domingo, 19 de março de 2017

Pai


Desmentindo o tempo, salto para um banco improvisado feito de jornais atados por uma corda, e fico sentado à mesma altura onde o teu respirar se mistura com o som inquieto da tesoura que afina os meus caracóis castanhos.

Há cromos de futebol que enrolam rebuçados comprados às meias dúzias com moedas de dez tostões, comemos medronhos maduros na encosta do castelo, recortamos e colamos casinhas de papel, jogamos ao pião, construímos papagaios cruzando canas, e á frente do portão do “Tapum”, construímos repuxos num lago improvisado onde se passeia um pato de plástico, nos dias de Junho e São pedro, quando a nossa rua se enfeita com flores de papel que fomos fabricando nos serões de primavera, imitando o melhor gesto que reveste o campo.

Desmentindo o tempo…

Agora que “O Século” e “A Capital” já não amarelecem juntos no monte dos jornais, que os meus caracóis não sobreviveram à prata que os tingiu, e que os papagaios, as casinhas e as flores de papel subsistem apenas na minha memória; eu ajeito-me à sombra do teu olhar, recuso-me a palpar-lhe o cansaço, e pulo como antes, mas já sem a ajuda dos teus braços, para o sítio onde sou maior, e onde o céu já não tem o ruído de uma tesoura mas continua a ter o teu respirar.

Num beijo, meu querido pai, imitando sempre o melhor que tem a vida.

 

sábado, 11 de março de 2017

Sou a soma aritmética de todos os beijos que quis dar…


A manhã traz sempre folhas brancas para cima da mesa, e até um lápis pouco afiado que possa andar por ali, meio perdido, servirá para podermos "escrever" a nossa história.

Março já levou a manhã ao cabeleireiro e enfeitou-a de caracóis vermelhos, cor-de-rosa... do pantone das camélias e outras flores, vestindo-lhe depois um traje de ervas com padrão de malmequeres, e pendurando-lhe ao pescoço um cordão de giestas, de fazer inveja ao ouro.

Caíram os biombos de nuvens, secaram as lágrimas de orvalho, e hoje aquilo que se vê de mim tem os contornos claros e definidos de um beijo.

Se nos quiserem conhecer não peçam um retrato, mas espreitem-nos dentro de um beijo que a alma pediu.

A nossa história somos nós e o tempo que nunca envelhece; sou eu que às vezes me sinto velho, sentado por aí num dia qualquer.

Mas o tempo também é redondo e Março cheira sempre a recomeço, quando paramos na berma de uma manhã, nos sentamos à mesa e pedimos um café e uma água lisa, mas já fria.

Depois, o pensamento serve de afia, e entre o desejo e a memória, lá conseguimos escrever, como quem sonha, um capítulo bonito da nossa história que ainda estava por contar.

O que é que eu sou?

Mil palavras rabiscadas sobre uma folha branca para dizer que sou a soma aritmética de todos os beijos que quis dar.

 

domingo, 5 de março de 2017

Estes dias que traem a paz e a liberdade…


Rasgamos a Terra buscando barro e granito para erguermos os muros que nos abriguem do vento sem matarem jamais esta essência de ser Homem.

Sentados na pedra enfeitada de hortelã que o rio beija enquanto conta o tempo, o Homem é a alma, muito mais do que a forma ou o tom daquilo que se espreita ou dele se reflete à superfície das águas.

O Homem é a sua fé, muito mais do que qualquer gesto que a enfeita e a recorta.

O Homem é o amor, para lá do género das faces que se encontram na verdade de um beijo.

O Homem é a voz, o canto e a poesia, muito mais do que a língua mãe das palavras que dele se escutem por entre os choupos que bailam com a brisa das noites frias.

Nós julgávamos ter morto os dias que traem a paz e a liberdade...

Mas eles apenas dormiam aguardando as janelas que a imbecilidade rasga à superfície do tempo.

Há que voltar a desatar as mãos. Estes dias empurram-nos de novo para a luta.

Por nós, pela paz e pela liberdade.

 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os poetas sonham e tiram apontamentos…


Já há muito que os sinos de Viena assinalam a meia-noite, e no quarto do hotel, com a cortina da janela não completamente corrida, eu pressinto o verde no semáforo dos peões quando as luzes dos carros que percorrem a Ringstrasse desistem por momentos de riscar a parede em frente à secretária.

Recebi os golos do Benfica, escrevi e mandei os beijos todos que o coração ditou, e entreguei-me finalmente à hora do poeta, o silêncio sem pressa que se predispõe a ser tudo aquilo que eu quiser.

A hora dos sonhos em estado vígil, que não se apagam nunca às mãos da madrugada e por capricho da memória; os sonhos que persistem.

Quantos dias habitam na noite dos poetas…

Amanhã será Carnaval e acender-se-ão luzes e máscaras sobre o racional sentido dos dias. Irão impor-se gargalhadas que morrerão depois amarfanhadas no terreiro onde as cinzas de quarta-feira se entregam ao vento.

Como se a espontaneidade feliz morasse obrigatoriamente no inverso daquilo que somos e tivesse o prazo de validade de um modesto fim de semana prolongado.

Quando as luzes suspendem os traços na parede, há Homens de todos os momentos que avançam pelo silêncio da noite cumprindo o seu destino e tomando a cidade.

Sem máscaras e sempre a sorrir, enquanto os poetas sonham e tiram apontamentos.

 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O rapaz que não conhecia a letra “a”


Quase no cimo da colina onde o moinho respira o vento que sopra do rio e onde as gaivotas vêm repousar ao fim da tarde; numa rua muito estreita, de casas com flores nas janelas e rodapé azul ou encarnado, vive um rapaz que todos acham estranho, apenas porque não conhece, e jamais conhecerá a letra “a”.

Nasceu e será sempre assim, mas aquilo que é diferente não é forçoso ser coisa ruim.

Igual a todos os outros rapazes, apenas busca novas palavras, perdão, novas expressões.

Assim, em vez de dizer que gosta de sonhar, diz:

- Eu pinto e invento o mundo. Ofereço-lhe um tom novo, que é só meu e que encontro bem no fundo.

Não se esconde atrás de nenhum biombo ou véu, e para dizer que gosta de saltar, diz:

- Eu gosto muito e brinco com o céu.

Chama a mãe e o pai por mundo, esquece as horas e foca-se nos minutos, uma rosa é uma flor, o pão é sustento, uma bola é um esférico, um desafio é um jogo, e uma derrota é um tormento

No outro dia, na aula de Português, a professora pediu uma quadra sobre a mão, fez um concurso e ele ganhou, mesmo sem poder usar tal expressão:

“Emerjo do solo, em prece,

Sou pelo céu, um grito só

Tronco que o sonho tece

Unindo o mundo com um nó”.

Encarnado é vermelho, o amarelo é desespero, o verde é verde, o azul é céu, e até uma maçã pode sempre ser um pero.

Amar é viver, amor é querer, a alma é um verso, o mar é o horizonte líquido que se une com o infinito, ter valor e ser raro, são sinónimos de ouro, e não têm nada de esquisito.

Vive feliz e contente, mesmo não sendo igual a toda gente.

E agora apenas para terminar, sempre digo que as pessoas ditas normais, e que conhecem todas as letras, nunca terão uma história assim que de si possam contar.

Quase no cimo da colina mais alta, depois de treparem pelas ruas estreitas da cidade, rapazes e raparigas, são pupilos das gaivotas escutando lições de liberdade.

 

Fevereiro é um mês raro e dedicado particularmente às pessoas com doenças raras. Deixo-lhes aqui o meu abraço.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

As cartas de amor não têm data nem hora…


Meu amor,

Escrevo-te esta carta sem data e sem hora, porque a qualquer momento que a leias, tudo aquilo que de mim ela revela, persistirá inteiro; ou não fosse o amor, ele próprio, a eternidade…

A minha vida está nos teus beijos, muito mais do que em respirar, e sobre o instante em que te conheci, eu construí a casa onde moro contigo; tomando, porém, o cuidado de numerar todas as pedras para assegurar que ela jamais se torne vulnerável ao tempo, e continue assim, eterna, cruzando comigo todos os dias do futuro.

Na sua varanda que olha o mar, há sardinheiras que se acendem nas tardes de primavera, e que se entretêm a brincar com as gaivotas que redesenham o céu enquanto beijam o ar salgado. Recostado numa cadeira de assento de buinho, construída pelos meus avós, eu agarro o tempo como se fosse linho, e sobre ele, bordo letras azuis em versos de formas que só o desejo ensina.

Pode ser que o silêncio me revisite enquanto estiveres longe, mas aí eu porei a mesa com essa toalha, e deixarei que a memória se solte e me venha beijar à vontade.

Eu sei, meu amor, que a solidão fala comigo, tal qual as nuvens inscrevem poemas de sombras na superfície do mar.

E se não fosse a saudade, se não existisse em mim esta ânsia de te procurar, como poderia eu saber que o mundo é imenso, mas que é muito maior a vontade de te abraçar?

Por isso, e pelo amor, cruzaremos juntos, Fevereiro e o tempo todo, o Outono, a Primavera das nêsperas maduras; poremos letras de canções, na música do vento e da chuva, bailaremos viras, fandangos, malhões; tropeçaremos na pedra lavada do ribeiro, beberemos a água gelada das fontes e deixar-nos-emos cair entre giesta e rosmaninho nos dias que se espreguiçam pela Páscoa, por Abril e pela liberdade…

Meu amor, e mesmo que demores, eu prometo não chorar por ti, de verdade, e prometo que de todo o meu corpo farei um coração que te espera; até das mãos vazias, para que quando chegues, não percamos tempo e soterremos rapidamente a saudade.

Meu amor, eu amo-te muito para lá de onde só os poetas entram e nascem as palavras de amor.

Mil beijos.

Teu,

Francisco

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A minha casa com flores


Trouxemos na mochila uma música de Einaudi, há muito em pausa, tal qual o beijo que pendurámos de um minuto triste e saliente, também lá muito para trás.

Tomámo-nos as mãos para podermos repousar da longa viagem enquanto as nossas palavras se cruzavam com o Chá de Rooibos, que, em contramão, se deixava guiar pelos desígnios do desejo e, aos poucos, nos ia tomando os lábios que sorriam no mesmo tom rubro dos morangos.

Quisera eu agora tocar-te assim como a chávena branca cumprindo o beijo roubado à pausa e trazido a tiracolo entre a "tralha" de tanta história.

Talvez o amor não tenha mesmo contramão por não ter regra, sendo como é propriedade da alma e marinheiro livre a navegar pelo ímpeto dos sentidos; e talvez aquele minuto saliente não seja mais do que uma esquina com que a razão nos tentou querendo rasgar-nos o tempo de sermos nós.

Depois reparo que o chá arrefeceu quando eu já repouso na casa que o teu olhar me oferece. Finalmente a minha casa.

As palavras também adormeceram para nos deixarem a sós com o beijo que maturou em Outonos de saudade.

Lá atrás persiste apenas uma ténue marca no tempo, uma cicatriz da razão e do silêncio, um detalhe que os nossos sorrisos disfarçam agora por entre o amor maior.

O amor és tu, sim, o verde inscrito no amanhecer, a minha casa com flores em vez de um muro…

E aquilo que melhor poderá definir um Homem é a intensidade com que ele se propõe viver todos os dias inscritos no futuro.