sábado, 27 de janeiro de 2018

Bibliotecas, trincos e Madalena Iglésias


Existe uma velha anedota acerca de um Alentejano, por certo meu compadre, que algures numa aldeia remota, entre sobreiros, esteva, e giesta, se questionava sobre o porquê de ser gratuito, o acesso aos livros na biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian.
A insistência do homem relativamente a tal benefício levou a que, certo dia, o bibliotecário lhe tentasse explicar:
- O Senhor Gulbenkian era um homem muito rico e com muitos poços de petróleo...
Tendo esta frase sido suficiente para o Alentejano concluir:
- Não diga mais nada, que eu gasto pelo menos dois litros de petróleo no candeeiro, para poder ler os três livros que todos os meses levo daqui.
Há já muito tempo que nos habituámos a esgravatar os atos, os gestos ou as palavras boas, acreditando que por detrás de todos eles existe, mais ou menos camuflado, um interesse qualquer.
O amor, na sua vertente mais desinteressada, que é a amizade, parece ser coisa de outras eras. E quem não sofreu já o bombardeamento de "tolo" perante o credo recitado em prol dos amigos?
No tempo em que eu bebia Laranjina C por um copo de vidro estampado com o rosto da Madalena Iglésias, que a Tia Joaquina Rosa me oferecera nos anos, os dias não tinham grades de prudência para os amigos, que ficavam sempre à distância, desprezível, de um trinco aberto por um cordel, quando a mão se intrometia no postigo das portas.
No domingo passado, em Vila Viçosa, e à volta de um chá que "digerisse" as migas, sentei-me à volta da braseira com os meus pais, o Rui, o Álvaro e o Manuel, pouco tempo antes de regressarmos a Lisboa.
Agora, as palavras substituíram os frágeis cordéis que abriam os trincos, mas os amigos persistem como partes bonitas de nós, sem interesses por detrás da festa de sermos apenas um, mas feitos, afinal, de muitos.
Mais tarde, na autoestrada, acho que o Céu, já com a Madalena em alguma nuvem azul a oferecer-lhe um toque semi-pop, fez questão de se alinhar, confirmando-me, sem margem para dúvidas, esta forma de sentir.

 

sábado, 20 de janeiro de 2018

Os rios da minha idade


Aí, onde as águas se fazem espelho e estrada, reinventei-me e reinventei cidades para onde “caminhei”, depois, usando o vento ou os remos, às vezes lutando contra a força da maré.
Esta semana, enquanto regressava ao sul, fui remexendo as lembranças e sentindo os “Mostrengos” que moram na bruma dos dias… e dos rios.
O autotransplante de medula que isola um amigo entre quatro paredes, assépticas, de vidro; a radioterapia de um outro e as máquinas intimidatórias que enfrentamos com máscaras que nos metem medo; a demência e a velhice dos nossos pais, e as fraturas que lhes revelam as debilidades; uma amiga que voou para longe tentando revestir de esperança, a dor da mãe que agoniza…
“Aqui ao leme sou mais do que eu”… muito mais, mesmo, porque todos aqueles que amo são partes de mim, que às vezes me doem, assim, no dilema que divide os cabos entre as tormentas e a boa esperança.
No silêncio do meu carro resgato da fé um assobio, e enquanto me vejo e revejo nas águas do meu rio, vou dobrando as folhas brancas de todas as incógnitas, transformando-as em barcos de papel, subindo, depois, a bordo para remar forte contrariando o vento e a maré.
Se um dia quiserem medir a minha idade, façam-no também avaliando o quanto resisto, para que jamais se apague ou afaste, a minha cidade.
 

(A foto é do José Manuel Marques, meu querido amigo e genial fotógrafo, a quem expresso um especial agradecimento).

sábado, 13 de janeiro de 2018

À conversa com as azedas numa manhã de Janeiro de 2018


A chuva já resgatou as azedas da escuridão da terra, e têm um assumidíssimo tom amarelo quase fluorescente, as bermas do meu caminho de todos os dias.
Não resisto e espreguiço o olhar para longe, para o campo que ainda resta, aqui, um privilégio na periferia operária da cidade…
Quem é pequeno constrói palácios com nichos para guardar do mundo as suas vaidades e o seu poder, e quem é efetivamente grande não cabe entre quatro paredes, por maior que seja o espaço que elas encerram; assumindo o universo como a sua casa, e entretendo-se à conversa com as flores do campo, e com as árvores, desmentindo, dessa forma, o frio intenso das manhãs de Janeiro.
Os tetos elegantemente pintados escondem o sol, e os nichos dificultam o acesso ao mais pequeno dos abraços.
A simplicidade é a antítese das fronteiras e das grades.
Se um dia eu conseguir aproximar-me um pouco da dimensão da gente grande, abandonarei as avenidas onde os mantos opacos do veludo da autoestima exibem o ouro dos seus bordados, correndo então descalço no campo molhado pela chuva, e tomando para mim o acre sabor das azedas.
Cantando, rasgarei claraboias à superfície dos silêncios mais circunspectos, sentindo que as flores tomaram do astro rei, a sua cor, apenas para virem enfeitar o meu caminho.
Quem rodopia sobre si mesmo condena-se a uma prisão, por entre a doce ilusão de que se move, esquecendo-se de que só aquele que corre é capaz de se aproximar da madrugada, e assim, reinventar-se, mudando a História.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Quase meio-dia…


Quando Cristo se eleva no altar é quase meio-dia, e o meu ajoelhado silêncio destapa o desabafo do vento que sopra desde o repouso dos meus mortos, à minha frente e atrás da Senhora da Conceição, seguindo depois para lá da muralha do imenso castelo, por onde eu sairei daí a pouco, de braço dado com os meus pais.
Em Vila Viçosa, com o sol a pique, eu serei sempre esta ínfima partícula do tempo, algures entre o Céu e os dias que me esperam.
No final de 1973, a dificuldade em arranjar trabalho levara o meu pai até Lisboa, para a secção de peças da firma Baptista Russo, a Cabo Ruivo.
Se tudo lhe corresse bem, nós juntar-nos-íamos a ele, mais tarde, concretizando a mudança da família para a capital, o que não desejávamos.
Tal não chegou a acontecer, porque a 1 de Junho de 1974, um sábado, o pai iniciava funções de escriturário na Fundação da Casa de Bragança, em Vila Viçosa.
Desse Natal algo amargo de 1973 ficaram as memórias e um brinquedo oferecido pela empresa: um carro de emergência, a pilhas, que, para além de andar para a frente, consegue recuar sempre que bate nos pés de um móvel ou na parede. Uma viatura BMW, claro, igualzinha às donas das peças que o pai geria no armazém.
No último dia útil de 2017, estou com os meus progenitores em Vila Viçosa, quando após mais de 43 anos de serviço e com 77 de vida, o pai Artur finalmente abandona as suas funções no escritório da Casa de Bragança.
Por detalhes de logística, nesse dia, vemo-nos a descer a Rua de Três e a passarmos à porta da casa onde vivíamos então, e aonde eu nasci. Seguimos no meu carro, que por acaso é... um BMW.
Tenho quase a certeza que no longínquo dia 1 de Junho de 1974, entre a liberdade que chegara e a esperança de uma primavera finalmente nossa, talvez nenhum de nós conseguisse antecipar, sonhando, aquilo em que a vida nos tornou. Não o que temos, que isso só é relevante para as coincidências; mas o que somos na família a sete que nos tornámos hoje.
Do saco que o pai trouxe do escritório com os seus pertences nessa sexta-feira fria de 2017, retirei o carimbo com a sua assinatura, para guardá-lo na gaveta das relíquias da minha história, não longe do carro do Natal de 1973. Um carimbo para me recordar como é bonita a honestidade “tatuada”, assim, sobre todas as horas.
Em Vila Viçosa, com o sol a pique...
Eu serei sempre esse ponto ínfimo e azul entre o Céu e o futuro, quando Cristo se eleva no altar para nos lembrar que a fé, afinal, é o antídoto dos impossíveis.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Tempo novo


Os dias novos são aqueles que se inscrevem na nossa história pela forma intensa com que permitem cumprir os sonhos e a vontade, e, pelo contrário, são moribundos os instantes em que, contrariados, arrastamos os pés de encontro àquilo que não somos ou não queremos, mesmo que seja tudo o que os outros esperam de nós.
Há muito de réveillon numa declaração de amor, num beijo, num sim ou num não que já tardavam, numa viagem, num livro que se escreve ou que se lê, numa conversa com vista para o coração, num concerto, numa música, na carícia de uma rosa encarnada, na madrugada que cheira a liberdade, no passeio numa praia deserta, no reencontro com a autoestima no enterro de uma qualquer ilusão.
Sempre, sem foguetes, passas, espumante, cuecas ridículas de cor azul e as tão famosas astrológicas profecias.

Feliz ano novo... Todos os dias.

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domingo, 24 de dezembro de 2017

Natal 2017


Quando os meus olhos se fechavam contra o colo das avós, com força, não fosse um olhar furtivo assustar o Menino Jesus, que trazia as prendas, talvez eu ainda não desconfiasse que o Salvador nasce milhões de vezes nos braços de quem nos sossega e acaricia, e que Belém é, afinal, a nossa casa e o melhor presente.
O tilintar dos vidros na cristaleira da sala do primeiro andar sempre que corríamos com mais pressa, e às vezes descalços, eram sinos informais e sem bronze colocados nas torres com vista para o universo, muito mais do que apenas uma cidade. Por esse onírico campanário se desenhavam histórias de rapazes com asas e super poderes. Os sonhos desmentem o impossível e descalçam o medo que nos tolhe o caminhar.
E muito mais do que no menino reluzente e gordo moldado no barro pelos artesãos oleiros do Redondo, Cristo resplandecia no musgo trazido das árvores mais velhas do olival. Em tufos enormes de muitos tons de verde, o musgo tinha ainda preso a si, a terra cúmplice das mulheres lá de casa na carícia gélida das manhãs de geada e azeitona.
A terra é o sacrário onde Deus mora e floresce no pão dos simples, e nós trazemos Cristo solto no olhar e nos braços que se entregam cumprindo o amor.

Um Santo Natal para todos.

sábado, 16 de dezembro de 2017

O Homem...


O Homem que despreza as suas raízes é um pinheiro ornado de Natal no recanto de uma sala qualquer. Poderá até brilhar intensamente, tomando benefício das estrelas de purpurina, e pode até acontecer que a sala cumpra a magnificência dos poderosos, mas a árvore morrerá à fome e à sede, acabando sempre por tomar sepultura num desconfortável e reles contentor do lixo, por entre a amarrotada agonia dos papéis de embrulho que ajudaram na festa.
O Homem que renega a sua história, cala a essência que tomou dos beijos simples do mel do berço, focando-se apenas nos vistosos sobretudos de outras peles que lhes possam cumprir a vaidade.
Estes Homens são máscaras caras que se passeiam pelos dias de Natal e de todo o ano, contentes e risonhos por terem há muito esquecido que a mentira tem uma existência fugaz, e que para cada máscara existe sempre o fogo da verdade e a triste sina das cinzas espalhadas por uma quarta-feira que o calendário senta em Fevereiro ou Março.
Dizem os outros Homens, depois de abraçarem estes da ilusão, que a sensação que fica presa ao corpo e à alma é de que se atravessou uma floresta de sombras, durante mais ou menos tempo.
Porque o coração é aquilo que em nós mais se assemelha ao sol, renascendo a cada instante para cumprir a recorrência das novas madrugadas onde a verdade sorri, doce, por entre os frutos maduros que o tempo vai perfumando pelo ano fora.