quarta-feira, 12 de maio de 2021

Quanto mais verde é a erva, mais rubra se faz a papoila…



O meu pai é adepto do Sporting, e se acaso vos surpreende o tempo verbal que utilizo nesta afirmação, esforcem-se por entender a relação muito próxima que a fé e o amor têm com a eternidade.

Cresceu o pequeno grande Artur numa família de Benfiquistas, mas inspirado pelo padrinho, mestre barbeiro com quem aprendeu o ofício, e por cinco jogadores do Sporting reconhecidos pelo seu magistral acerto de violinos, acabou adepto e sócio dos Leões.

Quando eu nasci, em minha casa havia um azulejo com o símbolo do clube de afeição do meu pai, que vinha a Alvalade ver alguns jogos, e me levava bandeirinhas e cachecóis verdes e brancos.

Em vão.

Por inspiração do meu tio José Boquinhas, e sobretudo por um senhor de nome Eusébio da Silva Ferreira, eu não me lembro de jamais ter torcido por outro clube que não o Benfica.

O meu irmão nasceu cinco anos depois de mim e seguiu-me o gosto.

Não me recordo de o meu pai nos ter contrariado nesta futebolística afeição. É claro que havia gente que o questionava sobre tal, e que também nos questionam a nós, ainda agora, mas, perdoem-me o considerando, é gente menor e com défice de inteligência emocional.

Quem é grande não teme o confronto de ideias e de paixões, quem é inteligente, reconhece e entende o elevadíssimo valor que tem a diversidade.

Brincávamos muitas vezes com as questões do futebol, e ainda tenho uma carta, daquelas que trocava com os meus pais quando vim para Lisboa no início dos anos oitenta, em que, por certo em resposta a alguma provocação minha, o meu pai escreveu:

“Não te moas porque no próximo fim de semana, o Paulinho da cobra venenosa te fará a barba no alguidar inteiro”, numa alusão ao Paulinho Cascavel e ao fecho do terceiro anel do Estádio da Luz.

Picardias que nos faziam rir, que nunca ofendiam, até porque nesse tempo usávamos torcer pelas equipas Portuguesas quando jogavam com as estrangeiras, e eu o acompanhava a Alvalade em muitos dos jogos que o pai vinha ver, aproveitando sempre para me trazer uma encomenda com bolos fintos e broas.

Telefonávamos uns aos outros a felicitar-nos por alguma vitória importante, e mesmo depois dos célebres 6-3 de Alvalade, o meu pai, então num congresso da ANAFRE, em Braga, ligou para nos dar os parabéns.

Ainda o meu irmão era estudante e inscrevemo-lo como sócio do Benfica, com o meu pai a pagar-lhe as quotas.

Mais tarde era o meu irmão a ir ao Sporting pagar-lhe as quotas, e quando a final da Taça UEFA se realizou em Alvalade, o meu irmão abdicou do bilhete para que o pai Artur fosse ver o seu clube na companhia da nora, que também alinha pelo verde.

Por também gostarmos de vestir a mesma camisola, e por ela ser precisamente verde e encarnada, fomos muitas vezes ver a seleção: em quase todos os jogos do Euro 2004, em Colónia, Alemanha para o Portugal-Angola do Mundial de 2006, em Genebra, Suíça, para o Portugal – República Checa do Euro 2008.

Nos anos do tetra do Benfica, eu e o meu irmão celebrávamos o título no Estádio da Luz com um abraço, e mandávamos uma foto para o pai, que tinha um telefone algo rudimentar, mas conseguia receber mensagens.

Ele ligava-nos depois, e sem que fosse necessário dizê-lo, liamos-lhe na voz que qualquer incómodo pela cor das camisolas, era largamente ultrapassado pela alegria de ver os filhos unidos e felizes.

Não foi em vão que comecei por falar de amor.

E para lá do amor, tudo se faz tão breve e tão supérfluo.

Ontem vi o fim do Sporting – Boavista e senti saudades de ligar ao meu pai para poder dar-lhe um beijo de parabéns, mas porque também comecei por falar de fé, sei que ele vibrou com o título de campeão do seu Sporting, sentado numa nuvem em forma de poltrona, talvez a praguejar contra algum jogador mais lento, como costumava fazer com o Pedro Barbosa e o William Carvalho.

Mas no final comemorou, e bem, porque a coisa foi muito bem merecida.

Num dia desta semana fiz a foto que ilustra este texto, e onde é fácil entender que quanto mais intenso é o verde, maior se faz o poder rubro da papoila, porque tudo na vida nasceu para somar.

Quando eu deixar de olhar desta forma para o futebol e para tudo o mais, deixarei de ser eu. Tenho o orgulho de ter aprendido com o meu pai a ser assim.

E um abraço de parabéns aos amigos do Sporting.

 

domingo, 2 de maio de 2021

A minha mãe


Nas manhãs de sexta-feira costumo levar a mãe à cabeleireira, passando obrigatoriamente na casa onde morámos e eu nasci, assim como naquela que foi a residência dos meus avós, os seus pais.
Não nos pertencem e ambas apresentam um elevado estado de degradação, que nós nos inibimos, quase sempre, de comentar.
Sabemos há muito que é no amor que se nasce, que se cresce... e tudo o mais são paredes e telhados vulneráveis ao tempo.
Há alguns anos, enquanto eu jantava com os meus pais num restaurante de Vila Viçosa, um senhor nosso conhecido acercou-se da mesa para nos cumprimentar, e alentado pelo meu celibato não resistiu a perguntar-me:
- Então quando é que resolve dar um dia grande aos seus pais?
E a minha mãe, antes que eu pudesse articular algumas palavras, respondeu-lhe:
- Tem dado muitos dias grandes, graças a Deus.
Sei há muito, porque assim aprendi da minha mãe e do meu pai, que o amor se concretiza no ser, muito mais do que em qualquer forma ou detalhe que se possam ver.
Quando vivíamos na casa da Rua de Três, havia manhãs em que éramos acordados muito cedo, ainda com o dia a clarear, com alguém trazendo um pedaço de pano branco e uns preparos, pedindo à minha mãe que costurasse à pressa um vestido para alguma jovem que acabara de morrer no hospital, que era ali tão próximo.
Vinham, invariavelmente, recomendados pela nossa querida vizinha Armanda, que tinha uma loja e vendia tecidos, sendo nascida da mesma génese generosa da minha mãe.
Sempre que perguntavam pela conta, a mãe respondia:
- Já vos basta a dor que sentem. Não me devem nada.
E assim aprendi com a minha mãe que a dimensão de alguém se expressa no amor que cultiva ao seu redor.
Passadas semanas, os pais dessas raparigas voltavam a nossa casa, agradecidos, trazendo-nos cestos de ovos ou outras iguarias do campo, e os beijos que nos davam sob os seus olhares tristes, tinham tanto, mas tanto, de Deus.
E a caridade, aprendi-o sempre, mais do que a baba que escorre da grandeza dos poderosos, é a essência clara dos pobres, predispostos a serem o Céu que caminha pelas ruas.
A minha mãe gosta mais da minha prosa do que dos meus versos, e jamais se inibiu de partilhar comigo o que acha estar bem ou mal. E sobre tudo isso cresci.
A minha mãe nunca me pediu para ser o melhor, sugerindo sempre, isso sim, para jamais deixar desaproveitado qualquer talento.
E o orgulho, aprendi eu a lê-lo, muito discretamente, no seu olhar.
Na noite de julho passado, quando o meu pai adormeceu, e nas muitas horas que passámos juntos os dois, eu e a mãe, atravessando a madrugada da nossa terra, jamais usámos a palavra morte, ainda que sentíssemos a presença muito marcada da saudade.
Há muito aprendi com a minha mãe que o amor sendo amor, assim, exige da fé coerência e é pleonasmo da eternidade.
Nos muitos serões que agora passamos juntos, a mãe faz tricot com lãs coloridas que escolhemos os dois num sítio da internet, e eu alinho versos e prosas que vou publicando, ou que jamais publicarei.
Ligamos ao meu irmão, resgatamos o meu pai de todos os hipotéticos silêncios...
Há muito aprendi com a minha mãe, a resgatar de todas as cores, a malha que nos tece um dia novo, por nele nos reinventarmos.

 


sábado, 24 de abril de 2021

O estatuto e a essência


Pelo final dos anos setenta do século passado, em Vila Viçosa, quando eu fazia da Livraria Escolar, a minha segunda casa, um casal de namorados oriundos da burguesia que então emergia da explosão do comércio do mármore, cumpria o ritual de todos os meses ir adquirir um exemplar da coleção de obras de Eça de Queirós, que a Editora “Livros do Brasil” lançara numa encadernação elegante em tons de encarnado.

Deixavam sempre a promessa:

- Quando acabarmos estes, vamos começar com os verdes.

Sendo que se referiam à coleção das obras do grande Fernando Namora.

Tenho dúvidas se estes dois conjuntos de obras primas da nossa literatura persistem nas estantes destas almas, num arranjo muito republicano, no que às suas cores diz respeito, duvidando eu que o Jacinto, entre Paris e Tormes, assim como o João da Ega, entre o Tavares e o Rossio, tenham alguma vez pisado os tapetes de Arraiolos daquela sala Calipolense.

A mesma dúvida me assiste relativamente ao Dr. Namora, algures entre Pavia e Monsanto, nos retalhos da sua vida de médico.

Gosto de voltar a esta história para ilustrar o quanto da essência e da alma se perde na superficialidade das faces mais ou menos vistosas, mas quase sempre opacas.

A essência do Homem, de Deus e da liberdade.

No decurso desta semana, uma amiga questionou-me relativamente ao facto de eu ter confessado conversar com as árvores.

É verdade.

Falo com elas e reconheço-as no seu modo único e audaz de oferecerem marcos aos caminhos por onde eu sigo: o sobreiro do lado esquerdo de quem sai de Montemor-o-Novo pela A6, o pinheiro que olha a Serra D’Aires quando sigo pela A1 e me aproximo da saída de Torres Novas…

As árvores, assim como todos os seres mais simples do universo, serão sempre a casa de partida para quem procura Deus na excelência da criação. Por vezes, é verdade puxa-nos o pé para os tratados, e para as palavras doutas e difíceis, numa injusta apropriação de Deus operada pelos poderosos e pelos sábios, como que sonegando-O aos humildes e aos pequenos pastores, meus avós, com quem aprendi a linguagem da Terra.

E a liberdade?

Morre afundada no mar da prosápia de quem a reclama exclusividade do seu hemisfério, vendida ao desbarato em frascos de perfume com que certa gente se pulveriza.

Tal qual a opacidade das encadernações.

- Lá por a minha família ser mais importante que a tua, não podes duvidar que eu seja de esquerda.

- Disseste esquerda?

Assim dialoguei com alguém no verão passado.

Apesar do cravo vermelho na lapela, talvez Salgueiro Maia, entre o Terreiro do Paço e o Carmo, ainda não tenha gritado vitória sobre os tapetes, de Arraiolos ou não, destes novos pobres, que convivem algures sob a mesma hipocrisia dos novos ricos.

Uma boa semana para todos, por entre a fé e a liberdade, e todas as essências que, rompendo os estereótipos e as capas, nos fazem melhores e maiores pessoas, porque mais simples e mais verdadeiros.

sábado, 17 de abril de 2021

À escala microscópica


Há dias em que as árvores me beijam por muito mais do que apenas o olhar, deixando sobre o carro um ramo pequeno da sua imensa copa, e centenária história.

Poupando-o ao vento que a velocidade sempre ateia, apanho-o e trago-o comigo, sentindo-lhe os versos numa conversa entre iguais, que jamais terá fim.

Eu sou irmão dos detalhes ínfimos de todas estas árvores da minha terra, e quanto mais mundo me é dado conhecer, mais privilegiado me sinto nesta honra, à escala microscópica, de poder chegar até onde a Terra floresce e se renova.

Há quem aposte, e faça o contrário, fechando-se num espaço pequeno, e chamando sobre si o foco mais intenso que existir no mercado. Enormemente importante, é um facto que, então, ver-se-á grande, projetado sobre a parede branca.

Será um gigante, mas de apenas sombra.

No requiem da verdade, será uma valiosa ilustração, mas da carnavalesca legenda que não lhe pertence.

Eu gosto da viagem que me dilui no espaço todo do universo, e me transforma nesta anónima molécula da humanidade.

Desfruto de um tempo sem fronteiras aonde a diferença oferece o benefício do complemento, permitindo-me ter mais ar para respirar, e, um ar, indiscutivelmente mais perfumado.

Qualquer mar é uma estrada, o exótico é uma cor que estava à minha espera, qualquer religião é uma outra face do Deus que eu procuro…

E quando regresso a casa consigo entender as árvores nestes seus detalhes mais subtis.

Ser crescido é despir-se de pudores, predispondo-se ao sonho, ficando, assim, melhor preparado para ouvir, e sentir, o coração da Terra.

O pequeno ramo de oliveira que guardei no carro naquela manhã de ventania, já está meio seco, mas permanece no seu sítio, ali, entre o pouso da máscara e o telemóvel, afagando-me o pensamento na solidão de cada viagem, debitando, de passagem, todos os versos que tomou da lua.

A Pantera cor de Rosa?

É só para vos conseguir provar a tanta vida, nas tantas palavras que existem para lá das sombras, e daquilo que se obtém com a superficialidade do olhar.

sábado, 10 de abril de 2021

“A única crítica é a gargalhada”


Há palavras e gestos que ficam a dever a verdade ao coração, traindo-a de modo mais ou menos declarado, por entre a construção de hipérboles com tanto de obsceno quanto de ridículo.

Se um sinal da cruz feito com a mão direita fosse garantia de trazer Deus, por dentro, no peito, ou se o discurso da autoproclamada honestidade, com palavras caras, de mil Euros, fosse garantia da prática dos bons princípios…

Da “velha moral” permanece, arrastado pelo corso das virtudes, muito mais do que dos vícios privados, o binómio dos bons e dos maus, sendo que, invariavelmente, o herói é o próprio, envolto em todas as suas capas, rodeado pela multidão das bestas incapazes de lhe reconhecerem o seu enorme valor.

Não existe meio termo, e nestas narrativas, aonde a modéstia, juntamente com a verdade, definha na solidão de um conjunto vazio, o juízo alheio e qualquer evidência são desprovidos de valor, perante a solenidade de um humano decreto, de uma sentença, invariavelmente subjetiva, ou até de uma abençoada prescrição.

E por mais padrões que celebrem as descobertas, permaneceremos um pequeno Portugal por termos trocado os desafiadores horizontes de Sagres pelas comodidades burguesas de um qualquer Vale de Lobo, e por termos substituído Calecute por Paris, aqui tão perto, traindo o escorbuto e as agruras da nau pela assepsia de um avião, com o respetivo bilhete sempre pago em cash.

“Uma nação só vive porque pensa”, afirmou Eça de Queirós, que ao mesmo tempo dizia: “A poesia não se inventou para cantar o amor”.

Que emerja algures o pensamento, lavado e enxuto, e que por sobre a agonia da ilusão de qualquer rosa, consiga renascer um dia a poesia, que coabita, por ser família, com a mais pura liberdade.

Num campo inundado de primavera.

  

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Folares e chupa-chupas...

Sempre que era sexta-feira santa, e a procissão do enterro do Senhor passava à nossa porta, existia alguém que não se dispensava de comentar:

- A Maria Inácia atrasou-se a cozer os bolos fintos.

Era totalmente verdade, e tudo porque o forno era demasiado pequeno para a quantidade de massa, e a profusão de folares que eram fabricados aqui em casa, tendo por destino os avós, os tios, os tios-avós, os primos…

Não se importava com isso o Senhor, que, desta forma, ao passar por aqui, levava sobreposto ao formal incenso, os aromas dos nossos perfeitos instantes de amor.

Tudo começara na véspera, com a mãe a atar um lenço à cabeça para amassar os quilos de farinha, acariciados com banha, chá de erva doce, açúcar… a avó Dade também não resistia a pôr as mãos, o seu saber, e, sobretudo, a sua fé, porque a massa acabava benzida por ela, com uma cruz desenhada pela sua mão direita.

A festa continuava noite fora, com os bolos a fintarem (ou a levedarem, se quiserem uma terminologia menos alentejana) no sítio mais quente da casa, com a mãe a levantar-se de hora a hora, não fosse a massa atirar-se para fora do alguidar de barro… e até sair pela porta da rua, como costumava brincar o pai.

Quando eu e o Zé Artur nos levantávamos, já a dita estava distribuída em montes, em cima da mesa, e nós ajudávamos a fazer folares, com um jeito tal, que qualquer lagarto, depois de cozido, ficava com ares de tartaruga.

Na segunda-feira de Páscoa, íamos para uma clareira do castelo, que está na foto, jogávamos à bola com o pai, sentávamo-nos na erva, já pejada de malmequeres, e comíamos o folar, partindo finalmente o ovo cozido que dava corpo aos “lagartos”.

O castelo era o campo aqui mais perto para quem não tinha automóvel. Quem o tinha e era encartado aventurava-se para as margens do Guadiana (ou “Gôdiana”, como aqui se diz, por vezes, mudando-lhe o género, e fazendo preceder a designação de um “a”).

Muitos anos mais tarde, o meu sobrinho João afeiçoou-se a ir comigo à procissão de sexta-feira santa:

- Tio, vamos ver a procissão do Jesus a dormir.

As crianças é que sabem…

E uma certa vez por entre o silêncio e a solenidade do evento, resolveu confessar-me em alto e bom som:

- Tio, eu estou com fome, mas só de chupas.

Creio que até o Senhor sorriu de dentro do seu sono, e presumo que Ele não terá estranhado, tal a ligação de aromas e de festa com que sempre foi brindado pelos Caeiro Barreiros.

Votos de uma Santa e Feliz Páscoa para todos, com a certeza de que Jesus Cristo apenas dorme, esperando que o acordemos dentro de nós, com o grito daquela fome que sente a alma.

Ainda que nos considerem ridículos.

Ainda que só tenhamos a essência simples de povo e de fornos pequenos, existirão sempre clareiras onde possamos brincar com os malmequeres, por entre o amor que se sobrepõe ao incenso.

E ressuscitaremos, sempre.

 

sábado, 27 de março de 2021

Cara a cara com o sol...


Existem madrugadas em que o tempo avança só para ficarmos mais perto do verão, e cara a cara com o sol.

Parece cumprir-se, dessa forma, aquela perceção quase universal, de que o tempo tem asas.

Mas terá mesmo?

Andamos há um ano a reciclar essa ideia, estacionados aqui, dolorosamente, nesta ilha sem abraços e de sorrisos amordaçados pelo pano, náufragos de tantas certezas, envoltos, agora, por nuvens de silêncio e de solidão.

Numa praia aonde o tempo não anda, ao contrário de um tal Rt, tão irrequieto.

Há alguns anos, sempre que dizíamos que o tempo voava, a minha avó, do alto da sua sabedoria simples, mas infalível, respondia-nos:

- Desenganem-se. Eu conheço o tempo, de um outro tempo em que ceifávamos de sol a sol e recebíamos o ordenado no fim da jorna, aos sábados, e juro-vos que ele tem passo de caracol.

Eu ficava a pensar nisso.

O tempo, salvo estes “soluços” induzidos por mão humana, em março e outubro, beneficia do rigor da matemática, e tudo o resto são perceções, essas assumidas verdades com que tantas vezes legitimamos o absurdo e nos afundamos no ridículo.

Afinal de contas, o tempo tem asas se nós o ensinarmos a voar, e permanecerá quedo e triste, se nós o encerrarmos numa masmorra qualquer, algures num castelo onde nos propomos viver com ele, esperando passivamente, um amanhã caído do céu.

Há muito que lavámos esse tempo do tempo da minha avó, e com uma mão cheia de fé, e outra de liberdade, saibamos tomar a poesia que mora no silêncio, e tomar aquele canto da Terra e dos pássaros, que só aprende quem em alguns instantes vive só.

Emprestemos as nossas asas ao tempo, salientando a finitude destas ilhas onde estamos sentados.

E vivamos de encontro ao verão, tomando dos instantes do luar, a inspiração que nos move a ficarmos cara a cara com o sol.

As laranjeiras da minha terra, por entre a saudade do abraço dos nossos olhares, por ora fugidios, já começaram a fazê-lo, e já se revestiram de primavera, na flor que desmente a lamúria.