sábado, 14 de maio de 2016

As sombras das rosas também são rosas...



As sombras das rosas também são rosas desenhadas sobre um tempo em branco e só aparentemente vazio.
E quando nessa hora o sol nos abraça, a nós e às flores, com raios de sete cores e de infinito, entrelaçamos os dedos uns nos outros e oferecemos à rosa um pássaro que a beija intensamente, enquanto a alma se senta e repousa naquele cadeirão da infância que guardou fielmente para si, assento mágico imperecível ao fluir de todos os dias.
Um tempo sem nada é uma parede branca que se predispõe à vontade que carregamos entre os dedos.
Assim como o silêncio é tudo e o rio das palavras que nunca morrem para os poetas.
O silêncio tão fiel... onde até as sombras podem ser rosas.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Como poderíamos chamar nossos a outros dias que não estes que inventámos?



Existirá sempre uma pedra algures no caminho que sem querer nos dará um assento informal para repousarmos e olharmos tranquilamente o horizonte.
Depois de sentados, uma das azedas que acariciarmos prender-se-nos-à às mãos trazendo o único e exclusivo toque amargo à tarde em que vamos ornando as horas com as muitas palavras que formos inventando.
Palavras com sílabas garridas e um acentuado toque e aroma de paixão.
Como poderíamos chamar nossos a outros dias que não estes que inventámos?
A pedra...
Tinha um certo jeito de contrariedade quando a olhámos pela primeira vez, mas serviu-nos para descansar e olharmos juntos o horizonte.
Daqui a pouco e quando já formos mais à frente cumprindo a nossa rota, talvez olhemos para trás e lhe chamemos com saudade, a pienha onde os nossos beijos brincaram com as azedas da berma do caminho.
E seguiremos os dois neste eterno abraço impermeável ao medo.

domingo, 8 de maio de 2016

Voltaremos sempre àquelas tardes em que plantamos girassóis pela praia...



Voltaremos sempre àquelas tardes em que plantamos girassóis pela praia.
As nossas eternas tardes de meninos. Quando as nuvens nos dão o tom e o mote para as histórias que trouxemos envoltas em papel de memória nas mochilas que o tempo nos colocou aos ombros.
Nunca nos importará se a chuva estiver entretida a desassossegar Maio ou outro mês qualquer, nós trazemos connosco nos bolsos as tintas que espalharemos pela areia ao ritmo dos abraços, essas intermitências no previsível, instantes em que nos debruçamos um para o outro, e os dois para o desejo; ilhas de contornos redondos desenhadas algures entre as rotas paralelas que o sonho vai sugerindo aos nossos passos.
Ilhas cravejadas de beijos nas nossas tardes que nunca terão nome para poderem ser tudo aquilo que nós quisermos que elas sejam.
Detalhes nossos, da liberdade…
E ao pôr-do-sol restarão na areia os ecos perfeitos fiéis do tanto que nos queremos…
Uma praia cheia de girassóis.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

O teu olhar mora na luz das manhãs de Maio...



O teu olhar mora na luz das manhãs de Maio; um perpétuo olhar, mesmo quando as nuvens rasgam o céu e o tingem do cinza tom da água que insiste sempre em vir matar a sede às fontes.
E quando o meio-dia rompe no tempo a clareira para cumprir a dolência com que nos veste o sol a pique na planície que sentimos nossa, eu sei que os teus braços me esperam alinhados na forma perfeita da sesta que nos levará pelo trigo e pelo sonho, fieis seguidores que somos de nós mesmos e da liberdade.
As nossas mãos à solta trilharão a rota que o desejo desenhou nos corpos um do outro, linhas secretas e transparentes tatuadas à superfície, na epiderme, pelo querer que mora profundamente em nós, no átomo onde só os poetas conseguem chegar para colherem palavras, rimas e versos.
E sabemos que o silêncio guarda sempre os beijos que despentearam o pudor, desalinhando-o sem tréguas até que a brisa fresca que arrasta o rosmaninho nos lembre que já não tardam o serão e o luar.
A lua de Maio que rasga a noite com os detalhes todos do teu olhar.

domingo, 1 de maio de 2016

Mãe... e tanto Maio


Quando o primeiro sol de Maio incendiar a encosta do monte a ouro tom de giestas maduras, eu devolver-me-ei ao teu colo, o meu muito privado e infinito refúgio de carícias.
Entre nós permanecerá sempre acendida em flores e frutos, uma generosa primavera, por entre os gestos suaves e as palavras doces que o teu olhar realça sobre o silêncio, detalhes que me pespontam os dias deste amor que me tece.
O teu olhar prolonga o ventre e o berço, confunde-me na idade, dilui as estações, apaga as dores, é mestre de vida, alento nos caminhos…
E mesmo que o vento às vezes apague o risco rubro informal das papoilas que beijam a seara sobre a cumplicidade ao longe das giestas, eu faço desse teu olhar um alpendre daqueles com tectos perfeitos e de flores para brincar à sua sombra, onde tomarei na pele e na boca os aromas todos da terra, sendo por ti o rei do universo.
E de dentro deste amor é tão difícil acreditar que possa existir outro céu, mãe.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Lisboa tem um pacto com o tempo e os seus dias são breves instantes da eternidade que a abraça...



Estou “empoleirado” na grade do Camões que mira o Tejo pela Rua das Flores, e se é um facto que já não vislumbro a Genoveva, finada em tragédias antigas, vejo que em seu lugar o tempo plantou sardinheiras de todas as cores.
Lá em baixo o Tejo sobrepõe-se azul ao casario do Cais do Sodré e parece que só o rio importa; a estrada de água que o olhar cruza até ao sul.
O pensamento oferece o privilégio de um passeio em companhias eleitas, e por ele desço o Chiado ao ritmo do toque da bengala do João da Ega sobre a calçada desenhada nos passeios da Rua Garrett.
Olhamos de relance à direita para o Grémio…
Só que não vimos do Tavares e não falamos do Dâmaso ou da Gouvarinho, talvez desçamos apenas para um Pastel de Bacalhau na Rua Augusta, mas só depois do slalom entre a Babel de turistas que os low cost fizeram aterrar esta manhã na Portela.
E depois de atravessar o Terreiro e chegar ao Cais das Colunas, eu vejo que dispensei o pensamento e as companhias que ele me traz, porque tu vieste comigo.
Então, depois de te ler uma carta de amor, por instantes viro costas ao Tejo e miro o Arco e toda a Praça.
Não há dúvida, Lisboa tem um pacto com o tempo e os seus dias são breves instantes da eternidade que a abraça.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Os dias bons são estes sonhados por nós...



Quando o Capitão Maia subiu para o Carmo já os cravos encarnados do Rossio se entrelaçavam nos gritos de liberdade do povo de Lisboa.
Os dias bons são estes que fazemos nós, ousando sonhar para lá do tempo triste que nos oferecem como inevitável destino.
Estes são os dias que mudam a História.
E os punhos que erguemos por entre a brisa fresca da madrugada de um Tejo vestido de Abril, rasgam as dores, as penas e os medos que chorámos pelas margens das ribeiras ou então nas praias que a guerra foi deixando vazias de homens e de pão.
O velho tempo já se rendeu ao Capitão Maia…
E também já há cravos por toda a cidade.
As praças estão cheias de gritos, flores e gente, mas por muitos que sejamos na primavera de Lisboa, nós seremos apenas o detalhe feliz de um povo e de um país inteiro que celebra a liberdade.