sexta-feira, 30 de março de 2018

As nossas novas páscoas


Nos quarenta e cinco segundos que o micro-ondas demora a aquecer a caneca do leite, cabem, completas, três Ave Marias.
Sim, aprendi-o nesta quaresma, vivida tão intensamente com o Rui e com o Álvaro, porque as ruas de Jerusalém que ofereceram caminho aos passos de Cristo, têm hoje, as marcas e as cores dos ladrilhos das nossas casas.
A radiação “amiga”, aquela que ao fim de 33 sessões será suposto reduzir as probabilidades de reaparecimento do tumor extraído, começou a atuar, de mansinho, por alturas, precisamente, do carnaval, passou por um pico de intensidade a meio do percurso, apagando-se depois, de seguida e aos poucos, até à última sessão: a que decorreu na passada segunda-feira.
Por mais que acreditemos que a via-sacra termina sempre no domingo de ressurreição, os espinhos, as pedras e os chicotes, agora na forma de náuseas, vómitos, astenia, sonolência… doem muito, marcando o corpo, e sobretudo, a esperança, criando a tentação de desistir, mesmo para quem muito espera essa abençoada madrugada de túmulos vazios.
O jantar, às vezes, não corria muito bem, e o Rui ia deitar-se cedo, deixando-me no sofá a tentar distrair-me com o “Youtube” e “O tal canal”. Pelas onze horas, eu aquecia a caneca cheia de leite, e as tais três Ave Marias, rezadas a olhar o silêncio da noite através da janela da cozinha, nunca me deixaram ficar mal: o leite ficou sempre no estômago, confortando-lhe a noite.
Por mais cansada que ande a lua, ela nunca desiste de se reinventar, cumprindo os ciclos todos que o tempo lhe oferece.
Pedi autorização ao Rui e ao Álvaro para “alinhavar” estas palavras aos quase dois meses que passaram, porque sem elas, eu teria muito pouco para dizer sobre a minha Páscoa, e porque, acredito, talvez elas possam ter algo de Ave Maria sobre o silêncio das noites de alguém.
Quando vos disserem que Cristo caminhou descalço pelas ruas de Jerusalém a carregar a Sua cruz, confirmem-no no desespero de quem se senta ao vosso lado para jantar, sem poder falar claro, porque de repente ficou rouco, ou sem poder comer, porque a boca arde por entre a “morte” de qualquer sabor.
Só as palavras que chegavam, então, dos muitos amigos, continuavam a ser doces, porque o sabor do afeto jamais se perde entre qualquer terapia. As palavras dos amigos, o sorriso e a presença amiga do João Moura na sala de espera… como as mãos da Verónica e as vozes das mulheres de Jerusalém, todas entrelaçadas como lã num cobertor que protege do frio, aqui, no Século XXI, onde tanta gente nos passa pela história, e tão poucos contam para o seu desenrolar feliz.
Os santos não são estátuas enfeitadas no barroco tom dos altares, mas são essa gente que nos abraça e que se apronta a calar-nos o desespero. Os santos são os donos das mãos que apagam a solidão, e o Simão, homem de Cirene, recrutado de entre o povo para ajudar a carregar a cruz, também teve um nome nesta Páscoa: foi o Álvaro. Meia centena de manhãs com sorrisos à janela de todos os segundos, e o gesto que torna impotente, o léxico com que usa agradecer-se.
Quando vos disserem que Cristo ressuscitou numa manhã de domingo, algures nas colinas de Jerusalém, confirmem-no no olhar e na voz de quem segue convosco no carro, de volta a casa, com a máscara enorme e rígida da radioterapia, cúmplice, no banco de trás dentro de um saco de plástico do IPO.
A Páscoa, meus queridos amigos e leitores, é esta imensa ressurreição abençoada pela esteva e pelo rosmaninho, de quem acredita em novas madrugadas e que, insistente, clama por elas, às vezes no brevíssimo instante que o micro-ondas demora a aquecer uma caneca de leite.

sábado, 24 de março de 2018

As paredes de cal são como os nossos dias


Por mais que alguém possa assumir e afirmar o contrário, os dias nascem para nós sermos felizes.
Na semana que passou celebrámos o pai, a primavera, a poesia, a árvore, e a água, lembrando-nos assim, estes “post-its” colocados à superfície do tempo, que os dias nascem para serem compartidos com aqueles de quem mais gostamos e quem nos acrescentam vida, não devendo existir pudor ou medo de deixarmos para trás as demais criaturas, marcos parados e petrificados das estradas que já fomos.
Lembram-nos também que a água limpa todas as mágoas, abraçando-a ou olhando-a, apenas, de perto ou de longe, na corrente de um rio, de uma fonte, ou então, na imensidão revolta ou tranquila que tem o mar.
Para além disso, por mais rigoroso e dificil que seja o inverno, as árvores são iguais a nós no instante em que se cobrem de flores e folhas, reinventando-se sempre que chega a primavera.
E a poesia?
Anda por aí, por todo o lado e todos os dias, embora costumem chamar poetas àqueles que tiram uns apontamentos, partilhando-os depois com o mundo.
No culminar desta semana, ainda registo o facto de a minha avó Natividade, que partiu há já 20 anos, ter nascido fez ontem precisamente 106 anos. Sempre que me ia levar a casa dos meus pais, depois do jantar, eu e a avó íamos pela rua a inventar histórias, aproveitando os “desenhos” que nos eram oferecidos, inadvertidamente, pelas fachadas mal caiadas da nossa Vila Viçosa. Não eram desenhos tão precisos e artísticos quanto os do Vhils, mas a nossa crença fazia o resto.
As paredes de cal são como os dias, quando, por mais feias e desassossegadas, existem para nos fazerem felizes.

segunda-feira, 19 de março de 2018

O meu pai...


O meu pai inventou um assobio só para me chamar, e chamar o meu irmão. Entre milhões de outros sons, que até podem ser parecidos, nós conseguimos saber quando ele nos quer por perto, mesmo sem precisar de dizer os nossos nomes.
O meu pai é adepto e sócio do Sporting, e apesar de nos levar cachecóis e gorros verdes e brancos, de cada vez que vinha a Alvalade ver um jogo, não conseguiu derrotar o Eusébio, evitando que nos tornássemos ferrenhos defensores, e sócios do Benfica. Vingou-se mais tarde, não se convertendo nunca às piadas do Herman José, e mantendo-se fiel ao Cantiflas:
- Como é que podem achar graça aquele “esparvêrado”.
O meu pai só frequentou a escola até à quarta classe, mas foi ele quem me ensinou a fazer contas.
Eu faço cócegas ao meu pai, quando o apanho desprevenido, e ele, impávido e sereno, diz sempre:
- “Nãaa”, podes desistir. Mas se fosse eu a fazer-te a ti...
Gosto de tomar o pequeno-almoço com o meu pai, os dois de pijama, quando estou em Vila Viçosa. No final negociamos quem irá primeiro para a casa de banho, e invariavelmente ganho eu. Ele não se fica, e diz:
- "Nãaaa" me importo. Vou dormir mais um bocado.
O meu pai é quem mais gosto de ter ao meu lado enquanto conduzo. A mãe boceja lá atrás, depois do primeiro quilómetro de vigem, e nós divertimo-nos olhando-a no espelho.
Às vezes dou conta que o meu pai se esquece de algumas coisas, mas como eu tenho boa memória (assim o diz toda a gente), divido-a pelos dois em partes iguais, e então, ambos fazemos boa figura.
Gosto de ir tomar café com o meu pai, caminhando devagar até à pastelaria perto da nossa casa. Mesmo que já conheça muitas das histórias que ele me conta, quando paramos debaixo de uma laranjeira, eu “sorvo-as” como se fosse a primeira vez, prevenindo qualquer saudade que o tempo possa semear entre os dois.
O meu pai refere-se sempre a nós como “os meus gaiatos”, e eu gosto muito.
Também gosto quando o meu pai me diz, ao despedir-se de mim:
- Vai devagar para chegares depressa.
E eu vou sempre devagar.

sábado, 10 de março de 2018

As ruas do trovador


A mãe é costureira, e nos anos da minha infância, quando morávamos na rua de Três, em Vila Viçosa, tinha com ela aprendizes, raparigas nossas conterrâneas dispostas a seguir-lhe os passos na sua arte. A banda sonora dessas tardes longas em que eu brincava nas escadas de pedra que davam acesso à varanda, era a conversa com que elas acompanhavam os chuleios, os alinhavos, o casear e o cerzir, quase sempre, também, na companhia de uma das avós ou de alguma tia, que chegavam para dar uma ajuda em dias de mais trabalho.
Sentadas nas cadeiras baixas com assento de buinho, as suas palavras saltavam como numa dança de roda, oferecendo um coro inspirado à ópera cujo libreto eu ia inventando, como podia, entre casinhas de papel ou carros miniatura, numa cidade só minha.
Às vezes parava para tomar-lhes o sentido de para além do som, e por todas essas palavras que me era permitido escutar, muito cedo aprendi a desmontar a ideia de que esta era a assembleia informal da “gente menor”, esperando que a sua congénere forte e maior, a dos homens, chegasse a casa lá mais pela hora de jantar.
Sim, os homens eram reis sentados num imponente castelo, porque as mulheres, pedra a pedra, tinham o poder de lhes construir as muralhas, com o cimento da generosidade e da suprema honestidade.
É mais forte quem quer do que quem pode, porque o músculo é benefício da alma.
As agulhas, as linhas e os tecidos, não tinham, definitivamente, o toque metálico das ferragens de um campo de ciganos, mas eu, um pequeníssimo Il Trovatore, cantarei sempre a voz de coragem dessas mulheres que enchiam as ruas das cidades que eu inventei.

 

sábado, 3 de março de 2018

Se o “Ali Baba” tivesse derrotado o “Playback”…


“A desfolhada” do Pedro era genial e até incluía gestos bruscos de Simone sobre o canudo que fazia de microfone, mas o meu “Sobe, sobe balão sobe” arrasou a audiência e o júri “nacional(mente)” distribuído pelo celeiro, para que a distância e os caixotes pudessem oferecer-nos à voz, as intermitências das chamadas telefónicas dos anos setenta. Não me recordo bem, mas talvez o João Paulo fosse Braga, escondido entre pilhas de blusas de malha, o Manuel, Angra do Heroísmo, atrás dos capotes castanhos, e o Paulo Geadas, quiçá Beja, debaixo de uma pilha de cobertores.
Nesta polivalência de funções e plágio assumidíssimo, existia também o privilégio de alguém ser Eládio Clímaco, para apresentar as canções e recolher os votos no quadro improvisado numa folha de cartolina.
O prémio não incluía viagem até uma cidade algures na Europa, mas passava, certamente, por uma sessão de “jogo do mata” na travessa do Belhuca, o que era quase a mesma coisa que brilhar no palco da Eurovisão.
Era sempre assim, e não existia Março sem Festival da Canção em Lisboa, no Teatro de São Luís, no Maria Matos ou no Monumental, mas também no celeiro que ficava ao lado da loja do Senhor Domingos, em Vila Viçosa.
Uma das muitas vantagens de ser criança, é a de que tudo poderá ser aquilo que nós quisermos.
Guardadas nas fitas dos leitores de cassetes, rapidamente aprendíamos as canções Portuguesas, sabendo-as de cor no momento em que, algum tempo depois, ecoavam na Europa e recolhiam aqueles habituais míseros pontos dados, quase sempre e só, pela Espanha e pela França. Perante esses desastres nós tínhamos a certeza de que se o “Ali Baba” das “Doce” não tivesse sido derrotado pelo “Playback” do Paião, ou se a “Rita, Rita Limão” dos “Green Windows” tivesse ultrapassado em número de cupões, o “Portugal no coração” de “Os amigos”, nós teríamos vencido a Eurovisão.
Confesso que ainda hoje abomino o “Playback”, de 1981, porque o “Ali Baba” é que era a tal canção.
Quarenta anos e muitos festivais depois, na noite da vitória do Salvador Sobral, falei ao telefone com o João Paulo, que me disse desde logo:
- Quim, já podemos morrer. Já ganhámos a Eurovisão.
Morrer, não, que não me dá jeito nenhum e até consegui uma entrada para um dos espetáculos de Lisboa.
Uma das vantagens de crescer, é o benefício de mais tempo para podermos concretizar os nossos sonhos. Mas, claro, quando não temos medo de caminhar de braço dado com eles, desprovidos de qualquer vergonha de o fazer.
Sim, porque continuo a acreditar que se o “Umbadá” do Jorge Fernando tivesse ganho à Adelaide Ferreira, se o Telmo Miranda tivesse destronado a Célia Lawson, se a Catarina Pereira não fosse derrotada pela “pimba” Suzi… nós já teríamos ganho a Eurovisão.
No próximo dia oito de Maio, quando eu estiver no Altice Arena a assistir à primeira meia-final da Eurovisão de Lisboa, cumprindo a vontade de tantas tardes no celeiro, eu sei que sentirei saudades do “jogo do mata” na travessa do Belhuca e da Dona Joana, que, às vezes durante a brincadeira, me ia chamar para eu ir levar uma carta ao correio.
Sermos tudo do tanto que já fomos e do muito que queremos ser, é um privilégio de quem cresce com memória.
Um abraço e bom Festival da Canção.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Raro é o sonho... Aqui


Solto da guita que o manteve preso, por instantes, à minha mão, o pião rodopia, finalmente, sobre o chão de terra que a insistência dos passos dos Homens roubou ao jardim.
A vida goza sempre de uma dupla face, e a monotonia que persiste na rotina da gente é capaz de inventar terreiros para podermos brincar.
Ali mesmo ao lado, num canteiro desenhado pelo buxo, e aparentemente indiferentes ao pião, as rosas vermelhas discutem com as amarelas, atiçando-se mutuamente os espinhos; divagando sobre a magna importância do sangue ou do sol, que lhes dão cor, não se entendendo sobre qual tem o estatuto de mais nobre e imperial.
Um pássaro que as sobrevoa baixinho sorri chilreando, enquanto uma borboleta de asas de papel se afasta lentamente para o retiro dos malmequeres, cansada de tamanha e fútil discussão.
Eu baixo-me, apanho o pião que devolvo à guita e ao bolso, deitando-me de seguida no tufo de relva que me parece mais confortável, como quem encara o céu de frente e olhos nos olhos. O pássaro vê-me assim, e aproxima-se, voando, persentindo-me disponível para dois dedos… ou duas asas de conversa.
Os Homens como eu, que falam com os pássaros, são estranhos, mas gozam da maior probabilidade de aprender a voar; e assim, dispensando os passos que calcam o viço do jardim, permitem que as rosas se distendam e brilhem em todos os seus tons, que de sangue e de sol se faz a vida, sem escala e em igual medida.
Eu sei, o pião jamais conseguiria rodar ali, mas que contrariedade é essa quando comparada com a cama de relva, perfumada, que me faz rodar a mim mesmo, à boleia da superfície da Terra, olhando o imenso azul.
Aqui, neste jardim onde brincamos com o tempo, o impossível cede sempre ao sonho, e as palavras ditas são os olhos de quem não vê, o colo oferece passos a quem não anda, e os beijos falam por entre a mudez ou as vozes roucas.
Quando nos olhamos uns aos outros e nos atamos num abraço, sabemos que quanto mais apertado ele se fizer, menor será a probabilidade de podermos reparar que dentro dele, “falta” algo a qualquer um de nós.
Aqui, onde as rosas respiram tranquilas e as borboletas regressam em paz do seu passeio até aos malmequeres, nós sabemos que a felicidade é coisa de ser, e aquilo que se faz e que de nós de vê, são detalhes dos milhões de “terreiros” que o corpo inventa para que a alma possa cumprir-se e brincar com o Céu.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

O meu sono...


A minha história, trago-a presa à pele na memória dos amores, trago-a no rosto e no penteado, onde as algas e as rosas se prenderam, emergindo comigo na ressaca dos instantes em que fui até ao mais profundo de mim mesmo.
O meu sono, sempre que ocorre, é apenas aparência sobre o desassossego de agarrar e dar cor aos sonhos, porque os meus olhos fechados à claridade, não repousam, mas olham fixamente a inquietação que mora dentro do meu peito, tentando tomar-lhe a força e a vontade.
O mundo move-se por via da alma da gente que se inquieta, tal qual a música mais inspirada nasce da morte do silêncio às mãos do ruído moldado pelo desassossego do artista.
O certo e o errado respondem apenas à consciência, indiferentes às regras fúteis da moral vazia “eructada” por terceiros.
Em tempo de Quaresma apela-se à esmola, e sobressaem tantos que se enrolaram nas riquezas do universo, mas se esqueceram de juntar os mais elementares pedaços de si.
Transaciona-se o bem parecer sobre os véus ondulantes dos fantasmas.
A minha história foi mestra de tantas cores tatuadas na epiderme, e o meu sono... É vazio deixado à superfície pelos instantes em que falo comigo, como quem se procura, se acerta e acerta o passo na busca de novas cores.

 

(Agradeço a aguarela à minha amiga Maria José Bispo)