sábado, 6 de outubro de 2018

O essencial é a liberdade...


O caminho que trouxemos desde o pranto até à liberdade está pejado do ferro oxidado das algemas que nos prendiam as mãos e os pés, e ainda guarda o cheiro fétido dos cadáveres da gente morta a tiro de opressão, gente mártir mas enorme, de quem a alma voou atando-se à nossa por um nó ousado e rebelde de marinheiro.
Passaram muitos anos, e talvez o vento tenha arrastado terra, e a chuva tenha plantado ervas e flores sobre esses despojos dolorosos, oferecendo-lhe uma enganadora face de paraíso.
Mas eu não quero e não irei voltar a pisar esse caminho.
Aqui onde moramos temos janelas que trazem a brisa do mar, temos o canto livre dos poetas e, por mais desarrumada e suja que esteja esta rua onde moramos, ninguém nos obriga a negar o sangue e o amor que trazemos na alma.
Sim, essa mesma alma que atámos pelo sonho à alma dos heróis.
Poderemos varrer esta rua com ramos de giesta, criaremos novas flores para os vasos das janelas, convocaremos os cantores, os artistas, reinventar-nos-emos em cada dia que nos derem, mas por favor não nos despejem nunca da casa da nossa liberdade.
Há quem esteja a vender a ideia de que a única forma de tratar um arranhão num dedo é fazer a amputação do braço, e há quem acredite e se deixe levar por aí.
São tempos movediços e eu temo pelo regresso do mundo aos becos da dor, da mordaça e do pranto.
Que emerjam as diferenças, que se discutem de forma aberta e honesta, mas que o essencial nunca deixe de ser a liberdade.

sábado, 29 de setembro de 2018

Viagens improváveis...


Sigo imerso na leitura dos jornais e nos jogos de palavras e números, enquanto a carruagem rasga o estio subindo a norte. Só por alturas de Espinho reencontro o mar, deixando-me atrair pelo sol e permanecendo à tona, consciente, até cruzar o Douro e chegar ao Porto.
Numa manhã de domingo e apenas com um livro e um jornal debaixo do braço, passageiro sozinho num comboio a transbordar de turistas e malas de viagem, eu vou ao encontro de um almoço perfeito de poetas e de uma tarde que poderá ser muito… ou quase nada.
O senhor José aproximou-se da mesa pequena onde decorria a minha sessão de autógrafos na feira do livro do Porto, tem oitenta e dois anos e estava acompanhado pelo filho. Foi ali de propósito para encontrar o homem que escreve aquelas palavras que lê nas manhãs do Facebook.
Não foi fácil encontrar-me, mas, finalmente, ali estávamos nós frente a frente por entre girassóis na lua e a promessa de um livro de poesia que será publicado em breve, e de um outro que seguirá pelo correio.
Quando as palavras voam das nossas mãos cumprindo o destino nómada que lhes oferece a alma, jamais saberemos em que peito anónimo irão encontrar guarida, ficando por ali entre o vento e o sol de muitos dias.
Legitimamente, as palavras são muito mais de quem as sente do que de quem as ensinou a voar, tal como a gaivota é da praia onde enfeita o céu, e não do ninho onde nasceu entre as quentes asas maternas.
Uma tarde de tanto, um pouco antes de regressar a Lisboa, já sem o mar de Espinho e o sol a entrar na janela, mas com o conforto dos dias em que o olhar tem o privilégio de seguir a rota das palavras, podendo acampar, nem que só por minutos, na vida daqueles que caminham connosco nos claustros monásticos do tempo, de pés descalços mas de almas entrelaçadas à mesma forma de sentir.
Há domingos que oferecem viagens improváveis dentro da rota dos velhos destinos.

sábado, 22 de setembro de 2018

Viver...


Viver é um compromisso de honestidade de mim para comigo, e tudo o mais são jogos de sombras.
Gosto muito do mês de Setembro porque ele sempre me ensinou a renascer nos cadernos com folhas imaculadas, nos lápis por afiar e nas canetas de feltro ou nos guaches por abrir.
Se um novo ano começa inevitavelmente em Janeiro, tenho sempre a sensação de que a vida nova que ele promete só se cumpre bem mais adiante, em Setembro. E cumpre-se nas palavras novas e nos desenhos conquistados aos diferentes saberes inscritos num horário que reinventa o tempo para nos tornar “sábios” no encalce de novas eras.
O Outono é a minha estação preferida por entre o grito escarlate das romãs e o salto das castanhas, que abandonando o ouriço nos vêm contar histórias as serão.
Dizem que o Outono nos deprime, apagando a luz intensa com que o verão nos beija.
Talvez isso fosse verdade se o sol que importa não fosse coisa que vem de dentro e que espreita a rua pelo olhar, como se ele fosse um postigo.
O Outono devolve-me a atenção para aquilo que trago no peito, para que nada daquilo que eu faça me apanhe desprevenido ou me contradiga, porque viver, já disse e repito, é um compromisso de honestidade de mim para comigo, num percurso único onde os sonhos viajam seguros.

(Os desenhos da foto são da autoria do meu sobrinho Luís Barreiros, que também gosta de viajar com os sonhos ao seu lado, mas sempre bem seguros)

 

sábado, 15 de setembro de 2018

A bordo da Terra...


Entretido a brincar às escondidas com o sol, eu sou um rapaz que viaja a bordo da Terra, sempre em busca do universo.
As estrelas são a gente que chega e que me abraça, deixando no espaço ao redor mim, e no pensamento, as histórias que me alimentam com a eficácia e o sabor do melhor pão de trigo.
Na mochila, quando partem, levam palavras que não vêm nos dicionários, porque são escritas segundo a linguagem do vento, e são sinónimos imprevisíveis da liberdade. 
A bordo da Terra, nós somos a varanda bonita e cheia de flores onde se cruzam milhares de rotas dessa tanta gente que como nós anda em busca do universo, astronautas informais na senda das estrelas e dos sonhos, sem outro mapa que não seja o da sua vontade.
Talvez um dia eu adormeça, vergando-me ao cansaço, e então rogarei ao vento que me envolva na rama das árvores, na brisa salgada dos mares e no pó dos caminhos, tornando-me chão firme para quem vier em busca deste mesmo sonho que é o meu.
Chão firme e quiçá um pequeno mas generoso degrau, porque qualquer pequeno salto põe-nos mais perto das estrelas.

 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A minha família é a casa onde poderei sempre andar descalço…


A minha família é a casa onde poderei sempre andar descalço, porque nada magoa, em nada se tropeça, e nunca há o risco de escorregar e cair no chão.
Com janelas de parapeitos altos e generosos, estão dispensados os telescópios e os binóculos na hora de sentir o céu e palpar todos os horizontes. Mas a minha família tem ameias e torreões fortes, ao jeito de um castelo imenso e transparente, não existindo, para mim, um melhor abrigo.
Na minha família cultiva-se a fé, e foi lá que aprendi a rezar:
- Menino Jesus vamo-nos deitar, esperanças em Deus que nos virá salvar.
E ainda hoje, muito cedo pela manhã, eu escrevo versos de amor e liberdade enquanto a minha mãe percorre o terço. O sussurrado tom onde lhe perceciono as Ave Marias é como um vento que me beija e me levanta no ar, saindo para voar desde os parapeitos das altas janelas, algures entre a ousadia e a segurança.
Na minha família, o amor, assim como tudo o mais que é importante, não precisa dizer-se sob a frustrante limitação dos discursos, porque há sempre rosas frescas nos canteiros que ladeiam o olhar, e porque os gestos são beijos infinitos e incansáveis que se prendem à alma de cada um.
Na minha família há sempre um cântaro de água fresca, um pão de trigo, a luz generosa de uma candeia de azeite… porque o caminho é longo e nem sempre claro.
A minha família é uma casa simples e sem pretensões de veludos, ouros ou cortinas, para que nada possa distrair-nos deste tanto querer ser feliz que nos preenche a vontade e o destino. Sorrimos sempre com aquilo que temos mais à mão, e a alegria que escorre de nós semeia flores por todos os recantos.
O silêncio de alguns instantes serve apenas para melhor podermos saborear a paz.

Passam hoje 53 anos sobre o casamento dos meus pais. A eles e ao meu irmão devo tudo aquilo que de melhor vocês possam reconhecer em mim.

sábado, 8 de setembro de 2018

Estas noites em que se acendem as luzes…


Nas noites em que nos sentimos especiais, puxamos os luzeiros do céu para bem mais perto, acendendo as luzes desenhadas e garridas do arraial.
Depois caminhamos de amigo em amigo, porque o coração calipolense centrífuga o universo, concentrando-nos numa praça com chão de terra, mas onde não há tempo para mastigar o pó que se levanta por entre os nossos pés.
As bocas estão definitivamente empenhadas nas palavras, no riso, nos padres-nossos, nas farturas e na ginja, porque de tudo isto se compõe a vida nos seus dias mais preciosos.
Jamais importará quem sobe ao palco para cantar, ou se a rifa já se modernizou e trocou uma garrafa de Anis Escarchado por uma bugiganga qualquer comprada nas lojas chinesas.
Tão pouco importa se a banda que atua no coreto já puxou o pimba para o repertório...
Nas noites dos amigos só eles importam e só eles nos fazem falta, na certeza de que ter uma terra é ter uma casa com paredes de afeto tecidas pelos olhares, e janelas generosas com vista para tanto.
Ter terra, assim, é ser mais do que uma sombra anónima a vaguear pelas ruas, é beneficiar de nome e história num caminhar contente ao compasso de abraços e palavras doces.
Este fim de semana haverá festa em Vila Viçosa, a minha casa.
Numa praça imensa, mas que o tempo foi encolhendo à medida que eu cresci, há uma igreja onde uns frades de terracota veneram um São Francisco jazente. Chamamos-lhe a Festa dos Capuchos, e pelas grades da janela da capela dos frades atiramos moedas pedindo a sorte, numa espécie de Fontana de Trevi calipolense, com fé mas sem água.
Cá estou eu pronto para ver os amigos, matar saudades e continuar a comover-me ao primeiro acorde da banda.
Com o céu aqui tão perto, à espera que, de Setembro a Setembro, o ano nos traga a melhor sorte.

 

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Eu sou corrupto e o Eusébio nunca existiu


Eu, corrupto me confesso, sem pudor e sem qualquer laivo de arrependimento: o equipamento do Benfica que ofereci ao Fábio no natal do ano passado já foi o segundo, reforçando dessa forma o benfiquismo do filho dos meus amigos Manuel e Ana, que não se interessam absolutamente nada por futebol.
É verdade, comprovada corrupção ativa, com a agravante de a praticar em prol de um clube de bairro, de base popular e de gente dita vulgar e adepta do garrafão de vinho.
Eu também sei que o Benfica nunca existiu e que é a maior mentira de Portugal.
Eu sei que todos os nossos títulos em todas as modalidades são injustos e são fruto de uma ilusão sustentada, entre outros, pelo ditador Salazar, que chegou ao ponto de inventar o Eusébio, uma espécie de Padrão dos Descobrimentos que sabia chutar com os dois pés.
Eu sei tudo isso, mas quem poderá ir contra o meu coração?
O amor será sempre irracional e talvez por isso, não tenho quaisquer dúvidas em confessar-vos que se algum juiz um dia nos condenar por comprovada má conduta, eu pagarei cinco vezes mais do que as centenas de Euros que pago hoje para ter o meu lugar no Estádio mais feio e repelente de Portugal, só para poder ir a todos os jogos do campeonato distrital de Lisboa.
Dirão que é loucura e até poderá ser, mas o amor não será ele próprio um desvario?
Certo ou não, sei que aquilo que está no coração morrerá connosco, e que o Benfica só acabará no dia em que sepultarem o último de nós. Se é esse o objetivo de quem nos odeia (e utilizo a expressão de forma consciente), já sabem o que têm a fazer.
Puxem o ácido do cuspo para as vossas “sagradas” mãos e comecem.