segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Hoje sinto-me imortal...



Há dias em que nos despertamos com a sensação de sermos imortais, e outros dias em que colocamos uma bateria de lua no bolso, devidamente guardada da noite, por temermos que se nos fuja a claridade.
Da mesma forma, há instantes em que sentimos a voz e os braços de todos os santos do Céu apoiando-nos num caminhar tranquilo por entre lagos e flores, e outros em que acreditamos que Deus se despediu de nós para ir acudir à Austrália.
Sempre que Novembro nascia, íamos a Borba à feira comprar as botas, as mantas coloridas e os agasalhos, inaugurando oficialmente a época do frio, contrariado também com castanhas e bolotas assadas.
Nessa altura eu acreditava que o frio tingia de negro as mãos das mulheres, quando ao fim da tarde me cruzava com elas na mercearia ou na padaria, antes de aprender que o tom que lhes carregava os dedos era consequência de um dia passado na apanha da azeitona, um dia que começava muito antes de clarear, quando a geada oferecia à Terra uma película vítrea e muito dolorosa.
Nas ruas de Roma e na noite de Todos os Santos, eu caminho só e entretido por uma conversa entre mim e a memória, sentindo saudades das botas de Borba que o avô Joaquim untava com sebo de Holanda, porque as moderníssimas sapatilhas New Balance não garantem uma boa aderência ao piso humedecido pelas chuvas dos últimos dias, e sinto correr o risco de me estirar ao comprido algures entre o Panteão e a Fontana di Trevi, numa performance noturna com muito pouco do glamour de Visconti.
Hoje sinto-me imortal, mas reparo ao colocar as mãos nos bolsos, que trouxe comigo pedaços de mil luas, agrupados em lanternas que vou acendendo aos poucos e quando o tempo estremece. Deus persiste no meu silêncio, muito mais do que nos sinos das catedrais de Roma, e os Santos que me apoiam, adormeceram há muito, mas deixaram ficar comigo as suas mãos enegrecidas pelo frio e pelo pão que alimenta todas as candeias.


sábado, 27 de outubro de 2018

Janelas com vista para o sol…


Quando um colega de um país que não Portugal, se senta ao meu lado na mesa onde iremos trabalhar em grupo durante esse dia e saca da pasta, um coelho de peluche que coloca em cima da dita mesa, fazendo uma foto com o telemóvel antes de o devolver imediatamente à pasta, o meu ar de curiosidade destravada terá motivado uma explicação.
- Sempre que venho trabalhar para fora, o meu filho pequeno, não podendo acompanhar-me, entrega-me o seu boneco preferido para que eu o sinta mais perto e tenha menos saudades. Todos os dias lhe mando notícias do seu coelho.
Ainda existe amor à superfície destes dias cinzentos. Amor e poesia, que são afinal a mesma coisa.
Com um imenso prazer, recorto este momento e colo-o em destaque sobre a minha “agenda”, como fonte guardada no bolso de quem às vezes tem de atravessar ou provar o deserto.
Depois, é à beira de instantes assim que posso garantir a um amigo que o Céu lhe devolve o seu anjo pela madrugada, ou consigo alinhavar três versos (daqueles que fazem cócegas) para fazer sorrir uma outra amiga que anda triste.
Talvez seja um benefício da idade, este jeito de saber vindimar a esperança por entre o sol que desmente o frio nos dias de Outono, ou de poder cortar a hera que nos tapou as janelas com vista para o sol.

 

sábado, 20 de outubro de 2018

As contra-indicações dos beijos dos avós…


Não me recordo se algum dia alguém me ensinou a beijar os meus avós naquela idade precoce da qual não guardo qualquer memória de mim, mas tenho quase a certeza que não foi preciso, porque os beijos são detalhes que fluem naturalmente entre quem se ama.
Recordo-me sim de ter quatro anos e ter caído da escada pela pressa de ir beijar o avô Joaquim que chegava do campo com um saco de limões, e lembro-me bem do aroma dos xailes das minhas avós e tias-avós, que nos ofereciam os seus braços para adormecermos felizes, sempre que vinham a nossa casa passar o serão.
Se eu visse um avô vinte vezes por dia teria de dar-lhe vinte pares de beijos, e nem mesmo assim, seguindo essa regra do coração, eu consegui evitar esta presente saudade de já não os ter.
Os beijos, os afagos, os olhares doces, “o meu Quim” repetido mil vezes com orgulho... semearam o melhor que possam encontrar em mim. Qualquer face lunar é da minha inteira responsabilidade.
Durante um programa de televisão emitido esta semana e em que se abordava o tema do assédio e da violência sexual, um investigador afirmou que “obrigar” uma criança a beijar os avós é um ato emocional e fisicamente violento exercido contra a vontade do próprio, o qual poderá ter reflexos futuros no comportamento do indivíduo.
A “exigência” de ser moderno às vezes conduz ao ridículo de andar a procurar maçãs no fundo do mar e pargos entre os troncos bravos dos castanheiros, por entre nexos de causalidade que fazem cócegas na alma.
Cuidado com a embriaguez provocada por um copo de água, e jamais comam canja de galinha, porque é de facto a sopa mais indigesta.
Na última semana tive o privilégio da companhia dos meus pais em casa, e saindo cedo para trabalhar, só a minha mãe me acompanhava ao pequeno-almoço. Mais dorminhoco, eu só via o meu pai quando regressava a casa ao fim da tarde, e de imediato, ele se ajeitava no sofá para que eu pudesse cumprimentá-lo com dois beijos.
Neste assumido império de beijos onde eu fui criado e onde vivo muito a gosto, eu tenho tudo para ser um serial killer … ou não, porque entre beijos sempre aprendi dos meus pais e dos meus avós que ser homem ou ser mulher é um detalhe irrelevante perante a grandeza de ser gente, e que ser “poderoso” não é ter dinheiro, é ser rico dos valores que se cultivam na alma, que nos fazem felizes e se partilham com os demais sob essa sombrinha tão airosa que é o respeito por tudo e pela sua liberdade.

 

sábado, 13 de outubro de 2018

Músculo e água de fé...


Sempre que o verão partia e a aragem nos convidava a revisitar os guarda-fatos em busca de “abafos”, fechavam-se os postigos das portas e acendiam-se as primeiras braseiras, ao redor das quais ateávamos a conversa nos serões que cumpriam a mesma sina do tempo de então: não existia pressa.
Nas prateleiras altas dos armários da cozinha havia conserva de tomate e taças de compotas de ameixa, abrunhos, melão... para lá da inesquecível marmelada.
Aprendi há muito a tomar o melhor do verão e a guardá-lo de forma eficaz, para poder cruzar o inverno sem deixar de sentir o sol.
O tempo agora é bem diferente, em tudo e também na pressa, mas quando a semana me obriga a atravessar a solidão, vejo sempre que trouxe comigo garrafas de água das melhores fontes que beijei, trouxe abraços guardados em memórias e retratos, e não há fome que me atormente, porque trouxe na mochila o pão que respira entre os milhões de versos que colhi dos dias claros.
Nada nem ninguém é breve ou desprezível, e o todo de um instante não se esbate no instante a seguir, permanecendo como músculo e água de fé que nos permitirão cruzar o deserto.
Tudo e todos importam e permanecem, alimentando-nos do brilho das braseiras de picão enquanto esperamos alegres pelo verão que virá a seguir.

 

sábado, 6 de outubro de 2018

O essencial é a liberdade...


O caminho que trouxemos desde o pranto até à liberdade está pejado do ferro oxidado das algemas que nos prendiam as mãos e os pés, e ainda guarda o cheiro fétido dos cadáveres da gente morta a tiro de opressão, gente mártir mas enorme, de quem a alma voou atando-se à nossa por um nó ousado e rebelde de marinheiro.
Passaram muitos anos, e talvez o vento tenha arrastado terra, e a chuva tenha plantado ervas e flores sobre esses despojos dolorosos, oferecendo-lhe uma enganadora face de paraíso.
Mas eu não quero e não irei voltar a pisar esse caminho.
Aqui onde moramos temos janelas que trazem a brisa do mar, temos o canto livre dos poetas e, por mais desarrumada e suja que esteja esta rua onde moramos, ninguém nos obriga a negar o sangue e o amor que trazemos na alma.
Sim, essa mesma alma que atámos pelo sonho à alma dos heróis.
Poderemos varrer esta rua com ramos de giesta, criaremos novas flores para os vasos das janelas, convocaremos os cantores, os artistas, reinventar-nos-emos em cada dia que nos derem, mas por favor não nos despejem nunca da casa da nossa liberdade.
Há quem esteja a vender a ideia de que a única forma de tratar um arranhão num dedo é fazer a amputação do braço, e há quem acredite e se deixe levar por aí.
São tempos movediços e eu temo pelo regresso do mundo aos becos da dor, da mordaça e do pranto.
Que emerjam as diferenças, que se discutem de forma aberta e honesta, mas que o essencial nunca deixe de ser a liberdade.

sábado, 29 de setembro de 2018

Viagens improváveis...


Sigo imerso na leitura dos jornais e nos jogos de palavras e números, enquanto a carruagem rasga o estio subindo a norte. Só por alturas de Espinho reencontro o mar, deixando-me atrair pelo sol e permanecendo à tona, consciente, até cruzar o Douro e chegar ao Porto.
Numa manhã de domingo e apenas com um livro e um jornal debaixo do braço, passageiro sozinho num comboio a transbordar de turistas e malas de viagem, eu vou ao encontro de um almoço perfeito de poetas e de uma tarde que poderá ser muito… ou quase nada.
O senhor José aproximou-se da mesa pequena onde decorria a minha sessão de autógrafos na feira do livro do Porto, tem oitenta e dois anos e estava acompanhado pelo filho. Foi ali de propósito para encontrar o homem que escreve aquelas palavras que lê nas manhãs do Facebook.
Não foi fácil encontrar-me, mas, finalmente, ali estávamos nós frente a frente por entre girassóis na lua e a promessa de um livro de poesia que será publicado em breve, e de um outro que seguirá pelo correio.
Quando as palavras voam das nossas mãos cumprindo o destino nómada que lhes oferece a alma, jamais saberemos em que peito anónimo irão encontrar guarida, ficando por ali entre o vento e o sol de muitos dias.
Legitimamente, as palavras são muito mais de quem as sente do que de quem as ensinou a voar, tal como a gaivota é da praia onde enfeita o céu, e não do ninho onde nasceu entre as quentes asas maternas.
Uma tarde de tanto, um pouco antes de regressar a Lisboa, já sem o mar de Espinho e o sol a entrar na janela, mas com o conforto dos dias em que o olhar tem o privilégio de seguir a rota das palavras, podendo acampar, nem que só por minutos, na vida daqueles que caminham connosco nos claustros monásticos do tempo, de pés descalços mas de almas entrelaçadas à mesma forma de sentir.
Há domingos que oferecem viagens improváveis dentro da rota dos velhos destinos.

sábado, 22 de setembro de 2018

Viver...


Viver é um compromisso de honestidade de mim para comigo, e tudo o mais são jogos de sombras.
Gosto muito do mês de Setembro porque ele sempre me ensinou a renascer nos cadernos com folhas imaculadas, nos lápis por afiar e nas canetas de feltro ou nos guaches por abrir.
Se um novo ano começa inevitavelmente em Janeiro, tenho sempre a sensação de que a vida nova que ele promete só se cumpre bem mais adiante, em Setembro. E cumpre-se nas palavras novas e nos desenhos conquistados aos diferentes saberes inscritos num horário que reinventa o tempo para nos tornar “sábios” no encalce de novas eras.
O Outono é a minha estação preferida por entre o grito escarlate das romãs e o salto das castanhas, que abandonando o ouriço nos vêm contar histórias as serão.
Dizem que o Outono nos deprime, apagando a luz intensa com que o verão nos beija.
Talvez isso fosse verdade se o sol que importa não fosse coisa que vem de dentro e que espreita a rua pelo olhar, como se ele fosse um postigo.
O Outono devolve-me a atenção para aquilo que trago no peito, para que nada daquilo que eu faça me apanhe desprevenido ou me contradiga, porque viver, já disse e repito, é um compromisso de honestidade de mim para comigo, num percurso único onde os sonhos viajam seguros.

(Os desenhos da foto são da autoria do meu sobrinho Luís Barreiros, que também gosta de viajar com os sonhos ao seu lado, mas sempre bem seguros)