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A lição do medo

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A foto acima recorda-me a tarde do dia 30 de Agosto de 1998, na primeira vez em que subi às torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Guardei a foto e com ela o bilhete de 12 dólares que me possibilitou o acesso ao “topo do mundo” para ver de forma privilegiada a ilha de Manhattan, coração desta cidade que nunca dorme e que é definitivamente a cidade do mundo de que mais gosto. Um dia há não muitos anos, numa candidatura de Nova Iorque à organização de uns Jogos Olímpicos, o lema escolhido foi o mais verdadeiro possível: “Nova Iorque – A cidade que é a segunda casa para toda a gente”. Tenho dificuldade em enunciar os motivos pelos quais gosto de Nova Iorque. É sempre assim quando tentamos justificar pela razão o que é eleito pelo coração. Mas talvez o principal motivo seja o conforto que a cidade oferece a todos, fazendo com que as múltiplas culturas, religiões ou etnias não possam ser designadas por diferenças, sendo apenas e só, cores diferentes num painel perfeito e il...

Eficiência à Portuguesa

São 10 horas e 30 minutos e eu chego à Estação dos CTT do Cacém para levantar uma encomenda. Dirijo-me à máquina fornecedora de senhas, escolho a categoria de atendimento geral e recebo a dita com o número 94. Apercebo-me então, vendo um quadro electrónico que apita a cada mudança de número, que o último cliente a ser chamado para o atendimento geral foi o da senha 74 e compreendo então o motivo pelo qual a sala está tão repleta de gente. Procuro um local que me permita ver o dito quadro que passa os números e não impeça a visão dos meus companheiros de sala, e inicio a minha espera. A estação tem 8 balcões mas só 3 estão em funcionamento beneficiando da presença de uma funcionária. A mudança dos números, sinal de mais um cliente que vai sair porta fora, é sempre antecedida pelo soar de um carimbo, que é batido com tal vigor, que mais parece o rebentamento de uma bazuca em cenário de guerra. Só que é longo o tempo de espera entre cada conjunto formado pela “carimbadela violenta” e ...

Abaixo o hambúrguer. Viva a bifana!

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Engana-se redondamente quem alguma vez pense ou afirme que os Portugueses são destituídos de imaginação. Na recente vertigem para encontrar formas extra de financiamento para o estado, têm surgido as propostas mais variadas e imaginativas, entre as quais a do célebre imposto sobre a “fast food”. A ideia seria taxar a comida rápida com um imposto adicional que não só ajudaria o estado a obter mais receita, como também funcionaria como incentivo à procura de alimentos mais saudáveis e indutores de mais saúde e melhor qualidade de vida. Embora reconheça que ambos os objectivos são legítimos, financiamento e melhor saúde, não estou minimamente de acordo com esta medida. Em primeiro lugar, discordo porque a grande maioria das pessoas que recorre a este tipo de alimentação, quando o faz, não é apenas por prazer e pura opção, fá-lo por este ser o tipo de comida que melhor se enquadra ao seu estilo e ritmo de vida, onde o tempo é um bem cada vez mais escasso. Depois, numa altura em que as...

O Rei Mono e o Senhor Sempre-em-pé

No cardápio de políticos da nossa terra, confesso-vos que há dois nomes pelos quais não nutro a menor das simpatias e a quem jamais daria o meu voto em qualquer eleição: Jardim e Santana. Na forma, no conteúdo, no percurso e no estilo, estão ambos nos antípodas do que eu considero um estadista, não lhe reconhecendo perfil e mérito para poderem gerir ou liderar alguma causa ou instituição. O primeiro é o populismo na sua máxima expressão em terras lusitanas. Com túneis, pontes, auto-estradas e muita verborreia, tem ao longo de anos disfarçado uma gestão que sobrevive à custa de um anormal suporte financeiro dado pelo poder central, sempre com a desculpa de se estar a ajudar à inclusão de uma região periférica, o mesmo poder central com o qual Jardim luta todos os dias, fazendo-o papão e desgraça, numa vergonhosa atitude de quem despreza a mão que lhe dá de comer. Não tenho nada contra apoios extraordinários e acho que a insularidade deve merecer uma atenção especial por quem está no...

Um eléctrico chamado Lisboa

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Apesar de hoje percorrer a distância entre Vila Viçosa e Lisboa pela Auto-estrada A6 em pouco menos de 2 horas, jamais me esquecerei das minhas primeiras viagens a Lisboa, feitas de comboio e que duravam cerca de 6 horas. Na parte final destas viagens, tinha o privilégio de entrar em Lisboa pela sua porta maior, o Tejo, fazendo a travessia desde o Barreiro até ao Terreiro do Paço, mais propriamente até à estação de Sul e Sueste. Pelo facto dos meus tios viverem na Ajuda, chegados ao Terreiro do Paço, apanhávamos o eléctrico 18 e aí seguíamos nós passando por S. Paulo, Santos, pelo Calvário, Alcântara e Santo Amaro. Sempre apreciei estas viagens e apesar dos autocarros de dois andares também serem uma tentação para um rapazito Calipolense chegado à cidade, os eléctricos foram sempre o meu meio de locomoção preferido em Lisboa. Os populares “amarelos da Carris”, de bilhete e acesso mais económico, predispuseram-se desde sempre a receber a gente do povo mais genuíno de Lisboa, e, sent...

O vulcão que não se apaga

Quando entrei no ano de 2011, fi-lo na companhia de um grupo de amigos no qual se encontrava o meu amigo Rogério. De taça de espumante na mão, a vermos ao longe a imponência iluminada do Mosteiro da Batalha, e quando as aldeias em volta se entretinham numa disputa de cor e estrondo pelo melhor fogo de artificio, brindámos ao novo ano e fizemos votos de prosperidade e dias bons. Nessa noite, como aliás em todas as outras noites e dias em que estivemos juntos, o Rogério, sempre o mais velho do grupo, para além de cozinheiro-mestre, foi o indutor da boa disposição, o mote para nos rirmos e sentirmos felizes. O seu invejável sentido de humor associado a uma inteligência e perspicácia superiores, fizeram com que nem eu, nem ninguém acredito, tenha estado alguma vez com o Rogério sem ter a oportunidade de dar das melhores e das mais sentidas gargalhadas da sua vida. O Rogério nasceu para ser antídoto do silêncio e da tristeza. O olhar do Rogério, o seu ar tranquilo, o seu falar a sério ...

Bica, pastel de nata, imperial, bom peixe e descontrolo orçamental.

Sempre encarei o regresso de férias com um sentimento misto de lamento pelo fim das ditas e pelo fim dos dias bons de descanso em sítios diferentes dos do meu dia-a-dia, e também de conforto por dar resposta à vontade de voltar que a bendita saudade lusa sempre provoca em nós. Abrir a janela pela manhã e ver o azul do Atlântico, sair de casa e sentir o nosso calor de verão, comer um simples peixe grelhado acompanhado de batatas e legumes temperados com azeite e vinagre, comer uma açorda de coentros acompanhada por uma posta de pescada e um ovo cozido, tomar um café dos nossos, e, quando podia e não era diabético, acompanhar o café com um valente pastel de nata, essa verdadeira maravilha da doçaria cá do burgo, que não tem igual por esse mundo fora, tratar a cerveja por imperial e acompanhá-la de um prato de tremoços, comprar “A Bola” e saber as últimas notícias do Benfica, poder falar ao telefone com os amigos sem estar preocupado com o maldito “roaming” e as suas taxas elevadas, cons...