sábado, 11 de fevereiro de 2017

A minha casa com flores


Trouxemos na mochila uma música de Einaudi, há muito em pausa, tal qual o beijo que pendurámos de um minuto triste e saliente, também lá muito para trás.

Tomámo-nos as mãos para podermos repousar da longa viagem enquanto as nossas palavras se cruzavam com o Chá de Rooibos, que, em contramão, se deixava guiar pelos desígnios do desejo e, aos poucos, nos ia tomando os lábios que sorriam no mesmo tom rubro dos morangos.

Quisera eu agora tocar-te assim como a chávena branca cumprindo o beijo roubado à pausa e trazido a tiracolo entre a "tralha" de tanta história.

Talvez o amor não tenha mesmo contramão por não ter regra, sendo como é propriedade da alma e marinheiro livre a navegar pelo ímpeto dos sentidos; e talvez aquele minuto saliente não seja mais do que uma esquina com que a razão nos tentou querendo rasgar-nos o tempo de sermos nós.

Depois reparo que o chá arrefeceu quando eu já repouso na casa que o teu olhar me oferece. Finalmente a minha casa.

As palavras também adormeceram para nos deixarem a sós com o beijo que maturou em Outonos de saudade.

Lá atrás persiste apenas uma ténue marca no tempo, uma cicatriz da razão e do silêncio, um detalhe que os nossos sorrisos disfarçam agora por entre o amor maior.

O amor és tu, sim, o verde inscrito no amanhecer, a minha casa com flores em vez de um muro…

E aquilo que melhor poderá definir um Homem é a intensidade com que ele se propõe viver todos os dias inscritos no futuro.

 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Ausência


Nós sabemos bem que a ausência impõe a dor que persiste sobre a própria morte, tornando-nos cadáveres dentro do corpo consciente e que ainda respira.

Aquele adeus ao fim da tarde depois de um chá frio no Chiado...

O adeus é uma prece ardente ao tempo, e eu acreditei que ele seria capaz de me resgatar do teu mundo onde às vezes me sentia perdido.

Julguei ser fugaz o silêncio que eu trouxe desse instante, e que a solidão se dissolveria aos poucos nas lágrimas das noites passadas de braços vazios.

Pelo acaso, passei por ti às vezes nas ruas da cidade, e em todas ensaiámos ser desconhecidos, mas sempre por entre a doce traição dos olhares.

Passaram-se anos, demasiados anos segundo a dor, o silêncio e a solidão que persistiram; até há pouco.

Eu nunca deixei de estar sentado no teu mundo, ali sozinho bebendo as palavras de Eugénio e de Sophia nos livros que me deixaste à cabeceira.

O amor quando nos nasce assim do sonho é impenetrável ao tempo. Nada mexe como numa manhã de verão em que não corra o mínimo sopro do vento.

E eu quero ficar para sempre aqui sentado ao pé de ti, porque mesmo que às vezes me sinta perdido pelas horas que parecem não ter fim, eu sei meu amor que quanto mais duro e difícil for o caminho, melhor gosto terá o instante de chegar... a mim.

 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

É hora de resistir


A terra onde brincámos e de onde o limoeiro tomou alento e inspiração para namorar com o sol, guardará para sempre a memória dos traços que lhe oferecemos quando usávamos o pedaço de um tronco ou de uma pedra, para dar forma ao mundo que inventávamos.

No nosso sonho não cabiam fronteiras.

E a casa de tijoleira ao canto do bar da escola guarda ainda o eco dessas tardes em que o pudor sucumbia perante a força dos sentidos, deixando que andasse à solta, um jeito tão nosso e tão livre de falar de amor.

Saltávamos as convenções e jurávamos jamais deixar que as fronteiras se interpusessem entre os nossos beijos.

Quaisquer fronteiras.

E o Deus que levávamos connosco para a margem das ribeiras onde o poejo se espreguiçava de odores pelas manhãs do sul, era afinal a expressão maior da vida e desse mesmo amor.

Um Deus lembrado em palavras e acariciado por Padre Nossos, mas que jamais será bandeira de alguém ou de alguns, porque Ele é o universo inteiro.

Acho que nunca nos passou pela ideia que o vento forte regressaria, como descrito nos livros de História, para apagar os contornos que tomávamos pela liberdade de tudo aquilo que ousávamos sonhar.

Também jamais pensámos que alguém nos traísse os beijos, impondo-lhes regra de género, credo e cor; ou que alguém separasse Deus do Seu projeto único de um eterno amor.

Homens de mão esquerda sobre a Bíblia e a mão direita à solta a matar a liberdade e a trair a fé.

Oxalá a nossa fé persista e consiga galgar connosco este tempo que rasga a terra com os alicerces dos muros e das fronteiras, matando à fome a esperança... e os limoeiros.

É hora de resistir.

 

domingo, 29 de janeiro de 2017

A poesia vive à superfície das horas…


Os poetas não necessitam escavar galerias e andar pela essência mais subterrânea dos dias; a poesia vive à superfície das horas, mesmo até das que parecem mais banais e previsíveis.

Numa manhã como tantas outras, o meu sobrinho João respondeu ao pai, o meu mano Zé Artur, que a noite não tinha sido grande coisa porque os sonhos não tinham entrado.

Peguei nessa ideia e num dos bonecos preferidos do João e do Luís, aquele que dá gargalhadas quando lhe apertamos a barriga e que se chamava PJ, por ter sido oferecido pelo Paulo Joaquim; e construí o conto "A noite em que os sonhos não entraram" que hoje apresento em Vila Viçosa.

Quando a tarde se aproximava do fim e eu estava na Livraria Escolar da minha amiga Joana Ruivo, chegavam às vezes alguns amigos que ficavam connosco à conversa. Uma livraria é uma casa para as palavras, as escritas ou palavras ditas assim em conversa informal.

Um dos amigos que chegava era o Senhor Francisco Lourinhã, o primeiro presidente da Câmara Municipal de Vila Viçosa eleito após o 25 de Abril de 1974, que ontem partiu.

Aqui no mesmo fim de semana da minha terra sobressaem as minhas palavras mas também as memórias das pessoas que informalmente e sem terem a noção disso, me foram ensinando a contar as histórias, por me terem ajudado a descobrir a excelência que existe nas coisas mais simples.

Porque a poesia vive à superfície das horas e os poetas nunca serão os seres mais inspirados, mas sim aqueles que conseguem despir-se do pudor e dizer tudo aquilo que sentem.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O tempo é redondo…


Para quê lamentar não ter melancias na horta no mês de Janeiro, se as laranjas maduras se interpõem entre nós e o sol para nos trazerem momentos únicos de açúcar?

Como poderíamos sonhar olhando as estrelas se a noite nunca viesse?

Há tantas palavras que eu escrevo depois de as colher do silêncio.

O deserto é o sítio onde melhor floresce a fé.

Se as minhas mãos não tateassem tristes pela solidão jamais te encontrariam no recanto doce de uma festa só nossa, e contigo ao lado, o melhor sítio para espreitar o céu até pode ser um rés-do-chão.

Como o tempo é redondo e o nosso sonho é eterno, o amor nunca se habituará a viver longe do nosso coração.

 

sábado, 21 de janeiro de 2017

A manhã que cheira a tangerina...


Quando a fome destapar o aroma da tangerina, eu seguirei pela manhã, gomo a gomo, como quem te procura vasculhando a memória.

Matámos as convenções logo ali, ao primeiro beijo, deixando depois que o silêncio se fosse impregnando aos poucos das palavras que a ausência de fôlego travou, e não nos deixou dizer.

Mas também, qual será o detalhe de amor que poderá ser soletrado e que este beijo ainda não disse?

As sílabas que os nossos lábios amordaçam quando se dispõem assim, uns de encontro aos outros, diluem-se no desejo, entrelaçam-se na vontade, ficam impregnadas de rosas vermelhas e libertam-se sob a forma de um gesto que sonhámos.

E que bom que é poder saborear as contradições inscritas numa paixão como a nossa…

Os silêncios que falam, o voo de liberdade quando os meus braços se atam aos teus; e o edredão que nos protege do frio parece desenhar o teto de uma casa alta, quente e com janelas, onde se vive de verdade.

A harmonia quando a paixão afinal me desatina, e eu sigo pelo pensamento numa manhã que cheira inevitavelmente a tangerina.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Há dias que são tão cómodos e perfeitos...


Há dias que são tão cómodos e perfeitos, que não resistimos a transformá-los num sofá onde depois nos sentamos tranquilamente.

Podemos puxar para junto de nós, para nos alumiar, aquele pedaço de lua que nos abraçou num beijo; e na memória, como quem desenha letras no chão de terra de uma rua, vamos aos poucos organizando os versos, mas sem que os ajustemos de forma rígida a uma métrica qualquer.

Por isso, se pensaram ver-me algures por aí, investiguem primeiro, escutem com atenção tudo aquilo que eu disser, não esteja o meu corpo a vaguear por um sonâmbulo instante, "adormecido" que estou, e a sonhar, recostado nesses dias a que podem chamar tudo, mas que são afinal a poesia.

E até podem ver-me sozinho e de mãos vazias, mas acreditem que apenas na ilusão de um fantasma errando por aí; os dias onde me sento têm dois lugares e as minhas mãos tomam o mundo enquanto passeiam por ti.

Por isso, digam o que disserem de mim, vejam-me aqui, ali, seja onde for...

Eu estarei sempre abraçado a ti, comodamente ajeitados aos nossos dias doces, meu amor.