domingo, 16 de outubro de 2016

Berlim é afinal a própria vida…



Quem vir o autocarro a passar assim tão ligeiro desde Oeste até à Unter der Linden poderá facilmente enganar-se no "preço" que tem a liberdade.
Até o céu limpo e o vento que cobre de Outono o chão do Tigarten parecem querer calar esses dias em que o horizonte se esbatia em cinza, então rendido ao olhar que de tão triste nos salgava a face.
E só o eco anónimo dos punhos doridos de tanto acudirem à alma, nos lembra aqui que a liberdade tem o valor infinito da fé dos Homens. E tem o “preço” de tantas vidas.
Berlim é afinal a própria vida.
Há muito que ruíram os muros onde viviam amordaçados os nossos abraços, e as palavras que desenhamos agora em prosa sob as tílias são as nossas, porque são o canto do peito embalado pela verdade.
O amor que cede e se rende à vergonha é o suicídio por negação da própria vida.
Um Homem que esconde os seus beijos é um moribundo mutilado cruzando a História.
Nada é tão nosso quanto o amor e a liberdade, e enquanto cruzamos as ruas perdendo-nos algures entre o leste e o oeste, deixando-nos acontecer; sabemos que mesmo que o olhar nos salgue a face, será porque a alma se emocionou feliz num beijo, e não tem outra forma de o dizer.

sábado, 8 de outubro de 2016

A doce liberdade dos meus passos…



É preciso que a tarde nos prenda para aprendermos a saborear a liberdade dos nossos passos.
Recordo-me do som estridente das fechaduras nas portas de ferro que se cerram automaticamente atrás de mim, o pátio sombrio rasgado por poucas janelas e muitas grades, os corredores longos onde consegue palpar-se a solidão...
Deixei o telemóvel na entrada, não tenho relógio, venho sem tempo e com todos os meus livros; que nada mais existe para mostrar com tanta verdade aquilo que eu sou.
Serão vinte homens que chegam aos poucos e me vão apertando a mão, preenchendo o espaço da biblioteca onde se sentam depois à minha frente. Vim passar a tarde ao Estabelecimento Prisional de Vale do Sousa, em Paços de Ferreira.
"Porque é que fez tantos quilómetros para nos procurar, logo a nós de quem o mundo foge?"
Gosto de conversar olhos nos olhos sobre aquilo que sinto e vou desenhando por palavras. E as pessoas são a alma, muito mais do que a história que a vida e as circunstâncias lhe vão oferecendo. Trairia a minha fé se pensasse e sentisse de outra forma.
"Um escritor é um solitário?"
Muito pelo contrário. Afasto a solidão das noites em que estou só trazendo pessoas e afectos para aquilo que crio e depois escrevo.
"É o que nós fazemos na cela quando desligamos a televisão e sonhamos".
Todos os Homens podem voar porque não há grades que nos cerrem o pensamento.
"Mas o mundo nunca nos perdoará esta traição".
Talvez a gente aprenda um dia que aquilo que conta é o futuro.
"Tenho medo de envelhecer a sonhar por entre uma vida vazia".
O sonho rejuvenesce. Reinventamo-nos e assim renascemos.
Peço-lhes um tema para escrever sobre eles.
"As injustiças da justiça".
Como irei falar sobre isto?
Acabamos a tomar um café e a comer línguas-de-gato.
"Promete-nos que voltará para nos falar de si e dos livros que entretanto escrever".
Prometo.
"E o que achou de nós relativamente ao que lá fora se diz a nosso respeito?"
Voltarei muitas vezes e sempre com as histórias dos meus avós e do papagaio do Senhor Ezequiel, aquele que na janela em frente à minha me ensinou a falar.
Por vezes viajamos para tão longe quando há tanto mundo desconhecido aqui mesmo ao lado.
Regresso também ao telemóvel, reconcilio-me com o tempo e reparo que passaram três horas e ultrapassei largamente a hora e meia prevista para a sessão.
Despeço-me dos anfitriões da direcção da cadeia que me receberam superiormente.
O chão que piso tem terra, alguns ouriços que caíram dos castanheiros e libertam frutos. Olho de longe o arame farpado e as grades nas pouquíssimas janelas das paredes da prisão.
Faço uma foto...
A doce liberdade dos meus passos.
Tenho fome e paro depois mais à frente numa Área de Serviço, trincando a sandes de presunto enquanto olho os jornais e as revistas no escaparate.
"Ricardo Salgado organiza festa num hotel de luxo em Lisboa".
"As injustiças da justiça".
A venda que tapa os olhos à justiça é vulnerável ao dinheiro e ao poder que a compra matando a isenção.
Em Portugal onde a injustiça é politicamente ambidestra, resta-nos a nós, os "fracos", o pensamento, para que voemos entre grades enquanto trincamos línguas-de-gato e brindamos com café e muitas palavras.
E hoje, junto à janela onde o mar nunca me falha, autografo livros da “Bolachas Mágicas…” para enviar na Segunda-feira e para que possam chegar às mãos e às noites das crianças que estes homens têm na vida.
Porque a magia é como o pensamento e nunca cede perante as grades.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

MARIA DO ROSÁRIO


Naquele Natal de mil novecentos e oitenta e quatro, na Quinta de Santo António, em Évora, persistia um aroma intenso a laranjas maduras no pomar próximo da varanda de cal de onde se espreita a cidade e o aqueduto.
Íamos até lá depois do almoço, pisando o musgo dos carreiros e agradecendo o sol que brilhava para nos proteger do frio, “sorvendo” intensamente tudo aquilo que morava naqueles dias vividos ao jeito de quem reza.
Sem nada entre nós e a liberdade, quem reza assim, num abraço, sente que o Céu lhe fala mais próximo e sem perder tempo; que a voz dos anjos usa sempre as palavras soletradas pelos lábios e a alma de alguém.
Era pois o Céu a falar-nos ao ouvido na toada doce e suave que o campo do Alentejo sempre oferece ao falar.
Quem tem fé nunca olha para cima, olha em frente; e das varandas de séculos caiadas ao sol de verão nascem castelos de onde ousamos sonhar-nos muito para lá do previsto e das cidades dos Homens que a vista nos oferecer.
O Céu pedia-nos para sermos autênticos e em mil novecentos e oitenta e quatro até as rádios eram piratas como nós.
Rosário, lembro-me bem do quanto falámos e de quantas ruas rebeldes já a vontade nos ia desenhando no peito, por entre as laranjas e os orégãos que também nunca secavam por ali.
Há sempre um tempo em que o viço se apaga no olhar, secam as flores, para que possamos saborear o açúcar que o sol “escondeu” nos frutos. Porque nós somos muito mais daquilo que se sente do que daquilo que os outros possam ver de nós.
E para nós os dois, poetas, o tempo conta-se pelos beijos que demos, porque são deles que nasce tudo e todos os que importam. Não interessa se há ou não flores, se somos iguais, diferentes ou não, interessa apenas o mel que soubemos trazer para dentro dos dias.
Quanta vida desde esse tempo de meninos, e hoje que nos vamos espreitando nas palavras que escrevo e nas palavras que tu desenhas na rádio que eu escuto.
Num destes dias prometi escrever algo para ti, como faço algumas vezes para os amigos especiais. Juro-te que não sei se sou ou não escritor, ou se apenas e só um “mestre pasteleiro” que junta as letras naquele tom adocicado que as palavras podem ter.
Não procurei rimas nas sílabas mas tão só no orgulho de te ter como amiga e de sentir que a nossa vida é tanto mais importante quanto a nobreza das pessoas que se vão entrelaçando nela.
Muito obrigado.
Que bom ver-te assim uma mulher fantástica de alma grande, e saber como perduram os frutos dessa fé que adoça e que tomámos juntos do sol que abençoou o Natal do nosso ano de mil novecentos e oitenta e quatro.
Um beijo de parabéns.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Golden girls and boys



A fé enleia-se no tempo e faz-nos perder na idade, qual fita que se desprende rebelde de uma cassete onde gravámos 50...
Não, muitos mais, bem para lá de mil anos contados entre beijos, sonhos e risos.
Ainda hoje sabemos de cor o caminho para o colo dos nossos pais que será eterno como o seu abraço feito de vontade e dado de improviso, o abraço que pinta as memórias de todas as cores mesmo que estejam gravadas no papel fotográfico a preto e branco.
As mesmas cores das ruas onde brincamos até à hora do jantar quando as mães aparecem à janela e nos chamam sempre pelos dois nomes de baptismo: Joaquim Francisco, Júlia Albertina…
O carrossel oito da Feira Popular roda no mesmo sentido do pião que a guita, certeira, atirou ao chão. Rodam como o LP de vinil que saiu no Natal com os sucessos do ano, e rodam do jeito com que vamos sonhando o mundo.
Ali ao pé, uma boneca sorri como antes na prateleira do quarto onde mais tarde perdeu protagonismo para o poster dos Bee Gees ou do Travolta.
Outras voltas...
De carro, num pássaro de folha, num avião a pilhas que o Pai Natal da empresa do pai nos ofereceu ou no desenho picotado com arte nos trabalhos manuais.
Hoje é domingo e a mãe fez um Pudim Boca Doce com sabor de baunilha para sobremesa do jantar.
Temos sorte...
Com os vinte e cinco tostões que o tio nos ofereceu já tínhamos lanchado umas línguas de gato e uma Laranjina C.
Este nosso tempo tem tanto açúcar que até os cromos da bola vêm a enrolar rebuçados com aromas de fruta.
O tempo...
Esse que até fez autocolantes os cromos que antes colocávamos na caderneta por generosidade da Cola Tudo.
Esta coisa da idade...
Cinquenta anos.
Com tantos sonhos que carregamos ainda estamos tão longe do meio da vida.
O ponto intermédio da eternidade é ele próprio a eternidade.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Enquanto o ananás vai espreguiçando o seu amarelo no fruteiro de uma qualquer sala de hotel…



Paciente, o ananás vai aos poucos matizando de amarelo o fruteiro para onde a ilha também enviou maracujás.
- O senhor levantou-se muito cedo e nós temos um buffet de pequeno-almoço ali no bar da recepção.
Agradeço e tomo um sumo de laranja enquanto espero o táxi.
A paixão põe o corpo a tiritar e torna vadio o pensamento, por entre esta sensação de nunca envelhecer. Porque aos quinze anos e no Outono de Vila Viçosa também já era assim.
- Boa noite.
- Bom dia.
Percebo rapidamente que o motorista do táxi ainda não se deitou; um homem que sorri, muito pequeno de altura mas de braços fortes que elevam facilmente a mala que trago carregada, entre outras coisas, com Massa Sovada e uma caixa de pacotes de açúcar da Sinaga para a colecção do meu irmão.
O sol ainda não nasceu e eu tenho este vício de não abandonar os minutos ao silêncio. Deito palavras tontas mas de água quente sobre o frio escuro da viagem conjunta de dois desconhecidos:
- A esta hora ainda não há trânsito e circulamos muito bem.
E já não nos calamos até ao aeroporto.
Passo a segurança e sento-me a tomar um café...
O sapato esquerdo continua a apertar-me o pé e ainda há pouco no quarto busquei uma calçadeira abrindo a gaveta da cómoda. Não a encontrei mas descobri uma Bíblia em Inglês e uma seta que percebi estar virada para Meca.
Deus está em todo o lado mas os Homens atribuem-Lhe coordenadas e fecham-no em palavras e gavetas.
Lá fora já amanheceu e o pensamento segue vadio sem cordas ou Astrolábios, e sobretudo sem outros "Cabos" para abraçar que não os teus braços.
O voo hoje não se atrasou e eu cruzo rapidamente as nuvens, adormecendo no exacto ponto onde o despertador me tinha apanhado às seis horas e vinte minutos da manhã.
Não há madrugadas tão doces quanto as dos Homens apaixonados, porque mesmo que "Deus" repouse nas gavetas dos quartos de hotel, a fé anda à solta pelos silêncios e pelo mar fora.
Cruzando o céu…
Enquanto o ananás vai espreguiçando o seu amarelo no fruteiro de uma qualquer sala de hotel. 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Nem um só minuto…



Sempre que referíamos que o tempo passava demasiado depressa, a minha avó Natividade dizia congratular-se com tal facto, garantindo que quando ela tinha de trabalhar de sol a sol e esperar pelo sábado para receber o parco salário, o tempo era insuportável e dolorosamente lento.
Assim, cedo aprendi que sobre o sentido racional do tempo, os dias são directamente proporcionais à solidão, e, pelo contrário, inversamente proporcionais ao pão.
E a solidão é tudo aquilo que dói, e o pão é a festa do trigo que nos enche os dias.
Sobrevoei há pouco o Convento de Mafra, vi a Ericeira tomando o Atlântico como rumo até aos Açores e à Ilha Terceira.
No banco atrás de mim segue um casal Australiano que fala em Inglês fluente com um “rapaz” Português.
Os estrangeiros confessam vir aos Açores “com pressa” pois não querem partir desta vida sem cumprirem a promessa que fizeram nos anos cinquenta aquando da erupção do vulcão dos Capelinhos. Da Terceira seguirão para o Faial.
O Português que diz chamar-se Manuel e ser oriundo de uma família de Braga, confessa ter planos para ir até ao outro lado do mundo, à Austrália, mas não tem pressa; afinal de contas já confessou ser da idade do Cristiano Ronaldo.
E aqui estamos todos sentados no mesmo instante cumprindo o mais objectivo sentido do tempo, mas uns com pressa, outro sem ela, e eu, um tonto que decalca palavras sobre os sentires da alma, que os escuto sabendo que o tamanho dos dias, o dita afinal a paixão, ganhando um travo a infinito quando tu não estás.
Sim, é verdade, tu és o trigo que me alimenta.
Existisse então um relator nesta “conferência” em que eu cumpro o pecaminoso papel do ouvinte indiscreto, e sempre se poderia concluir que, lento ou rápido, importa que nem um só minuto se deixe órfão da nossa vontade.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Talvez por isso o Outono continue a ser ainda hoje a minha estação preferida...



Quando caíam, castanhas, as folhas dos plátanos, sobre o caminho do liceu à Porta do Nó, o Outono já tinha apagado as diferenças que existiam entre nós: os amigos que podiam ir passar férias à praia já tinham regressado a Vila Viçosa com histórias que iam partilhando connosco, e estávamos novamente todos juntos.
Talvez por isso o Outono continue a ser ainda hoje a minha estação preferida.
Tínhamos horários impressos e oferecidos por diferentes marcas, folhas mais ou menos coloridas contendo espaços relativos aos dias da semana e às horas, e íamos juntos até cerca das vitrinas da escola buscar informação sobre o plano de aulas para a nossa turma. Depois jurávamos sobre as folhas imaculadas dos cadernos e dos livros que aquele ano iria ser fantástico.
Havia marmelos no fruteiro que a mãe às vezes cozia para a sobremesa do jantar, àquela hora em que o corpo pedia agradavelmente um casaco ligeiro para enfrentar o fresco libertador das agruras do estio.
Reluziam diospiros nas árvores por cima do parapeito onde a marmelada e o doce de melão secavam ao sol sob recortados pedaços de papel vegetal; e ao lanche comíamos um papo-seco com geleia, um pouco antes de ir até à Livraria da D. Joana onde às vezes assávamos bolotas no aquecedor para entretermos as mãos enquanto da nossa conversa se soltavam milhares de histórias.
Ao serão lia a Crónica de D. João I com a tia Maria e aprendia quem era o Conde de Andeiro.
Sentado agora junto à janela no primeiro dia de Outono de 2016, escrevo aqui enquanto a memória se entrelaça nestes sabores e em todos estes detalhes.
O entardecer trouxe uma brisa e a sala agradece-se assim aconchegada pela penumbra que vou esticando até ao ponto de quase não ver as letras.
O tempo cerrou uma cortina, “refrescou” lentamente o sol, pintou o jardim do tom mel e castanho do repouso, e devolveu-me a casa, devolvendo-me afinal a mim.
É isto o Outono.
E estávamos novamente todos juntos…
E tão bem aqui comigo, eu sei que os amores que cruzam o Outono são aqueles que nos marcam a vida.
Talvez por isso o Outono continue a ser ainda hoje a minha estação preferida.