sábado, 12 de novembro de 2016

Aproveitando a ousadia que mora nas madrugadas…



Aproveitando a ousadia que mora nas madrugadas, eu pintarei um dia inteiro de azul e sairei depois a voar contigo.
Sobre os montes, o preconceito, os medos e sobre o tempo, essas horas que os beijos estreitam e a saudade dilata.
Haverá laranjas a espreguiçarem-se maduras, romãs a explodirem grenás no verde matizado do Outono, o voo atento do melro ainda moço na encosta que mira ao sul.
A história de um Homem é a memória dos seus beijos num voo assim tranquilo sobre o tempo como Redford e Streep sobre a savana em brasa.
Talvez nos lembremos mais dos beijos que não terminámos do que dos outros que chegaram aos lábios e fizeram entorpecer as palavras.
Num dia assim tingido de um intenso céu voltemos à casa onde os beijos adormeceram e esperam que os resgatemos desse ser tão só uma intenção.
Talvez o melro já tenha descoberto o tom rubro da romã...
Nunca chegaremos tarde quando se trata de acertar a nossa história. Para isso vem carregada de ousadia cada manhã.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Somos eternos cúmplices e irmãos de todas as flores de entre Abril e Maio…



A poesia não se rende e por isso o nosso sonho persistirá sobre todas as manhãs de Outono, mesmo as mais sombrias.
Quando acreditámos que os muros ruíam e as suas pedras desgastadas morreriam envoltas pela erva de milénios, quando estreitámos o mar na agonia das fronteiras, quando esquecemos os detalhes e nos demos as mãos… cumpríamo-nos pelo compromisso com a liberdade que a alma nos “impunha”.
Fomos cúmplices e irmãos de todas as flores de entre Abril e Maio.
Mas, distraídos, esquecemo-nos que o tempo desenha circunferências moldando a História, e que breve chegaríamos a este dia em que as pedras saltam para novos muros, os Homens morrem afogados na areia fria das novas fronteiras, e até Deus ganha novamente uma perspectiva bélica de cruzadas sem fim e outros “santos ofícios”.
Foram os políticos que desceram até ao circo e se misturaram com os “palhaços”, ajudados por nós que os camuflámos por via da crença e da ideologia.
Inventámos desculpas para os desonestos, idolatrámos os medíocres, tolerámos muito facilmente os imbecis e os incompetentes… demasiado e até ao ponto em que todos são igualmente maus.
Valham-nos então e sempre a poesia e a fé.
Corramos descalços sentindo o toque da terra e das ervas molhadas, de encontro aos beijos que quisermos dar; calemos as pedras que nos devolvem aos guetos onde o superficial divide e mata a mais doce essência da alma, o amor.
Os nossos corpos nasceram para lutar descansando mais tarde nos abraços.
O nosso canto tem raízes de primavera e tom de cravo, de liberdade.
Vivamos e apaixonemo-nos, sabendo que viver é não deixar que alguém um dia nos desmanche o sonho… por mais que nos pareçam sombrias as manhãs de Novembro.

domingo, 6 de novembro de 2016

E a tanta vida que se espreita de ao pé de ti faz-me sentir imortal…



A nossa casa de primeiro andar tinha na sala um móvel onde os vidros tilintavam sempre que passávamos. Recordo-me bem.
Mas nem a estridência desse som me acordava quando ao regressares do cinema me pegavas ao colo transportando-me da tua para a minha cama.
A mãe adormecera-nos depois de rezarmos ao Menino Jesus, enquanto tu estarias de volta da velha máquina de projectar que funcionava bem quando se alinhavam dois pedaços de carvão com a forma de um lápis.
Nas noites simples nessa casa da Rua de Três, em Vila Viçosa, os teus braços deixavam espreitar para o amor a que consigo ser fiel quando sou maior. O amor que transporta em si a força de um castelo de onde se conquista o universo; heróis armados pela vontade, às cavalitas, como num imenso beijo, e com o riso em vez de espada.
Aprendi contigo que o tempo só permite cumprir os sonhos se os nossos passos lhe lembrarem todos os dias qual o sítio para onde queremos ir.
Desfrutámos tantas vezes da agonia dos impossíveis sob o perfume da liberdade; e construímos juntos os papagaios de papel que depois pusemos a voar.
Na mesa da cozinha ficava sempre um bolo em forma de pato que compravas na Pastelaria Azul no regresso do cinema e que eu comia na manhã seguinte ao pequeno-almoço.
O amor mora sempre nas coisas mais simples.
Parabéns pai.
Que bom ter-te aqui para ainda hoje continuarmos a brincar e a ver quem tem mais cócegas.
Continuo a ser um dos teus dois gaiatos, e a tanta vida que se espreita de ao pé de ti faz-me sentir imortal.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

“Alentejanados”



Quando a minha avó Francisca ceifava trigo de sol a sol e a minha mãe, com dez anos e depois de terminar a instrução primária, lhe preparava e levava o almoço ao campo, sobrava-lhe o domingo para ir até ao ribeiro lavar a roupa. Mas quando chegava o inverno e as mãos adormeciam na geada agreste que envolvia as azeitonas que apanhava desde madrugada, sei que poucas vezes deixava de roubar tempo ao descanso para ir rezar na novena da Senhora da Conceição.
A minha avó, que viu o mar pela primeira vez na Nazaré quando íamos a caminho de Fátima, e quando eu, adolescente, já tinha um histórico de banhos na praia, será sempre um dos meus maiores exemplos de fé e de honestidade.
Ali em vila Viçosa, num profundo e doce Alentejo.
A fé é a alma toda e a religião será sempre uma casa de Deus com muitos traços da responsabilidade dos Homens, esses mesmos Homens que definem regras e colocam a moral por cima da honestidade que põe à superfície da pele e na cor dos gestos, o tom da alma e da fé que a perfuma.
E o trabalho é a expressão da fé dos pobres que se fazem heróis e próximos de Deus na genuflexão sobre as pedras frias dos ribeiros ou nas Ave Marias quando a geada que envolve os frutos substitui as pérolas envoltas em ouro dos terços dos poderosos.
O novo Bispo de Beja afirmou hoje que Portugal está “cada vez mais “alentejanado’” em termos de fé cristã, com religiosidade pouco evangelizada, prática dominical muito reduzida e vida moral desvalorizada.
Se fosse mais atento talvez pudesse ver para lá do óbvio e sentir e palpar as expressões da fé do seu “povo de Deus”, que estão onde deveriam estar, muito para lá das janelas das sacristias onde a moral é tantas vezes um exercício de retórica utilizado como pano opaco de veludo sobre a desonestidade e o “pecado”.
Talvez lhe fizesse bem ser mais “alentejanado” e sair do palácio onde habita e descer do púlpito de onde prega para aprender com a simplicidade dos demais.
O Alentejo é um canto da alma nascido das raízes da fé, Senhor Dom João Marcos.

sábado, 29 de outubro de 2016

Nós somos da fé e da alma...


Atrás de mim sinto as estrelícias a espreguiçarem-se ao sol, enquanto um velho tocando acordeão se aproxima da minha espera: o chá de jasmim teima e não arrefece.
O som da moeda sobre o fundo da lata de atum de conserva vazia e já ferrugenta parece alinhado com a partitura transparente deste anónimo Piazzolla que hoje veio rasgar-me o silêncio.
A cidade está cheia de Santos, criaturas improváveis, Anjos erguidos e caminhando assim entre as flores e o sol de um quase meio-dia decalcando letras sobre as folhas vazias dos poetas.
Nós somos da fé e da alma, da eternidade e dos sepulcros vazios…
Que importará o vento que disperse as nossas cinzas e a forma e o género dos corpos que dão gesto ao amor que sentimos?
Nós voaremos sempre para lá do horizonte que os ciprestes desenham em pose triste, para lá do Gólgota onde as cruzes adormecem sob o pó dos entardeceres de Jerusalém.
As capelas onde nos sepultarem encerrarão sempre uma ilusão do Deus que nos abraça em cada entardecer e a quem rezamos com a cumplicidade do mar.
E os nossos beijos serão sempre muito mais do que o pragmático encontro dos lábios que suspenderam por instantes as palavras, serão a casa para onde o amor trouxe a vida toda.
Enquanto os Anjos tocam pela cidade.

sábado, 22 de outubro de 2016

A nossa história...


A nossa história poderá contar-se pelas ruas que pisámos. As calçadas são relicários, e por mais anos que passem eu jamais esquecerei os tons e as sombras do Outono desta "Sétima Colina" de Lisboa.
A Maria Guinot cantara "Silêncio e tanta gente" na Eurovisão há pouco mais de seis meses, melodia que me assolava bastas vezes ao assobio quando passava ali pela Rua da Escola Politécnica e a D. Pedro V. Como se tivesse sido inventada para mim.
Chegava de Vila Viçosa para estudar na Faculdade de Farmácia, e esse Outubro de 1984 ofereceu-me um quarto na sede da Fundação da Casa de Bragança, ao Príncipe Real.
Em casa, o Senhor Francisco e a Dona Engrácia, colegas dos meus pais e até aí meus desconhecidos, iam tornando-se aos poucos meus avós, ao redor das horas que passávamos a conversar e confirmando a pura e perfeita genética dos afectos.
No jardim sentava-se um velho estranho que nos dizia bom dia e conversava com quantos passavam, curioso por ver os livros que transportávamos debaixo do braço. O Professor Agostinho da Silva subia desde a sua Travessa do Abarracamento de Peniche para ficar horas por ali, onde, e com alguma sorte, também me poderia cruzar com o Alexandre O' Neill a entrar no “Tascardoso” ou o Baptista Bastos no “Snob”, à Rua de O Século. No talho encontrava às vezes a Simone de Oliveira.
“Se uma gaivota viesse…”
Não era preciso. Desde o céu de Lisboa, as folhas caiam rubras sobre esse Outubro sempre que eu passava pelo Jardim Botânico para jantar na cantina da Faculdade de Ciências e de caminho comprava iogurtes na mercearia e carcaças na padaria que também vendia Queques e Bolos de Arroz. Se não havia muito para estudar passava pelo quiosque e comprava o vespertino "A Capital" para ler as notícias deixando sempre o melhor para o fim: as Palavras Cruzadas.
Soares era Primeiro-Ministro na altura em que o PS ainda "dormia" com a direita, e nós fazíamos greve porque o Ministro José Augusto Seabra aumentara as refeições de cinquenta e cinco para setenta e cinco escudos. Não tardaria a ser substituído por João de Deus Pinheiro.
Depois do São Carlos, as óperas passavam pelo Coliseu em versão económica e… incómoda; que na geral, as pernas dos que estavam atrás impediam-nos de ter encosto. No Coliseu também cantaria a Bethânia, mas mais para meados de Março. Antes, havia que comprar isqueiros descartáveis para ir ver o Fausto à Aula Magna mas com um certo toque de requinte.
As manhãs de sábado eram perfeitas no Chiado, depois de descer a Rua da Rosa, sem turistas mas com vendedores em delírio de pregões; e com sorte talvez tomasse o café na “Bernard” ao som das gargalhadas estridentes da Graça Lobo.
A “Livraria Bertrand”, a varanda do “Eduardo Martins” na esquina da Rua Garrett com a Rua Nova do Almada, a missa na Basílica dos Mártires, “O Expresso”, uma “Frigideira de Carne” comprada na Pastelaria Suíça… E o regresso a casa no autocarro de dois pisos da carreira 39, que tinha um “Pica” simpático, por certo percursor do agora cantado e famoso do 7.
No domingo talvez desse um salto à Luz para ver o Benfica, chegando cedo para ocupar um lugar central no terceiro anel, então ainda incompleto e com vista para Monsanto. O Maniche, o Dinamarquês, marcava então golos toscos e o Bento voava nas balizas.

Aparco o carro no Camões e ainda há pouco virava no Rato em direcção a São Mamede. Não me lembro desta vez de ter olhado para São Pedro de Alcântara ou para a loja das lâmpadas, agora pastelaria para turistas, cujo dono era parecido com o Mortimore.
Mas neste Outubro de Lisboa, entre duas ruas ajeitei trinta e dois anos, um instante, não fora o espelho do elevador do parque revelar-me as cãs e algumas, muito poucas, rugas.
Já à superfície, Outubro pede castanhas, já se sente o frio; e eu passo do Camões para o Chiado com a música da Maria Guinot presa a mim por via do inevitável assobio.

domingo, 16 de outubro de 2016

Berlim é afinal a própria vida…



Quem vir o autocarro a passar assim tão ligeiro desde Oeste até à Unter der Linden poderá facilmente enganar-se no "preço" que tem a liberdade.
Até o céu limpo e o vento que cobre de Outono o chão do Tigarten parecem querer calar esses dias em que o horizonte se esbatia em cinza, então rendido ao olhar que de tão triste nos salgava a face.
E só o eco anónimo dos punhos doridos de tanto acudirem à alma, nos lembra aqui que a liberdade tem o valor infinito da fé dos Homens. E tem o “preço” de tantas vidas.
Berlim é afinal a própria vida.
Há muito que ruíram os muros onde viviam amordaçados os nossos abraços, e as palavras que desenhamos agora em prosa sob as tílias são as nossas, porque são o canto do peito embalado pela verdade.
O amor que cede e se rende à vergonha é o suicídio por negação da própria vida.
Um Homem que esconde os seus beijos é um moribundo mutilado cruzando a História.
Nada é tão nosso quanto o amor e a liberdade, e enquanto cruzamos as ruas perdendo-nos algures entre o leste e o oeste, deixando-nos acontecer; sabemos que mesmo que o olhar nos salgue a face, será porque a alma se emocionou feliz num beijo, e não tem outra forma de o dizer.