domingo, 1 de janeiro de 2017

2017


Na saliência de um segundo que um beijo fez emergir, penduro o meu casaco, e mais à frente, num outro segundo a que a ousadia ofereceu um plano inclinado, sacudo os pés, preparando-me assim para seguir viagem.

Olhar no horizonte, sorriso a meia-lua, o pensamento alado, como usa ser, e as mãos entregues às mãos que as perfumam do gesto verso, sem palavras, que fala de amor.

Não existe um tempo novo, existe apenas a vontade de desmanchar o previsível encolher de ombros que deixa o tempo ser aquilo que for.

Desassossegar a letargia do destino mais apático, anónimo e genérico.

Por estes dias, o Menino fugiu com José e Maria para o Egipto com a ajuda do burro, os reis regressaram a casa, a estrela foi brilhar para outro nascimento, e até os pastores tiveram que ir à sua vida, pois são muitas as ovelhas para apascentar.

No casebre de Belém resta a palha, e a vaca, que pela magreza, ofereceria adjectivo ao ano todo que aí vem

Desarrumar o previsível sem desmanchar a esperança que mora no presépio. Para isso existe Janeiro.

Ano novo?

Tomando os segundos de assalto, de mão dada, “fato” novo… e sabendo que para nos deixarmos acontecer, o amor que nos dita a alma terá de vir sempre em primeiro.

Feliz 2017.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016


A melhor forma de cruzar o tempo é com a liberdade a tiracolo; porque assim, com ela tão junto ao peito, garantimos que nenhum dos beijos que sonhámos, fica por dar… ou pelo menos por dizer.

Não sei. É mesmo impossível saber quantas palavras desenhei copiando a alma antes e depois de Julho ter oferecido meio século à minha idade: dois livros, milhares de versos, rimas mais previsíveis ou mais ousadas, cartas e mensagens de amor…

Quem não desenha a sua marca no tronco dos dias arrisca-se a morrer sombra, um equívoco atrás de uma idade qualquer.

“Todos os Homens podem voar”, e eu voo, mas o abraço do olhar dos meus pais será sempre o melhor pouso para tudo e para “A noite em que os sonhos não entraram”. Quando a Mãe Inácia sorri e o Pai Artur diz “o meu gaiato”, eu sinto que ainda tenho a minha casa.

Trago comigo de 2016 os brindes com vinhos de muitos sóis, os cafés e os jantares à mesa dos amigos, os dias de “Cozido à Portuguesa” na casa da Mina e da Natália; os golos do Benfica Tricampeão celebrados nas bifanas com a Margarida e os abraços ao mano Zé; as gargalhadas com o Mário ao telefone quando o dia corre mal… ou menos bem, a conversa com o Álvaro no Shopping ao fim da tarde; Portugal campeão; o caril no Mendi; os passeios junto ao Tejo, na Baixa ou em Belém; os Rembrandt no Hermitage; a Praça Vermelha, Vila Viçosa e as conversas no Café Restauração, um desenho do Luís e as conversas com o João; Paris numa noite de verão…

E numa manhã demasiado triste e quente de Setembro, o adeus à Anabela. As lágrimas que choramos na partida dos amigos levam com elas, dissolvido, tanto do nosso medo de morrer.

Um ano também se conta pela saudade.

Com a liberdade a tiracolo e com a fé…

Sabendo que os anos só terminam em Dezembro e que até ao fim tudo poderá acontecer.

Irrequieto, vadio ou gaiato, serei sempre um homem apaixonado cruzando o tempo, saboreando-o sem pressas não vá escapar-me entre os dedos algo daquilo que eu tanto quero ser.

Um beijo e muito obrigado por terem estado sempre aqui.

 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

“These happy days with happy socks”


Quando a Julie Andrews irrompeu pela RTP1 a entoar melodias, destemida e aos pulos pelas montanhas de Salzburgo, já os meus pais tinham recebido de presente de Natal, um tablet, para poderem falar connosco diariamente por Skype.

O som da música, do coração dos Von Trapp, pois claro, nasceu um ano antes de mim; ali mesmo a tempo de me acompanhar em todos os Natais, desde a era do Telegrama e do Postal dos Correios a este tempo imensamente digital. As falas e os rostos são já tão familiares que será impossível sentir-me “sozinho em casa”.

A mãe melou os nógados quase em cima da hora da ceia e há três fiadas dos ditos sobre a tábua mais velha do que eu, talvez da idade da película. A história dos nossos Natais, ao som da Julie Andrews, poderia escrever-se assim em linhas de mel e massa frita à chaminé.

Antes que os anjos chegassem ansiosos por cear e nos apanhassem ainda de volta da mesa, resolvemos ir dormir quando a Baronesa tentava atrapalhar a história de amor entre a Maria e o Capitão. Amanhã faço a televisão andar para trás e vejo a cena dos túmulos, que é a minha favorita.

O frio do abraço do lençol que sabemos se dissipará em minutos, o silêncio das ruas sem carros, a escuridão em que mergulhou o resto da casa… enquanto alinhavo os meus versos, faz-me perceber que a noite de Natal foi inventada para os anjos e para os poetas, para que juntos celebremos o amor colhendo a paz que nos traz a lua.

Não me recordo de ter adormecido mas acordei com o sino da capela. Um café quente, a missa, o padre que pergunta o sentido da vida, nós a brincarmos como antes na fila para beijar o Menino Jesus.

Beija-se no joelho ou no pé?

À porta da igreja uma amiga diz que está calor. São Aurélio, não há frio de Dezembro que resista ao meio-dia dos nossos abraços e gargalhadas. A nossa amizade contribui para o aquecimento global do planeta.

Deixo a Avenida, baixo-me para não magoar as laranjas com alguma indesejada cabeçada e...

O sentido da vida?

Senhor Padre Francisco Couto, é definitivamente o amor.

O amor que não exclui nenhum “pedaço” do que somos e fazemos, e o amor que concretiza a verdade que trazemos no peito.

Last Christmas I gave you my heart”.

É irónico que o George Michael parta num dia de Natal e por causa de uma crise cardíaca.

O amor, a vida, a fé, o tempo… e a urgência de nos deixarmos acontecer.

Vou ficar por aqui esta semana, entre outras coisas para que os meus pais se familiarizem com o Skype.

E os dias quando são felizes exigem que tudo se alinhe com eles. Até as meias.

É aproveitar porque a vida ainda não imita a televisão na hora de andar até às “cenas” de que pretendemos matar saudades.

 

sábado, 24 de dezembro de 2016

O Natal de 2016


No roupeiro da casa de Vila Viçosa está pendurado um capote castanho que estreei no dia de Natal de 1975.

- Compra-se grande porque o rapaz está a crescer.

Vejo-o agora tão pequeno que custa a acreditar ser o mesmo das abas avantajadas que dificultavam transportar a mala às costas a caminho da escola.

O mundo era imenso quando eu tinha nove anos, e me sentava no velho canapé colhendo o benefício das almofadas para chegar à mesa da ceia de Natal.

Talvez o avô Chico tivesse fabricado uma ronca para cantarmos ao Menino Jesus, e de certeza que haveria Borrachos polvilhados de açúcar que comíamos acompanhados de cacau.

Era o tempo em que não faltava ninguém entre mim e o sonho. Um tempo doce e lento que se espreguiçava enquanto sorriamos sem pressa.

Fecho a porta do roupeiro, desço as escadas, passo pelo canapé, agora envernizado, e devolvo-me à Avenida. Sinto na cara o vento de Dezembro cumprindo a coerência fria do Alentejo interior. Sem esta brisa que gosto poderia ter o meu Natal?

O mundo, reparo, ficou de repente do tamanho do meu capote, estranhamente pequeno; talvez porque viver seja afinal aproximarmo-nos do céu.

As laranjas tão inacessíveis de ontem estão agora tão próximas enquanto o tempo voa e me obriga a travá-lo à esquina de um café onde um vizinho de sempre escuta Alfredo Marceneiro no seu i-phone.

Calaram-se as roncas, mas a mãe pôs Borrachos no prato dos fritos que veio para a mesa ao pequeno-almoço.

Parece que juntamente com o frio e as filhós só o meu sonho parece igual; mas com muito menos gente por ali e o aroma estranho de uma saudade.

O Natal?

A pretexto de celebrar Cristo nascido em Belém, é afinal um tempo para lembrar que tudo muda mas o nosso sonho permanece igual.

Um beijo e boas festas.

 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Quantos lápis e quantas cores...


Quantos lápis e quantas cores seriam necessários para pintar com justiça a cidade guardada num beijo?

Entre a geometria de ruas paralelas, perpendiculares ou diagonais num abraço de ângulos inéditos e improváveis, entre a irregular volumetria das colinas, as praças, as casas, as janelas… há um rio que corre lavando as margens, e que encontra o mar no ponto exacto onde o sol adormece para repouso da tarde e das gaivotas.

O frio de Dezembro não resiste às luzes e às palavras de Natal, e a cidade toma pela fé da gente, as velas e as asas que a fazem partir muito para lá do espaço a que usam chamar seu.

A cidade que mora num beijo é inacessível ao traço dos pintores e às palavras mais ousadas dos poetas, às cores; mas pela descrição que aqui faço, poderá pensar-se assim de repente que será Lisboa.

Pelas pontes, pelo casario…

É natural.

O tempo e o espaço saltam inteiros connosco para dentro do beijo que o desejo inventa ao fim da tarde… junto ao rio.

 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

As luzes de Natal...


As luzes de Natal oferecendo tectos ocasionais às ruas da cidade parecem querer contrariar o tempo que daqui até ao solstício se vai entretendo a distender a noite.

E às vezes estas luzes vencem as portadas opacas das janelas e rasgam as sombras do quarto onde nos rendemos ao silêncio, sem o mínimo gesto de resistência ao entardecer.

Que razões teríamos nós para temer a noite?

Na sala ao lado há um presépio em cama de linho onde um menino de barro repousa sob uma áurea coroa desembrulhada do algodão há não muitos dias.

Que achará Jesus do meu presépio enquanto espreita as luzes assassinas que rasgam a escuridão das noites de Aleppo?

Que dirá da vela perfumada que lhe coloquei aqui quando afagar as faces cansadas dos meninos que tentam ajeitar-se ao recanto mais doce de uma qualquer fogueira improvisada?

Que pensará de nós?

O "pecado" das religiões é a tentação dos Homens "oferecerem" a Deus a face das suas vontades, em vez de tomarem como sua a "face" de Deus. “Ajeitamos” o divino traindo o amor.

Somos ridículos e tontos, imperadores hipócritas tocando as "liras" enquanto o "mundo" arde; porque por mais que O puxemos para o veludo que nos cobre os dias de quase solstício, Jesus morre menino fugindo da noite e do pó das ruas sem tecto do Natal de Aleppo.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Quantas vidas cabem na tarde de quem escreve uma história?


Raras vezes a verdade se mostra muito facilmente a quem manifeste intenção de a espreitar...

Aqui sentado a esta mesa de madeira e virado para o Palácio da Pena que muito ao longe coroa o Monte da Lua, acharia quem voasse frente à minha janela, que um homem mergulhou na Sinfonia Número 4 de Brahms para fugir à solidão.

Quantas vidas cabem na tarde de quem escreve uma história?

Converso com a Gertrudes numa casa grande de Vila Viçosa, vejo-a mais gorda a carregar baldes de água desde o poço do quintal até ao lava-louça, e até decido pôr no ar um aroma a Sericá acabado de sair do forno; só porque aquela cozinha está com um aspecto demasiado frio.

Andei à procura das cores de Agosto no Alentejo e fiz com que o Manuel entrasse numa taberna para beber um copo de vinho.

Desenho o sol, coloco estrelas numa noite de lua cheia, ponho versos na boca de alguém…

Tudo, lentamente e letra a letra num desenho que se lê; por onde também passaram a Mariana, a Filipa e a Aurora, que não é lá muito bem vista no contexto desta história.

Sei que um dia terei saudades de toda esta gente que inventei e do tempo que por aqui passámos juntos.

Um escritor nunca perde o mundo, reinventa mil por sobre o tempo que lhe dão.

E mesmo que baixe a cabeça, pensativo, taciturno, para ver como as letras avançam; não caiam no pecado de ver nesse gesto um pranto de solidão.