sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Se uma só vida...


Se uma só vida eu tivesse em mim talvez alguém pudesse dar-me um nome.
Mas quanto mundo cabe nos sonhos que as minhas palavras vos deixam espreitar.
A liberdade...
Virão de madrugada todas as gaivotas de Lisboa, e de mim, sim, levarão o céu para revestir a mais perfeita cidade.
Tanto azul...
Trago comigo no peito e nos sentidos, um rio de beijos de água doce, um rio sem margens.
O amor...
Quando o vivemos assim com a vida toda, somos tudo, tanto... e são tantos os nomes com que nos poderão baptizar.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O Kimono não faz o Japonês…



O Kimono não faz o Japonês, tal como nada para além de si próprio consegue cumprir o Homem; mas com dobras e redobras ao jeito daquilo que me impele a vontade, e às vezes até com fortes dores nas “mãos”, eu “teço” o mundo, faço uma casa, abraço-me aos pássaros… e ofereço asas à liberdade num Origami que tem o meu nome.
Depois da Cerimónia do Chá talvez dance Yosakoi numa versão moderna do Awa Odori; que vão muito quentes os dias deste Verão.   
Ouço Taiko, leio Haruki Murakami:
“Escutem, não existe nenhuma guerra que acabe com todas as guerras”.
“Kafka à beira-mar” ou apenas detalhes escritos de uma imensa solidão.
A paz…
Oscilo entre Sushi ou Sashimi mas sempre com Hakumai, que o arroz se quer assim branco e solto, antes do pôr-do-sol e de poemas suspirados ao luar.
O sono é a paz que espera a madrugada, porque nós seremos sempre os filhos de um do sol nascente.
Reinventamo-nos em cada manhã.
O Kimono não faz o Japonês…
Mas ajuda qualquer pessoa a inventar e a escrever algo que seja diferente.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Desde que em mim persistam os sonhos…


Desde que em mim persistam os sonhos ninguém nunca conseguirá matar-me.
Às vezes reclino a cabeça à sombra das laranjeiras de Vila Viçosa sob as quais brinquei, e sou na face, no gesto e no pensamento, em tudo… muito mais do que apenas eu e a minha idade; sou a voz que persiste, o canto quente, dolente e rubro do sul com que me beijaram os meus avós.
Rubro de sol e papoilas na festa do trigo em ondas ao vento nas tardes doces de entre Abril e Maio, de entre liberdade e ousadia.
E sobre todos os versos antigos me reinvento em letras e formas de novas canções.
Sempre de encontro a mim, reinventando-me e revendo-me no desenho e no travo especial que reveste os dias.
  

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Guardando o tempo em vinil…


Fui guardando o tempo em vinil na memória de mil e muitas canções.
As palavras recortadas da alma dos poetas e soletradas depois na voz de Brel, Aznavour, Serrat... e Amália.
E quantos olhares teus, e beijos, tenho comigo em baús de lembranças enrolados nessas letras de canções que a rádio tocou de uma forma tão intimamente secreta que até acreditámos que o fazia só para nós.
Quando Mercury era o grito e a nossa liberdade, "I want to break free", com toda a legitimidade e fé, porque Jesus, "Mrs. Robinson", ama-nos muito mais do que alguma vez saberemos.
E as gaivotas que trazem o céu de Lisboa fazem os problemas parecer tão distantes, "yesterday"...
"I can’t get no satisfaction"... sim, mas nem sempre.
Há tantos outros dias em que a imaginação se acende enquanto o tempo rola ao mesmo ritmo certo das pedras por uma encosta tingida de musgo e rosmaninho.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O amor é cego…



O amor é cego da mesma forma que é invisível ao humano olhar, porque aquilo que é da alma não cabe, por ser maior, em qualquer detalhe do universo que se espreite ou que se possa tocar.
O amor sente-se, é a própria vida e toda a fé que ela encerra, por entre o patético e incoerente tom do juízo de quem se diz do Céu e da alma mas se fixa “cegamente” na forma e na expressão corporal de um querer imenso que nos faz experimentar a eternidade.
Um beijo nunca será o retrato racional dos lábios que se tocam.   
O amor não tem género, não tem idade, não tem nome, não tem certo ou errado, não tem fórmula, prazo de validade, o amor não é previsível, pode ser azul, verde, encarnado, qualquer cor…
É coisa da alma e verdadeiramente cego, o amor.     

domingo, 31 de julho de 2016

O redondo sentido dos dias…


O que importa se a vida parece às vezes andar às voltas? Com circunferências também se desenha e amplia um coração.
E o sentido redondo dos dias suspirados com a mesma cor tem de longe a nitidez de um jardim de incondicionais mas indecifráveis flores. O tempo e a distância oferecem forma à geometria do acaso, mesmo depois das labirínticas tardes em que nos sentamos tristes algures junto ao buxo rendilhado que nos conhece de nos ir amparando o choro, esse lamento insistente que sem darmos conta, ainda torna mais baço e distante o horizonte.
Nós somos a perfeição nascida de tantos dias que isolados parecem não fazer qualquer sentido.
Somos a forma e o coração. E assim completos, brindamos alegres erguendo a taça do vinho que o verão temperou de sol ao mesmo tempo que nos turvava a vista com o pó da estrada por onde fomos tecendo caminho.

sábado, 30 de julho de 2016

Por mais mundo que me abrace…



Na casa de Vila Viçosa os chinelos de quarto imitam o amor, e não só naquilo que ao conforto diz respeito: estão sempre religiosamente no mesmo sítio e até às escuras os consigo encontrar.
Por mais mundo que me abrace…
Jamais se “desarruma” ou desassossega este beiral onde me ajeito, às vezes, como agora, nos dias quentes em que o vento adormeceu para uma longa sesta e se demite do gesto de uma brisa fresca.
Aqui não há detalhe de afecto que se demita e que me falte…
Tanto daquilo que trago comigo em bolsas de pele, de vida e de memória, bebo-o aqui nesta casa onde até as paredes do meu eterno quarto parecem transpirar o bálsamo do sono mais profundo e dos meus sonhos mais fiéis.
As noites mágicas no quarto onde o pensamento me ensinou a voar têm palavras adormecidas que eu agarro entre a saudade.
Por mais mundo que me abrace…
Eu serei sempre desta terra, da coerência do amor onde me fui sonhando assim.