e que eu faço acompanhar por um beijo especial de parabéns.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Faremos voar o nosso abraço por sobre o asfalto que calou a giesta, e seremos nós a primavera que cumprirá os desígnios deste chão que se fez nosso.


Faremos voar o nosso abraço por sobre o asfalto que calou a giesta, e seremos nós a primavera que cumprirá os desígnios deste chão que há muito se fez nosso.
Porque sonhámos brincando sobre ele, acariciando o barro fresco da terra sob a luz de todas as luas.
No irreverente rodopiar com que rasgarmos o vento, o nosso respirar cruzado nos contornos de um beijo inédito deixará palavras desenhadas como pétalas que se espreguiçam ao sol dos meios-dias de Maio.
E ao longe os rouxinóis que cantam de dentro dos balsedos adornados de amoras reconhecerão neste voo o gesto cúmplice do seu destino de liberdade.
Aquela liberdade que só o amor sabe fazer cumprir.
Um beijo que voa dentro dos mais feliz dos abraços.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

E quantas palavras tomo eu do mar nessas manhãs de inverno em que ando pelas praias, incessante, a procurar-me?


Trouxe comigo no porão entre os meus segredos, um bolbo de estrelícias a que tu oferecerás terra, água, cuidados... e o sol que todos os dias beija a tua janela.
Veio ali aconchegado entre o tanto de mim que floresce quando os teus beijos tomam a forma de um arado e rasgam a letargia da terra, o chão adormecido da minha espera.
Por mais que a Terra dê razão a Foucault e imite o seu pêndulo, girando sobre si mesma e ao redor da luz, a verdade é que nem todos os dias se vestem de sol.
Há instantes em que as nuvens escondem o azul do Atlântico, não conseguindo no entanto calar a voz das ondas que o vento amplia num eco imenso em tons de cinza.
Monásticos segredos revelados…
E quantas palavras tomo eu do mar nessas manhãs de inverno em que ando pelas praias, incessante, a procurar-me?
O azul onde persistimos, os bolbos das flores que um dia se espreguiçarão ao sol da tua janela.
Estrelícias… em nome da rosa ou de todas as outras flores. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O Homem é muito mais aquilo que sente do que a idade que tem


O amor, tal como tudo aquilo que é doce, deixa-nos sempre com a sensação de ter o tempo contado; e às duas por três, julgamos esse tanto do calendário, que até pode ser tudo e a eternidade, atribuindo-lhe um assinalável tom de escassez.
Porque o tempo é teimoso e insiste em contrariar o pensamento.
Sempre e em qualquer momento…
Se não estou contigo e voa acelerado (para ti) o dito pensamento, o tempo espreguiça-se por entre uma inexplicável letargia que incomoda e tem gosto de saudade. Mas por outro lado, em qualquer outro dia, se estou nos teus braços ou estamos os dois sentados ao redor de um chá de cidreira, o pensamento fica quieto saboreando o mundo que os teus olhos lhe dão, voando o tempo como um louco a galgar etapas e a consumir minutos de qualquer maneira.
É então que sentimos que escasseia.
Ora, se atentarmos que todos os dias têm vinte e quatro horas, cada hora sessenta minutos, e estes sessenta segundos, num puríssimo e muito racional matemático rigor…
Sempre poderemos dizer que o pragmatismo e a razão sucumbem fatalmente às mãos de um grande amor.
Tudo porque como convém, todo o Homem é muito mais aquilo que sente do que a idade que tem.