domingo, 7 de agosto de 2016

A terra é cúmplice do tempo…



A terra é cúmplice do tempo e às vezes amolece para que eu possa moldá-la e oferecer-lhe o tom que me apraz à alma.
Aqueles dias em que parece faltar-nos o chão no deslizar inseguro que qualquer “chuva” deixou; o nada que se sente...
É tão mais fácil impor a nossa cor a uma tela despida do que à sobreposição de outros traços que nos são alheios.
E com o barro moldo pastores, os magos, a Virgem, São José, e crio um trono para o Menino, Jesus deitado entre pombas que não esvoaçam mas cumprem uma coerência de paz.
E com os dias moldo uma escada para a minha mais íntima e profunda fé, às vezes partindo de um ponto que sabe a quase zero.

sábado, 6 de agosto de 2016

O imprevisto...



Gosto muito do imprevisto que carrega cada madrugada; que o previsível é desinteressante e morno, e sem sim nem não, a vida nunca mais dará qualquer passo frente.
No varanda manuelina da Torre de Belém namora o rinoceronte com uma gaivota que por ele se apaixonou, ensinando-a a voar pelas histórias das terras de África de onde chegou.
Nem só quem tem asas pode voar; há mestres improváveis que andam à solta e disponíveis pelos nossos dias; e o amor rompe sempre tudo aquilo que parece impossível.
O imprevisto com gosto bom e a sal.
Coleccionarei num mealheiro de porcelana, milhões de histórias que colhi pelas varandas que espreitam o mar e que esperam as palavras para poderem voar.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Se uma só vida...


Se uma só vida eu tivesse em mim talvez alguém pudesse dar-me um nome.
Mas quanto mundo cabe nos sonhos que as minhas palavras vos deixam espreitar.
A liberdade...
Virão de madrugada todas as gaivotas de Lisboa, e de mim, sim, levarão o céu para revestir a mais perfeita cidade.
Tanto azul...
Trago comigo no peito e nos sentidos, um rio de beijos de água doce, um rio sem margens.
O amor...
Quando o vivemos assim com a vida toda, somos tudo, tanto... e são tantos os nomes com que nos poderão baptizar.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O Kimono não faz o Japonês…



O Kimono não faz o Japonês, tal como nada para além de si próprio consegue cumprir o Homem; mas com dobras e redobras ao jeito daquilo que me impele a vontade, e às vezes até com fortes dores nas “mãos”, eu “teço” o mundo, faço uma casa, abraço-me aos pássaros… e ofereço asas à liberdade num Origami que tem o meu nome.
Depois da Cerimónia do Chá talvez dance Yosakoi numa versão moderna do Awa Odori; que vão muito quentes os dias deste Verão.   
Ouço Taiko, leio Haruki Murakami:
“Escutem, não existe nenhuma guerra que acabe com todas as guerras”.
“Kafka à beira-mar” ou apenas detalhes escritos de uma imensa solidão.
A paz…
Oscilo entre Sushi ou Sashimi mas sempre com Hakumai, que o arroz se quer assim branco e solto, antes do pôr-do-sol e de poemas suspirados ao luar.
O sono é a paz que espera a madrugada, porque nós seremos sempre os filhos de um do sol nascente.
Reinventamo-nos em cada manhã.
O Kimono não faz o Japonês…
Mas ajuda qualquer pessoa a inventar e a escrever algo que seja diferente.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Desde que em mim persistam os sonhos…


Desde que em mim persistam os sonhos ninguém nunca conseguirá matar-me.
Às vezes reclino a cabeça à sombra das laranjeiras de Vila Viçosa sob as quais brinquei, e sou na face, no gesto e no pensamento, em tudo… muito mais do que apenas eu e a minha idade; sou a voz que persiste, o canto quente, dolente e rubro do sul com que me beijaram os meus avós.
Rubro de sol e papoilas na festa do trigo em ondas ao vento nas tardes doces de entre Abril e Maio, de entre liberdade e ousadia.
E sobre todos os versos antigos me reinvento em letras e formas de novas canções.
Sempre de encontro a mim, reinventando-me e revendo-me no desenho e no travo especial que reveste os dias.
  

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Guardando o tempo em vinil…


Fui guardando o tempo em vinil na memória de mil e muitas canções.
As palavras recortadas da alma dos poetas e soletradas depois na voz de Brel, Aznavour, Serrat... e Amália.
E quantos olhares teus, e beijos, tenho comigo em baús de lembranças enrolados nessas letras de canções que a rádio tocou de uma forma tão intimamente secreta que até acreditámos que o fazia só para nós.
Quando Mercury era o grito e a nossa liberdade, "I want to break free", com toda a legitimidade e fé, porque Jesus, "Mrs. Robinson", ama-nos muito mais do que alguma vez saberemos.
E as gaivotas que trazem o céu de Lisboa fazem os problemas parecer tão distantes, "yesterday"...
"I can’t get no satisfaction"... sim, mas nem sempre.
Há tantos outros dias em que a imaginação se acende enquanto o tempo rola ao mesmo ritmo certo das pedras por uma encosta tingida de musgo e rosmaninho.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O amor é cego…



O amor é cego da mesma forma que é invisível ao humano olhar, porque aquilo que é da alma não cabe, por ser maior, em qualquer detalhe do universo que se espreite ou que se possa tocar.
O amor sente-se, é a própria vida e toda a fé que ela encerra, por entre o patético e incoerente tom do juízo de quem se diz do Céu e da alma mas se fixa “cegamente” na forma e na expressão corporal de um querer imenso que nos faz experimentar a eternidade.
Um beijo nunca será o retrato racional dos lábios que se tocam.   
O amor não tem género, não tem idade, não tem nome, não tem certo ou errado, não tem fórmula, prazo de validade, o amor não é previsível, pode ser azul, verde, encarnado, qualquer cor…
É coisa da alma e verdadeiramente cego, o amor.