sábado, 24 de dezembro de 2016

O Natal de 2016


No roupeiro da casa de Vila Viçosa está pendurado um capote castanho que estreei no dia de Natal de 1975.

- Compra-se grande porque o rapaz está a crescer.

Vejo-o agora tão pequeno que custa a acreditar ser o mesmo das abas avantajadas que dificultavam transportar a mala às costas a caminho da escola.

O mundo era imenso quando eu tinha nove anos, e me sentava no velho canapé colhendo o benefício das almofadas para chegar à mesa da ceia de Natal.

Talvez o avô Chico tivesse fabricado uma ronca para cantarmos ao Menino Jesus, e de certeza que haveria Borrachos polvilhados de açúcar que comíamos acompanhados de cacau.

Era o tempo em que não faltava ninguém entre mim e o sonho. Um tempo doce e lento que se espreguiçava enquanto sorriamos sem pressa.

Fecho a porta do roupeiro, desço as escadas, passo pelo canapé, agora envernizado, e devolvo-me à Avenida. Sinto na cara o vento de Dezembro cumprindo a coerência fria do Alentejo interior. Sem esta brisa que gosto poderia ter o meu Natal?

O mundo, reparo, ficou de repente do tamanho do meu capote, estranhamente pequeno; talvez porque viver seja afinal aproximarmo-nos do céu.

As laranjas tão inacessíveis de ontem estão agora tão próximas enquanto o tempo voa e me obriga a travá-lo à esquina de um café onde um vizinho de sempre escuta Alfredo Marceneiro no seu i-phone.

Calaram-se as roncas, mas a mãe pôs Borrachos no prato dos fritos que veio para a mesa ao pequeno-almoço.

Parece que juntamente com o frio e as filhós só o meu sonho parece igual; mas com muito menos gente por ali e o aroma estranho de uma saudade.

O Natal?

A pretexto de celebrar Cristo nascido em Belém, é afinal um tempo para lembrar que tudo muda mas o nosso sonho permanece igual.

Um beijo e boas festas.

 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Quantos lápis e quantas cores...


Quantos lápis e quantas cores seriam necessários para pintar com justiça a cidade guardada num beijo?

Entre a geometria de ruas paralelas, perpendiculares ou diagonais num abraço de ângulos inéditos e improváveis, entre a irregular volumetria das colinas, as praças, as casas, as janelas… há um rio que corre lavando as margens, e que encontra o mar no ponto exacto onde o sol adormece para repouso da tarde e das gaivotas.

O frio de Dezembro não resiste às luzes e às palavras de Natal, e a cidade toma pela fé da gente, as velas e as asas que a fazem partir muito para lá do espaço a que usam chamar seu.

A cidade que mora num beijo é inacessível ao traço dos pintores e às palavras mais ousadas dos poetas, às cores; mas pela descrição que aqui faço, poderá pensar-se assim de repente que será Lisboa.

Pelas pontes, pelo casario…

É natural.

O tempo e o espaço saltam inteiros connosco para dentro do beijo que o desejo inventa ao fim da tarde… junto ao rio.

 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

As luzes de Natal...


As luzes de Natal oferecendo tectos ocasionais às ruas da cidade parecem querer contrariar o tempo que daqui até ao solstício se vai entretendo a distender a noite.

E às vezes estas luzes vencem as portadas opacas das janelas e rasgam as sombras do quarto onde nos rendemos ao silêncio, sem o mínimo gesto de resistência ao entardecer.

Que razões teríamos nós para temer a noite?

Na sala ao lado há um presépio em cama de linho onde um menino de barro repousa sob uma áurea coroa desembrulhada do algodão há não muitos dias.

Que achará Jesus do meu presépio enquanto espreita as luzes assassinas que rasgam a escuridão das noites de Aleppo?

Que dirá da vela perfumada que lhe coloquei aqui quando afagar as faces cansadas dos meninos que tentam ajeitar-se ao recanto mais doce de uma qualquer fogueira improvisada?

Que pensará de nós?

O "pecado" das religiões é a tentação dos Homens "oferecerem" a Deus a face das suas vontades, em vez de tomarem como sua a "face" de Deus. “Ajeitamos” o divino traindo o amor.

Somos ridículos e tontos, imperadores hipócritas tocando as "liras" enquanto o "mundo" arde; porque por mais que O puxemos para o veludo que nos cobre os dias de quase solstício, Jesus morre menino fugindo da noite e do pó das ruas sem tecto do Natal de Aleppo.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Quantas vidas cabem na tarde de quem escreve uma história?


Raras vezes a verdade se mostra muito facilmente a quem manifeste intenção de a espreitar...

Aqui sentado a esta mesa de madeira e virado para o Palácio da Pena que muito ao longe coroa o Monte da Lua, acharia quem voasse frente à minha janela, que um homem mergulhou na Sinfonia Número 4 de Brahms para fugir à solidão.

Quantas vidas cabem na tarde de quem escreve uma história?

Converso com a Gertrudes numa casa grande de Vila Viçosa, vejo-a mais gorda a carregar baldes de água desde o poço do quintal até ao lava-louça, e até decido pôr no ar um aroma a Sericá acabado de sair do forno; só porque aquela cozinha está com um aspecto demasiado frio.

Andei à procura das cores de Agosto no Alentejo e fiz com que o Manuel entrasse numa taberna para beber um copo de vinho.

Desenho o sol, coloco estrelas numa noite de lua cheia, ponho versos na boca de alguém…

Tudo, lentamente e letra a letra num desenho que se lê; por onde também passaram a Mariana, a Filipa e a Aurora, que não é lá muito bem vista no contexto desta história.

Sei que um dia terei saudades de toda esta gente que inventei e do tempo que por aqui passámos juntos.

Um escritor nunca perde o mundo, reinventa mil por sobre o tempo que lhe dão.

E mesmo que baixe a cabeça, pensativo, taciturno, para ver como as letras avançam; não caiam no pecado de ver nesse gesto um pranto de solidão.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Agarro o tempo...


Agarro o tempo que me abraça e me sussurra histórias ao ouvido; cuidadosamente e com as duas mãos, não vá escapar-me entre os dedos, discretamente, aquele segundo que há muito desejo.

Há árvores jazentes na berma da estrada onde as pedras soltas me ferem o passo. Ardem-me os pés, mas se assim não fosse como poderia eu dizer que este é o meu caminho?

Não nos pertence nada para lá daquilo que se sente.

Tomei uma vara ali muito perto da fonte de onde bebi água fresca, e o pó que o meu corpo levanta e o vento arrasta, esmoreceu por instantes deixando claras as palavras.

Ai se eu fosse poeta...

Suspiro na saudade de um beijo no exacto momento em que descanso.

Libertava as asas destes "nãos" que as tolhem e calaria de vez a pequenez dos horizontes, entregaria à sombra das árvores a mortalha das inconsequências, e buscaria o mar que o meu medo insiste em selar nos búzios.

Continuo depois como quem acredita. Eu caminho para não fugir de mim.

No bolso, uma lanterna, a ousadia, e não vá a fé fraquejar; na boca, o respirar doce de uma Ave Maria.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

É a geometria...


Recordo-me bem do tom gélido da noite sempre que saíamos do Castelo pela porta da Torre de Menagem. Acudia-me com pressa o xaile da minha avó, macio e rodeado de cadilhos que davam para entreter as mãos.

Saio da novena da Senhora da Conceição com a minha mãe ao lado, e conduzo o carro que traça uma perpendicular com esse tempo de rapaz, ali por debaixo das alfarrobeiras que ladeiam o Pelourinho.

As mesas são compridas e oferecem um espaço generoso para as gargalhadas, que o riso mais do que o pão, nos envolve numa noite em que os plátanos não resistem mais à nudez e nos enfeitam os carros com folhas da cor do Outono.

Não importa se nascemos no mesmo ano, por acaso, sim, em 1966; não importa se partimos, se ficámos, o que foi que fizemos com o tempo...

Temos a cumplicidade suprema de quem brincou sobre o mesmo chão, e esta noite fria de Dezembro traça uma linha perpendicular ao tempo em que rasgávamos os joelhos nos troncos das árvores do Rossio para conseguirmos comer amoras.

Há instantes que nos cruzam com a nossa história algures pelas ruas onde nascemos... e brincámos.

É a geometria, raiz daquilo que somos.

O domingo de manhã deixou que a chuva descobrisse uma nesga de céu, que vejo desde o cimo da Praça olhando o Castelo.

Não tenho dúvidas, aproveitarei as asas que me ofereça a eternidade, e voltarei aqui para voar, rodopiando alegre sobre a fonte.

Talvez encontre um amigo para brincar, e estou certo, que comprovarei que de céu, já muito tinham todos os dias e essas noites em que as avós nos ensinavam a rezar.

 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O mundo inteiro…


No nosso quintal há uma gaivota que chega sempre ao fim da tarde para brincar com a giesta e o alecrim, e por isso nunca saberemos se Portugal é um pedaço de terra ou se é tão-só o próprio mar.
Os braços em cruz, pela fé, são mastros de caravelas que tomam do peito a vontade e partem traindo a solidão das praias, tatuando no vento um travo audaz e inédito de liberdade.
Nos espigueiros onde o milho adormece a sonhar o pão, no vinho que o sol aqueceu e escorre fiel dos nossos passos, nas encostas matizadas pelo rubro tom das cerejas, no canto do sul nascido dos abraços…  
O mar? A terra?
Não interessa perguntar o quê ou qual.
Está o mundo inteiro guardado nesta aparente pequenez: Portugal!