sábado, 21 de outubro de 2017

O abraço do velho sábio


Há um velho sábio sentado na torre do edifício mais alto que ladeia a praça, ali, entretido à conversa com os outros pássaros, que vão e vêm no seu voo de mil anos.
A morte, que apenas soterra as mãos e os lábios, liberta-nos do desconforto das forças centrípetas e desata-nos as asas para que toquemos, bem lá no cimo, as palavras todas que os heróis lançaram ao céu no seu grito de liberdade.
Esta semana pedi ao meu querido amigo José Manuel Delgado que me enviasse desde a sua Andaluzia, um desenho dos muitos que vai fazendo e eu vou espreitando pelo Facebook.
Pedi-lhe um desenho que contasse uma história.
Este que recebi e encima o texto carrega em si a memória de um facto real ocorrido no dia 4 de Fevereiro de 1888, quando na sua terra, Riotinto, na serra de Huelva, uma grande manifestação reclamava contra os baixos salários praticados pela companhia mineira, e também contra a poluição da queima do minério a céu aberto, indutora de gases que roubavam a fertilidade dos solos e matavam Homens e animais. Foi considerada a primeira manifestação ecologista da História da humanidade.
Na aliança sempre perversa ente o poder político e o económico, nesse dia de Fevereiro, a carga das forças policiais matou mais de 100 pessoas, heróis anónimos sepultados depois, algures no fundo de uma mina encarnada, de cobre, mas sobretudo, de sangue.
Nem de propósito, este desenho, numa semana em que só ouvi falar de fogo e de fronteiras, de poder e de interesses sectários, de incompetências, responsabilidade, de direita e esquerda...
A História é, definitivamente, um caminho em círculo, e a dor de antes, infelizmente, parece não deixar anticorpos que previnam novas “batalhas” onde o fogo e o poder esmagam a liberdade, roubando o ar por onde respira e brilha a nossa dignidade.
Há um velho sábio sentado na torre do edifício mais alto que ladeia a praça que ficou de Fevereiro de 1888, lição da memória a espreitar por entre a bruma dos dias.
É um poeta, velho no rosto mas imortal no ímpeto de liberdade que reveste todas as palavras com que a sua alma perfuma o vento da serra. Um dia, eu conheci-o e fui tocado pelo seu abraço.
 

(Agradeço pois o desenho à arte do meu amigo José Manuel Delgado)

sábado, 14 de outubro de 2017

Buscando o inverno


Quando Outubro nos rouba a fina subtileza dos trajes de água, emergem na tarde quente, e como que em íntima prece ao céu, as marcas da história que trazemos coladas ao peito.
Pessoas, beijos, deceções, desapegos, encontros, silêncios, ilusões, crenças e mágoas… Tudo registado e perene, no coração, moldando por dentro, a epidérmica orografia que lhes oferece um teto e uma casa.
Passos que tomaram matrícula das vontades da alma descansam agora sonolentos na berma das rugas, essas estradas que foram nossas e secaram pelo desamor ou pela má sorte.
Mas o inverno talvez não tarde e cubra de fontes os dias que virão, semeando flores e pão sobre este esqueleto que a idade, aos poucos, foi tecendo.
Quem olha para o passado, não vive, limitando-se a rodopiar num círculo fechado, sucumbindo pela vertigem, e magoando-se ao tropeçar nas lápides que jazem por ali.
Vive quem toma o tempo e bebe o fôlego das suas águas soltas, caminhando sem temer o desconhecido que existe para lá do horizonte para onde o olhar nos puxa.
E o resto… são raízes sob a nova pele que o inverno teceu, a pele que importa, a pele dos beijos.
Se pelo ar se respira e se vive, apenas os beijos de hoje carregam oxigénio. Os demais, resquícios de outros invernos, são memórias cansadas e entregues ao pó.
 

(Agradeço a foto ao meu amigo Horácio Santos)

 

sábado, 7 de outubro de 2017

O açúcar


Engana-se quem pensa que a vida é o caminho para uma cova apertada e escura.
Abraçados pelo sol no conforto de um velho banco de madeira, que é o próprio tempo, cada livro que lemos, cada cidade a que oferecemos os pés e o olhar, cada beijo, cada verso, as palavras todas, as paixões, as praias onde falámos, sós, com o mar... Oferecem-nos troncos, ramos e folhas que encurtam a distância para o céu; e é por aí que vamos.
Esta semana partiu um velho amigo de Vila Viçosa, vizinho da mesma rua em casas frente a frente, rapaz da minha idade, colega de escola e de muitas brincadeiras.
No inevitável revisitar das memórias desse tempo, deparei-me com os curtos passeios que fazíamos às vezes entre a nossa Rua de Três e o Convento da Esperança, onde vivia a sua avó, a D. Ascensão, que nos dava de lanchar: pão barrado com banha e depois polvilhado com açúcar.
Nós, os que não precisamos de perfumar a nossa existência com os aromas de povo, porque o somos verdadeiramente na essência e no gosto pela liberdade, aprendemos a colocar um doce sentido sobre tudo aquilo, pouco, que temos, acrescentando troncos à árvore que sonhamos, e no cimo da qual é tão mais fácil partir a voar.
Às vezes, numa tarde quente de Outono.


(Agradeço a foto ao meu amigo José Marques – Kirstenbosch National Botanical Garden / Cidade do Cabo)

 

sábado, 30 de setembro de 2017

As praias


Despojei o corpo, do medo e dos arquétipos, entornando depois sobre um instante qualquer, a areia toda das praias onde brinquei descalço, e que transportei, alegre, com a crucial ajuda dos bolsos das calças.
Sobre essa ampulheta informal que carrega todas as eras da minha história, há um velho búzio que tomou o canto das ondas e o guardou com religiosa fidelidade, e há árvores entretidas a desenharem sombras que perfumam a matiz alourada das dunas.
Desse instante em que me sentei no chão cruzando as pernas e descruzando a liberdade, afastei os contentores e a lama, varri o pó, o eco das promoções e das promessas de produtos, serviços e candidatos, sacudi as ervas já mortas, e agitei o ar impregnado de monóxido de carbono, fazendo nascer a praia que sonhei; muito a tempo de sair a navegar.
Hoje, e sempre, eu sou este encontro de cor indefinida, mas muito minha; eu sou a história entrelaçada nos sonhos todos que guardei e trouxe do mar, repousando e tomando fôlego da brisa fresca que há sob os lençóis de folhas que se interpõem entre mim e o sol, ou entre mim e o luar.
Por vezes chamam-nos loucos, tontos e inconsequentes, tão só porque rimos entre a sorumbática pose dos importantes, ou porque ousamos falar de esperança, rasgando violentamente, os panos negros das sacras vias de quem não sabe ver o Céu que há para lá da cruz; mas viver, definitivamente, é a arte de construir praias nas retas ou nas curvas que nos oferece o tempo.
Sem medo e sem modelos, sabendo que o mar, que até pode parecer uma parede, é uma estrada infinita e larga para quem ousa navegar.
 

(Agradeço a foto à minha amiga Margarida Garimpo. Timor, praia de Jaco)

sábado, 23 de setembro de 2017

Outono


O Outono tem olhos doces e alaranjados, da cor da marmelada em taças de porcelana que as mães esconderam debaixo de um recorte de papel vegetal, e puseram à janela para que secasse ao sol.
O Outono abraça-nos com uma brisa fresca, envolvendo-nos na lembrança de todas as idades. Veste-nos camisolas, casacos e sobretudos de bolsos fartos onde escondemos a mão, recordando-nos que onde agora cabe a carteira ou o telemóvel, antes vivia a bolsa dos berlindes ou o pião.
O Outono chama-nos para casa, senta-nos em frente a livros que cheiram a novos, e a alvos cadernos que de tão aprumados, facilmente nos arrancam o compromisso de novas histórias escritas com uma excelente caligrafia.
Sim, um caderno em branco é como o nascer do dia.
A construção da cabana de canas e pedra que projetámos para uma das encostas do castelo ficará agora suspensa, e talvez nos deparemos com os seus destroços, daqui a uns meses, quando andarmos em busca de musgo para o presépio.
O Outono toma o canto das primeiras chuvas em dueto com a vidraça; tem o aroma que emana da terra seca, que, agradece generosamente, ser molhada; o Outono dança com as folhas e a ventania.
O Outono puxa uma manta sobre o sonho e o sono, guardando-nos, por saber que a melhor noite é o abraço de quem se ama na forma de pura poesia.
O Outono risca de encarnado e ocre, o horizonte, nas tardes em que resgatamos as castanhas dos seus ouriços, em que provamos os diospiros, os medronhos maduros, as gamboas e a água-pé.
O Outono talvez nos roube em parte aquele sol que se vê, mas em contrapartida, devolve-nos o olhar para dentro, para o melhor que temos no peito e a que usa chamar-se fé.
 

(Agradeço a foto ao meu amigo José Manuel Marques)

 

domingo, 17 de setembro de 2017

JFK


O tempo livre não é muito, mas o metro, aqui mesmo à porta do Centro de Congressos, consegue levar-me de forma célere até ao cemitério de Arlington.
Passo o pórtico da segurança, recolho um mapa, sigo as setas... e os sapatos de sola resvalam no piso polido por onde caminho na companhia dos esquilos, procurando a sombra dos enormes carvalhos. O calor e o tom cinza do céu parecem confirmar a trovoada que a meteorologia já ousara anunciar.
Viro à direita, depois à esquerda, subo uns degraus, e chego finalmente ao túmulo do Presidente Kennedy, cruzando-me com um grupo de turistas que já regressava. Agora, somos cinco pessoas, o silêncio e uma chama.
Do silêncio dos grandes Homens observa-se melhor a repugnante pequenez dos outros, e à luz da chama que persiste na memória sobre as balas de uma tarde de Novembro de 63, em Dallas, conseguimos ver-nos a viver uma imensa, e triste, sexta-feira treze.
Talvez já não tarde a madrugada de um sábado que desminta este tempo e o devolva à condição de mero pesadelo. Eu quero acreditar que os Homens voltarão em breve a derreter os muros, voando com as asas de todos os seus sonhos legítimos.
Olho o relvado em frente, acaricio um pouco mais o silêncio, e devolvo-me às sombras dos carvalhos, parando aqui e ali para oferecer uma bolota a um esquilo mais "conversador" e desinibido.
De repente, recordo-me dos domingos em Vila Viçosa quando me era dado o prazer de estrear uns sapatos. A subir a praça até à igreja de São Bartolomeu, também derrapava assim e tinha que fazer força para não cair.
Eu, pequeno, com uns sapatos novos e uns calções do tecido que sobrara do fato do meu pai, e eu, aqui, a afastar o suor da barba grisalha sob as sombras de Arlington. Nenhum Homem, por mais pequeno que seja, está longe da História e do poder de a reinventar.
Persiste o calor, mas as nuvens dispersaram e a trovoada afinal já não virá.
Oxalá seja sempre assim, e o meu "grito" faça com que o sábado chegue depressa e sem que troveje. Há milhões de silêncios à espera da nossa esperança.

 

sábado, 16 de setembro de 2017

“I have a dream”


O tempo não apaga o eco das palavras incandescentes, fogueiras acendidas pelo ímpeto de liberdade, que persistem, aqui, entre os ramos dos carvalhos e as farripas de sol, que os beijam em êxtase ao fim da tarde.
O sangue, rubro, desenha papoilas que nos afloram ao olhar, candeias em verso, velas que nos limpam os soluços da viagem e nos impedem de naufragar.
Os meninos, que vieram de perto ou de mais longe, e que trajam vestes coloridas sobre os seus corações sem cor, fizeram uma roda gigante onde as mãos e as vozes rimam com o futuro, e com o poema desenhado para uma eterna canção de amor.
Há beijos sentados nos bancos de madeira, detalhes de amores sem género, credo, rótulo, dinheiro ou distância, beijos sem aditivos ou corantes, e que a alma desenhou à sua maneira, como se mais nada tivesse importância.
O homem que salta à corda e a mulher que assobia, passeando-se de mãos nos bolsos por entre a gente, decalcam gestos sobre a verdade que trazem ao peito, esmagando pela igualdade, a repugnante dor de qualquer fobia.
Deus não mata, não condena, não cala, não separa... Qualquer que seja o detalhe sagrado ou religioso, a tefilá, o mantra, a salá ou o salmo que ouvi, Deus apenas sorri.
Derrubámos os muros, como se fossem folhas de papel fáceis de rasgar; substituímos o hidrogénio pelo sonho nas bombas certeiras que cruzam o mar; enchemos os mísseis de pão; pusemos açúcar sobre os caminhos, eliminando as fronteiras e o alcatrão; eliminámos as manchas negras das notícias, impregnando-as de poemas ditados pelo coração.
E voámos com os pássaros por sobre todas as noites, mesmo as mais escuras, juntando pedaços de estrelas e linhas de luar, sabendo que cada madrugada é uma chance única é imperdível para que o mundo se possa reinventar.
"I have a dream".
"Eu tenho um sonho"… que persiste com a força de acontecer.
Há sonhos assim, que não se nos podem morrer.

 
(Washington, 14 de Setembro de 2017, lembrando Martin Luther King e o seu “sonho” de 28 de Agosto de 1963)