domingo, 2 de abril de 2017

OS MENINOS QUE INVENTARAM A PRIMAVERA


Numa tarde de Março, mas com o tempo já a espreitar Abril, os meninos e as meninas saíram juntos para o campo trazendo na mochila os livros de histórias e um montão de lápis de cor.

O céu estava triste, fechado pelas nuvens enormes e cinzentas, e o chão mantinha o tom castanho e seco sem flores que herdara do fim do verão.

Chegados a uma clareira, os meninos pousaram as mochilas e puxaram dos lápis, afiando todos os tons de azul, para poderem pintar o céu, e os verdes para que a terra vestisse uma saia plissada dessa cor, como é uso na primavera.

Mas nada, os lápis gastavam-se aos poucos, e tudo permanecia na mesma cor.

Reparou então um menino, quando dava a mão a outro para o ajudar com as pinturas, que as nuvens se iam rasgando, e o céu até já conseguia espreitar. E quanto deu um abraço a outro menino, o céu já sorria feliz, brilhando na cor do mar.

Uma menina que cantou e outra que se riu, repararam que a voz e a gargalhada plantavam relva no chão de Outono, verde e grande, salpicada de giesta, amarela e quase ouro; e assim, olhando as flores, o sol, toda a gente tocou e sentiu.

Numa roda gigante entre abraços, cantigas e sorrisos, os meninos aprenderam a pintar o campo da primavera. Na verdade, os dias bonitos não se desenham a lápis de cor mas nascem da amizade.

E um pássaro que passava por ali lembrou-lhes ainda que havia livros na mochila, histórias de sonhos e de magia, e que os meninos e as meninas, não tendo asas, pelos sonhos conseguiriam voar.

Batendo as asas antes de rumar a sul, o pássaro lembrou ainda, e mais uma vez, que o céu é de quem voa. E todos os dias se pintam de azul.


Os alunos da Escola Básica da Mata, em Estremoz, sugeriram na sexta-feira que eu escrevesse uma história inspirada neles. Uma história que também falasse de magia e primavera.

Aqui está com um abraço.

sábado, 25 de março de 2017

O amor planta girassóis na lua


Não importa qual a cidade, e nem sequer o nome do rio que a namora, para mim, todas as ruas, as praças e as calçadas, são memórias dos meus passos nas tardes em que saí para te procurar.

Não importa se as torres que me ofereceram sombra foram castelos guardiões de Homens, de Deus ou do tempo; o amor planta girassóis na lua, e não se prende com quaisquer humanos ou divinos detalhes, para além de que jamais necessitará de ver as horas.

Às vezes paro e sento-me para tomar alento, roendo lentamente uma maçã verde colhida na ousadia do pomar onde os corpos tomam a forma de árvores e o desejo nasce tão intensamente que até parece proibido.

Quem tem muitos rostos não tem nenhum, e o espelho por detrás do balcão do café onde depois me encosto, na pausa da bica, tem a sabedoria de milhares de luas, e nega-me um reflexo claro. Eu só serei eu depois de te encontrar no fim da história que os meus passos contam rasgando portas e desenhando as ruas.

Também construirei um barco de madeira ao jeito de uma casa de piso transparente, e afirmo aqui perante toda a gente, que se tu viveres naquelas montanhas que dizem existir no fundo do mar, eu usarei as mãos em concha para lhe retirar a água, até te encontrar.

Dia e noite, tomando alento e fogo de cada pôr-do-sol.

Depois, substituindo com flores a ferrugem de todas as grades, levar-te-ei comigo e adormeceremos juntos sob um sobreiro. Uma manhã, uma tarde, um dia inteiro… ou até mais, enquanto as palavras que dissemos um ao outro, e que até lembram versos desenhados por Pessoa, se entretêm a voar com os pardais.

 

domingo, 19 de março de 2017

Pai


Desmentindo o tempo, salto para um banco improvisado feito de jornais atados por uma corda, e fico sentado à mesma altura onde o teu respirar se mistura com o som inquieto da tesoura que afina os meus caracóis castanhos.

Há cromos de futebol que enrolam rebuçados comprados às meias dúzias com moedas de dez tostões, comemos medronhos maduros na encosta do castelo, recortamos e colamos casinhas de papel, jogamos ao pião, construímos papagaios cruzando canas, e á frente do portão do “Tapum”, construímos repuxos num lago improvisado onde se passeia um pato de plástico, nos dias de Junho e São pedro, quando a nossa rua se enfeita com flores de papel que fomos fabricando nos serões de primavera, imitando o melhor gesto que reveste o campo.

Desmentindo o tempo…

Agora que “O Século” e “A Capital” já não amarelecem juntos no monte dos jornais, que os meus caracóis não sobreviveram à prata que os tingiu, e que os papagaios, as casinhas e as flores de papel subsistem apenas na minha memória; eu ajeito-me à sombra do teu olhar, recuso-me a palpar-lhe o cansaço, e pulo como antes, mas já sem a ajuda dos teus braços, para o sítio onde sou maior, e onde o céu já não tem o ruído de uma tesoura mas continua a ter o teu respirar.

Num beijo, meu querido pai, imitando sempre o melhor que tem a vida.

 

sábado, 11 de março de 2017

Sou a soma aritmética de todos os beijos que quis dar…


A manhã traz sempre folhas brancas para cima da mesa, e até um lápis pouco afiado que possa andar por ali, meio perdido, servirá para podermos "escrever" a nossa história.

Março já levou a manhã ao cabeleireiro e enfeitou-a de caracóis vermelhos, cor-de-rosa... do pantone das camélias e outras flores, vestindo-lhe depois um traje de ervas com padrão de malmequeres, e pendurando-lhe ao pescoço um cordão de giestas, de fazer inveja ao ouro.

Caíram os biombos de nuvens, secaram as lágrimas de orvalho, e hoje aquilo que se vê de mim tem os contornos claros e definidos de um beijo.

Se nos quiserem conhecer não peçam um retrato, mas espreitem-nos dentro de um beijo que a alma pediu.

A nossa história somos nós e o tempo que nunca envelhece; sou eu que às vezes me sinto velho, sentado por aí num dia qualquer.

Mas o tempo também é redondo e Março cheira sempre a recomeço, quando paramos na berma de uma manhã, nos sentamos à mesa e pedimos um café e uma água lisa, mas já fria.

Depois, o pensamento serve de afia, e entre o desejo e a memória, lá conseguimos escrever, como quem sonha, um capítulo bonito da nossa história que ainda estava por contar.

O que é que eu sou?

Mil palavras rabiscadas sobre uma folha branca para dizer que sou a soma aritmética de todos os beijos que quis dar.

 

domingo, 5 de março de 2017

Estes dias que traem a paz e a liberdade…


Rasgamos a Terra buscando barro e granito para erguermos os muros que nos abriguem do vento sem matarem jamais esta essência de ser Homem.

Sentados na pedra enfeitada de hortelã que o rio beija enquanto conta o tempo, o Homem é a alma, muito mais do que a forma ou o tom daquilo que se espreita ou dele se reflete à superfície das águas.

O Homem é a sua fé, muito mais do que qualquer gesto que a enfeita e a recorta.

O Homem é o amor, para lá do género das faces que se encontram na verdade de um beijo.

O Homem é a voz, o canto e a poesia, muito mais do que a língua mãe das palavras que dele se escutem por entre os choupos que bailam com a brisa das noites frias.

Nós julgávamos ter morto os dias que traem a paz e a liberdade...

Mas eles apenas dormiam aguardando as janelas que a imbecilidade rasga à superfície do tempo.

Há que voltar a desatar as mãos. Estes dias empurram-nos de novo para a luta.

Por nós, pela paz e pela liberdade.

 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os poetas sonham e tiram apontamentos…


Já há muito que os sinos de Viena assinalam a meia-noite, e no quarto do hotel, com a cortina da janela não completamente corrida, eu pressinto o verde no semáforo dos peões quando as luzes dos carros que percorrem a Ringstrasse desistem por momentos de riscar a parede em frente à secretária.

Recebi os golos do Benfica, escrevi e mandei os beijos todos que o coração ditou, e entreguei-me finalmente à hora do poeta, o silêncio sem pressa que se predispõe a ser tudo aquilo que eu quiser.

A hora dos sonhos em estado vígil, que não se apagam nunca às mãos da madrugada e por capricho da memória; os sonhos que persistem.

Quantos dias habitam na noite dos poetas…

Amanhã será Carnaval e acender-se-ão luzes e máscaras sobre o racional sentido dos dias. Irão impor-se gargalhadas que morrerão depois amarfanhadas no terreiro onde as cinzas de quarta-feira se entregam ao vento.

Como se a espontaneidade feliz morasse obrigatoriamente no inverso daquilo que somos e tivesse o prazo de validade de um modesto fim de semana prolongado.

Quando as luzes suspendem os traços na parede, há Homens de todos os momentos que avançam pelo silêncio da noite cumprindo o seu destino e tomando a cidade.

Sem máscaras e sempre a sorrir, enquanto os poetas sonham e tiram apontamentos.

 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O rapaz que não conhecia a letra “a”


Quase no cimo da colina onde o moinho respira o vento que sopra do rio e onde as gaivotas vêm repousar ao fim da tarde; numa rua muito estreita, de casas com flores nas janelas e rodapé azul ou encarnado, vive um rapaz que todos acham estranho, apenas porque não conhece, e jamais conhecerá a letra “a”.

Nasceu e será sempre assim, mas aquilo que é diferente não é forçoso ser coisa ruim.

Igual a todos os outros rapazes, apenas busca novas palavras, perdão, novas expressões.

Assim, em vez de dizer que gosta de sonhar, diz:

- Eu pinto e invento o mundo. Ofereço-lhe um tom novo, que é só meu e que encontro bem no fundo.

Não se esconde atrás de nenhum biombo ou véu, e para dizer que gosta de saltar, diz:

- Eu gosto muito e brinco com o céu.

Chama a mãe e o pai por mundo, esquece as horas e foca-se nos minutos, uma rosa é uma flor, o pão é sustento, uma bola é um esférico, um desafio é um jogo, e uma derrota é um tormento

No outro dia, na aula de Português, a professora pediu uma quadra sobre a mão, fez um concurso e ele ganhou, mesmo sem poder usar tal expressão:

“Emerjo do solo, em prece,

Sou pelo céu, um grito só

Tronco que o sonho tece

Unindo o mundo com um nó”.

Encarnado é vermelho, o amarelo é desespero, o verde é verde, o azul é céu, e até uma maçã pode sempre ser um pero.

Amar é viver, amor é querer, a alma é um verso, o mar é o horizonte líquido que se une com o infinito, ter valor e ser raro, são sinónimos de ouro, e não têm nada de esquisito.

Vive feliz e contente, mesmo não sendo igual a toda gente.

E agora apenas para terminar, sempre digo que as pessoas ditas normais, e que conhecem todas as letras, nunca terão uma história assim que de si possam contar.

Quase no cimo da colina mais alta, depois de treparem pelas ruas estreitas da cidade, rapazes e raparigas, são pupilos das gaivotas escutando lições de liberdade.

 

Fevereiro é um mês raro e dedicado particularmente às pessoas com doenças raras. Deixo-lhes aqui o meu abraço.