quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A minha família é a casa onde poderei sempre andar descalço…


A minha família é a casa onde poderei sempre andar descalço, porque nada magoa, em nada se tropeça, e nunca há o risco de escorregar e cair no chão.
Com janelas de parapeitos altos e generosos, estão dispensados os telescópios e os binóculos na hora de sentir o céu e palpar todos os horizontes. Mas a minha família tem ameias e torreões fortes, ao jeito de um castelo imenso e transparente, não existindo, para mim, um melhor abrigo.
Na minha família cultiva-se a fé, e foi lá que aprendi a rezar:
- Menino Jesus vamo-nos deitar, esperanças em Deus que nos virá salvar.
E ainda hoje, muito cedo pela manhã, eu escrevo versos de amor e liberdade enquanto a minha mãe percorre o terço. O sussurrado tom onde lhe perceciono as Ave Marias é como um vento que me beija e me levanta no ar, saindo para voar desde os parapeitos das altas janelas, algures entre a ousadia e a segurança.
Na minha família, o amor, assim como tudo o mais que é importante, não precisa dizer-se sob a frustrante limitação dos discursos, porque há sempre rosas frescas nos canteiros que ladeiam o olhar, e porque os gestos são beijos infinitos e incansáveis que se prendem à alma de cada um.
Na minha família há sempre um cântaro de água fresca, um pão de trigo, a luz generosa de uma candeia de azeite… porque o caminho é longo e nem sempre claro.
A minha família é uma casa simples e sem pretensões de veludos, ouros ou cortinas, para que nada possa distrair-nos deste tanto querer ser feliz que nos preenche a vontade e o destino. Sorrimos sempre com aquilo que temos mais à mão, e a alegria que escorre de nós semeia flores por todos os recantos.
O silêncio de alguns instantes serve apenas para melhor podermos saborear a paz.

Passam hoje 53 anos sobre o casamento dos meus pais. A eles e ao meu irmão devo tudo aquilo que de melhor vocês possam reconhecer em mim.

sábado, 8 de setembro de 2018

Estas noites em que se acendem as luzes…


Nas noites em que nos sentimos especiais, puxamos os luzeiros do céu para bem mais perto, acendendo as luzes desenhadas e garridas do arraial.
Depois caminhamos de amigo em amigo, porque o coração calipolense centrífuga o universo, concentrando-nos numa praça com chão de terra, mas onde não há tempo para mastigar o pó que se levanta por entre os nossos pés.
As bocas estão definitivamente empenhadas nas palavras, no riso, nos padres-nossos, nas farturas e na ginja, porque de tudo isto se compõe a vida nos seus dias mais preciosos.
Jamais importará quem sobe ao palco para cantar, ou se a rifa já se modernizou e trocou uma garrafa de Anis Escarchado por uma bugiganga qualquer comprada nas lojas chinesas.
Tão pouco importa se a banda que atua no coreto já puxou o pimba para o repertório...
Nas noites dos amigos só eles importam e só eles nos fazem falta, na certeza de que ter uma terra é ter uma casa com paredes de afeto tecidas pelos olhares, e janelas generosas com vista para tanto.
Ter terra, assim, é ser mais do que uma sombra anónima a vaguear pelas ruas, é beneficiar de nome e história num caminhar contente ao compasso de abraços e palavras doces.
Este fim de semana haverá festa em Vila Viçosa, a minha casa.
Numa praça imensa, mas que o tempo foi encolhendo à medida que eu cresci, há uma igreja onde uns frades de terracota veneram um São Francisco jazente. Chamamos-lhe a Festa dos Capuchos, e pelas grades da janela da capela dos frades atiramos moedas pedindo a sorte, numa espécie de Fontana de Trevi calipolense, com fé mas sem água.
Cá estou eu pronto para ver os amigos, matar saudades e continuar a comover-me ao primeiro acorde da banda.
Com o céu aqui tão perto, à espera que, de Setembro a Setembro, o ano nos traga a melhor sorte.

 

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Eu sou corrupto e o Eusébio nunca existiu


Eu, corrupto me confesso, sem pudor e sem qualquer laivo de arrependimento: o equipamento do Benfica que ofereci ao Fábio no natal do ano passado já foi o segundo, reforçando dessa forma o benfiquismo do filho dos meus amigos Manuel e Ana, que não se interessam absolutamente nada por futebol.
É verdade, comprovada corrupção ativa, com a agravante de a praticar em prol de um clube de bairro, de base popular e de gente dita vulgar e adepta do garrafão de vinho.
Eu também sei que o Benfica nunca existiu e que é a maior mentira de Portugal.
Eu sei que todos os nossos títulos em todas as modalidades são injustos e são fruto de uma ilusão sustentada, entre outros, pelo ditador Salazar, que chegou ao ponto de inventar o Eusébio, uma espécie de Padrão dos Descobrimentos que sabia chutar com os dois pés.
Eu sei tudo isso, mas quem poderá ir contra o meu coração?
O amor será sempre irracional e talvez por isso, não tenho quaisquer dúvidas em confessar-vos que se algum juiz um dia nos condenar por comprovada má conduta, eu pagarei cinco vezes mais do que as centenas de Euros que pago hoje para ter o meu lugar no Estádio mais feio e repelente de Portugal, só para poder ir a todos os jogos do campeonato distrital de Lisboa.
Dirão que é loucura e até poderá ser, mas o amor não será ele próprio um desvario?
Certo ou não, sei que aquilo que está no coração morrerá connosco, e que o Benfica só acabará no dia em que sepultarem o último de nós. Se é esse o objetivo de quem nos odeia (e utilizo a expressão de forma consciente), já sabem o que têm a fazer.
Puxem o ácido do cuspo para as vossas “sagradas” mãos e comecem.

sábado, 1 de setembro de 2018

Regressar à essência...


Como explicar que entre o copo de gin, onde reluz uma imensa casca de laranja, e a lua cheia que se insinua à noite de Lisboa, o meu olhar reza quando encontra o teu?
Como fazer entender que a “divindade” do corpo se prova neste estremecer em harmónio que lhe oferece um beijo de amor?
Estranhamente, os Homens procuram a “Luz do mundo” nas caves mais escuras do universo, como se o martírio fosse o caminho mais eficaz e lógico para chegar a Quem nos ensinou a ressuscitar por entre as madrugadas. Veste-se a morte mesmo quando o coração nos grita vida, na renúncia de acreditar que o Céu não é o destino para quem morre e se “mata” assim, o Céu é hoje e aqui, porque Deus brilha no sorriso de quem está vivo e imprime ao corpo a mesma dimensão de vida que lhe mora na alma.
E quem vive nas cavernas tropeça na sua própria cegueira, no proibido e no perverso, sem temer nada porque nada se vê.
Muito se tem falado ultimamente de pedofilia na Igreja Católica envolvendo às vezes perversas generalizações.
Durante os anos da minha adolescência e juventude militei em movimentos católicos, tendo passado centenas de noites em seminários e casas de retiro, sem que nunca, mas mesmo nunca, padres ou freiras se tenham insinuado sexualmente à minha pessoa. Muito antes pelo contrário, guardo no melhor de mim, as palavras e os gestos dessa tanta gente honestíssima que me ajudou a crescer.
Mas a pedofilia existe mesmo no seio da Igreja Católica, e as notícias sobre o assunto não são frutos de um ataque vão que emana de gente descrente. Valendo mais tarde que nunca, o que se exige sem tréguas é a denúncia e a condenação pela prática de um crime hediondo e sem perdão, num contexto onde se usa e abusa da moral.
Eu tenho amigos que casaram com a bênção da Igreja quando pensavam ter encontrado o amor que lhes preencheria a vida, mas que, contra a sua vontade, viveram tormentos que os conduziram ao divórcio, e muitas vezes, felizmente a reencontrarem a paz e o amor nos braços de um outro alguém que se lhes cruzou no tempo.
Como entender que uma organização se manifeste intolerante perante esta gente boa e tente esconder criminosos?
Jamais entenderia esta incongruência, e se aos leigos é permitida uma palavra contra, aqui está a minha, insurgindo-me perante esta moral das cavernas e dos caminhos escuros onde aquilo que não se vê não conta.
É sempre bom não esquecer que o silêncio dos honestos é o abrigo mais confortável para quem não o é.
Talvez ajudasse começar a entender e a viver o amor, assumindo que o corpo e a sexualidade não são fardos que a alma carrega no seu suposto caminho de dores até ao Céu, sendo a fala da alma por onde o amor se expressa com ardor e dignidade.
Regressar à essência onde o amor é divino, e assumir essa raiz do Homem em todas as vertentes do ser, acredito que nos livraria de muitos dolorosos equívocos.
Deus mora nos jardins onde as flores brilham ao sol à espera do beijo das abelhas que trazem aos dias o travo sensual do mel.

sábado, 25 de agosto de 2018

As rugas e a lua cheia...


Por instantes pensei que o passeio de Carlos da Maia e João da Ega ardera definitivamente com o Chiado, permanecendo apenas nas palavras escritas de Eça de Queiroz e nas memórias das tardes em que eu próprio imitara os heróis de “Os Maias” no meu trajeto muito pessoal entre a Bertrand e a Ferin.
Perante o coração de uma Lisboa queimada era difícil imaginar que tudo voltaria a ser como antes, talvez porque facilmente nos esquecemos que os Homens, as árvores e as cidades são iguais na hora de se reinventaram, perfurando o chão das cinzas com a força de novas raízes e alicerces.
Aproveitando a brisa do fim da tarde, ontem mesmo subi como quem voa pelos telhados de Lisboa, para espreitar a lua num terraço do Chiado.
A lua brilhará sempre sobre todos os despojos do fogo, desmentindo que as cinzas sejam o destino de uma cidade... e dos Homens.
As rugas são ruas que nos marcaram a face a ponto de dor, mas que se desmancham quando sorrimos com a mesma convicção da lua cheia.
Trinta anos depois das cinzas, Lisboa sorri comigo, com o Maia e o Ega, porque o fogo que importa é aquele que não se vê, que não queima e que permanece com a força de um querer imenso.

sábado, 18 de agosto de 2018

Apontamentos de um jantar no Gerês…


O fim da tarde oferece à sala de jantar a luz de Vermeer, mas um olhar mais atento sobre os gestos e os nossos olhares denuncia Visconti, cuja câmara não deverá andar muito longe dali.
Todos nos cruzamos durante o dia entre a fonte de águas medicinais, as salas de leitura, o elevador, o café e a papelaria onde compramos os jornais. Aos poucos e por muito poucas palavras, vamos conhecendo a história de cada um. Os que somos reincidentes, já nos conhecemos dos verões passados.
O Skype ligado num i-Pad na mesa ao lado da minha desmente as paredes, os gestos e a luz, trazendo a datação do repasto para o século corrente, tudo porque o casal na casa dos cinquenta não resiste a falar com a filha emigrada. Tanto da saudade mora nos lugares deixados vazios à mesa do jantar.
Para além desta conversa que vamos escutando, mas sem prestarmos grande atenção, dos diálogos de cada mesa só emergem algumas frases nos instantes em que todas as outras se cruzam no silêncio.
“Nós nunca bamos ber o Puorto à Luz. A Albalade ainda bamos porque é outra gente”
A Condessa da Foz, mas que arrota Ermesinde de cada vez que abre a boca, conversa com o marido e um conhecido jornalista que está sozinho na mesa ao lado.
Apetece-me logo cantar o hino do Luís Piçarra para atormentar esta “galinha” que eu afogaria em milho e outros cereais.
Sim, porque aproveitando a luz cinematográfica sempre poderia chamar o Poirot, inventando logo ali uma inédita “Morte no... Silo”.
Mais afastado, numa mesa ao fundo da sala, está um bispo à conversa com um padre, sendo que sua excelência reverendíssima é de todos nós aquele que nunca diz bom dia, por muito que o seu olhar se cruze profundamente com o nosso. Não conseguirei entender jamais que um bispo se negue a sorrir para o seu Deus que respira e caminha nos corpos e nas almas de todos nós.
Duas amigas excêntricas falam em Português, Francês e Inglês, logo ali ao lado da mesa dos clérigos. Vestem roupas que parecem ter resistido desde os “Verdes anos” do “Vá-vá” ou dos acampamentos hippies da década de sessenta, e pela profusão de madeixas coloridas que trazem nos cabelos, comprovam que a Maria José Valério ainda terá muito que aprender.
A luz da sala vai diminuindo à medida que o tempo passa e o jantar avança, parecendo que Rembrandt esteve por ali a dar umas pinceladas muito suas. Nesta “Ronda da noite” não sei o que dirão da mesa em que estou sentado com os meus pais e vou tomando apontamentos do filme onde também somos protagonistas. Mas, legitimamente, talvez alguém me trate por “Janela indiscreta”.

 

sábado, 11 de agosto de 2018

Os dias de Agosto...


Quando em criança me obrigavam a caminhar para um sítio desagradável, eu desejava que a rua se tornasse infinita, quiçá dando sete voltas ao planeta, para nunca mais lá chegar.
Alinhado comigo, o meu irmão não conseguia adormecer na noite que antecedia uma saída agradável ou uma viagem. Ele a querer que o sono lhe encurtasse a noite, e nada de o conseguir.
Por não querer nunca ver o fim ao tempo, não usei relógio durante a semana que passou, percorrendo sem pressa os dias que decorrem entre a primeira toma de água, algures quando o sol já beija a montanha em frente à janela do quarto, pelas 7.30 da manhã, e o adormecer, que é cedo e após algumas páginas acrescentadas à leitura de um livro.
Durante o dia converso com os meus pais reencontrando velhas palavras do léxico Alentejano (pirrónico, escampar, muginar, aventar, marouvale), e pondo em ordem as histórias que ficaram por contar durante o ano nas nossas conversas telefónicas noturnas, por esquecimento ou falta de tempo.
Escrevo poemas de amor à hora da sesta e depois de prontos, leio-os em voz alta aos meus progenitores. A mãe gosta sempre muito, e o pai olha para mim com um ar algo intrigado: “este gaiato que até é certinho, de vez em quando...”.
Rimo-nos os três e fazemo-nos cócegas enquanto caminhamos, o que se tivermos em conta os 77, 75 e 52 anos que temos, nos torna uma ilha de riso no meio de gente solitária, e demasiado “séria”, que virou costas ao mar para vir tratar do fígado e da hipertensão.
Fazemos selfies, mas sem que os anos de convívio com o Prof. Rebelo de Sousa se manifestem em grande jeito por parte dos meus pais. Continuaremos a treinar.
Compramos e lemos o jornal, jogamos nas raspadinhas, mas sem êxito algum.
Pois...
Já diz o ditado que “quem tem sorte ao amor...”.
Se eu pudesse esticava estas semanas até à dimensão de sete voltas à Terra, só para evitar a partida, e pedia ao sono que me encurtasse todas as noites da viagem, para que chegasse depressa o beijo matinal que antecede sempre as águas.
Porque o amor que me envolve será sempre maior do que o mel de quaisquer palavras que eu alinhe à hora da sesta.
Porque o amor será sempre maior do que as falhas de memória e de tudo aquilo que pela idade no nosso corpo envelhece.