sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Aquilo que se esconde por detrás de uma tarde de nevoeiro…


Ao contrário, talvez, da grande maioria das pessoas, eu gosto dos dias de nevoeiro. Tal não se deve à esperança de que eles me devolvam um rei perdido em Álcácer-Quibir; mas sim porque o tom cinza que encurta o horizonte nos oferece, simultaneamente, um espelho generoso com vista desafogada para dentro de nós.

E assim ao fim da tarde com a casa envolta em bruma, apagam-se as luzes…

Quando Tom Hulce soltou a primeira gargalhada em Amadeus, de Milos Forman, já nós levávamos de avanço, muitos minutos de riso, tal o impacto e a surpresa do “mergulho” no vazio que as cadeiras do Cinema Londres nos proporcionavam após nos termos sentado tranquilamente.

Ali pela Avenida de Roma, em 1985, onde voltaremos outro dia para espreitar no Roma, a bailarina no armazém da padaria de Era uma vez na América, existiam algumas casas de venda de Croissants onde depois poderíamos jantar. Um de cogumelos, outro de fiambre, e para a sobremesa, talvez um Croissants de chocolate ou de doce de ovos.

Já no início de 1986, quando a Meryl Streep e o Robert Redford voavam apaixonados sobre a Savana em África Minha no écran gigante do São Jorge, o nosso jantar tinha sido antecipado com a compra de uma inéditas sandes gigantes de fiambre, alface e tomate que preparavam no Celeiro, à Rua 1º de Dezembro.

Nunca tínhamos visto por cá estas sandes maiores do que a maior carcaça, e nós, muito modernos, lá íamos subindo a Avenida ao jeito dos protagonistas das séries da TV.

As escadas do Eden são terríveis de subir mesmo quando o balcão só nos leva até ao purgatório. Sim, esse mesmo, o Purgatório do Fado num Querido Lilás em que o Herman foi a mãe do filho e o… filho da mãe, num guião “desenhado” pelo benfiquista da luva preta, o Artur Semedo.

O jantar?

Nesse ano de 1987 talvez tenha sido um hamburger grelhado na chapa e coroado com cebola frita, o avô lusitano do Big Mac, comprado ali na Rua das Portas de Santo Antão numa loja muito pequena quase em frente à Casa do Alentejo.   

E antes que os anos oitenta sucumbissem ao ciclo inevitável do tempo, entre a Faculdade de Farmácia e o Quarteto, na Avenida Estados Unidos da América, existia a Gelataria Pindô na Avenida das Forças Armadas, onde um café com natas ficava sempre bem na antecâmara de qualquer filme menos comercial.

Asas do Desejo ou até o Cinema Paraíso, do qual eu já tivera o meu quinhão muito particular quando o meu pai foi projecionista em Vila Viçosa e trabalhava com uma velha máquina gigante onde era fundamental alinhar dois carvões incandescentes, que às vezes cortava as fitas, e que proporcionava até fenómenos de ressurreição de personagens, sobretudo quando por engano se trocavam as bobines.

Viram onde o nevoeiro hoje me foi encontrar?

Os filmes contam histórias e todos juntos, assim, contam a nossa história, mas sempre com os beijos no lugar certo e nunca cortados.

 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Luís


 
A partir de uma folha branca de papel, com múltiplos recortes, cola em stick e canetas de feltro de quantas cores imaginarmos, fabricamos um autocarro imenso, comprido, com gente muito feliz à janela.
E quando as rodas de papel “rasgarem” o tapete da sala, acelerando ao ritmo dos nossos braços, e sobretudo, da imaginação, já teremos desenhado uma história com um inédito argumento, e uma banda sonora tão inspirada que põe toda a gente a cantar.
Quantos mundos cabem dentro deste mundo que se vê e que se conta por minutos na rigidez previsível dos relógios…
Sei-o eu que alinhavo poemas ao amanhecer, e sabe-o melhor que ninguém, o meu sobrinho Luís que cumpre hoje o seu décimo aniversário.
Por entre o privilégio destes dez anos de dias que ele me pintou de um intenso azul, eu ofereço-lhe aqui um barco desenhado por beijos e palavras para que ele nunca pare de navegar.
Porque os Homens que crescem e marcam a História são aqueles que nunca desistem de brincar.
Luís, um beijo de parabéns do tio Quim.
 
 

domingo, 1 de janeiro de 2017

2017


Na saliência de um segundo que um beijo fez emergir, penduro o meu casaco, e mais à frente, num outro segundo a que a ousadia ofereceu um plano inclinado, sacudo os pés, preparando-me assim para seguir viagem.

Olhar no horizonte, sorriso a meia-lua, o pensamento alado, como usa ser, e as mãos entregues às mãos que as perfumam do gesto verso, sem palavras, que fala de amor.

Não existe um tempo novo, existe apenas a vontade de desmanchar o previsível encolher de ombros que deixa o tempo ser aquilo que for.

Desassossegar a letargia do destino mais apático, anónimo e genérico.

Por estes dias, o Menino fugiu com José e Maria para o Egipto com a ajuda do burro, os reis regressaram a casa, a estrela foi brilhar para outro nascimento, e até os pastores tiveram que ir à sua vida, pois são muitas as ovelhas para apascentar.

No casebre de Belém resta a palha, e a vaca, que pela magreza, ofereceria adjectivo ao ano todo que aí vem

Desarrumar o previsível sem desmanchar a esperança que mora no presépio. Para isso existe Janeiro.

Ano novo?

Tomando os segundos de assalto, de mão dada, “fato” novo… e sabendo que para nos deixarmos acontecer, o amor que nos dita a alma terá de vir sempre em primeiro.

Feliz 2017.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016


A melhor forma de cruzar o tempo é com a liberdade a tiracolo; porque assim, com ela tão junto ao peito, garantimos que nenhum dos beijos que sonhámos, fica por dar… ou pelo menos por dizer.

Não sei. É mesmo impossível saber quantas palavras desenhei copiando a alma antes e depois de Julho ter oferecido meio século à minha idade: dois livros, milhares de versos, rimas mais previsíveis ou mais ousadas, cartas e mensagens de amor…

Quem não desenha a sua marca no tronco dos dias arrisca-se a morrer sombra, um equívoco atrás de uma idade qualquer.

“Todos os Homens podem voar”, e eu voo, mas o abraço do olhar dos meus pais será sempre o melhor pouso para tudo e para “A noite em que os sonhos não entraram”. Quando a Mãe Inácia sorri e o Pai Artur diz “o meu gaiato”, eu sinto que ainda tenho a minha casa.

Trago comigo de 2016 os brindes com vinhos de muitos sóis, os cafés e os jantares à mesa dos amigos, os dias de “Cozido à Portuguesa” na casa da Mina e da Natália; os golos do Benfica Tricampeão celebrados nas bifanas com a Margarida e os abraços ao mano Zé; as gargalhadas com o Mário ao telefone quando o dia corre mal… ou menos bem, a conversa com o Álvaro no Shopping ao fim da tarde; Portugal campeão; o caril no Mendi; os passeios junto ao Tejo, na Baixa ou em Belém; os Rembrandt no Hermitage; a Praça Vermelha, Vila Viçosa e as conversas no Café Restauração, um desenho do Luís e as conversas com o João; Paris numa noite de verão…

E numa manhã demasiado triste e quente de Setembro, o adeus à Anabela. As lágrimas que choramos na partida dos amigos levam com elas, dissolvido, tanto do nosso medo de morrer.

Um ano também se conta pela saudade.

Com a liberdade a tiracolo e com a fé…

Sabendo que os anos só terminam em Dezembro e que até ao fim tudo poderá acontecer.

Irrequieto, vadio ou gaiato, serei sempre um homem apaixonado cruzando o tempo, saboreando-o sem pressas não vá escapar-me entre os dedos algo daquilo que eu tanto quero ser.

Um beijo e muito obrigado por terem estado sempre aqui.

 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

“These happy days with happy socks”


Quando a Julie Andrews irrompeu pela RTP1 a entoar melodias, destemida e aos pulos pelas montanhas de Salzburgo, já os meus pais tinham recebido de presente de Natal, um tablet, para poderem falar connosco diariamente por Skype.

O som da música, do coração dos Von Trapp, pois claro, nasceu um ano antes de mim; ali mesmo a tempo de me acompanhar em todos os Natais, desde a era do Telegrama e do Postal dos Correios a este tempo imensamente digital. As falas e os rostos são já tão familiares que será impossível sentir-me “sozinho em casa”.

A mãe melou os nógados quase em cima da hora da ceia e há três fiadas dos ditos sobre a tábua mais velha do que eu, talvez da idade da película. A história dos nossos Natais, ao som da Julie Andrews, poderia escrever-se assim em linhas de mel e massa frita à chaminé.

Antes que os anjos chegassem ansiosos por cear e nos apanhassem ainda de volta da mesa, resolvemos ir dormir quando a Baronesa tentava atrapalhar a história de amor entre a Maria e o Capitão. Amanhã faço a televisão andar para trás e vejo a cena dos túmulos, que é a minha favorita.

O frio do abraço do lençol que sabemos se dissipará em minutos, o silêncio das ruas sem carros, a escuridão em que mergulhou o resto da casa… enquanto alinhavo os meus versos, faz-me perceber que a noite de Natal foi inventada para os anjos e para os poetas, para que juntos celebremos o amor colhendo a paz que nos traz a lua.

Não me recordo de ter adormecido mas acordei com o sino da capela. Um café quente, a missa, o padre que pergunta o sentido da vida, nós a brincarmos como antes na fila para beijar o Menino Jesus.

Beija-se no joelho ou no pé?

À porta da igreja uma amiga diz que está calor. São Aurélio, não há frio de Dezembro que resista ao meio-dia dos nossos abraços e gargalhadas. A nossa amizade contribui para o aquecimento global do planeta.

Deixo a Avenida, baixo-me para não magoar as laranjas com alguma indesejada cabeçada e...

O sentido da vida?

Senhor Padre Francisco Couto, é definitivamente o amor.

O amor que não exclui nenhum “pedaço” do que somos e fazemos, e o amor que concretiza a verdade que trazemos no peito.

Last Christmas I gave you my heart”.

É irónico que o George Michael parta num dia de Natal e por causa de uma crise cardíaca.

O amor, a vida, a fé, o tempo… e a urgência de nos deixarmos acontecer.

Vou ficar por aqui esta semana, entre outras coisas para que os meus pais se familiarizem com o Skype.

E os dias quando são felizes exigem que tudo se alinhe com eles. Até as meias.

É aproveitar porque a vida ainda não imita a televisão na hora de andar até às “cenas” de que pretendemos matar saudades.

 

sábado, 24 de dezembro de 2016

O Natal de 2016


No roupeiro da casa de Vila Viçosa está pendurado um capote castanho que estreei no dia de Natal de 1975.

- Compra-se grande porque o rapaz está a crescer.

Vejo-o agora tão pequeno que custa a acreditar ser o mesmo das abas avantajadas que dificultavam transportar a mala às costas a caminho da escola.

O mundo era imenso quando eu tinha nove anos, e me sentava no velho canapé colhendo o benefício das almofadas para chegar à mesa da ceia de Natal.

Talvez o avô Chico tivesse fabricado uma ronca para cantarmos ao Menino Jesus, e de certeza que haveria Borrachos polvilhados de açúcar que comíamos acompanhados de cacau.

Era o tempo em que não faltava ninguém entre mim e o sonho. Um tempo doce e lento que se espreguiçava enquanto sorriamos sem pressa.

Fecho a porta do roupeiro, desço as escadas, passo pelo canapé, agora envernizado, e devolvo-me à Avenida. Sinto na cara o vento de Dezembro cumprindo a coerência fria do Alentejo interior. Sem esta brisa que gosto poderia ter o meu Natal?

O mundo, reparo, ficou de repente do tamanho do meu capote, estranhamente pequeno; talvez porque viver seja afinal aproximarmo-nos do céu.

As laranjas tão inacessíveis de ontem estão agora tão próximas enquanto o tempo voa e me obriga a travá-lo à esquina de um café onde um vizinho de sempre escuta Alfredo Marceneiro no seu i-phone.

Calaram-se as roncas, mas a mãe pôs Borrachos no prato dos fritos que veio para a mesa ao pequeno-almoço.

Parece que juntamente com o frio e as filhós só o meu sonho parece igual; mas com muito menos gente por ali e o aroma estranho de uma saudade.

O Natal?

A pretexto de celebrar Cristo nascido em Belém, é afinal um tempo para lembrar que tudo muda mas o nosso sonho permanece igual.

Um beijo e boas festas.

 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Quantos lápis e quantas cores...


Quantos lápis e quantas cores seriam necessários para pintar com justiça a cidade guardada num beijo?

Entre a geometria de ruas paralelas, perpendiculares ou diagonais num abraço de ângulos inéditos e improváveis, entre a irregular volumetria das colinas, as praças, as casas, as janelas… há um rio que corre lavando as margens, e que encontra o mar no ponto exacto onde o sol adormece para repouso da tarde e das gaivotas.

O frio de Dezembro não resiste às luzes e às palavras de Natal, e a cidade toma pela fé da gente, as velas e as asas que a fazem partir muito para lá do espaço a que usam chamar seu.

A cidade que mora num beijo é inacessível ao traço dos pintores e às palavras mais ousadas dos poetas, às cores; mas pela descrição que aqui faço, poderá pensar-se assim de repente que será Lisboa.

Pelas pontes, pelo casario…

É natural.

O tempo e o espaço saltam inteiros connosco para dentro do beijo que o desejo inventa ao fim da tarde… junto ao rio.