terça-feira, 5 de abril de 2016

E então haverá mel colhido pelos meus lábios na fonte do teu sorriso com aromas de açafrão…


Por muito que Abril insista nas águas mil que lhe oferece a genética, jamais se desmanchará a primavera.
E nem sequer será apenas por quaisquer detalhes ou subtilezas que cumpre o calendário...
Há um destino inevitável de malmequeres que se pressente intensamente nos campos que por estes dias se espreguiçam verdes enquanto eu passo.
Eu sei...
Cedo ou tarde chegará o sol para aquecer a erva e nos oferecer um leito informal na sombra que roda levando-nos com ela como que bailando lentamente com o sobreiro.
O baile na roda que não desperdiça nem um só segundo de um dia inteiro, quando as nossas mãos deixam de doer de vazias.
E então haverá mel colhido pelos meus lábios na fonte do teu sorriso com aromas de açafrão.
E as palavras todas que deixarmos entre os trigais contarão a nossa história de amor e serão rubras de liberdade como as papoilas a que Abril liberta as pétalas que o vento desenruga depois pela perseverança das suas carícias.
É tão bom poder dizer que gosto de ti.
Estes são os dias bons de sermos completos e sem nada nem ninguém entre nós e a nossa voz.
Por mais intensa e persistente que fosse a chuva tingindo-nos os dias de água em lama e de cansaços...
Eu sempre acreditei que o destino me traria até aqui, à Primavera que trazes contigo nos beijos, ao tanto do sol de Abril que carregas nos teus braços.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Crescer nunca dói para quem tem amigos como tu



As pedras do imenso passeio em frente ao Café Framar conhecem-nos os passos desde o tempo em que os embrulhávamos no riso farto das nossas longas tardes de brincar, quando as sirenes das oficinas de para lá de São Bartolomeu nos apanhavam a tatuar cumplicidades sob o cheiro intenso das laranjeiras da Praça.
“Um, dois, três, macaquinho do Chinês”…
Sim, nós não conseguimos estar quietos nem por um segundo. Talvez só quando a tua mãe nos chame para partilharmos uma torrada e um fresco Sumol de Laranja que fomos buscar ao Café do teu pai, aquele estabelecimento que nunca cumprirá a tua vontade de se chamar “Café Pinguim”.
Mas conseguirás ter um cão.
E o que terá em comum a gaveta da direita do roupeiro do meu quarto de agora com o passeio em frente ao Framar?
Em palavras escritas nas longas cartas que trocávamos entre Portalegre e Lisboa nos tempos de Faculdade, a cumplicidade e o riso que persistem em infinitas histórias e no eterno non-sense.
“Imensa paprikaaaaa”…
O tempero da fé, as dúvidas, os amores, os planos, as viagens… Trazemos connosco tudo isso para a década dos nossos trinta anos e passeamos com a nossa história Corredora abaixo e Avenida acima, talvez ao som da música de algum Festival ou do Rui Veloso.
“Não há estrelas no céu”…
Há.
Partiram há pouco deixando aparentemente fechadas as janelas e as portas da casa que avistamos ainda hoje quando nos sentamos na esplanada do Restauração.
Mas nós sabemos e sentimos que as memórias dos dias bons do Sumol de Laranja suplantarão sempre esse detalhe de envelhecer que nos marcou a década dos nossos quarenta anos.
As memórias e quem amamos jamais nos deixam fechar as portas e as janelas das casas ou de qualquer sítio onde fomos felizes.  
As fontes e as raízes, a nossa história que persistirá adoçando-nos o futuro.
E assim chegámos ao dia dos teus cinquenta anos… de vida e também da nossa amizade, que eu não me recordo de um instante apenas em que não te tenha sentido muito perto e como o meu melhor amigo.
Manuel, muitos parabéns.
Crescer nunca dói para quem tem amigos como tu.

domingo, 27 de março de 2016

Quando rasgamos a noite e a morte…



Por mais intensa que seja a noite e o silêncio imposto ao toque dos sinos, jamais os pardais da árvore que me beija o parapeito, deixarão de me despertar com o seu canto desde o primeiro indício da madrugada.
E por inspiração desse tom de liberdade me reinvento, que de aleluias o sol tinge a sina de todos os meus dias.
Os lábios que sufocam irremediavelmente as palavras nos beijos de amor, as mãos que galgam o pudor para se entregarem às carícias, os pés que cumprem as vontades, os meus braços… e a alma que é pão e alento de toda esta festa; nada daquilo que somos poderá ter como destino o gélido sentido de um túmulo de pedra.
Nós somos das manhãs e da fé que abandona os sepulcros e os deixa vazios sob as rosas que tecemos em rima com o canto e o voo dos pássaros.
Nós somos da malta de sorrir.
Quando rasgamos a noite e a morte…
Sempre que nos reinventamos e ressuscitamos no alvor da Páscoa de Jesus, aleluia da Terra.
(Nesta Páscoa, o meu sobrinho Luís ofereceu-me este desenho que é muito mais doce do que todas as amêndoas do universo. Os nossos braços aqui desenhados cumprem a ousadia e chegam a todo lado, cumprem o ilimitável tom oferecido pela esperança e pela fé).   

sexta-feira, 25 de março de 2016

O Homem de Jerusalém



As ruas de Jerusalém têm a dimensão do universo inteiro, e as pedras soltas que salpicam de dor a aridez do meu caminho trazem-me aos pés descalços, os ais de tantos Homens esmagados contra as fronteiras desenhadas pelo poder e pela vaidade.
Sortearam-me as vestes e o tempo, e sobre a nudez dos meus ombros açoitados pela injustiça, o madeiro imenso que absorve o sangue que escorre, enraizou nas obscuras florestas da opressão, da fome, da soberba, da desonestidade, do terrorismo, da violência, da pedofilia, da desigualdade, da homofobia…
E só às vezes se cruza comigo a disponibilidade de um Cireneu.
A água que se perdeu por entre as mãos dos Senhores do Mundo durante a esforçada e inútil lavagem da sua hipocrisia, incompetência e perversa ambição, é aquela pela qual clamam os meus lábios ressequidos e onde apenas acode o acre odor do desprezo que herdou do vinagre um gosto assim.    
Escuto muito próximo, o choro das mulheres que acorreram à minha dor, as discriminadas de negro vestidas num interminável pranto em coro pela má sina, a sua e a dos seus filhos.
Rasgar-se-ão ao meio os véus de todos os templos quando a tormenta calar o azul do céu na hora terceira e derradeira de um último suspiro…
E permanecerá um corpo jazente preso a uma cruz erigida no lugar do Gólgota de Jerusalém.
Jesus…
Ainda e sempre cruxificado com os Homens que definham numa praça ou numa rua algures por aí.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Poesia



O vento, irreverente, livre… tatuou o céu; e os desenhos de água alinham-se em rima com as palavras com que o teu olhar me reveste o pensamento enquanto eu vou cavalgando pela tarde.
Esta espera fértil a que usam chamar esperança.
O teu olhar que espreita por todas as esquinas simétricas ou assimétricas do tempo e da cidade.
E são assim de água as sombras que me oferecem cais seguro enquanto te aguardo na Ribeira das Naus com o olhar fixo no horizonte…
Talvez o mar aceite esta troca: eu entrego-lhe generoso o sol e ele faz-te chegar até aqui cruzando o Bugio.
A barba vai aclarando ao ritmo do sal que escorre pela saudade que é imensa mas insuficiente para desalinhar-me a fé, até que tu chegas finalmente para deixares de ser apenas a minha espera.
O sol deixou a sua cor impressa na água que tinge o céu. Água do Tejo e de Lisboa.
E as palavras que fluem agora incansáveis dos beijos vêm arrumadas em versos de uma forma indefinida.
Entre a água, a cidade, a espera, a palavra, o sol, a tarde, todo o dia…
Eu sou um trovador cavalgando pelo tempo e tu és a poesia.  

sábado, 19 de março de 2016

Pai



O teu amor retira o sentido profano de todos os gestos e todas as palavras, e reveste-os do tom sublime e sagrado do melhor que têm os dias.
Há um leito de pétalas de rosas tecido sob o teu olhar, o chão informal onde me enleio na Idade abraçando aquele tempo imortal de ser rapaz.
E tudo volta sempre a ser possível, os horizontes sucumbem aos sonhos, e as vontades têm asas acendidas pela coragem que me ensinas...
-Tu és capaz.
Hoje, quando nos sentamos a enfeitar com sidra e “ervilhanas” os pores-do-sol de Verão do Gerês, como antes nas Segundas-feiras de Páscoa a jogar à bola sob os pinheiros mais sombrios do Castelo de Vila Viçosa.
O tempo…
O que é o tempo, se o amor nos reveste de eternidade?


terça-feira, 15 de março de 2016

Tudo aquilo que muito se espera e se deseja beneficia de tempo para se ir moldando a nós e tornar-se eterno...



Despojamo-nos da prudência…
Será descalços que deveremos atravessar todos os dias, sentindo o tempo na pele e marcando-o simultaneamente com os genéticos aromas infinitos que transpiramos.
A História tatuando-nos de rugas e nós retribuindo, reescrevendo-a pela tinta da ousadia e pela coerência.
Mais à frente, naquele ponto onde a estrada desenha uma curva que nos alimenta o futuro de uma doce expectativa, encontro-te num abraço sem prazo de validade e sem fronteiras.
Onde acaba um e começa o outro?
Jamais saberemos. Nem nós e nem quem nos espreite de fora, quer de longe ou de mais perto; porque é como se tudo em nós seguisse respeitosa e cegamente a vontade expressa pela alma que tinge o pensamento.
Depois, quando o tempo bordeja um lago de águas calmas e que o céu tingiu de azul, o reflexo que desenhamos tem a força doce de uma romã a arrastar o rubor do Verão pelo Outono adentro.
Sabemos nós que no interior deste abraço moram os beijos. Os beijos imprudentes e também sem pausas.
Tudo aquilo que muito se espera e se deseja beneficia de tempo para se ir moldando a nós e tornar-se eterno.
E o sol tem sempre aquele tom amarelo de que tanto gostamos.