sábado, 26 de maio de 2018

Crescer sem “matar” a Cinderela…


A Maria (chamemos-lhe assim) era minha companheira na Escola Primária de Vila Viçosa, e acreditava que os reis e as rainhas eram seres tão especiais que nem tinham de urinar ou defecar.
Sempre que a contrariávamos, chamando à liça as grandes panelas de cobre existentes na cozinha do Paço, e o óbvio prenúncio da imensa quantidade de comida ingerida pelas reais criaturas, e que seria objeto de um processo digestivo, ela defendia-se dizendo que ao visitar o famoso Paço tinha visto todos os humanos e normais recantos, à exceção de casas de banho.
Estávamos no início dos anos setenta, tínhamos seis ou sete anos, e era tão fácil acreditar nas lendas e nas histórias que os avós nos contavam ao serão, e que, despudoradamente nos treinavam na arte de misturar a realidade com a mais inusitada ficção.
Nesse tempo desconhecíamos o impossível, e ainda nem sequer desconfiávamos das dores implícitas ao crescimento. Talvez só ali pelos catorze anos, nos tenhamos começado a aperceber de tal.
A primeira paixão, platónica (pois claro) corroeu-me as carnes e quase me fez acreditar que tinha enlouquecido: o pensamento já não era meu, e entre o desejo e a ausência morava uma dor que me pôs, inteiro, a sofrer.
Depois desmoronou-se a convicção da imortalidade daqueles que amamos, e por entre o choro dos nossos pais, que acreditámos jamais serem capazes de tal “fraqueza”, sentimos a dor do silêncio na casa dos avós.
No dia em que os bombeiros vieram buscar o corpo da avó Francisca, e o tiraram pela janela da Rua do Poço, eu aprendi, por experiência, que cada um que parte, nos arranca um pedaço e leva-o para o Céu, deixando-nos por aqui mais tristes e mais pequenos.
Aprendemos também, mais tarde, como é difícil procurar o nosso caminho por entre um emaranhado de estradas e ruas, tantas vezes sem mapas, e muito menos GPS, quando a idade nos dissolve as paredes e os telhados da casa dos pais e nos expõe ao vento e ao frio.
A primeira desilusão de amor explica-nos como é terrível morrer, ficando, simultaneamente, vivo e consciente, a sentir o desconforto supremo do corpo que se desfaz depois de abandonado pela alma.
Em Maio, enquanto as cerejas já se espreguiçam rubras e maduras ao sol da manhã, o sabugueiro ainda saboreia o alvo tom das suas flores. De flores e de frutos se faz o campo, e talvez essa seja uma indicação fundamental para seguirmos sem hesitar: maduros, mas também com flor, crescidos mas sem nos despojarmos de tudo aquilo que nos faça sonhar.
Às vezes… muitas vezes, disfarço as rugas com uma gargalhada, invento um poema que fala de uma lua de lata, e falo de uma cidade de beijos. Outras vezes escolho um destino, compro um bilhete de avião, de comboio, ou até de elétrico, e parto sem medo e com tempo, a descobrir as ruas das cidades de que aprendi a gostar através dos livros que li.
As dores?
Levo-as comigo mas sem me focar nelas, tentando que a magia que persiste, as suplante em dimensão e em arte.
O dia da criança deve ser celebrado e vivido por todos, todos os dias e não só a 1 de Junho. Por mim, por mais maduro e realista que a vida me faça, jamais me ouvirão contar a história da Cinderela assumindo que a dita princesa tinha as suas pausas para fazer cocó.
Deixemos falar as flores que trazemos atadas aos dedos.

sábado, 19 de maio de 2018

As viagens e as manhãs com flores…


Das manhãs como esta, com sol e o oceano ao fundo, colho braçadas de flores que coloco junto ao peito, quando me encosto assim, ao parapeito, bebendo sumo de laranja e comendo um pedaço de pão com queijo.
Depois faço-me à estrada com o destino marcado no GPS, e, na lembrança e na voz, uma música qualquer que guardei de outras “viagens”. Hoje rumo a norte, e quilómetro a quilómetro, e rio a rio, vou-me relendo aos poucos em tudo aquilo que o coração vai debitando no pensamento.
Paro numa Área de Serviço para tomar um café, e reparo que chegou uma notícia ao meu telefone, confirmando a imprevisibilidade dos dias. Não há viagens nem caminhos iguais, mesmo que os pórticos das portagens possam ser os mesmos.
Agora acodem-me ao pensamento as tardes de Vila Viçosa, os meus amigos, as empadas de galinha da D. Cesaltina e o capilé que ajudava a repor forças entre as brincadeiras na travessa do Belhuca ou no passeio largo em frente ao café do Sr. Cândido.
Ainda bem que todos os dias me trazem flores, porque já depois do Porto, e no regresso ao sul, preciso de escrever algumas para as enviar a dois dos meus amigos mais especiais. Pego na braçada que guardei e escolho as palavras mais viçosas e com perfume mais intenso.
É relativamente cedo, está calor, e resolvo parar em Fátima para rezar e beber um pouco de água fresca. Fátima estará sempre entre o Céu e a minha sede.
Regresso a casa a tempo de sentir o ouro que o sol, quase de partida, semeou nas paredes da casa, agora, no lado oposto ao da janela de onde antes colhi flores.
Os entardeceres como este, oferecem-nos os primeiros parágrafos das histórias que a lua, em quarto crescente, continuará pela rota mágica das lendas que superam qualquer humana realidade.
Estou cansado e preciso de dormir, mas não resisto e sento-me no sofá para escutar aquilo que me diz a lua.
Um dia, se não souberem o que dizer de mim, digam apenas que eu repouso enquanto escrevo versos de amor.
Depois, já não me recordo qual foi o pensamento que me estendeu o sono para eu adormecer…

 

sábado, 12 de maio de 2018

“Cheirando a feno casado com hortelã”…


Há muito de Ary no instante em que piso a plateia da Altice Arena para assistir à primeira Eurovisão de Portugal: “cheirando a feno casado com hortelã”.
É o campo do qual sempre serei pertença, e eu, o menino que jamais deixarei que se apague em mim, “com um ribeiro à cintura”, tal qual a menina de 1971, porque o género pouco importa nestas coisas de sonhar,
Faço questão de abrir os braços, não só porque o momento me parece enorme para o agarrar, mas porque preciso de reservar espaço para que caibamos todos. Hoje, diretamente do celeiro do Senhor Domingos, em Vila Viçosa, e trinta e oito anos depois de termos acreditado que o Cid venceria em Haia, aqui estou com todos os amigos, mesmo que de todos, só cá esteja eu. É preciso "amar pelos dois", três, quatro...
A partilha dos sonhos cria os amigos eternos.
“Corram descalços rente ao cais, abram abraços”, e eu cumpro essa vontade da Madrugada de 1974 cantada em 1975.
Quem corre descalço, assim, de medos e de preconceitos, saboreia melhor todos os detalhes do caminho e não desperdiça nem o mais pequeno grão da sua história, aproveitando, ainda e sempre, para se despir do peso da idade.
Descalço e de braços despidos, como eu agora neste fim de tarde, porque o cais que muito sonhei e tanto quis, eu sei, está aqui, é meu e tem tudo, até o “vento do deserto acordado em mim”.
Os sonhos persistentes entranham-nos laivos de realidade e de pertença, e por isso eu, agora, olho em volta sentindo que tudo é meu e tudo quero e posso beijar. “Como dizer um coração fora do peito”?
O pavilhão foi-se enchendo, pouco a pouco, mas “às vezes é no meio de tanta gente, que descubro afinal aquilo que sou”, e eu sinto, hoje, de forma clara, e como muito poucas vezes, que sou toda esta gesta de tantos anos que trago impressa nos pés descalços, sou a paixão desembainhada pelos corpos que o desejo atou aos meus braços despidos, eu sou, afinal, irmão desta noite que traz “canções de todas as cores”.
O Homem sem riso repousará sob o benefício de lápides distintas e sérias, jazendo por se ter rendido ao controlo de alguém, e de se ter feito escravo desse juízo alheio.
O Homem completo é aquele que cresce sem se esquecer e sem ter vergonha de brincar.
“Eu em troca de nada dei tudo na vida”, talvez por saber que é destes pequenos nadas que se faz a própria vida.  

domingo, 6 de maio de 2018

A minha mãe...


No tempo em que me levavas pela mão até à missa das seis da tarde em São Bartolomeu, aos domingos, depois de termos preparado, juntos, um pudim Mandarim para o jantar, eu chamava por ti, às vezes, a meio da noite, para que viesses ajeitar-me a cama, porque ela estava enxovalhada.
- Mãe!
Ainda hoje, nos dias e nas noites “amarrotadas”, eu continuo a chamar por ti, e da mesma forma: como quem reza.
Porquê?
Porque o teu abraço me veste o céu.
Continuamos a ir juntos à missa, mas agora sou eu quem te dá o braço, sentindo que, apesar de ter mais vinte e quatro centímetros de altura, jamais te acharei pequena. Pelo contrário, vejo-te gigante, e imagina tu, que, muitas vezes, quando caminhamos assim, penso que todo o melhor de mim são coisas que me deste. O demais, a pobreza onde essa excelência se dilui e às vezes se perde, são coisas que eu inventei.
Mãe, também não me lembro, se alguma vez te disse que tu és a minha casa, que és o amor que não se cala mas onde o silêncio diz tudo...
Diz, é um facto, mas nós também conversamos muito, e um certo dia, confessámos um ao outro que só gostamos de chorar quando estamos sozinhos. É verdade, mas eu sei que tu choras sempre que fechas a janela depois de me acenares um adeus, nos domingos à tarde, e tu também sabes que eu vejo sempre turvo esse fechar da janela, quando olho pelo retrovisor, porque de Vila Viçosa a Borba choro sempre de saudades.
Tuas, do pai, do mano Zé Artur, da minha casa, de mim pequeno, dos “lençóis” que ainda hoje me desamarrotas... Saudades do tanto de mim que fica sempre ao pé de ti.
Mãe, um imenso beijo e um domingo cheio de flores.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

A esquina entre Abril e Maio…


Na esquina onde o tempo se despede de Abril, clamando por Maio, a água que o céu chorou emocionado pelas suas paixões, que são muito mais de mil, inspirará a terra para inventar as flores, naturalmente, sem presunção e sem ensaio.
Abril ama a liberdade, que deixou no canto, na voz, nas mãos entrelaçadas, e até num cravo encarnado; e Maio tomará desse amor, o gesto, o gosto e a cor, perfumando os morangos e as cerejas, porque como é fácil de entender, a liberdade alimenta-nos, sendo, por isso, coisa doce para se comer.
Abril calou o Homem velho, reinventando-o numa manhã de Páscoa e ressurreição, esperando que Maio, assim como todos os outros meses, não o devolvam aos túmulos bafientos, por entre um inusitado “deja vu” e a maior deceção.
Na mesma esquina onde o tempo agora se despede de Abril, também um dia se despedirá de Maio, quando ele já estiver maduro. O tempo é assim, tem esquinas, para que nunca o aceitemos como inevitável, e possamos ajustá-lo a nós, moldando o futuro.

sábado, 21 de abril de 2018

Enquanto espero que Abril floresça…


Há muito poucos dias entrei no Panteão Nacional. Parei o carro no Campo de Santa Clara, andei entre tuk-tuks, tomei a bica num café dinamarquês, e esperei depois na fila, calmamente, para poder comprar o bilhete.
Os estrangeiros buscam a varanda e o Tejo, muito mais do que qualquer memória dos lusos heróis, e por isso, caminhei sozinho entre os túmulos “daqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”.
Sophia repousa em frente de Eusébio, e ali no meio, eu estou entre o sagrado repouso das mãos que ofereceram letra à maior e melhor poesia da alma, e os pés, que em gestos aparentemente simples e banais, semearam gritos de festa e orgulho na alma de um povo que forçavam a ser pobre e triste.
A semana arrasta-se entre tormentos e azias, navegando entre os únicos cabos que restam, os das vassouras e dos trabalhos, em caravelas atafulhadas de influências para cumprirem a vaidade.
A guerra é o desfecho natural da entronização da imbecilidade, e é aroma da indiferença dos que dançam, levianamente, sobre o terreiro onde sepultaram os heróis.
Com as coordenadas aqui tão perto, a gritarem justiça e liberdade desde o lado mais bonito da História.
Preparo-me para sair do Panteão, após uma visita rápida.
Um Português não precisa de subir à varanda do panteão para sentir o mar, porque relê Sophia na memória, e pode treinar a liberdade num golo de Eusébio, enquanto espera por Abril.
Na rua, reparo nas chaminés de um navio, que desde o Tejo, se sobrepõem aos telhados da cidade. É abril, onde já se pressente a liberdade, e Lisboa é toda ela, mar.
Por entre a brisa quente, sou beijado pelas palavras da poesia: “A minha vida é o mar o abril a rua”.
Regresso ao carro por entre o doce cortejar que Lisboa dedica ao sol, sem me aperceber que a esperança é a forma mais simples, mas mais completa de rezar, e esperar que Abril floresça é uma forma de não o deixar morrer.

 

sábado, 14 de abril de 2018

Os dias que nascem a preto e branco, só muito raramente morrem sem qualquer cor…


Por mais que insistam despejar chuva sobre os dias da primavera que sonhámos, nós estaremos sempre tranquilos e felizes, não só por sabermos nadar, mas também porque os beijos são insolúveis na água, tal qual no tempo.
Gosto e não temo os dias que nascem a preto e branco, porque, vencendo aquele possível desconforto inicial, são afinal uma suprema oportunidade de pintar a vida com todas as cores que eu quero e me pede a alma.
Para um assomo de paixão, peço emprestado, por momentos, o vermelho a um morango, convoco um pássaro para rasgar uma nuvem e me trazer uma nesga azul, do melhor céu, e com o pigmento amarelo de um qualquer malmequer do campo, consigo arranjar um tom muito honesto e que não envergonhe o sol.
Multiplico por milhões a folha verde que pedi ao limoeiro, e teço facilmente, um viçoso relvado sobre o cansaço cinzento de uma muito previsível estrada de alcatrão.
Depois de tudo isto, de que sou capaz, deito-me a descansar, recostado sobre um tufo de palha que ficou por ali.
E a chuva?
Apago-a com uma simples borracha que guardei dos meus tempos de rapaz.