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Museu do Côa

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Só as oliveiras e as amendoeiras, que insistem em entrecortar a verde o imenso mar de bege e castanho que parece irradiar fogo neste dia de canícula, nos acompanham pela estrada fora quando procuramos que cada curva nos revele a anunciada grandiosidade do museu. Não fossem as placas de estacionamento e jamais julgaríamos ter chegado. Está desde logo conseguido o primeiro dos critérios para ser grande: ser simples. Umas escadas íngremes convidam-nos a ir fundo numa gigantesca estrutura de linhas direitas que sendo enorme é igual a tudo o que a rodeia, permitindo que só o rio no seu correr azul continue a ser o elemento que se destaca quando olhamos em redor. Segunda virtude: discrição. E depois, percorrendo as sucessivas salas imensas pintadas de negro, entramos na vertigem do tempo para chegarmos às linhas que marcaram a pedra do paleolítico até hoje. Não sabemos se o que é actualmente oferecido aos nossos olhos foi em outro tempo comunicação, arte, entretém ou religião. Pode at...

Lisboa eterna

O calor de um domingo de verão põe os carros em fila compacta para a margem sul, e eu fico com o Viaduto Duarte Pacheco livre e por minha conta para mergulhar em Lisboa. Passo pelas Amoreiras e espreito Campo de Ourique, desço ao Rato, faço a Politécnica, atravesso o Príncipe Real, sempre e só ao meu ritmo e ao ritmo dos semáforos, porque na cidade assim tão vazia não há nada mais que me detenha ou me faça avançar mais velozmente. Desço a Misericórdia e antes de virar à direita para o Camões, espreito a Rua do Alecrim com o Pórtico da Lisnave ao fundo e o Tejo de permeio num azul fortalecido pela luz do meio-dia. Quem um dia se sentir triste venha aqui e saboreie esta vista, garanto-vos que não há melhor “doping” para a alma. Deixo o carro, desço o Chiado e vejo Lisboa entregue a grupos de turistas altos, louros, inicialmente brancos mas já convertidos a cor de lagosta pelos efeitos do nosso sol, todos de mapa e guias na mão como que competindo numa grande caça ao tesouro. A Brasi...

O primeiro Governo da minha geração

Quando o novo governo tomar posse na próxima terça-feira, a média etária dos seus ministros cifrar-se-á nos 47 anos, apenas mais dois do que os meus quase 45. Sinto pela primeira vez e de forma clara, que a minha geração chegou ao poder em Portugal, e, confesso-vos, tenho esperança que possa ser ela o motor que puxe o país para a frente, retirando-o da enorme crise, política, social e sobretudo financeira em que se encontra. Não alimento esta esperança por mera solidariedade e filiação geracional, faço-o sobretudo com base do reconhecimento do tempo maior em que tivemos o privilégio de crescer e fazer-nos Homens. À geração anterior à nossa devemos a gratidão eterna da conquista da liberdade que nos permitiu viver a segunda década das nossas vidas, os nossos tempos de liceu e entrada nas universidades, sem tabus, com visões alargadas, sem medos de pensar e agir diferente. Aprendemos línguas, começámos a viajar mais, vimos filmes e lemos os livros sem os cortes da censura, exercitámos...

Nada acontece por acaso

Num curso de formação de magistrados a decorrer no Centro de Estudos Judiciários, todos os 137 alunos matriculados foram apanhados a copiar num exame. Nesta situação em que seria “justo” e razoável a anulação do teste e a realização de um outro, a direcção do Centro resolveu atribuir a todos a nota de dez valores, afirmando não encontrar uma segunda data para que essa repetição ocorresse. Numa instituição em que são formados agentes da justiça, a desonestidade é premiada com nota positiva, embora no seu limite inferior. Excelente treino para o futuro no exercício da profissão. Se os cábulas continuassem ainda hoje a ser brindados com um zero e com a anulação das suas provas, talvez aprendessem mais facilmente a distinguir o bem do mal e a separar o que está certo do que está errado, contribuindo dessa forma para um mundo onde imperassem valores como a honestidade, a justiça e a verdade, em suma tudo aquilo que constitui a grandeza e a nobreza de carácter. E neste caso talvez ganha...

Morte em directo

Um multimilionário Inglês, vítima de uma doença neurológica que lhe comprometia os movimentos, recorreu aos serviços de uma clínica Suiça, pelos vistos já muito famosa, que o assistiu num suicídio gravado e transmitido em documentário pela BBC no inicio desta semana. Nesta história polémica e com contornos macabros há desde logo dois pensamentos que me assolam ao espírito: a legalidade / legitimidade da morte assistida e o papel dos meios de comunicação no contexto actual deste nosso mundo. Relativamente ao primeiro, considero-o uma questão muito sensível, para a qual as respostas se atolam sempre nos terrenos movediços da legitimidade ou não para decidirmos sobre o fim da nossa própria vida ou então sobre a vida de outrem. Mesmo admitindo que a vivência de diferentes contextos nos podem fazer mudar de ideias, confesso-vos que sou convictamente contra a eutanásia e qualquer forma de legalização da morte medicamente assistida. Identificar um conjunto de pressupostos a preencher pelo...

Viva o Santo António

Com manjerico e balão Santo António vou festejar Dizendo às tristezas que não E mandando a crise marchar. Uma sardinha assada em Alfama, Num pão bem quente a pingar Dá-nos força e activa a chama Na hora da Troika enfrentar. Santo António presta atenção Que esta gente não é para brincar E não deixa qualquer tostão Sem IVA ter de pagar. O nosso povo já escolheu E optou pela mudança, O incrível Zé perdeu E vai estudar para França. Os Passos estão bem ensaiados E as Portas abertas para entrar Será que estamos tramados, Ou a boda nos vai salvar? Façam o que têm de fazer Nunca faltando à verdade Sabendo que o que importa é ter Paz, amor e liberdade.

Viagem ao interior da Terra ou… a outra face do Ouro Branco

Na revista “Notícias Sábado” que acompanhou o “Diário de Notícias” de ontem, vem publicada uma muito interessante reportagem, denominada “A Pedreira”, que mais não é do que um relato de uma visita às pedreiras de mármore de Vila Viçosa. São histórias contadas por palavras e imagens que carregam a verdade que nós Calipolenses conhecemos melhor do que ninguém, de como é duro o dia-a-dia no interior da terra em busca da valiosa pedra, há muito apelidada de Ouro Branco. Quando se contar a história de Vila Viçosa nas últimas décadas do século XX, teremos de colocar o mármore no centro da nossa narrativa, tal a influência que as actividades associadas à sua extracção e transformação tiveram na nossa terra, substituindo a agricultura que até aí ocupava um claro lugar de destaque. Desde logo, mudou a paisagem, e se antes chegávamos a Vila Viçosa por estradas ladeadas por alvos muros caiados que delimitavam olivais e quintas, hoje, se chegarmos de Borba, Bencatel ou do Alandroal, verificamos...