quinta-feira, 30 de junho de 2016

As asas...



Não te preocupes pois será muito fácil encontrar-me: eu perfumei e adornei com flores de papel o minuto em que estarei sentado à tua espera.
E haverá rouxinóis sobrevoando a cidade, os telhados e as torres mais vaidosas. Asas como nós em voo sobre as pedras recortadas dos zimbórios de pose elegante, mas que acabarão desfeitos nos escombros sem nunca saberem o que é guardar a Deus e voar com Ele.
Sobre a nudez das nossas vidas entrelaçadas haverá túnicas transparentes tecidas de beijos. Embora o amor às vezes transborde na forma e na doçura de algum gesto inquieto, aquilo que realmente importa quase nunca se revela ao olhar.
E só importa aquilo que se sente.
Os minutos que se seguem àquele em que te espero, deixei-os vazios, assim sempre teremos espaço e tempo suficientes para os preencher com tudo aquilo que os sentidos nos confessarem... O nosso mundo contado em segredo no meio de toda a gente.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Quantas histórias...


Quantas histórias se colhem na cidade onde a primavera desenhou improváveis altares de flores?
Os meus passos calcam sem querer as memórias de outros de outras tardes, enquanto as lembranças me acenam por entre o silêncio e o ocaso.
O sol fala mais intensamente através das sombras do que da despudorada luz sem filtros que nos encandeia; e o silêncio é o cais que nos predispõe às palavras novas, aquelas que de outra forma correriam como a água do Tejo, sem que lhe prestássemos atenção.
Talvez o poeta seja um menino descalço de alma e de pés que persiste a brincar na rua onde as casas só aparentemente vão ruindo. Um menino com um moleskine vermelho na mão direita para colher tudo das sombras e do silêncio.
No Cais do Sodré, a rua vazia e só minha é mais cor-de-rosa do que nunca num asfalto em exclusivo para os meus passos.
E as flores...
De quem mais preciso eu para lá de mim, se a primavera me deixou recantos e histórias, lembranças perfeitas de perpétuos amores?

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A magia de um beijo



A magia de um beijo explicada por palavras ditas ou escritas converte-se bastas vezes num vulgar Manual de Instruções de onde emergem detalhes anátomo-fisiológicos e reacções químicas envolvendo mais ou menos compostos de carbono.
A orgânica… e quem diz um beijo pode também dizer um abraço ou algo mais que nos povoe a vida de ilusão.
À entrada de Coimbra e para quem vem do acesso norte da auto-estrada A1 deparei-me hoje com um motel de nome “A fonte dos amores”.
A “Quinta das Lágrimas” ficou como memória do Século XIV, geográfica e conceptualmente distante de tudo aquilo que ampare os encontros furtivos dos “Dons Pedro” e as “Donas Inês” do nosso tempo; por ali algures no sentido de quem acabou de almoçar no Rui dos Leitões e se dirige ao centro da cidade ainda com o vinho frisante a apoquentar-lhe a garganta.
Rainhas depois de mortas?
Mortas estarão de cansaço no cimo de sapatos daqueles de salto de quinze centímetros que parecem ter sido roubados a alguém à porta do “Finalmente Club”; e o trono também existe e poderá esperar por elas num qualquer programa da TVI apresentado pela Teresa Guilherme.
Assim com o pensamento lembrei-me do meu saudoso professor de Português no liceu de Vila Viçosa, o Padre João de Deus, quando nos explicava a diferença entre o romantismo e o realismo na literatura socorrendo-se de um casal e de uma poça de água.
Alguns dias depois do casamento:
- Oh minha flor vem a meus braços para te poderes ver assim tão bela no espelho que o céu generoso enviou em gotas durante a madrugada.
Trinta anos depois do dito enlace:
- Vê lá onde pões os pés que ainda te vais molhar toda. Oh tonta da mulher…
Romantismo e realismo, Pedro e Inês…
E que nunca apaguemos a inenarrável magia que guardam os beijos.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Entre a cal e o céu...



Mesmo antes do sol, é o canto dos pássaros que anuncia a madrugada, e aos poucos, enquanto a cal se espreguiça pelo casario debruado de azul na esperança de afugentar os maus espíritos, as flores rebeldes que beberam o alento da chuva e perfumam o monte brincam com o sobreiro no rodopiar lento da sua sombra que nunca se esquece de dar o meio-dia.
O Alentejo é isto tudo entre a cal e o céu, o infinito onde também os meus gestos e as palavras se reencontram com a alma que por aqui permanece nas tardes do estio.
Na rua à calma, uma mulher puxa do "caco da cal" e faz o pezinho antes de lavar o portado; passo e digo-lhe boa tarde, ela levanta os olhos, confirma que não me conhece e responde à saudação, voltando imediatamente ao trabalho, não sem antes acariciar o avental de um tecido qualquer.
Conheço este jeito, esta dolência na voz... Sob o canto dos pássaros por entre os alperces que se esgueiram do muro do quintal da casa desta mulher.
Os pássaros que ainda não vi mas que me "abraçam" forte desde a madrugada.
O Alentejo é este tanto de verão que se sente no campo e na gente muito para lá da claridade de um doce e suave despertar.
E eu sou um seu eterno irmão, sou infinitamente mais do canto que tu semeias em mim do que de tudo aquilo que o sol possa de mim contar.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A lua



De noite, quando às vezes me espreguiço, eu abraço a lua, e conto-lhe aos ouvidos os segredos que não revelo a mais ninguém.
Só a lua conhece o nome guardado entre o pó das rosas que adormeceram há tempo sobre a mesa onde nascem escritos os meus versos.
E enquanto a Terra se entretém a chamar e a entornar o mar sobre os seus braços de areia, a lua esconde-se nas sombras de quartos crescentes ou minguantes; ou então permanece destapada e grande, disponível mais do que nunca para o meu abraço.
Eu tenho em mim milhões de quilómetros de palavras de amor que se me soltam entre o teu nome, em segredo, enquanto me espreguiço quando a noite já vai muito para lá de meia.
E a lua que não desperdiça nem despreza uma só dessas palavras fica assim com mais área para as guardar, fica mais redonda e usa dizer a gente que está cheia.


sábado, 11 de junho de 2016

As flores que persistem nos colos onde nascem os poetas…



Nas últimas vezes que em Vila Viçosa desci a Avenida dos Duques de Bragança, passando a "Árvore do Coração" e quase em frente ao Convento da Esperança, reparei que ruiu o telhado da casa onde viviam os meus avós Francisca e Joaquim.
O eco do meu grito escada acima depois de colocar a mão pelo postigo e abrir o trinco da porta:
- Avóoooooo!
Estará assim algures já entre o sol e as estrelas das noites claras.
As casas de pedra caem para nos lembrarem que apenas se vive no amor e que os alicerces somos nós.
A minha mãe terminou a leitura do meu livro "Todos os Homens podem voar" e gostou muito.
Felicitou-me por ele e discutiu comigo alguns detalhes da história.
Nunca ninguém merecerá tanto as minhas palavras quanto a minha mãe; tanto do amor de que falo o li e aprendi no colo que o seu olhar doce me oferece nos dias felizes.
Os alicerces eternos e sábios.
Na casa da avó Francisca celebrava-se o mês de São Pedro com sardinheiras e cravos nos vasos das janelas que davam para o Rossio e para a Rua do Poço.
As flores que persistem nos colos onde nascem os poetas.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Quem é alto vive mais próximo do sol...


Quem é alto vive mais próximo do sol, mas em compensação, quem é baixo "chega" mais facilmente aos abraços, ficando desguarnecida muito menos área do todo com que se entrega à festa de quem ama e a quem deseja.
Aqueles abraços onde se sente o sol.
Quem é alto tem mais acesso às cerejas e quem é baixo consegue o mesmo benefício relativamente aos morangos; a fruta que a primavera ruboriza de luz e açúcar.
Morangos e cerejas "sentados" na mesma taça e esperando por nós e por um curtíssimo intervalo desse tal abraço.
O sol é pois muito mais do que o detalhe do céu que define a madrugada.
Em quantas noites ele me beija nas palavras com que envolves...
O sol é aquilo que se sente, intenso quando se desprende dos nossos braços nos instantes todos que desenhámos com a liberdade.
Alto ou baixo?
O Homem será sempre do tamanho do sol que inventar para si.