quarta-feira, 13 de abril de 2016

Enquanto as árvores se vestem e vão adornando aos poucos para a festa que Maio sempre oferece à Primavera...



Enquanto as árvores se vestem e vão adornando aos poucos para a festa que Maio sempre oferece à Primavera, eu entretenho-me à conversa com o sol do meio dia, tomando-lhe as palavras em verso que depois cantarei por aí à esquina de um tempo qualquer.
Os pardais já polvilham o silêncio com o seu chilrear rebelde, e o chão transpira verde a memória das águas que passaram por aqui a caminho da ribeira que por isso explode agora de aromas de poejo e hortelã.
Levantei-me cedo, despertei o olhar na fonte fresca da beira do caminho, assobiei os louvores ao campo em rima com os sinos no bater das trindades em salmos informais sem versículos ou forma, e deixei-me ir ficando por aqui, sentado deste lado onde a vida não dói e onde tudo é diferente numa nova perspectiva.
Quem ama deixa de ter a noção de que sorri, aqui sentado à conversa... com o sol e com os minutos que passam sentindo a primavera na memória da tua mão perfumada com a Colónia número dois da Claus de ACH Brito.
O que dizemos?
Está tudo guardado nos meus versos. Falam inevitavelmente de ti.

sábado, 9 de abril de 2016

O instante perfeito em que as palavras acrescentam vida à magia dos dias de alguém


Chamo Maria, mas poderia fazer uso de outro nome qualquer, à menina que há três semanas assistiu em Vila Viçosa à apresentação do meu livro "As bolachas mágicas da avó Inácia", no meio de muitos outros meninos.
Inspirada pela história e pelos seus heróis, a Maria levou um livro para casa e pediu à mãe que cedo lhe preparasse as bolachas seguindo as regras que asseguram os seus poderes muito especiais. Depois comeu-as pedindo secretamente ajuda naquilo que mais a preocupava nesta fase dos seus sete anos: a escrita lá na escola não andava a sair muito bem.
Numa destas manhãs, a mãe encontrou-a a saltar directamente da cama para a secretária e descobriu-lhe o segredo do pedido às bolachas. A Maria queria confirmar que a magia funcionara durante a noite, e as letras que desenhava com a esferográfica sobre a folha branca de papel, já saiam bem melhores do que as da véspera.
E saiam mesmo...
Porque quando nós acreditamos muito até aquilo que parece impossível se converte em coisa fácil.
A professora da Maria partilhou connosco esta história e confirmou que ela está de facto a escrever melhor e está confiante.
Talvez eu ainda não tivesse entendido bem o porquê de ter pegado numa receita de bolachas que a mãe Inácia herdou das tias Maria Teodora e Joaquina Rosa, que prepara em quantidades industriais para os meus sobrinhos João e Luís, e ter montando uma história para onde chamei mais alguns amigos / heróis de Vila Viçosa.
Talvez um escritor nunca entenda muito bem porque é que escreve, até ao instante perfeito em que as suas palavras acrescentam vida à magia dos dias de alguém.

terça-feira, 5 de abril de 2016

E então haverá mel colhido pelos meus lábios na fonte do teu sorriso com aromas de açafrão…


Por muito que Abril insista nas águas mil que lhe oferece a genética, jamais se desmanchará a primavera.
E nem sequer será apenas por quaisquer detalhes ou subtilezas que cumpre o calendário...
Há um destino inevitável de malmequeres que se pressente intensamente nos campos que por estes dias se espreguiçam verdes enquanto eu passo.
Eu sei...
Cedo ou tarde chegará o sol para aquecer a erva e nos oferecer um leito informal na sombra que roda levando-nos com ela como que bailando lentamente com o sobreiro.
O baile na roda que não desperdiça nem um só segundo de um dia inteiro, quando as nossas mãos deixam de doer de vazias.
E então haverá mel colhido pelos meus lábios na fonte do teu sorriso com aromas de açafrão.
E as palavras todas que deixarmos entre os trigais contarão a nossa história de amor e serão rubras de liberdade como as papoilas a que Abril liberta as pétalas que o vento desenruga depois pela perseverança das suas carícias.
É tão bom poder dizer que gosto de ti.
Estes são os dias bons de sermos completos e sem nada nem ninguém entre nós e a nossa voz.
Por mais intensa e persistente que fosse a chuva tingindo-nos os dias de água em lama e de cansaços...
Eu sempre acreditei que o destino me traria até aqui, à Primavera que trazes contigo nos beijos, ao tanto do sol de Abril que carregas nos teus braços.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Crescer nunca dói para quem tem amigos como tu



As pedras do imenso passeio em frente ao Café Framar conhecem-nos os passos desde o tempo em que os embrulhávamos no riso farto das nossas longas tardes de brincar, quando as sirenes das oficinas de para lá de São Bartolomeu nos apanhavam a tatuar cumplicidades sob o cheiro intenso das laranjeiras da Praça.
“Um, dois, três, macaquinho do Chinês”…
Sim, nós não conseguimos estar quietos nem por um segundo. Talvez só quando a tua mãe nos chame para partilharmos uma torrada e um fresco Sumol de Laranja que fomos buscar ao Café do teu pai, aquele estabelecimento que nunca cumprirá a tua vontade de se chamar “Café Pinguim”.
Mas conseguirás ter um cão.
E o que terá em comum a gaveta da direita do roupeiro do meu quarto de agora com o passeio em frente ao Framar?
Em palavras escritas nas longas cartas que trocávamos entre Portalegre e Lisboa nos tempos de Faculdade, a cumplicidade e o riso que persistem em infinitas histórias e no eterno non-sense.
“Imensa paprikaaaaa”…
O tempero da fé, as dúvidas, os amores, os planos, as viagens… Trazemos connosco tudo isso para a década dos nossos trinta anos e passeamos com a nossa história Corredora abaixo e Avenida acima, talvez ao som da música de algum Festival ou do Rui Veloso.
“Não há estrelas no céu”…
Há.
Partiram há pouco deixando aparentemente fechadas as janelas e as portas da casa que avistamos ainda hoje quando nos sentamos na esplanada do Restauração.
Mas nós sabemos e sentimos que as memórias dos dias bons do Sumol de Laranja suplantarão sempre esse detalhe de envelhecer que nos marcou a década dos nossos quarenta anos.
As memórias e quem amamos jamais nos deixam fechar as portas e as janelas das casas ou de qualquer sítio onde fomos felizes.  
As fontes e as raízes, a nossa história que persistirá adoçando-nos o futuro.
E assim chegámos ao dia dos teus cinquenta anos… de vida e também da nossa amizade, que eu não me recordo de um instante apenas em que não te tenha sentido muito perto e como o meu melhor amigo.
Manuel, muitos parabéns.
Crescer nunca dói para quem tem amigos como tu.

domingo, 27 de março de 2016

Quando rasgamos a noite e a morte…



Por mais intensa que seja a noite e o silêncio imposto ao toque dos sinos, jamais os pardais da árvore que me beija o parapeito, deixarão de me despertar com o seu canto desde o primeiro indício da madrugada.
E por inspiração desse tom de liberdade me reinvento, que de aleluias o sol tinge a sina de todos os meus dias.
Os lábios que sufocam irremediavelmente as palavras nos beijos de amor, as mãos que galgam o pudor para se entregarem às carícias, os pés que cumprem as vontades, os meus braços… e a alma que é pão e alento de toda esta festa; nada daquilo que somos poderá ter como destino o gélido sentido de um túmulo de pedra.
Nós somos das manhãs e da fé que abandona os sepulcros e os deixa vazios sob as rosas que tecemos em rima com o canto e o voo dos pássaros.
Nós somos da malta de sorrir.
Quando rasgamos a noite e a morte…
Sempre que nos reinventamos e ressuscitamos no alvor da Páscoa de Jesus, aleluia da Terra.
(Nesta Páscoa, o meu sobrinho Luís ofereceu-me este desenho que é muito mais doce do que todas as amêndoas do universo. Os nossos braços aqui desenhados cumprem a ousadia e chegam a todo lado, cumprem o ilimitável tom oferecido pela esperança e pela fé).   

sexta-feira, 25 de março de 2016

O Homem de Jerusalém



As ruas de Jerusalém têm a dimensão do universo inteiro, e as pedras soltas que salpicam de dor a aridez do meu caminho trazem-me aos pés descalços, os ais de tantos Homens esmagados contra as fronteiras desenhadas pelo poder e pela vaidade.
Sortearam-me as vestes e o tempo, e sobre a nudez dos meus ombros açoitados pela injustiça, o madeiro imenso que absorve o sangue que escorre, enraizou nas obscuras florestas da opressão, da fome, da soberba, da desonestidade, do terrorismo, da violência, da pedofilia, da desigualdade, da homofobia…
E só às vezes se cruza comigo a disponibilidade de um Cireneu.
A água que se perdeu por entre as mãos dos Senhores do Mundo durante a esforçada e inútil lavagem da sua hipocrisia, incompetência e perversa ambição, é aquela pela qual clamam os meus lábios ressequidos e onde apenas acode o acre odor do desprezo que herdou do vinagre um gosto assim.    
Escuto muito próximo, o choro das mulheres que acorreram à minha dor, as discriminadas de negro vestidas num interminável pranto em coro pela má sina, a sua e a dos seus filhos.
Rasgar-se-ão ao meio os véus de todos os templos quando a tormenta calar o azul do céu na hora terceira e derradeira de um último suspiro…
E permanecerá um corpo jazente preso a uma cruz erigida no lugar do Gólgota de Jerusalém.
Jesus…
Ainda e sempre cruxificado com os Homens que definham numa praça ou numa rua algures por aí.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Poesia



O vento, irreverente, livre… tatuou o céu; e os desenhos de água alinham-se em rima com as palavras com que o teu olhar me reveste o pensamento enquanto eu vou cavalgando pela tarde.
Esta espera fértil a que usam chamar esperança.
O teu olhar que espreita por todas as esquinas simétricas ou assimétricas do tempo e da cidade.
E são assim de água as sombras que me oferecem cais seguro enquanto te aguardo na Ribeira das Naus com o olhar fixo no horizonte…
Talvez o mar aceite esta troca: eu entrego-lhe generoso o sol e ele faz-te chegar até aqui cruzando o Bugio.
A barba vai aclarando ao ritmo do sal que escorre pela saudade que é imensa mas insuficiente para desalinhar-me a fé, até que tu chegas finalmente para deixares de ser apenas a minha espera.
O sol deixou a sua cor impressa na água que tinge o céu. Água do Tejo e de Lisboa.
E as palavras que fluem agora incansáveis dos beijos vêm arrumadas em versos de uma forma indefinida.
Entre a água, a cidade, a espera, a palavra, o sol, a tarde, todo o dia…
Eu sou um trovador cavalgando pelo tempo e tu és a poesia.