quinta-feira, 7 de julho de 2016

Um Homem completo é aquele que não esconde nem o mínimo detalhe dos seus beijos



Às vezes a bruma sucumbe ao sol intenso do meio-dia e deixa-nos entretidos num jardim cravejado de hortênsias, tílias gigantes, buxo recortado e vistas generosas com um intenso sabor a mar.
Depois, eu aproveito a linha desenhada pelo tempo e sento-me comodamente à entrada de uma década nova. Respiro fundo, ao jeito de quem repousa, e sinto que o ar traz com ele os sentidos que emergem à luz e fazem coro comigo enfrentando a sorte:
- Eu serei tudo aquilo que cabe no meu sonho.
Há palavras que dançam ao redor de mim como aves de rapina de todas as cores, beijos e abraços montados na sela sobre as sílabas mais fortes, o canto dos versos na métrica ousada que me pertence unicamente a mim.
Há o amor que flui como cascata irrequieta mas constante sobre os minutos que alimentam o viço das avencas que brilham no mais recôndito do ser.
- Um Homem completo é aquele que não esconde nem o mínimo detalhe dos seus beijos. E pelo contrário, um Homem que condena às sombras quaisquer partes de si é uma criatura triste e amputada.  
Na véspera de cumprir 50 anos recebi a notícia do falecimento da Sofia, minha colega de Faculdade, após uma luta de 13 anos contra o cancro da mama.
Às vezes é o sol que sucumbe…
E só o sonho permanece intacto e eterno sob as tílias de mil anos para que com ele enfeitemos o tempo.
Como as hortênsias e sem nunca termos pressa…

terça-feira, 5 de julho de 2016

Cinquenta anos. Sim, com a vida em dia.



Rumo ao sul contemplando o horizonte que arde ao sol da tarde, sorrindo por saber que o olhar da minha mãe me beijará desde o primeiro instante, ali, um pouco antes de nos celebramos no abraço berço que guarda dentro de si o amor perfeito e que embala serenamente tantos outos beijos. 
Eu sou este amor e este olhar, muito mais do que tudo aquilo que o tempo possa querer fazer de mim.
Eterno…
O baloiço que pende do frondoso limoeiro de frutos generosos, o voo rasando o sonho aos comandos do tronco encurvado da oliveira que persiste no átrio da minha escola, as gargalhadas dos amigos nos serões de Vila Viçosa onde o fresco de Agosto nunca aparece, a fé celebrada no canto às giestas e ao rosmaninho nas tardes de Páscoa, os diários de Torga, cada recanto das palavras de Pessoa, de Yeats, de Youcenar, o mar de Sophia, um fado cantado por Amália, um verso de Carlos Tê numa canção de Rui Veloso, os doze pontos do júri da Eurovisão, uma Bola de Berlim, uma fartura na feira, as cartas de amor soletradas quando o Tejo já se despede do Terreiro para se abraçar à noite, as palavras que eu insisto em desenhar sobre tudo aquilo que sinto…
Eu sou isto, sou este amor e este eterno olhar… e nada daquilo que eu sou cessa ou se atormenta por mais que o tempo passe e que a gente ou vento se atravesse.
Cinquenta anos?
Sim, de idade; que se medissem aquela vida que importa eu teria muitos mais de cinquenta, tal esta “desfaçatez” de finalmente olhar o tempo e questioná-lo de frente, olhos nos olhos.
- Queres passar depressa ou mais devagar? Eu irei ao meu ritmo e sempre sem me inquietar.
- Longo ou curto, como és? Como queiras ser na certeza de que não desperdicei um só segundo e nunca me privei de nada: de uma viagem, de um beijo, de um abraço desenhado ao pôr-do-sol ou até de alguns muito simples cafés.
- Espicaça-me e “stressa-me” lá com essas coisas vãs da ambição… Vou sorrir-te descontraído e indiferente. Eu irei despertar-me a sorrir todas as manhãs. Desde que eu viva em paz com o meu coração…
- Ameaça-me com hérnias discais, diabetes, hipertensão e todos os riscos inerentes ao envelhecer… Não tenho medo de ti e tenho a vida em dia, aconteça o que acontecer.
Cinquenta anos?
Caminharei feliz por entre as bermas que a minha vontade adornou de pétalas; na mão direita a caneta que desenha sílabas como golpes de espada sobre o medo e o impossível.
E quando quiserem falar de mim nunca contem por onde eu vim. Aquilo que melhor me define é tudo o que eu tenho para viver.
E se me encontrarem algures pelo caminho não esperem ver as imagens que de mim criaram. Há tanto do melhor que serei que nem eu próprio consigo ainda prever. 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

As asas...



Não te preocupes pois será muito fácil encontrar-me: eu perfumei e adornei com flores de papel o minuto em que estarei sentado à tua espera.
E haverá rouxinóis sobrevoando a cidade, os telhados e as torres mais vaidosas. Asas como nós em voo sobre as pedras recortadas dos zimbórios de pose elegante, mas que acabarão desfeitos nos escombros sem nunca saberem o que é guardar a Deus e voar com Ele.
Sobre a nudez das nossas vidas entrelaçadas haverá túnicas transparentes tecidas de beijos. Embora o amor às vezes transborde na forma e na doçura de algum gesto inquieto, aquilo que realmente importa quase nunca se revela ao olhar.
E só importa aquilo que se sente.
Os minutos que se seguem àquele em que te espero, deixei-os vazios, assim sempre teremos espaço e tempo suficientes para os preencher com tudo aquilo que os sentidos nos confessarem... O nosso mundo contado em segredo no meio de toda a gente.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Quantas histórias...


Quantas histórias se colhem na cidade onde a primavera desenhou improváveis altares de flores?
Os meus passos calcam sem querer as memórias de outros de outras tardes, enquanto as lembranças me acenam por entre o silêncio e o ocaso.
O sol fala mais intensamente através das sombras do que da despudorada luz sem filtros que nos encandeia; e o silêncio é o cais que nos predispõe às palavras novas, aquelas que de outra forma correriam como a água do Tejo, sem que lhe prestássemos atenção.
Talvez o poeta seja um menino descalço de alma e de pés que persiste a brincar na rua onde as casas só aparentemente vão ruindo. Um menino com um moleskine vermelho na mão direita para colher tudo das sombras e do silêncio.
No Cais do Sodré, a rua vazia e só minha é mais cor-de-rosa do que nunca num asfalto em exclusivo para os meus passos.
E as flores...
De quem mais preciso eu para lá de mim, se a primavera me deixou recantos e histórias, lembranças perfeitas de perpétuos amores?

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A magia de um beijo



A magia de um beijo explicada por palavras ditas ou escritas converte-se bastas vezes num vulgar Manual de Instruções de onde emergem detalhes anátomo-fisiológicos e reacções químicas envolvendo mais ou menos compostos de carbono.
A orgânica… e quem diz um beijo pode também dizer um abraço ou algo mais que nos povoe a vida de ilusão.
À entrada de Coimbra e para quem vem do acesso norte da auto-estrada A1 deparei-me hoje com um motel de nome “A fonte dos amores”.
A “Quinta das Lágrimas” ficou como memória do Século XIV, geográfica e conceptualmente distante de tudo aquilo que ampare os encontros furtivos dos “Dons Pedro” e as “Donas Inês” do nosso tempo; por ali algures no sentido de quem acabou de almoçar no Rui dos Leitões e se dirige ao centro da cidade ainda com o vinho frisante a apoquentar-lhe a garganta.
Rainhas depois de mortas?
Mortas estarão de cansaço no cimo de sapatos daqueles de salto de quinze centímetros que parecem ter sido roubados a alguém à porta do “Finalmente Club”; e o trono também existe e poderá esperar por elas num qualquer programa da TVI apresentado pela Teresa Guilherme.
Assim com o pensamento lembrei-me do meu saudoso professor de Português no liceu de Vila Viçosa, o Padre João de Deus, quando nos explicava a diferença entre o romantismo e o realismo na literatura socorrendo-se de um casal e de uma poça de água.
Alguns dias depois do casamento:
- Oh minha flor vem a meus braços para te poderes ver assim tão bela no espelho que o céu generoso enviou em gotas durante a madrugada.
Trinta anos depois do dito enlace:
- Vê lá onde pões os pés que ainda te vais molhar toda. Oh tonta da mulher…
Romantismo e realismo, Pedro e Inês…
E que nunca apaguemos a inenarrável magia que guardam os beijos.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Entre a cal e o céu...



Mesmo antes do sol, é o canto dos pássaros que anuncia a madrugada, e aos poucos, enquanto a cal se espreguiça pelo casario debruado de azul na esperança de afugentar os maus espíritos, as flores rebeldes que beberam o alento da chuva e perfumam o monte brincam com o sobreiro no rodopiar lento da sua sombra que nunca se esquece de dar o meio-dia.
O Alentejo é isto tudo entre a cal e o céu, o infinito onde também os meus gestos e as palavras se reencontram com a alma que por aqui permanece nas tardes do estio.
Na rua à calma, uma mulher puxa do "caco da cal" e faz o pezinho antes de lavar o portado; passo e digo-lhe boa tarde, ela levanta os olhos, confirma que não me conhece e responde à saudação, voltando imediatamente ao trabalho, não sem antes acariciar o avental de um tecido qualquer.
Conheço este jeito, esta dolência na voz... Sob o canto dos pássaros por entre os alperces que se esgueiram do muro do quintal da casa desta mulher.
Os pássaros que ainda não vi mas que me "abraçam" forte desde a madrugada.
O Alentejo é este tanto de verão que se sente no campo e na gente muito para lá da claridade de um doce e suave despertar.
E eu sou um seu eterno irmão, sou infinitamente mais do canto que tu semeias em mim do que de tudo aquilo que o sol possa de mim contar.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A lua



De noite, quando às vezes me espreguiço, eu abraço a lua, e conto-lhe aos ouvidos os segredos que não revelo a mais ninguém.
Só a lua conhece o nome guardado entre o pó das rosas que adormeceram há tempo sobre a mesa onde nascem escritos os meus versos.
E enquanto a Terra se entretém a chamar e a entornar o mar sobre os seus braços de areia, a lua esconde-se nas sombras de quartos crescentes ou minguantes; ou então permanece destapada e grande, disponível mais do que nunca para o meu abraço.
Eu tenho em mim milhões de quilómetros de palavras de amor que se me soltam entre o teu nome, em segredo, enquanto me espreguiço quando a noite já vai muito para lá de meia.
E a lua que não desperdiça nem despreza uma só dessas palavras fica assim com mais área para as guardar, fica mais redonda e usa dizer a gente que está cheia.