sábado, 13 de agosto de 2016

Ofereço à mão o gesto redondo de uma nova caligrafia...


Ofereço à mão o gesto redondo de uma nova caligrafia como quem polvilha de açúcar todas as coisas que ousamos dizer.
Foi o vento que sob o céu azul de verão desenhou o cavalo de nuvens que me levou a galope até ao sopé da montanha onde repousas à minha espera.
Enleámos o desejo, demos às mãos um sentido de carícias e deixámo-nos estar naquele abraço que nunca tem tempo de acabar.
A sombra da enorme bétula escondeu por momentos o cavalo que segue feliz a brincar por agora com uma bola gigante que o vento lhe ofereceu.
Terei de dizer-lhe que não quero voltar ao silêncio.
E as palavras que segredamos um ao outro no exíguo espaço do abraço são um mapa, as coordenadas das nossas vontades, confidências expressas em letras que vou desenhando lentamente dando-lhes na forma a coerência doce da essência... com a minha melhor caligrafia.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Trouxemos o verão para a mesa…



Trouxemos o verão para a mesa a bordo de um prato de ameixas roxas maduras; dispensámos a tão famosa meteorologia na hora de destapar com engenho o imenso cofre das palavras; fomos apagando o calor em copos de água fresca trazida da fonte…
E a vela com aromas de alfazema há muito rasgava a sombra que o ocaso tecera sobre nós, quando auscultamos pelo seu respirar que nem a noite cansa a ribeira que corre aos pés do carvalho onde o melro já se deitou porque muito cedo terá de cantar à madrugada.  
Estamos de férias no Gerês, eu e os meus pais, e quem nos vir assim de longe dirá que tirámos quinze dias para nos abraçarmos, rirmos e conversarmos; claro que por entre as cinco tomas de água bicarbonatada a quarenta e nove graus em dose medida em copos que parecem trazidos da “Montanha Mágica”.
Quinze dias sem pressas e aparentemente todos iguais.
Mas quem é que ousará chamar monótonos aos dias perfeitos onde o amor impera?
E a ribeira que nunca se cansa por entre o seu riso de água fresca.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Nós somos filhos e detalhes do sol...



Sempre que chegava a primavera e as papoilas tingiam ousadas e rebeldes o chão verde do Alentejo, nunca resistíamos a tomar nas mãos uma cápsula ainda por “rasgar”:
- Frade ou freira?
E as pétalas amarrotadas no exíguo espaço onde até aí viviam revelavam-se “freira” se tivessem ainda um tom rosado, ou seriam “frade” se de vermelho “explodissem” nas nossas mãos.
Havia um vencedor e um derrotado ali algures entre o canto feliz de uma roda, o jogo da macaca, o macaquinho do Chinês, as escondidas, o lencinho, o pilha três…
As pétalas ficavam depois a estender-se ao sol da seara enquanto nós crescíamos em liberdade “riscando” as madrugadas com tantas… com todas as nossas cores.
“Frade”, “freira”, vermelho, rosa…
Pouco importa se havia ou não um vencedor. Estávamos apenas a brincar.
O sol quando espreita pelas nuvens faz nascer um arco que não esquece qualquer cor.
Nós somos filhos e detalhes do sol.
-   

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

As ruas são instantes que entretêm de luz o olhar…



Não fosse a cidade já assim perfeita e ter tanto de paraíso, e até poderíamos pensar que o eléctrico que sobe o Calhariz nos “roubava” a Lisboa para voarmos directos ao céu.
As ruas são instantes que entretêm de luz o olhar silenciando qualquer dor que insista colar-se aos nossos passos, o Tejo corre azul enfeitando o voo das gaivotas de mar e liberdade, e os sinos que a fé semeou pelas colinas cantam alegres o meio-dia ou oferecem o tom á guitarra que desperta os poetas e os convida a estenderem palavras pelas vielas sob a luz clara com que a lua trai a noite…
Lisboa é o céu que nos abraça sem que para tal seja necessário morrer, como tantas vezes por aí se diz.
Sim Victor, e talvez haja mesmo um vendedor de fruta com um rosto bonito e a barba bem aparada, por ali a vender morangos no cimo do Calhariz.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Não há dia do qual eu não colha morangos...



Não há dia do qual eu não colha morangos; doces, pequenos e rubros, cravejados por ali entre os instantes, tal qual as rosas que os beijos descobrem sempre entre os muros e a saudade.
Eu não tenho dúvidas de que o tempo é sempre fértil quando o ousamos semear; as mãos na dor rasgando veredas de terra e água, despenteando o deserto.
Porque os heróis nunca se sentam.
O ribeiro soluça abraçado à hortelã e soletrando poemas ao rouxinol que os canta depois acima no choupal para que o vento os leve, não passando por nós em vão.
E o sol conhece-nos de o esperarmos para o beijar incessantemente nas madrugadas todas tomando-lhe a força e a fé.
Não há dia do qual eu não colha morangos...
E não há minuto que eu deixe sem o toque de magia dos meus lápis de cor, desde o céu até ao rodapé.
  

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Um Homem feliz na sua versão de açúcar…



Sento-me numa pedra do caminho que o tempo à chuva se foi entretendo a ornar de musgo, destapo os sentidos tornando-os vulneráveis às palavras, acaricio o ramo seco que o vento tombou e que suspira triste pelo beijo da sua árvore que apenas de longe o abraça de sombra; e são detalhes que me pertencem, todos os traços arrumados em letras que vou rasgando e tatuando sobre o chão de pó dos meus passos.
Descubro-me doce nestas manhãs de Agosto que o verão acendeu com o sol intenso que a serra, contrariada, sopra de fresco e verde numa brisa que passa por mim como revelando fugazmente aos ouvidos os segredos guardados na intimidade da Terra.
Descubro-me doce…
Um Homem feliz na versão de açúcar que vou descobrindo e moldando entre o céu e as pedras do caminho com que a Terra me abraça. 
Sentado tranquilo à sombra das árvores.  

domingo, 7 de agosto de 2016

A terra é cúmplice do tempo…



A terra é cúmplice do tempo e às vezes amolece para que eu possa moldá-la e oferecer-lhe o tom que me apraz à alma.
Aqueles dias em que parece faltar-nos o chão no deslizar inseguro que qualquer “chuva” deixou; o nada que se sente...
É tão mais fácil impor a nossa cor a uma tela despida do que à sobreposição de outros traços que nos são alheios.
E com o barro moldo pastores, os magos, a Virgem, São José, e crio um trono para o Menino, Jesus deitado entre pombas que não esvoaçam mas cumprem uma coerência de paz.
E com os dias moldo uma escada para a minha mais íntima e profunda fé, às vezes partindo de um ponto que sabe a quase zero.