terça-feira, 23 de agosto de 2016

Os segredos do mar



O verão existe para revelar os segredos que durante muito tempo o mar tentou guardar só para si.
Um esforço inglório, agora que os vejo nítidos e salgados a espreitarem sílaba a sílaba por detrás do meu copo a que alguém ofereceu o tom fresco do vinho branco com um indisfarçável aroma da fruta madura do pomar.
Trouxeram um sofá para a praia e eu sento-me, recosto-me; a areia nos pés, uma escada suave de rochas e algas à minha frente.
Parava aqui o tempo, travava o sol para que as ondas que sobem timidamente até aqui persistissem cor de fogo a falar-me de um amor que as águas tomaram por reflexo na margem de um rio. As águas que a foz depois perfumou de sal.
Porque sempre à tua volta, eu sei que são redondos todos os meus pensamentos.
E também sei que os segredos guardados pelo mar não são mais do palavras nossas que o sol destapa ao fim da tarde no despudor que lhe oferece o verão.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Vila Viçosa




Acaricia-me com as tuas ruas
Beija-me doce com a fonte da praça
Sossego suave em todas as luas

Leito eterno de laranjas que me abraça


Sobre almofada em folha de oliveira
Entrego então ao céu, fiel, o coração
Com o castelo ali junto à cabeceira
E uma prece à Virgem da Conceição

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Quem nos fez assim sonhava a liberdade...


Avançaremos juntos pelas tardes longas de domingo: roupa colorida, os anos oitenta a espreitarem pelo cabelo, viola a tiracolo, o riso entrelaçado às palavras, as mãos rebeldes acariciando a giesta ou os medronhos maduros, a fé à solta e livre nos abraços.
Somos imortais cruzando as muralhas semeadas pelo tempo e tomando de cada pedra do caminho a esperança que soletra em prece… Ave Maria.
Senhora do sorriso, Mestra Mãe da ousadia das nossas madrugadas…
Em Vila Viçosa na hora em que o sol se prepara para fugir para lá do Jardim das Damas, a fachada de cal da igreja da Senhora da Conceição incendeia-se de luz, indiferente às sombras que as muralhas e as árvores tentam em vão impor-lhe ali bem dentro do Castelo.
Senhora do sol, Senhora de todas as nossas horas…
Quem nos fez assim sonhava a liberdade.
Somos imortais como a cal que se incendeia nas tardes do sul.

domingo, 14 de agosto de 2016

Os amigos são abraços mas daqueles com sofá…


Os amigos têm o nome desenhado a canela sobre dias de arroz doce, são o primeiro violino num solo feliz a rasgar o palco que parece vazio; os amigos enfeitam-nos todos os minutos com balões acesos e coloridos, e nas ruas por onde andamos, são hortênsias azuis nas varandas de onde melhor se abraça o mar.
Têm olhares que nos oferecem sombra no repouso calmo da tempestade que amainaram, enquanto as suas mãos nos beijam com o aroma do mel e o fulgor da água fresca da melhor fonte.
Os amigos são o luar que brilha sobre as noites de Janeiro, o sol das tardes de Março que puxam a primavera, os amigos são o café que fumega por sobre a sonolência com que nos descobre a madrugada.
São abraços mas daqueles com sofá para que estejamos sempre cómodos e a gosto.
Os amigos são a primeira página de um jornal que relata a nossa sorte, são o não ou o sim numa jogada feita para ganhar, são a bênção de limão sobre os instantes que não sabem a nada, o gelo na água assim-assim, os amigos são palavras maduras entrelaçadas em taças de cerejas que jamais terão fim.

sábado, 13 de agosto de 2016

Ofereço à mão o gesto redondo de uma nova caligrafia...


Ofereço à mão o gesto redondo de uma nova caligrafia como quem polvilha de açúcar todas as coisas que ousamos dizer.
Foi o vento que sob o céu azul de verão desenhou o cavalo de nuvens que me levou a galope até ao sopé da montanha onde repousas à minha espera.
Enleámos o desejo, demos às mãos um sentido de carícias e deixámo-nos estar naquele abraço que nunca tem tempo de acabar.
A sombra da enorme bétula escondeu por momentos o cavalo que segue feliz a brincar por agora com uma bola gigante que o vento lhe ofereceu.
Terei de dizer-lhe que não quero voltar ao silêncio.
E as palavras que segredamos um ao outro no exíguo espaço do abraço são um mapa, as coordenadas das nossas vontades, confidências expressas em letras que vou desenhando lentamente dando-lhes na forma a coerência doce da essência... com a minha melhor caligrafia.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Trouxemos o verão para a mesa…



Trouxemos o verão para a mesa a bordo de um prato de ameixas roxas maduras; dispensámos a tão famosa meteorologia na hora de destapar com engenho o imenso cofre das palavras; fomos apagando o calor em copos de água fresca trazida da fonte…
E a vela com aromas de alfazema há muito rasgava a sombra que o ocaso tecera sobre nós, quando auscultamos pelo seu respirar que nem a noite cansa a ribeira que corre aos pés do carvalho onde o melro já se deitou porque muito cedo terá de cantar à madrugada.  
Estamos de férias no Gerês, eu e os meus pais, e quem nos vir assim de longe dirá que tirámos quinze dias para nos abraçarmos, rirmos e conversarmos; claro que por entre as cinco tomas de água bicarbonatada a quarenta e nove graus em dose medida em copos que parecem trazidos da “Montanha Mágica”.
Quinze dias sem pressas e aparentemente todos iguais.
Mas quem é que ousará chamar monótonos aos dias perfeitos onde o amor impera?
E a ribeira que nunca se cansa por entre o seu riso de água fresca.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Nós somos filhos e detalhes do sol...



Sempre que chegava a primavera e as papoilas tingiam ousadas e rebeldes o chão verde do Alentejo, nunca resistíamos a tomar nas mãos uma cápsula ainda por “rasgar”:
- Frade ou freira?
E as pétalas amarrotadas no exíguo espaço onde até aí viviam revelavam-se “freira” se tivessem ainda um tom rosado, ou seriam “frade” se de vermelho “explodissem” nas nossas mãos.
Havia um vencedor e um derrotado ali algures entre o canto feliz de uma roda, o jogo da macaca, o macaquinho do Chinês, as escondidas, o lencinho, o pilha três…
As pétalas ficavam depois a estender-se ao sol da seara enquanto nós crescíamos em liberdade “riscando” as madrugadas com tantas… com todas as nossas cores.
“Frade”, “freira”, vermelho, rosa…
Pouco importa se havia ou não um vencedor. Estávamos apenas a brincar.
O sol quando espreita pelas nuvens faz nascer um arco que não esquece qualquer cor.
Nós somos filhos e detalhes do sol.
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