sábado, 11 de agosto de 2018

Os dias de Agosto...


Quando em criança me obrigavam a caminhar para um sítio desagradável, eu desejava que a rua se tornasse infinita, quiçá dando sete voltas ao planeta, para nunca mais lá chegar.
Alinhado comigo, o meu irmão não conseguia adormecer na noite que antecedia uma saída agradável ou uma viagem. Ele a querer que o sono lhe encurtasse a noite, e nada de o conseguir.
Por não querer nunca ver o fim ao tempo, não usei relógio durante a semana que passou, percorrendo sem pressa os dias que decorrem entre a primeira toma de água, algures quando o sol já beija a montanha em frente à janela do quarto, pelas 7.30 da manhã, e o adormecer, que é cedo e após algumas páginas acrescentadas à leitura de um livro.
Durante o dia converso com os meus pais reencontrando velhas palavras do léxico Alentejano (pirrónico, escampar, muginar, aventar, marouvale), e pondo em ordem as histórias que ficaram por contar durante o ano nas nossas conversas telefónicas noturnas, por esquecimento ou falta de tempo.
Escrevo poemas de amor à hora da sesta e depois de prontos, leio-os em voz alta aos meus progenitores. A mãe gosta sempre muito, e o pai olha para mim com um ar algo intrigado: “este gaiato que até é certinho, de vez em quando...”.
Rimo-nos os três e fazemo-nos cócegas enquanto caminhamos, o que se tivermos em conta os 77, 75 e 52 anos que temos, nos torna uma ilha de riso no meio de gente solitária, e demasiado “séria”, que virou costas ao mar para vir tratar do fígado e da hipertensão.
Fazemos selfies, mas sem que os anos de convívio com o Prof. Rebelo de Sousa se manifestem em grande jeito por parte dos meus pais. Continuaremos a treinar.
Compramos e lemos o jornal, jogamos nas raspadinhas, mas sem êxito algum.
Pois...
Já diz o ditado que “quem tem sorte ao amor...”.
Se eu pudesse esticava estas semanas até à dimensão de sete voltas à Terra, só para evitar a partida, e pedia ao sono que me encurtasse todas as noites da viagem, para que chegasse depressa o beijo matinal que antecede sempre as águas.
Porque o amor que me envolve será sempre maior do que o mel de quaisquer palavras que eu alinhe à hora da sesta.
Porque o amor será sempre maior do que as falhas de memória e de tudo aquilo que pela idade no nosso corpo envelhece.

 

sábado, 4 de agosto de 2018

A esquerda e a direita...


Eu tenho amigos de esquerda que afirmam que a honestidade é um exclusivo da sua área política. Por acreditarem convictamente nesse pressuposto, alargam o conceito de honestidade até ao ponto em que não trabalhar e fazer vida de luxo à custa de amigos é a coisa mais natural do mundo.
Mas eu também tenho amigos de direita que consideram que a guerra colonial foi uma oportunidade extraordinária para que uma geração de homens pudesse ir conhecer África, afirmando que as mortes ali ocorridas, em número desprezível, foram consequência de acidentes de viação.
Uns e outros defendem cegamente as suas damas até à exaustão, não se dando conta da linha do ridículo que às vezes pisam de forma descarada, aplicando-se em duelos que eu até poderia considerar ideológicos se tivessem por raiz algum ideal por entre a teimosia.
Como pude observar ao longo da semana que passou, estes conflitos bacocos situam-se ao nível dos “Jogos sem Fronteiras”, trazendo a glória por um instante mas não deixando nada para a História.
As palavras que não constroem nada são entulho despejado para as bermas do caminho.
De igual forma, uns e outros reclamam também o título de reis da democracia, não reparando que a intolerância que manifestam mata esse título logo à partida.
E a intolerância é a máscara de certeza que utilizam aqueles que por serem tão fracos não conseguem sequer argumentar de forma inteligente com os que defendem ideias diferentes.
Para a esquerda e para a direita, como nos contos da carochinha, o bem está sempre do seu lado, estando o mal, invariavelmente, no lado oposto. Se por acaso existirem provas contra algum dos seus, já sabemos o que se passou: foi uma cabala montada com a ajuda dos jornalistas.
O que conseguem com esta atitude?
Que os vigaristas que habitam um e outro lado têm sempre gente honesta (mas distraída e teimosa) a defendê-los.
Qual é a glória suprema para a esquerda ou para a direita?
O poder, independentemente do seu custo, e os erros de governação e a incompetência têm sempre um bode expiatório: o governo anterior. O pior de Costa é culpa de Passos, o pior de Passos foi responsabilidade de Sócrates, assegurando-se também por essa via, que os incompetentes têm sempre quem os defenda.
Como tenho amigos de um e de outro lado, eu acabo por discutir com todos, e de todos receber o título de aberração ideológica.
Os de esquerda vêem-me como um Salazar que vai à festa do Avante e gosta de ler Saramago. Os de direita olham-me como um Karl Marx que vai á missa e gosta de viajar até Nova Iorque para comer ostras num bar da Central Station.
Confesso que não me importo com um ou outro título. Há muito que divido o mundo com a linha do equador no ponto onde alguém deixa de ser honesto por ser o seu contrário.
Tenho a noção de que também erro muitas vezes na minha análise, mas jamais assentarei o julgamento num “porque sim” ou “porque é um dos meus”.
Interessa-me muito mais o conjunto de valores de cada um do que a “pulverização” ridícula com que alguém se apresenta, numa espécie de código de barras para poder entrar em determinados círculos e cumprir os seus interesses.
O sinal da cruz não faz um santo, da mesma forma que uns pés sujos de lama não fazem um herói trabalhador.
“Se não te afirmares convictamente de esquerda jamais levarão a sério a tua escrita”.
“Essa mania de defender a união entre pessoas do mesmo sexo e a possibilidade de adoção, é uma mancha que te fecha muitos púlpitos e te mancha a reputação”.
Habitarei um território que poderão achar que é de ninguém ou de nada, mas se é onde me sinto bem, é aquilo que importa. Umas vezes serei muito daquilo que dizem ser de esquerda, outras passar-se-á o mesmo com coisas do território da direita. Mas serei sempre eu.
Desculpem-me pelo facto da prosa desta semana ser um pouco menos poética, mas confesso estar cansado de ver e ler disparates assentes em pressupostos ridículos e fúteis, quando existia tudo para que o nível subisse em respeito e interesse até ao ponto em que o mundo avança.
De saída sempre vos digo que se eu pudesse fazer um negócio em Lisboa, comprando uma casa velha, reabilitando-a para depois a vender por muito mais dinheiro, avançava sem pudor algum.
A diferença é que eu não sigo catecismos e não tenho quaisquer reservas de âmbito ideológico. Assumo-o inteiramente.

sábado, 28 de julho de 2018

O barco e o tempo...




Não existe nada mais eficaz para nos fazer sentir velhos do que a fragilidade que o tempo impõe aos nossos pais. Já não brincamos sossegados na parte do barco que não dói, e somos nós quem rema na proa contra ventos de solidão, às vezes sentindo que o olhar, por ter tanto sal, já foi inteiramente tomado pelo próprio mar.
A nós, por termos sorte, valem-nos então os mestres improváveis e as lições inesperadas que os dias vão trazendo até à barcaça.
O meu sobrinho Luís guarda em si um mundo muito próprio onde os bonecos, durante a noite, falam uns com os outros debaixo do edredão.
Porque todos os bonecos que desenha merecem ter corpo a três dimensões, pede à minha mãe, a sua avó Inácia, que os costure no tamanho que ele idealizou, sendo sempre exigente e rigoroso, rejeitando algum que não cumpra os seus preceitos estéticos.
Nós somos do tamanho do sonho que fomos desenhando na intimidade da alma, exigindo-nos a vida que reunamos as condições para o concretizar na sua exata medida.
E os avós, celebrados todos os dias pela presença ou pela memória, são os melhores aliados dos nossos sonhos.
Já sem os nossos avós mas cumprindo a sua herança, se nos dói este barco, desenharemos um outro com uma ergonometria que nos ajude a respirar melhor, e até a cantarolar aqui e ali, ao jeito dos marinheiros de Veneza, cidade onde segundo Thomas Mann, se morre perseguindo a indiscutível beleza da juventude.
A esperança é mestra da criatividade, e juntas destroem aquilo que de menos bom o tempo nos traga.
E afinal de contas, os nossos beijos preferidos persistem à espera na parte da barcaça que não dói, na face cansada mas perfeita de quem antes remava.

sábado, 21 de julho de 2018

Enquanto um de nós tiver “músculo”…


Ainda que a maré se afaste e nos deixe sós presos às pedras lascadas do cais, nós sabemos que o nosso destino é feito de navegar.
Descalços, ferimos os pés nos mexilhões com casca em forma de navalha que o mar atou às rochas, e até poderemos escorregar, aqui e ali, na imensidão de algas que pintou de verde o chão da maresia, mas o nosso barco irá connosco de encontro à água que nos possa levar.
O Homem nasceu com músculo para poder cumprir os sonhos e o mar que a alma lhe inspirou desenhar.
E porque o sonho e a alma são universais, e há gente a quem o tempo foi roubando o “músculo”, cumpre-nos o dever de não deixar que nenhum barco morra sozinho no cais.
Isto é viver, e amar é não deixar que alguém possa sentir-se só.
Não aprecio a lamúria, e não tenho da vida a perspetiva de um longo e monótono campeonato onde se procura o record do mundo da desgraça que reclama dos outros um olhar de pena, e acredita que Deus, na hora da nossa “morte”, estenderá a mão em primeiro lugar ao mais sofredor de todos, aquele que a um canto da má sorte trajou de lágrimas os seus músculos auto atrofiados pela consciente inação.
Há quem viva a adiar permanentemente a hora de ser feliz, de hoje para amanhã e desta vida para uma outra vida qualquer, tendo puxado para si uma banda fúnebre, que não deixando de ser sonora, tem muito pouco de inspiração.
Acreditem que se a felicidade fosse um verbo, só teria conjugação no presente, e pensem no ridículo que é fazer da morte uma forma de vida.
Enquanto um de nós tiver músculo, que nenhum barco possa morrer de solidão no vazio de um cais que a maré secou.

(Agradeço a foto ao meu amigo Pedro Almeida)

sábado, 14 de julho de 2018

Os dias que contam…


Os dias que contam são aqueles em que finalmente descobrimos rosas por entre a hortelã, mesmo que há muito tempo nos venham chamando insensatos e loucos à margem da razão.
Como se alguém, a não sermos nós mesmos, pudesse desenhar um GPS que cumpra o exclusivo tom da vontade que trazemos no coração...
Sim, é verdade que às vezes entramos por cavernas escuras, por pura curiosidade, ou tão só porque tentamos fugir da chuva, mas isso não subverte o destino maior inscrito no ADN dos Homens: a liberdade.
Passamos frio, choramos de saudade, sentimos a fome no estômago e a solidão no peito, oramos, se acaso tivermos fé, e quase sempre, beneficiamos da chegada de um amigo que se revestiu de coragem e mergulhou para nos resgatar do medo, por mais estreitos e escuros que sejam os caminhos até nós.
Às vezes as notícias do Telejornal ilustram as nossas vidas e os dias que nos oferecem para sermos nós.
Existirão vantagens no escrupuloso cumprimento da previsibilidade?
O abraço onde se concretiza um beijo longo e sem pressa, desmancha sempre a rota paralela e previsível dos nossos passos sobre a areia, porque um beijo que se preze não dispensa nada da alma e do corpo, nem mesmo os dedos dos pés, envoltos então no aroma das rosas... e da hortelã.

 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

No instante em que eu nasci...



No instante em que eu nasci, o relógio da torre de São Bartolomeu já se preparava para assinalar o meio-dia.
Como era hábito numa terça-feira do mês de Julho, ao toque do relógio e das buzinas das fábricas, os homens encetaram o caminho de regresso a casa, para o almoço, descendo a praça num passo tão acelerado que quase parecia irem a acudir a algum fogo.
Nesse mesmo instante, no pequeno quarto interior, mas com duas portas, terá restado uma cova no colchão de esponja, rapidamente apagada pelas mãos enérgicas da avó Chica, empenhada em oferecer à cama uns lençóis lavados.
A avó Dade terá ido “conversar” com Nossa Senhora da Conceição para lhe agradecer a saúde do neto, e a tia Bia terá chegado com um alguidar e um sabão especial, porque as fraldas do menino não poderiam ser lavadas na companhia de qualquer outra roupa.
A tia Joaquina Rosa trouxe uma canja com pedaços de galinha do campo.
Não poderei recordar-me com exatidão, mas estou certo que a minha mãe se comoveu ao apagar-me o choro, entregando-me o lado de fora do seu peito; porque o lado de dentro já me pertencia com a força de mil anos. O meu pai terá disfarçado o nervosismo e a emoção empenhando-se em algumas tarefas domésticas para as quais não tinha qualquer jeito.
Na noite de lua cheia que se seguiu a esse instante, terei adormecido escutando as vozes animadas das vizinhas na rua, e nem terei dado conta da chegada do vizinho Grilo, que era estafeta e que viajava sempre no comboio da noite.
Não sabendo como acabará esta história, sempre poderei dizer que ela começou num instante, em que sem perturbar o universo, Deus resolveu oferecer ao mundo o “grito” de um rapaz, a quem chamaram Joaquim Francisco, em atenção a ambos os avós.
Foi numa casa simples de primeiro andar, em Vila Viçosa, na Rua de Três, numa manhã quente do verão de 1966.
Tudo aquilo que foi acontecendo entretanto teve raízes nos detalhes simples, mas inigualáveis, que existem no lado de dentro do peito de quem me ama.

domingo, 1 de julho de 2018

O caminho de regresso...


Há momentos a que viramos definitivamente as costas para regressarmos a nós, aproveitando a estrada que os nossos pés calcaram sob o peso imenso da ilusão.
Uma pedra projetada sobre a vontade branca e limpa pode parecer um cais e um abraço, mas só até o sol sucumbir ao cinzento tom das nuvens. Nesse instante desmascaram-se as sombras, e a pedra passa a ser aquilo que sempre foi: uma pedra, ainda que possa estar enfeitada de flores na raiz onde beija a terra.
Porque o amor nunca nos pertence, talvez nada seja tão completamente meu quanto o silêncio deste caminhar de regresso a mim pela estrada onde as silvas já não são casas das amoras, e o perfume da esteva se apaga no incómodo da sua resina que nos mancha as mãos.
O caminho de regresso de um amor é a lucidez, invertendo a marcha na rotunda onde alguém inventou uma estátua para “celebrar” a ilusão.
Mas eu sei que nesse caminho de regresso eu já não sou o mesmo que passou ali quando o tempo ainda era azul, e talvez eu só tenha ido lá à frente buscar a perspetiva ideal para poder descobrir a vereda pequena  que se me oferece num quilómetro qualquer que eu nem sequer fixei.
Então, sacudo os pés, benzo-me a Deus que me espreita do ouro de uma giesta, e sigo caminho com toda a força de acreditar, tomando nota das palavras com as quais vou enfeitando, no pensamento, a música que levo no assobio.
Viver é não ter medo de arriscar escolher todas as veredas que desconhecemos, mas que num determinado momento nos provocaram um arrepio.
 
(Agradeço a foto à minha amiga Ana Carvalho)