sábado, 25 de setembro de 2021

As rosas… tal qual a vida


Aos sábados e domingos de manhã, um pouco antes da missa, gosto de visitar o túmulo do meu pai. Não o faço por qualquer traição ao Céu, se é aqui, nesta terra vermelha do barro de Vila Viçosa, que permanece adormecido o colo, assim como os beijos, dos meus tantos instantes de Céu.

Faço-o por fé e fidelidade.

Nestas alturas gosto de trazer uma flor que tenhamos num dos vasos da varanda, sem qualquer pretensão, às vezes até muito pequena, mas colhida entre mim e a minha mãe, um pouco antes de eu sair de casa.

No fim de semana passado não conseguimos ver aberto um muito promissor botão de rosa, que na manhã de segunda-feira nos brindou, finalmente, com todo o seu esplendor.

Como na vida poderá faltar tempo para tudo, mas nunca para cumprir os mais simples detalhes de amor, colhemos o botão, e, de saída para Lisboa, fiz um desvio e fui colocá-lo no túmulo do meu pai.

Ainda que por entre uma Ave Maria com pouco fôlego, mas aquilo que se diz, e o modo como se diz, perde sempre para o tanto que se sente.

Na manhã deste sábado, sem nada mais do que um ramo de manjerico já florido, do vaso da nossa varanda, voltei ao cemitério, e coloquei-o no lugar do botão da rosa que ali permanecia, resistindo à chuva, à trovoada e ao calor.

Trouxe-a para a colocar entre as folhas de alguns versos.

Perdoar-me-ão por estar a contar-vos a breve história de uma flor que morou no cemitério, ainda para mais, muito pequena, mas achei interessante fazê-lo pela cumplicidade que existe entre a vida e as rosas.

Nos parapeitos das varandas da vida, aquelas onde habitualmente nos debruçamos à espera do amanhecer, as rosas acabarão sempre por florir, ainda que o seu tempo pareça ter-se desencontrado com o nosso.

E as rosas que perderam a cor, e que parecem mortas, fizeram-no para conseguirem ter espaço para guardar o tanto de amor e de história dos gestos que as moveram, que lhes deram sentido, tornando-as eternas entre as páginas de uma nova poesia aonde o Céu se sente e se pressente.

Tal qual a vida.

Um bom fim de semana e um abraço.

  

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Espaço 2021


Estaríamos pelos finais dos anos setenta do século passado, e nas salas meio arruinadas do Convento das Chagas, hoje a ilustre Pousada de Vila Viçosa, a nossa catequista pedia-nos para termos cuidado com as brincadeiras, sobretudo, porque aquele hábito de rodopiarmos sobre nós próprios para imitarmos a Maya do Espaço 1999, transformando-nos num animal qualquer, provocava-nos, isso sim, umas valentes tonturas, e nós acabávamos por cair sobre algum monte de entulho que servia de “Eagle 1”, a nossa nave, onde sob as ordens do Capitão Koening e da Doutora Helen Russel, viajávamos pelo espaço.

Ontem, vinte e dois anos depois do mítico 1999, e alguns mais desde essas brincadeiras, juntei-me com a minha catequista na missa das onze na igreja de Nossa Senhora da Conceição. Ela, a minha querida Dona Bárbara Elisa, celebrava os seus bonitos 94 anos, e eu, desde o coro, e com a ajuda da minha amiga Madalena Barros, também da leva extraordinária dessas brincadeiras no Convento da Chagas, cuidávamos da transmissão da eucaristia nas redes sociais, voando muito mais depressa do que com qualquer “Eagle”, por mais sofisticada e criativa que a inventássemos sobre um monte de entulho.

Não resistimos a comentar, divertidos, estas coincidências.

A idade, de facto, não existe, e o importante será sempre a forma como agarramos o tempo para o fazermos nosso, voando depois, por entre o ímpeto de uma maior ou menor ilusão, até ao cais que o coração nos diga.

À saída da missa felicitei a minha catequista, e pedi-lhe para ter cuidado e não cair, porque as bengalas às vezes resvalam na pedra demasiado polida.

Com quem aprendi eu esta frase e o cuidado que ela pressupõe?

O afeto é uma via com dois sentidos, e os nossos melhores amigos, aqueles que são a gente que permanece porque se constituem a proteína da alma, nunca nos dizem para não “viajar”, preocupando-se, isso sim, em dar-nos alento para não cairmos e podermos chegar, por muito que se vislumbre a vertigem de uma ilusão.

E toda esta tanta vida, quer no Convento das Chagas ou ontem, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, sob o Olhar o e a “pretexto” da mesma fé que nos convida a sermos maiores e melhores.

Nunca desdenhem do impossível, porque ele só oferece certezas a quem não crê e não ousa sonhar.

domingo, 8 de agosto de 2021

A Abelha, a Carocha e o João Ratão


Esta semana cruzei-me com uma abelha que voava, estranhamente tranquila, entre jarras cheias de flores artificiais.

Ignorou-me nesta sua caminhada infrutífera pelo pólen, e o seu sossego será, quiçá, a certeza de que, tarde ou cedo, chegará às flores verdadeiras que a possam abraçar.

Nesta mesma semana tive o privilégio de poder viajar com os meus sobrinhos, partilhando com eles alguns detalhes do Alentejo pré e pós barragem do Alqueva.

O João viajou ao meu lado, e o Luís atrás, devidamente protegido, como é natural, pelo seu cinto de segurança, que acende uma luz verde no painel de comandos sempre que é ativado.

Mas o cinto do meio, ao seu lado, também estava ativado, e verde, porque com o Luís viajou um amigo ou amiga invisível, personagem das muitas histórias de que ele gosta, e que vive intensamente, insurgindo-se, por exemplo, com a imprudência da Carochinha, que, desleixada, deixou um caldeirão ao lume.

Direi eu que o dito marido, João Ratão, que nesse caldo morreu afogado, não seria também grande figura, pois casou por interesse, após a dita e famosa Carocha ter encontrado dez tostões ao varrer a cozinha.

O João e o Luís já voltaram a casa, mas no banco de trás do meu carro, o cinto do meio continua verde, porque dessa forma, os amigos invisíveis do Luís me farão companhia.

A semana passada, como qualquer unidade de tempo, encerrou em si mesma o côncavo e o convexo, o branco e o negro, o veneno e o antídoto.

Se a abelha se antevê triste por andar numa rota errada, jamais poderei saber quantos amigos invisíveis lhe afagarão o voo, compensando a ausência do pólen com milhares de sonhos.

Acreditar é a raiz mais profunda e generosa de sorrir.

Não procurem ler-me, jamais, nos sítios inóspitos e improváveis por onde andam os meus passos sozinhos, mas perguntem-me pelos sonho que me afaga a alma, e, já agora, pelo Deus que me abraça no banco de trás das minhas viagens todas.

Em segurança e de cinto (ou abraço) apertado.

 


sexta-feira, 30 de julho de 2021

Uma aula de eternidade


A porta do nosso liceu era a última que poderia ver quem saía de Vila Viçosa no sentido de Borba.

Talvez por isso, ao olharmos para aquela primeira curva da estrada ladeada por muros caiados, e oliveiras que se lhe sobrepunham com a legitima divindade de um altar, nós sentíssemos que o futuro poderia ser tudo aquilo que o coração mandasse.

Não existiam casas erguidas, gritos ou gestos de alguém, que pudessem frenar-nos o passo e a vontade, obrigando-nos a despertar.

Era tanto o sonho que respirávamos, todos juntos, entre a lírica de Camões, a fotossíntese, a trigonometria… e a amizade, que é, comprovadamente, muito mais do que um conceito.

Um dia construíram um liceu novo e nós mudámos para junto da Estação do Caminho de Ferro.

O mesmo sonho, já não sobre o afago dos paralelepípedos, mas sobre o ruido metálico dos carris.

Em altura de greve dos maquinistas, até aproveitámos o “furo” nas aulas para irmos tomar uma máquina, aproveitando para fazer uma foto.

E continuámos a sonhar-nos muito, mas mesmo muito mais do que tudo aquilo que nos diziam ser possível ser.  

Ontem fui às compras ao supermercado, e a conduzir, passei à porta do nosso velho liceu, seguindo pelo empedrado até uma das três grandes lojas que “enfeitam” o bairro novo que foi construído após aquela primeira curva.

Há uma rotunda que nos obriga a buscar outra direção, até porque mais à frente, a estrada ruiu para o fundo de uma pedreira. Para quem busca o caminho de Borba, a nova estrada passa pela antiga estação da CP, mas numa perspetiva diferente daquela que nós tínhamos em 1983, quando “assaltávamos” comboios.

Esta semana partiu para o Céu uma das amigas que está comigo na foto. Foi a primeira a fazer esse trajeto, e eu que me alimento de memórias como quem trinca pão para calar as saudades, apercebi-me mais uma vez, de como viver é contrariar esta sobreposição de casas, rotundas, gente, estradas, supermercados, bombas de gasolina… aos sonhos que ousámos cultivar.

A logística tenta matar-nos a poesia, violentando-nos os sentidos por via do olhar, mas nós resistimos a envelhecer, perseguindo sofregamente as rosas.

Regressei a casa, e sentei-me à mesa que tem vista para um dos enormes ciprestes do Terreiro do Paço. Fica exatamente na esquina da Janela de Lisboa, e como quem segue para a porta do nosso antigo liceu. Recordo-me deste cipreste ter ardido e do professor de Português do nosso oitavo ano, o saudoso Padre João de Deus, nos ter pedido para fazermos uma composição sobre esse acidente, que, visto à distância, foi apenas um breve instante que passou.

A lição das árvores desde os seus modestos e tão despretensiosos altares, para me recordar, mais uma vez, que o sonho quando é nosso, é inabalável, por muito que se esforcem para traçar de cimento e semáforos, todos os contornos que a alma, com esmero, fez questão de lhe atribuir.

Regresso aos meus dezasseis anos e à acústica dos pavilhões improvisados que oferecia mestria de soprano às nossas gargalhadas. Revejo as viagens infinitas que fazíamos a olhar para uma curva da estrada em tardes de mini saias, de caneleiras ao estilo “Fame”, tardes à boca de sino e cabelos flutuantes e vaporosos, por sobre o desmentindo da brilhantina.

E a morte?

É apenas uma aula de eternidade.

Embora de exame difícil e doloroso, e por muito que seja o ruido e a volumetria das “casas”, não existe “estrada” que, por via da alma, não prevaleça.

Maria do Céu, teremos sempre o nosso velho liceu, para voltarmos às primeiras curvas de muito mais de mil gargalhadas.

domingo, 25 de julho de 2021

Os meus avós


A minha avó Francisca era a melhor amiga da cal, bastando um dia breve para que as paredes ficassem divinamente imaculadas, tal qual manda o Alentejo. E ao fim da tarde, antes de devolvermos ao seu sítio, cada peça da mobília, eu invejava-lhe o olhar e o jeito que dispensavam a régua na hora de desenhar a direito, o rodapé encarnado.

Fazia-me uvada, com uvas, mel e frutos secos, oferecia-me cravos dos vasos que tinha na janela que dava para a Rua do Poço, e eu ia com ela lavar a roupa ao ribeiro, com um petisco para o almoço e milhares de histórias para contar.

O meu avô Joaquim trazia-nos frutos da horta, e a única vez que eu caí da escada na casa da Rua de Três foi pela pressa de o ir abraçar, quando nos vinha entregar um saco de limões.

Ao tratar da terra encontrava moedas antigas que me oferecia e eu ia guardando num boneco de cortiça que fiz nos Trabalhos Manuais, no primeiro ano do ciclo preparatório.

Eu ia com ele até ao colmeal, e voltávamos com peras pequenas que vendíamos aos vizinhos, fazendo uso de uma balança gigante que pendurávamos nas traves do tecto da cozinha.

A casa da avó Chica e do avô Joaquim tinha uma escada em L com uma acústica extraordinária. Era aí que eu os chamava depois de ter aberto a porta pondo a mão pelo postigo da porta de madeira.

A minha avó Natividade gostava de me ensinar a bailar, preparava-me pastéis de massa tenra, tricotava-me as botas de dormir, e, sempre que tratava das matanças, fazia um chouriço miniatura para me oferecer.

Abraçava-me, partilhando o seu xaile, na hora de me levar a casa depois do jantar, vestia-me de São Francisco para desfilar nas procissões, ajudando a pagar as suas promessas, e, levava-me com ela a rezar à igreja de Nossa Senhora da Conceição, mesmo que já fosse noite e o templo estivesse fechado. Eu ajoelhava-me ao seu lado na pedra da porta principal.

Quando o Papa João Paulo II foi a Vila Viçosa, a avó Dade viu-o passar na avenida perto da sua casa e disse:

- Este homem é santo.

O avô Francisco era carpinteiro, fazia-me réguas com os milímetros afinados, oferecia-me uma nota de Santo António (vinte escudos) no dia dos meus anos, e quando eu terminei a quarta classe ofereceu-me um leitor de cassetes que ainda hoje guardo comigo.

No verão de 1974, a avó Dade e o avô Chico levaram-me com eles a um passeio pelo norte. Numa excursão organizada por um conterrâneo, os colchões viajavam no tejadilho do autocarro, a comida era feita em fogareiros de petróleo, e eu dormia entre os dois avós, sempre na melhor cumplicidade da lua e das estrelas.

Os meus quatro avós tinham gestos e palavras de mel, não deixando jamais de cultivar a exigência, e aplicando tolerância zero à asneira, à preguiça e à falta de educação.

Eram fontes intermináveis de riso, mas implacáveis na hora do treino do “se faz favor”, do “muito obrigado” ou do “com sua licença”.

E existia entre nós um fluxo interminável de afetos, porque se eu os visse trinta vezes no mesmo dia, teria de os saudar com trinta pares de beijos.

A avó Chica foi a primeira a partir, num dia muito quente de junho, e quase na véspera de eu cumprir quinze anos. Por a escada ser em L, o seu “sono” teve de cruzar a janela dos cravos.

A avó Dade, que ainda transportei muitas vezes no meu carro, mas que detestava autoestradas por não conseguir ver gente nem casas, foi a última a partir, e em plena coerência com a sua profecia de que o mundo acabaria na era dos três noves: fê-lo no último dia do ano de 1998.

Mas os quatros avós respiram em mim, e continuarão a fazê-lo, por entre esta simplicidade que é o melhor fermento do ser.

Os avós são os nossos pais tranquilos, sendo a garantia da essência doce que o sol promete em cada amanhecer. São uma inspiração, o mote dos melhores dias e o colo que permanece, cruzando connosco qualquer idade.

Algures numa manhã de inverno acompanhei o avô Joaquim, com um rancho de mulheres, à apanha da azeitona. Com a sua arte e após varejar as árvores, vi-o atirar ao vento a mistura de folhas e frutos.

Por serem mais leves, as folhas pousavam num espaço intermédio, e as azeitonas voavam para mais longe, predispondo-se aos enormes sacos que as levariam ao lagar, para mais cedo ou mais tarde brilharem nas candeias.

Fica a meia vida o frágil e o quase nada, e para longe, connosco, voam os avós, sempre, naquilo que mais importa: os beijos e os frutos de onde se reinventa a luz

domingo, 18 de julho de 2021

Os nossos longos dias que buscam as cerejas


Os longos dias frios da neve só ganharão sentido nas manhãs em que, finalmente, trincarmos as cerejas maduras, porque só a última sílaba poderá desvendar a perfeição e o açúcar de uma rima.

Na história de cada um existem parágrafos em que a Terra dorme à espera de que cheguemos nós, os seus príncipes e cavaleiros, para a resgatarmos do sono e do pesadelo, no benefício de um beijo intenso e completo, daqueles capazes de dissipar todas as dores e os silêncios de milénios.

Sem punhais ou pistolas, e com nada mais do que uma alma lavada que se busca inteira e se faz maior.

Responder ao ímpeto dos sonhos, tornando-nos maiores, jamais será um ato egoísta, se de amor se vive, porque quanto mais for um, muito mais seremos todos.

E pelo contrário, desperdiçarmo-nos um a um, lentamente e sem brio, seria morrermos todos.  

Far-se-á, quiçá, demasiado longa a estrada, com os pés gelados envoltos nos flocos brancos de um novembro triste, mas a sorte, que assim usamos chamar às cerejas, devolve-nos sempre aos passos certeiros das promessas feitas à sombra dos ulmeiros, nas horas em que os dedos vagueavam pelas cordas das violas, por nada mais do que apenas breves canções.

Quando o cabelo ainda não cedera o tom às cãs, e o olhar fazia rimas com o sol, encarando-o com o despudor dos nossos poucos anos.

A fé, ainda que por entre a dor de qualquer primavera que pareça tardar, cumprirá sempre a essência da semente boa que nos percorre o peito varrida pelo sangue em brasa.

Os amigos trarão a fanfarra dos abraços, e as claras fontes de água fresca, enquanto o céu voa, brincando com as asas dos melros.

E a Terra ressuscitará, fértil, sob os nossos pés devolvidos à esperança… porque não existe quem nasça para não ser feliz.

sábado, 10 de julho de 2021

Morrer seria ficarmos longe

Sou um príncipe a vaguear descalço por um bosque de silêncio, tomando das horas, todas as bagas nascidas do tanto que fomos e que somos juntos. E sinto ainda, muito vivo, ao meu redor, o eco das palavras todas, tantas, que trocávamos. Bebo-o sofregamente, e de um trago, porque é de água fresca que se trata, e a saudade é esta dor de um dia a arder…

Guardei para mim o ruído da porta a abrir-se por entre o tilintar das chaves que guardavas no bolso, e ainda espero por ele quando o sol se entorna para oeste e se aproxima a hora do jantar.

Perante uma novidade, ou algo bom que me aconteça, ainda penso que terei de a partilhar contigo. Por brevíssimas frações de segundo, num carrossel do pensamento que depois, rapidamente, deixa que a razão se lhe sobreponha.

Bendito o pensamento que me faz a vontade, e não te deixa “abalar”.

Um ano de ausência dos nossos beijos.

E mesmo sabendo que a fé me puxa o olhar para o Céu, visito-te no túmulo, e acaricio com flores frescas, essa terra tão nossa e sagrada, o chão do barro que guarda a pele desses momentos únicos onde o amor tantas vezes se disse.

Aqui, entre as muralhas de Vila Viçosa, e a sentir o manto da Senhora da Conceição a esvoaçar, afagando-me a alma e o olhar, este é o templo privado onde o universo e Deus, por ti, me abraçam, e onde vou aprendendo que nada é ridículo, se por aí se preserva e diz o amor.

E a palavra pai, ganhou neste afago de eternidade, incensos e alturas de oração.

Também tenho as memórias.

Guardei-as todas, revisito-as, limpo-as, dou-lhes brilho, e até resolvi anotá-las, não vá o tempo subtrair-me os olhares, as lições, as histórias, as graças, as piadas, e também os nossos dias menos bons.

É verdade, confesso, que também revisito diariamente o teu último respirar, o teu rosto sereno a atravessar comigo a noite mais triste que passei, revisito o ruído da terra a ferir a manhã de sábado, caindo sobre as tábuas do teu caixão, mas tão só para confirmar que a morte não existe.

Morrer seria ficarmos longe, e nós estamos aqui, os dois.

Estaremos sempre.