quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Agarro o tempo...


Agarro o tempo que me abraça e me sussurra histórias ao ouvido; cuidadosamente e com as duas mãos, não vá escapar-me entre os dedos, discretamente, aquele segundo que há muito desejo.

Há árvores jazentes na berma da estrada onde as pedras soltas me ferem o passo. Ardem-me os pés, mas se assim não fosse como poderia eu dizer que este é o meu caminho?

Não nos pertence nada para lá daquilo que se sente.

Tomei uma vara ali muito perto da fonte de onde bebi água fresca, e o pó que o meu corpo levanta e o vento arrasta, esmoreceu por instantes deixando claras as palavras.

Ai se eu fosse poeta...

Suspiro na saudade de um beijo no exacto momento em que descanso.

Libertava as asas destes "nãos" que as tolhem e calaria de vez a pequenez dos horizontes, entregaria à sombra das árvores a mortalha das inconsequências, e buscaria o mar que o meu medo insiste em selar nos búzios.

Continuo depois como quem acredita. Eu caminho para não fugir de mim.

No bolso, uma lanterna, a ousadia, e não vá a fé fraquejar; na boca, o respirar doce de uma Ave Maria.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

É a geometria...


Recordo-me bem do tom gélido da noite sempre que saíamos do Castelo pela porta da Torre de Menagem. Acudia-me com pressa o xaile da minha avó, macio e rodeado de cadilhos que davam para entreter as mãos.

Saio da novena da Senhora da Conceição com a minha mãe ao lado, e conduzo o carro que traça uma perpendicular com esse tempo de rapaz, ali por debaixo das alfarrobeiras que ladeiam o Pelourinho.

As mesas são compridas e oferecem um espaço generoso para as gargalhadas, que o riso mais do que o pão, nos envolve numa noite em que os plátanos não resistem mais à nudez e nos enfeitam os carros com folhas da cor do Outono.

Não importa se nascemos no mesmo ano, por acaso, sim, em 1966; não importa se partimos, se ficámos, o que foi que fizemos com o tempo...

Temos a cumplicidade suprema de quem brincou sobre o mesmo chão, e esta noite fria de Dezembro traça uma linha perpendicular ao tempo em que rasgávamos os joelhos nos troncos das árvores do Rossio para conseguirmos comer amoras.

Há instantes que nos cruzam com a nossa história algures pelas ruas onde nascemos... e brincámos.

É a geometria, raiz daquilo que somos.

O domingo de manhã deixou que a chuva descobrisse uma nesga de céu, que vejo desde o cimo da Praça olhando o Castelo.

Não tenho dúvidas, aproveitarei as asas que me ofereça a eternidade, e voltarei aqui para voar, rodopiando alegre sobre a fonte.

Talvez encontre um amigo para brincar, e estou certo, que comprovarei que de céu, já muito tinham todos os dias e essas noites em que as avós nos ensinavam a rezar.

 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O mundo inteiro…


No nosso quintal há uma gaivota que chega sempre ao fim da tarde para brincar com a giesta e o alecrim, e por isso nunca saberemos se Portugal é um pedaço de terra ou se é tão-só o próprio mar.
Os braços em cruz, pela fé, são mastros de caravelas que tomam do peito a vontade e partem traindo a solidão das praias, tatuando no vento um travo audaz e inédito de liberdade.
Nos espigueiros onde o milho adormece a sonhar o pão, no vinho que o sol aqueceu e escorre fiel dos nossos passos, nas encostas matizadas pelo rubro tom das cerejas, no canto do sul nascido dos abraços…  
O mar? A terra?
Não interessa perguntar o quê ou qual.
Está o mundo inteiro guardado nesta aparente pequenez: Portugal!

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Ter mãe é não envelhecer...


A nossa será sempre a linguagem perfeita dos silêncios onde as palavras não restringem o amor, oferecendo-lhe dimensão.

O nosso amor é a própria vida e jamais se deixará dizer, imune às métricas e a todos os humanos detalhes.

E o que teria um fruto para contar à árvore que o sonhou e de onde a primavera o faz nascer?

Quase nada.

Nós lemo-nos nos gestos, intuímo-nos no respirar, no riso… Sabemo-nos de cor, e o teu olhar desenha-me um banco de ervas na vizinhança de uma fonte de águas frescas. Sentamo-nos por ali, eu no teu colo, enquanto as tuas mãos baralham o tempo e calam todos os medos e os meus cansaços.

Eu sei que contigo aqui tão perto, os dias jamais deixarão de ter flores penduradas pelas esquinas de todos os segundos.

Ter mãe é não envelhecer.

Mãe, um beijo de parabéns.

domingo, 27 de novembro de 2016

É quando os sonhos entram…



No final dos anos trinta do Século XX, a distância entre Vila Viçosa e Lisboa tinha a enorme dimensão de seis horas de comboio e de um Tejo sem pontes que obrigava a navegar. Era o tempo das cartas, e a distância tornava-se cruelmente inultrapassável para quem não sabia escrever.

O meu avô Joaquim falava de um irmão mais velho, de nome Francisco, que partira cedo para a capital e de quem souberam muito pouco: o nome das três filhas, alguns outros detalhes da sua curta história; e a data da sua partida, muito tempo depois de ter ocorrido e sem que conseguissem sequer vir ao seu funeral.

Ontem na sessão de apresentação de "A noite em que os sonhos não entraram", a Marisa, que é utente e funcionária na Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa, juntou o apelido Caeiro e Vila Viçosa, lembrou-se de um bisavô de nome Francisco e veio falar connosco. A minha mãe lembrava-se do nome de uma das suas primas, Maria Carolina, a avó da Marisa.

As palavras dão corpo aos sonhos e os sonhos descobrem as pontas perdidas das histórias de todos nós, atando-as de seguida no cumprir de um doce sentido.

Às vezes não sei porque escrevo assim tanto, e outras vezes torna-se tão fácil perceber porquê.

É como se as letras fossem flores que enfeitam os degraus do tempo.

E a noite é afinal uma ilusão que os poetas desmontam facilmente transformando a lua num sol de raios infinitos e empurrando as nuvens que se intrometam entre si e a vontade.

É quando os sonhos entram...

Um abraço especial a todos os que fizeram com que este livro fosse possível e que ontem vestiram de sorrisos uma tarde de chuva.

Muito obrigado.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Na ponte sobre a auto-estrada…


Na ponte sobre a auto-estrada, um homem segura a bicicleta enquanto olha para longe, para o sítio de onde eu venho. O sol alinhou-se momentaneamente com os raios da roda traseira e ganhou o estatuto de uma imensa laranja com gomos de luz.

Eu passo em direcção ao sul, rápido, e este instante intercepciona a minha pressa com a tarde estirada e lenta de um "velho" a quem pouco mais resta do que o horizonte para se entreter.

Cabe tudo no mesmo segundo.

Talvez o homem regresse agora do campo e traga diospiros maduros no cesto de verga que vislumbrei atado à parte traseira do veículo que usa como uma imensa bengala que desliza sobre as pontes e as veredas.

Se o verão não tivesse acabado, jamais os nossos passos se revestiriam de ouro neste caminhar sob os plátanos que Novembro vai despindo lentamente.

Eu juro que um dia porei a pressa no bolso e olharei contigo todos os horizontes que o ocaso pinta de vermelho por sobre o plúmbeo tom das nuvens na premonição de chuva.

Os dois como um "velho" solitário numa ponte da auto-estrada, algures por aí, enquanto os frutos do Outono se espreguiçam ao sol.

Tudo se ajeita num mesmo instante e não existe um fim que não seja simultaneamente um começo...

Basta que a vida se cruze com a liberdade que a reinventa e a seduz, por entre as palavras de amor que ousamos ir inventando, como gomos doces de uma laranja nascida em contra-luz.

sábado, 19 de novembro de 2016

Tanta vida, a minha voz…



A memória veste-me uns calções curtos do tecido castanho que sobrou de um fato do meu pai, e senta-me num banco redondo de madeira encostado à parede por detrás do balcão. A sala rectangular tem livros arrumados nas estantes das suas quatro paredes, e tem duas portas abertas para a rua que arde por bênção da cal e do sol com que o verão beija o Alentejo…
Vila Viçosa. Eu terei talvez uns seis anos, e os livros que vou lendo devagar são as portas para onde se pode de facto espreitar.
Aquela luz lá fora que nos encandeia e que nos empurra para dentro e para o aconchego da alma…
Deixo a memória escorregar depois até à tarde de Dezembro de um ano qualquer da década de oitenta do século que já passou. Cheguei ontem de Lisboa no Expresso que chegou ao Rossio, e vim passar o Natal nas férias da Faculdade. O descanso das Químicas na mesma sala; e eu não me esqueci do lugar de cada uma das “portas”.
Sugiro presentes, faço embrulhos, trocos… e quando não há clientes encosto-me à parte lateral do balção do lado direito de quem entra, virando costa à Banda Desenhada do Asterix e do Michel Vaillant , deixando que a conversa flua e voe para onde se vai espraiando a vida.
Não há palavras proibidas nos instantes em que aprendemos a liberdade, e por entre cravos encarnados ou de qualquer outra cor, o olhar doce de quem nos ama é o espelho onde sempre nos vemos bem e confortáveis na identidade que não trai a essência de que somos feitos.
Tão pouca gente me olhou ou olha assim.
E num dia de Outono, quando os medronhos do Castelo já sorriam maduros e o sol do Alentejo nos enganava disfarçando a geada, a saudade sobrepôs-se às palavras, subitamente, e sem tempo sequer para um beijo fugaz.
Uma partida sem medo, porque só teme a morte quem sente não ter a vida em dia.  
A minha querida amiga Joana Ruivo faria hoje 100 anos e eu contínuo sem saber quanto lhe devo do melhor que existe em mim.
Tanta vida, a minha voz…
Às vezes nos dias de me reinventar, encosto-me por instantes na lateral de um velho balcão de madeira, baralho-me propositadamente na idade e deixo-me ir pelo seu olhar doce, para qualquer lado mas sempre por mim e pela liberdade.
Que nunca nada daquilo que é meu possa ficar por fazer.