sábado, 3 de setembro de 2016

A vida conta-se pelos rios que cruzamos...



A vida conta-se pelos rios que cruzamos, e enquanto deixo que anoiteça nesta Quinta-feira, primeiro dia de Setembro, eu já levo o Pranto, o Mondego, o Vouga, o Douro…
Medievo caminhante por entre o aroma de árvores queimadas e o cansaço, vejo-me de repente à entrada do velho Mosteiro, portão fechado, uma luz ténue e discreta a dar-me a esperança de não me ter enganado.
Há festa em Braga, não arranjei outro hotel na cidade e preciso de ir trabalhar muito cedo, um pouco antes das oito horas do dia seguinte. O sistema de marcação de hotéis sugeriu-me a Albergaria do Mosteiro de Tibães, mosteiro que apesar desta imensa face barroca é mais antigo do que Portugal.
Saio do carro e toco à campainha. Não tarda quase nada até escutar os passos e o rodar tão sonoro da chave que abre o portão.
Já é tarde, faltava apenas eu para que a lotação de nove quartos ficasse lotada e ainda terei tempo para jantar no restaurante. Tudo isto fico a saber pelo meu anfitrião enquanto a mala de viagem concebida para os pisos polidos dos aeroportos do Século XXI vai soluçando aos pulos sobre o granito que adorna passos desde o Século XI.
O quarto é uma antiga cela dos monges beneditinos que um arquitecto revestiu do melhor design do nosso tempo, persistindo no entanto as paredes imensas que impedem a rede do telemóvel ou o acesso à internet.
Não me demoro, desço ao restaurante, escolho o jantar que vou saboreando ao ritmo do serviço prestado por uma Irmã Carmelita que fala Francês porque nasceu no Congo.
Esta minha genética anti-silêncios conduz-me pelas perguntas.
Todos os hóspedes já recolheram aos quartos quando o relógio bate as 22 horas e a Irmã me interpela:
- No final do serviço vimos sempre aqui ao restaurante dar graças a Nossa Senhora pelo nosso trabalho e pedir por todos aqueles a quem servimos.
E concluiu:
- Espero que não se importe e se assim o entender pode rezar connosco.
E eu que até cheguei cansado, levantei-me da mesa e juntei-me às “monjas” em oração, entre o Português e o Francês numa Ave Maria ao toque dedilhado da viola.
Com novos ritmos, a fé junta-se às paredes de granito e dá coerência e perseverança atravessando o tempo que nós vivemos a cruzar os rios. Preserva a essência.
Acordo cedo, dou uma volta pelo jardim; soam cânticos da capela e já cheira a café na Sala do Pequeno-Almoço. O mesmo senhor de ontem abre-me a porta.
- Foi o último a chegar e é o primeiro a sair.
Peço que me faça uma foto na fonte da entrada.
- Um dia voltarei com mais tempo… para rezar.
Corre uma brisa fresca na manhã de Braga, um helicóptero sobrevoa-me o caminho rumo aos incêndios, o velho mosteiro espreita-me ainda no espelho retrovisor.
É tão bom sentir que os dias ainda encerram detalhes secretos e bons que nos surpreendem e nos beijam generosamente. 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Os beijos dos amigos são eternos



O silêncio é o melhor refúgio para espreitar com nitidez todas as lembranças.
São nove horas de uma Segunda-feira que vestiu o Tejo de um intenso azul, o instante em que muito provavelmente nos encontraríamos junto ao café:
- A Anabela vem hoje muito bonita.
- Muito obrigado, mas o Joaquim é um exagerado.
- Não sou nada. Os poetas é que não sentem pudor em colocar palavras sobre a verdade.
Hoje, aqui na igreja fria, resta-me o silêncio…
Conhecemo-nos há oito anos e ficámos a trabalhar lado-a-lado juntamente com o Rui que era bem-disposto e nos fazia rir aos dois. Fomos trabalhando e conversando, descobrindo-nos cúmplices em muita coisa, e sobretudo, nessa forma tão completa de viver o amor pelos nossos pais.
E havia sempre uma história bonita da Beatriz, o seu amor maior.
- Joaquim, o mundo às vezes parece não nos compreender.
- Anabela, o mundo está cheio da banalidade que nunca terá capacidade para entender quem é superior e especial.
Às vezes ao fim de semana o João aparecia com problemas na pele, eu tirava uma foto e mandava-lhe por MMS. A resposta e a generosidade nunca tardavam.
- Traga-o amanhã ao consultório.
E o meu sobrinho lá seguia feliz para a consulta, mesmo até disfarçado de astronauta por estar a caminho da festa de Carnaval.
Depois, sempre o mesmo gesto suave sobre a pele a denunciar que se nasce médico. As universidades apenas validam e certificam essa genética.
- Tenho aqui o seu livro para me dar um autógrafo.
- Aqui está e fico a aguardar o feedback.
Não o terei.
Estamos atónitos e tristes na igreja fria por onde passa em sombra o seu rosto adormecido para sempre.
- A Anabela vem muito bonita.
Dirá hoje o Céu com propriedade.
Nós regressamos ao trabalho…
Apenas os teclados dos computadores rasgam esse silêncio onde pululam as lembranças, mas um silêncio que faz doer e que é também o choro triste e abafado dos poetas
Ainda se nós os amigos tivéssemos pressentido que aquele era o último beijo, talvez nos tivéssemos precavido contra esta saudade.
Um último beijo?
Os beijos dos amigos são eternos. E o Tejo está cada vez mais azul tingido por um Céu que nos beija enquanto sorri.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Um pão que só o céu sabe amassar…



Como é possível acreditar que o campo se apaga, se rende inevitavelmente à solidão na praia vazia e aos pés do mar?
Não serão as ondas a festa de um abraço eterno que o querer não desafina nunca?
As praias eternas, cais moldados pelas milionésimas partículas de um tempo artífice, casas de água que oferecem generosos recantos à alma dos poetas, grutas profundas onde os sentidos se desatam e desatam todos os nós, até mesmo aqueles que escondem as palavras certas.
Comparadas com a alma e o pensamento, as gaivotas são na praia quem menos consegue voar.
E as ondas da praia são como as tardes improváveis onde o trigo e o sal se abraçam num pão que só o céu sabe amassar.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Os segredos do mar



O verão existe para revelar os segredos que durante muito tempo o mar tentou guardar só para si.
Um esforço inglório, agora que os vejo nítidos e salgados a espreitarem sílaba a sílaba por detrás do meu copo a que alguém ofereceu o tom fresco do vinho branco com um indisfarçável aroma da fruta madura do pomar.
Trouxeram um sofá para a praia e eu sento-me, recosto-me; a areia nos pés, uma escada suave de rochas e algas à minha frente.
Parava aqui o tempo, travava o sol para que as ondas que sobem timidamente até aqui persistissem cor de fogo a falar-me de um amor que as águas tomaram por reflexo na margem de um rio. As águas que a foz depois perfumou de sal.
Porque sempre à tua volta, eu sei que são redondos todos os meus pensamentos.
E também sei que os segredos guardados pelo mar não são mais do palavras nossas que o sol destapa ao fim da tarde no despudor que lhe oferece o verão.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Vila Viçosa




Acaricia-me com as tuas ruas
Beija-me doce com a fonte da praça
Sossego suave em todas as luas

Leito eterno de laranjas que me abraça


Sobre almofada em folha de oliveira
Entrego então ao céu, fiel, o coração
Com o castelo ali junto à cabeceira
E uma prece à Virgem da Conceição

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Quem nos fez assim sonhava a liberdade...


Avançaremos juntos pelas tardes longas de domingo: roupa colorida, os anos oitenta a espreitarem pelo cabelo, viola a tiracolo, o riso entrelaçado às palavras, as mãos rebeldes acariciando a giesta ou os medronhos maduros, a fé à solta e livre nos abraços.
Somos imortais cruzando as muralhas semeadas pelo tempo e tomando de cada pedra do caminho a esperança que soletra em prece… Ave Maria.
Senhora do sorriso, Mestra Mãe da ousadia das nossas madrugadas…
Em Vila Viçosa na hora em que o sol se prepara para fugir para lá do Jardim das Damas, a fachada de cal da igreja da Senhora da Conceição incendeia-se de luz, indiferente às sombras que as muralhas e as árvores tentam em vão impor-lhe ali bem dentro do Castelo.
Senhora do sol, Senhora de todas as nossas horas…
Quem nos fez assim sonhava a liberdade.
Somos imortais como a cal que se incendeia nas tardes do sul.

domingo, 14 de agosto de 2016

Os amigos são abraços mas daqueles com sofá…


Os amigos têm o nome desenhado a canela sobre dias de arroz doce, são o primeiro violino num solo feliz a rasgar o palco que parece vazio; os amigos enfeitam-nos todos os minutos com balões acesos e coloridos, e nas ruas por onde andamos, são hortênsias azuis nas varandas de onde melhor se abraça o mar.
Têm olhares que nos oferecem sombra no repouso calmo da tempestade que amainaram, enquanto as suas mãos nos beijam com o aroma do mel e o fulgor da água fresca da melhor fonte.
Os amigos são o luar que brilha sobre as noites de Janeiro, o sol das tardes de Março que puxam a primavera, os amigos são o café que fumega por sobre a sonolência com que nos descobre a madrugada.
São abraços mas daqueles com sofá para que estejamos sempre cómodos e a gosto.
Os amigos são a primeira página de um jornal que relata a nossa sorte, são o não ou o sim numa jogada feita para ganhar, são a bênção de limão sobre os instantes que não sabem a nada, o gelo na água assim-assim, os amigos são palavras maduras entrelaçadas em taças de cerejas que jamais terão fim.