sábado, 8 de julho de 2017

No tempo em que eu nasci…


No tempo em que eu nasci as fotos eram a preto e branco, e embora os fotógrafos se esforçassem dando-lhes um retoque, ao jeito de maquilhagem, as verdadeiras cores guardávamo-las connosco na memória.
Ficaram para sempre ali sentadas num recanto confortável, em ameno convívio com os olhares, os trejeitos, as histórias, as frases completas e os beijos que nos fizeram.
Porque sim, um Homem é feito de beijos, essa mágica expressão de amor, muito mais do que daquilo que qualquer aporte proteico ou vitamínico lhe possa acrescentar.
Guardei estes dias ao redor do meu quinquagésimo primeiro aniversário para passá-los com os meus pais em Vila Viçosa.
Será sempre neste sul que encontrarei o meu norte, mesmo agora que os meus braços se sobrepõem aos deles, fragilizados pela idade; mas a ordem pouco importa, porque somos feitos dessa "carne" dos beijos infinitos do mesmo amor, do mesmo imenso amor.
Esta será sempre a casa dos meus instantes de renascer, onde os nossos serões têm a forma de um triângulo desenhado pelos olhares, e eu, entre o sono e o amor, me perco no tempo, não sabendo se é infinito o que já vivi com eles, ou pelo contrário, infinito é o tanto que ainda me apetece viver.
Aqui, onde nunca envelheço, por entre as palavras sonolentas mas doces, escapam-se sempre as cores dos instantes que o fotógrafo captou a preto e branco, mas solta-se também o azul dos dias que virão, azul como o céu da liberdade das asas de um condor.
Porque os Homens são feitos de beijos, e gozam das asas oferecidas por esse tanto amor.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Ser


Eu sou a semente desatada pela coragem dos meus avós
Sou a raiz envolta na esperança que choveu da ousadia
Sou o inverno fértil
O dia quente
Eu sou a flor e o fruto do sonho de tanta gente

Eu sou a voz
Sou a palavra à solta por entre o eco de uma manhã de liberdade
Sou a rima rebelde
O romance inédito
Sou o verso em forma de verdade

Eu sou o passo certo e o incerto
Sou o previsível e a diferença
Sou água e sou vinho
Sou riso
Sou o nada e sou tudo no tudo da minha vontade

Eu sou um rio buscando o mar que o abraça
Sou barco
E às vezes sou apenas jangada
Sou uma ilha inesperada
Sou um Gama buscando as “Índias” que o seu querer lhe traça

Eu sou o grito que rasga os silêncios que doem
Sou o abraço na morte da solidão
Sou a gargalhada
A piada
Sou o sim e o não que mudam o tempo
Sou a Coragem e a festa
E às vezes sou uma revolução

Eu sou o beijo que não mente
O abraço que é meu e coerente
Sou o gesto e a esperança nas laudes sem letras nascidas da alma de um Homem crente

Eu sou a fonte de água fresca
As cerejas maduras
Sou o tom grená da romã
Eu sou hoje
E sou amanhã

 

 

sábado, 1 de julho de 2017

Balas ou flores



Podem ser balas ou flores, mas todas as palavras que escrevo me nascem da alma.
O poder é a vaidade onde os “valentes” se acobardam, agachando-se no mais vil silêncio, ao canto da incoerência; assim como o pudor, mais do que bom senso, tem raízes no medo e é o rosto postiço, o jazigo arrendado e lindo onde os fracos se sepultam por entre as exéquias da sua verdade.
O previsível tem o mesmo tom da cinza.
Eu tenho janelas e claraboias rasgadas no meu peito, varandas de liberdade por onde se soltam sílabas alinhadas pelo desejo, ao sabor feliz e ousado da brisa que cobre as madrugadas.
Nada me poderá definir melhor do que o amor que trago em mim e se espreita no meu peito, e que poder, para além da suprema morbidez, teria eu se amarrotasse a mais pura essência do meu ser?
Podem ser balas sobre guerras mais ou menos antigas, ou serem flores nascidas na terra sobrevoada pelas aves da primavera, mas eu sou, orgulhosamente, todas as minhas palavras.

sábado, 24 de junho de 2017

Pedrogão


As árvores, que insistem morrer de pé, permanecem como guardiãs do silêncio que deixámos atrás de nós.
Sim, nós partimos com a urze e os pássaros para a viagem dos poetas, dos Homens que se agarram ao sol e não o deixam fugir no fim de um sábado qualquer, preferindo puxar sobre sim o manto de um céu azul e permanente.
Quando olharem a cinza que deixámos sobre os montes, não solucem jamais os nossos nomes, o fogo que se vê e se cola à pele, não incendeia e não queima a alma, apenas o outro, o fogo feito das chamas transparentes do amor, consegue fazê-lo, mas sempre para nascer e para poder voar.
Nós somos a alma, e a alma permanece.
Quando olharem as fontes, não as culpem de omissão no juízo de um qualquer tribunal, nós trouxemos o canto fresco das águas atado aos versos dos poetas, e sentimo-lo enquanto rasgamos o tempo batendo as asas.
Não chorem por nós, e nem de saudade da urze, da copa verde das árvores e do canto dos pássaros. Se disso sentirem tentação, olhem o céu e pensem que ninguém morre, a ausência e o silêncio são tão-só uma ligeira dissonância impressa no tempo, desfasamento que será sempre breve e transitório no contexto da eternidade do universo.
Logo o tempo se acerta para nos sentirmos num abraço… com aroma de urze.

sábado, 17 de junho de 2017

Capri


Os traços são cúmplices das palavras, cumprindo o desígnio comum de pintores e escritores, no "desenhar" das suas muitas histórias e do eclodir da poesia.
Henrique Pousão, pintor Português da segunda metade do Século XIX, é um dos meus favoritos, e o facto de ambos termos nascido em Vila Viçosa, terá por certo facilitado essa minha aproximação aos seus trabalhos, mormente uma série pintada nos anos que viveu na ilha de Capri, algures por 1882.
Para mim, essa ilha Italiana próxima da costa de Nápoles, foi e será sempre a ilha de Pousão, e esta semana, visitando-a, levei na lembrança os quadros, indo em busca do artista.
O barco entre Sorrento e Capri é muito veloz, deixando atrás de si uma estrada branca de espuma, que enfeita o mar no seu esplendor azul.
Acerto o tempo retirando cento e trinta anos à velocidade do barco, para poder imaginar um homem magro, de chapéu de abas largas e calças de linho, a desembarcar num cais onde imperam pescadores e vendedores de limões.
As bancas onde agora se oferecem passeios aos turistas, “pisam” o mesmo chão onde um carro puxado por animais transporta o pintor pela encosta acima, até à casa onde ficará instalado.
O empedrado das ruas, os cheiros do campo, e sobretudo, as casas brancas de Capri, lembrar-lhe-ão por certo, o Alentejo, e a casa que o primo Matroco tem na Rua de Santa Luzia, em Vila Viçosa.
Nesta manhã quente de Junho de 2017, o escritor traz no i-Phone a reprodução dos quadros, e cedo pede ajuda ao Guia Turístico:
- Consegue ajudar-me a encontrar esta rua?
- É a Via Le Botteghe, e eu levo-o lá.
Mas o Guia ainda confirma com o dono do restaurante:
- Que rua é esta?
- A Via Le Botteghe. Não pode ser outra.
Tinha a pista certa.
Passo a manhã em Anacapri e aproveito para visitar a Casa Museu de Axel Munthe, médico e escritor Sueco que aqui viveu na sua "Villa Saint Michelle", depois de se instalar ali em 1888.
O silêncio no jardim, imune aos vendedores que cativam turistas com roupas, sandálias e Limoncello, faz-me regressar ao Século de Pousão, e eu consigo "encontrar" o artista, por ali, tomando a luz imensa que assalta todas as janelas e as varandas rasgadas para o mar.
Dali vejo bem as casas brancas de Capri enfeitadas pelas catos que habitam estas terras do sul.
Depois, já ao princípio da tarde, chego finalmente à "minha rua", a Via Le Botteghe, e vou-me guiando pelos arcos e as janelas, procurando os ângulos certos guardados nas obras do meu conterrâneo.
Esta rua, que tem uma largura pouco maior que a dimensão do meu corpo com os braços esticados, é preciso ser despejada dos turistas e dos comerciantes de agora, para que eu consiga olhar o pintor com o seu inevitável chapéu, pintando uma menina descalça que brincava por ali sob os arcos brancos da rua onde nasceu.
O homem da fruta passara de manhã, e avisara que o dia está bom para um passeio até ao topo da ilha. Oferecera-se como guia, e sairão esta tarde depois do almoço.
As gentes do Sul nunca usam ter pressa, e a rapariga deixa-se estar assim, quieta, enquanto o pintor roga às tintas que façam justiça à luz e às sombras perfeitas das ruas de Capri.
Vejo claramente o Henrique Pousão, por ali, e sorrio-lhe. Os pintores e os poetas partilham o mesmo chão, enquanto enfeitam as tardes com os traços e as palavras das suas histórias.
Os pintores e os poetas desmancham o tempo, no privilégio que advém da poesia que partilham: a eternidade.

(Os quadros de Pousão que aqui reproduzam entre as minhas fotos podem e devem ser contemplados no Museu Soares do Reis, na cidade do Porto).

sábado, 10 de junho de 2017

Nós



Nós, os Portugueses, somos poetas que negociamos com as gaivotas, trocando frutos maduros por lições da arte de bem voar.
Sentados nas praias beijadas pela brisa salgada do fim da tarde, o nosso sonho projeta-se no oceano, como que abrindo as asas, e aquilo que de nós se vê nesse espelho imenso e azul, são corpos ao jeito de caravelas, cumprindo a vontade que se nos atou ao peito.
Quando as gaivotas se entregarem finalmente às ameixas que cumprem a nossa parte do acordo, e que as esperam no areal, nós já estaremos muito longe dali, provando que é herói quem se deixa acontecer, seguindo pelo amor e pela liberdade, mesmo sabendo que na distância, e sozinhos, o tempo é sinónimo de saudade.
Por muito querermos o céu, nós, os Portugueses, somos irmãos das gaivotas e de todos os pássaros do universo, e também somos poetas, por via da alma e do desejo. Nós jamais saberemos definir a fonteira entre um verso e um beijo.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Vou ter saudades suas


Existia uma muralha de beijos entre mim e o medo, uma fortaleza transparente e gosto a caramelo, em cuja sombra brincava, alegre, colhendo palavras doces nos canteiros em forma de abraços, e olhando o céu muito azul, que sentia sempre tão demasiado perto.
Ria-me muito e quase achava ridículo quando alguém me falava em envelhecer.
Mas o tempo é o mestre que consegue vergar a nossa teimosia. Beijo a beijo, foi passando e fragilizando esta muralha, expondo-me ao medo e à ventania, ensinando-me também, e pouco a pouco, o que é a saudade e como ela dói.
“Atão filho…”. 
Era com estas palavras que o meu tio António recheava o beijo com que sempre nos saudávamos, e elas ecoaram em mim por entre mil memórias, enquanto o acompanhava na sua última subida ao castelo, em Vila Viçosa. A última viagem dos Calipolenses quando morrem.
Sentimo-nos envelhecer quando os beijos se nos apagam assim, e o medo vai ficando tão próximo de nós.
“O mê Quim”.
Sinto-me tão mais pobre por entre este silêncio que vai devorando as vozes de quem me quer e me sente verdadeiramente seu.
O silêncio numa manhã quente, daquelas em que o Alentejo rouba a essência da esteva e a casa com a do alecrim, espalhando-as depois pela solidão das ruas. 
“Atão, tio”.
Até sempre, e um beijo. Vou ter saudades suas.