segunda-feira, 6 de junho de 2016

Como o vento de Lisboa que Junho pinta de lilás...


À sombra das árvores acreditamos que o vento de Lisboa é lilás, e que dança com as nossas palavras num baile de roda e Santo António acabando por levá-las consigo para uma praça onde o tempo não ousa entrar; eterna e intensa é a liberdade que por ali mora: a nossa liberdade.
Há muito que rasgámos o silêncio e voamos juntos em bando desabotoando a noite para deixar a nu uma nova madrugada.
Um voo entre o pássaro e o menino no sonho que persiste pela vontade; juntos e de mãos dadas com os nossos pais ao redor das fontes que nunca se deixam amordaçar pelo verão e nos alentam generosas pela bênção de um beijo fresco de água clara.
E nunca importa o desenho que do nosso rosto a água no traz; nós sabemos que somos eternos como a liberdade, e como o vento de Lisboa que Junho pinta de lilás.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Enquanto existirem palavras eu jamais viverei sem flores, sem um barco ou um avião...


Enquanto existirem palavras eu jamais viverei sem flores, sem um barco ou um avião.
E mesmo se a tinta secar e o papel persistir branco pousado sobre o tempo, eu moldarei as suas asas com a liberdade de onde brotam os meus versos, construindo uma aeronave que terá na forma e na propulsão quase tudo daquilo que eu sou.
As casas vazias e sem gente são o privilégio de brincar com o sol, colhendo das sombras que ele desenha sobre as paredes, o tecto ou até o chão, as histórias a que a pobre vidraça jamais se opõe desde que dispensámos as cortinas.
Como sempre…
Por volta das cinco da tarde a tia fará a limonada num jarro de louça em tons de caramelo que comprou ao contrabandista que visita clandestinamente o casão ao lado do nosso quintal e que também traz o “Cola-Cao” desde Badajoz; o tempo aqueceu e a porta do congelador do velho “Kelvinator” espreguiçar-se-á perante a minha vontade de um gelado feito de pudim “Predilecto” nas formas quadradas e com um palito a fazer de pau; talvez corra uma brisa fresca na Mata e no Rossio antes de nos sentarmos tranquilamente para jantar porque hoje passará a Marcha e a rua celebra o São Pedro com flores de papel que foram feitas ao serão.
Flores que nos beberam as palavras numa roda cúmplice do luar, flores como o meu avião…
Mesmo que possa tardar, esperarei sempre que Junho chegue para me despir a idade. Entre memórias e fé, tenho mundo suficiente para nunca desistir de ser criança.    

sábado, 28 de maio de 2016

Vila Viçosa



Acordo eu e comigo as mais recônditas lembranças que me beijam, todos colhendo bênçãos das badaladas solenes do relógio do Paço que às sete horas já chegam tarde para desfrutar do afinado chilreio dos pardais na árvore que ladeia a minha janela e de cujo tronco se perdeu na idade.
Ainda sou tanto e quase tudo desse rapaz que aqui persiste eterno entre o eco da água das fontes que se soltam de uma imensa “Arca de Água”.
As pedras da calçada de séculos onde brincaram os avós conhecem o ADN dos meus passos, palpam-me a pressa, pressentem-me a paz e repetem comigo em coro os sonhos todos que um dia lhes segredei entre a carícia do berlinde ou o rodopiar de um pião.
Reconhecem-me marinheiro no jeito de tanto querer o mar, e talvez os poetas sejamos todos esses seres de coração em forma de vela latina e sem medo de naufragar.
Há rosas a espreguiçarem-se pelos canteiros, colou-se à cal, o aroma do mosto na Travessa do Belhuca”, há giesta em jeito de filigrana pela encosta do Castelo, e o vento arrasta o rosmaninho que Maio acendeu no outeiro que sobe da Ilha até São Bento.
O pão quente na mesa, o sol a pique do meio-dia, um bolo finto acabado de cozer, o "anexim" de uma vizinha que espreita à janela, o brinhol polvilhado de açúcar, os coentros e os poejos em despique para a açorda, os beijos de sempre, os espargos...
Aventa-se a má sorte num copo generoso de um tinto cá dos nossos e as mesas quadradas do Restauração arredondamo-las pelas palavras doces que trocamos.
Palavras como uma divina Tiborna ou uma laica e plebeia Broa de Azeite comprada na Pastelaria; sílabas soltas nos "Carrascais" imensos de liberdade que como um rio se nos solta do olhar.
Há amoras maduras a tingirem o chão do Rossio, e a tardinha que o céu perfuma de indefinidas cores traz a paixão às cavalitas nas palavras de um soneto tecido por Florbela.
"Ser poeta"...
É tempo de quase adormecer...
Com a minha mãe ao lado rezo Ave Marias na Senhora da Conceição sob o luar que me abraça de sombras.
E Vila Viçosa...
Ai quantas mães me cuidam não me deixando envelhecer.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Corpus Christis



Esta foto foi tirada na tarde de 21 de Junho de 1973 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, imediatamente após a procissão do Corpo de Deus.
Foi o dia da minha primeira comunhão e tenho um diploma assinado pelo celebrante, o saudoso Padre Joaquim Reia, tenho uma edição dos Evangelhos e uma medalha que foram oferta da minha catequista, a queridíssima e inesquecível D. Mimi Lisboeta.
A túnica branca era emprestada a todos pela paróquia e apagava assim as diferenças com que nos vestia a condição de cada um.
Juntámo-nos de manhã na Igreja de São Bartolomeu e saímos depois para a Igreja de Nossa Senhora, no Castelo, dois a dois e de mão dada, sendo meu inevitável companheiro de percurso o Manuel. Quem mais poderia ser?
A fila era imensa e atrasava-se sempre porque um de nós os dois perdia os sapatos e tinha de se agachar para voltar a calçá-los. Nós crescíamos rapidamente e as mães compravam sempre os sapatos com alguma folga.
Depois da missa fomos todos até ao refeitório do Seminário de São José beber um chocolate quente, a que chamávamos cacau, e que era feito com um preparado comprado na Pérola Calipolense, a mercearia mais famosa e versátil da nossa terra.
Em ano de cinquentenário sou especialmente assaltado por estas memórias.
Ressalta a saudade daqueles que já partiram, e que muito mais do que os sapatos nos ofereceram uma muito válida proposta de rumo para os nossos passos.
Fizeram-nos maiores pela fé que semearam e semeiam em nós, mostrando que somos assim iguais aos olhos de Deus, naquilo que importa, na essência de ser gente.
Corpo de Deus?
Cada um de nós será uma célula; viva pela verdade, rica pelo amor e essencial pelas diferenças em tudo aquilo que nos faz únicos.
Uma célula que respira, pensa e fala de um jeito que jamais oprime a alma.
Pela verdade, pelo amor e pela diferença...
Pelo que é da fé, muito mais do que por quaisquer outros critérios de agremiação de natureza social ou mundana.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

São as tardes dos dias da liberdade...



Nas tardes quentes de Maio, os poetas brincam sozinhos pelo campo entrançando os gestos, o olhar, e o tudo da sua liberdade com as papoilas que insistem em romper a previsível quietude das searas que o vento namora.
Os poetas são assim, solitários mas irmãos de todas as flores; são náufragos heróis buscando as ilhas, a alma à superfície resistindo às marés cinzentas da sensatez e da aparência.
Mas às vezes nessas tardes quentes de Maio, enquanto o sol brinca com as cidades enfeitando-as de luz intensa e mágicas sombras, os poetas têm amigos que chegam de perto ou de longe trazendo olhares carregados de mel, para com milhares de abraços construírem tendas onde as palavras ressoam perfeitas e com ar de festa.
São as tardes dos dias da liberdade e os amigos dos poetas trazem consigo a poesia no açúcar que se lhes desprende dos olhares... e dos abraços.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Ouro sobre azul, e às vezes também azul sobre o ouro…



Ouro sobre azul, e às vezes também azul sobre o ouro numa manhã que Maio foi acendendo até à luz clara e intensa da melhor primavera.
Que importa a ordem dos factores, dos tons, das cores... se de tudo se compõe afinal este céu que somos nós.
O céu será sempre a nossa liberdade, uma rua onde os passos e os gestos nunca tropeçam na contradição para se estatelarem depois na infeliz banalidade.
O céu é este beijo que nunca se atrasa porque o instante em que tu chegas é sempre a hora certa.
O céu tem paredes desenhadas com as letras de um poeta, o traço louco de um qualquer artista.
O céu é um assento esculpido na pedra na margem do rio, é um rito profano, sagrado, é um sim, um não, a coerência de um ponto de vista.
O céu é um libreto, a música, a encenação, um concerto, a voz.
Ouro sobre azul?
Ou o inverso?
Mas o céu somos sempre nós.

Até amanhã, para voarmos juntos!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O teu abraço salva sempre os malmequeres...


O teu abraço salva sempre os malmequeres; que notícias de outro fado ou outra sorte teriam eles para me contar?
Quando a nossa pele se entrelaça e os seus detalhes mergulham num só aroma; quando a racionalidade tropeça, repousa e adormece no leito de linho que a alma lhe fez; quando os sentidos soletram desejo a desejo, as emoções... nós agradecemos sempre a esse doce e intemporal abraço, a explícita festa de um querer isento de qualquer ciúme.
E não importa o que rezem os oráculos, a história, a experiência, tudo aquilo que a gente disser...
A verdade que mora neste abraço, beijo de corpo inteiro, dá sossego no campo a qualquer malmequer.