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As coordenadas da incompetência

A Senhora D. Merkel, Angela para os amigos, que por certo serão muito poucos, teve dificuldade em assinalar num mapa, a localização da cidade de Berlim, indicando um ponto no território da Rússia, como sendo, em seu douto entender, o sítio onde está implantada a capital da Alemanha, local onde supostamente, e por ser Chanceler, habita. Má vontade colocar esta gafe da senhora no YouTube. Uma pessoa não pode saber tudo, e quem se dedicou a estudar afincadamente a solução para todos os males da humanidade, e quem se dedica à nobre cruzada para salvar o Euro, não pode ter tido tempo para aprender geografia, mesmo a mais básica e doméstica. E depois, vejam poesia neste gesto: - Onde está Deus? - Está em todo o lado. - Onde está Berlim? - Está onde está Deus. Berlim está em todo o lado e dentro de cada um de nós há um Berlinense. O que pode acontecer é que estejamos do lado errado do muro, mas que Berlim nos acompanha sempre, ai lá isso acompanha. Perguntem aos Gregos se não sentem ...

Ich bin ein Berliner

O avião atrasou-se à saída de Frankfurt mas ainda consigo chegar e ver Berlim com uma réstia de sol. Por aqui, a primavera parece ter-se rendido ao verão, e o tempo está fantástico. O táxi avança pelos bosques verdes e de repente atira-me com o olhar para a nova cidade: o edifício da Filarmónica de Berlim, Potsdamer Platz… O meu hotel é por aqui e eu não resisto a sair para passear um pouco, afogar o cansaço numa cerveja e aproveitar para comer algo, quiçá uma salsicha. No meu percurso de não mais de duzentos metros para a Potsdamer Platz, cruzo obrigatoriamente a linha que assinala no chão o local onde antes se encontrava o muro que separava a cidade, e faço-o no sentido da República Democrática para a República Federal da Alemanha. Apesar de ter tido antes o privilégio de o ter feito em múltiplas ocasiões, não consigo hoje mais uma vez, camuflar a emoção deste pequeno passo que há pouco mais de vinte anos era perfeitamente impossível. É um passo oferecido pela liberdade, e dou g...

Gargalhadas de vida

Sempre esse maldito i-phone colado ao teu ouvido, até parece que já nasceu aí. Gosto quando o desligas e te sentas aqui comigo na esplanada para tomar um café. Falamos da vida, falamos de nós sem nos pormos rótulos e sem camuflagens gozando desse prazer supremo que é poder ser nós mesmos e saborear a liberdade e a verdade. Partilhamos as viagens. Tu não paras e o mundo para ti já é demasiado pequeno, tantas vezes o sobrevoas. Recomendas-me o hotel de Berlim, os restaurantes de Amesterdão. Falamos da Espanha que nos encanta, das Tapas, da Mónica Naranjo, de Almodovar, da Chueca… Falamos dos finais de ano em Time Square. E trabalhamos muito. Com o Esteves, a Cristina, a Alexandra, a Margarida… Adoramos o que fazemos e estamos focados no êxito porque não somos feitos da raça de perder. Combinamos as tácticas, os projectos e metemos mãos à obra sem medo e sem perder tempo. Da nossa energia sabemos que nascerá o sucesso do sul, do Alentejo que é meu por berço e teu por adopção. E é no...

O historiador, o amnésico e a culpa solteirona

Em Portugal, o desemprego atinge números elevados e nunca vistos anteriormente. Por não terem emprego nem o vislumbrarem no futuro, só no primeiro trimestre deste ano, mais de cinquenta mil jovens abandonaram o país. Por estas duas notícias me terem acompanhado hoje ao pequeno-almoço, permiti que o debate parlamentar de hoje sobre economia e emprego me entrasse pelo tempo de almoço, tendo-me dedicado a escutar a troca de argumentos entre o actual governo e a bancada da oposição composta por aqueles que há um ano eram governo. O circo da miséria e da falta de vergonha e pudor. O vazio de ideias que nos mata definitivamente o futuro. Em Portugal, os políticos são actores que alternam ciclicamente entre dois papéis: o governo e a oposição. São sempre os mesmos, só mudam os papéis e claro, o sítio onde se sentam no hemiciclo. Ao vestirem a pele de governo, os políticos transformam-se em especialistas de história, invocando-a sem tréguas para explicar um presente que é sistematicamen...

Lusitanos

Estar só e calado à mesa de um café em Zurique, depois de ter pedido um capuccino, em Inglês, não colocou quaisquer entraves ou inibições, ao diálogo que um casal de Portugueses mantém na mesa ao lado da minha. Vejo-os pelo canto do olho, discretamente, estarão na casa dos cinquenta, ele ao estilo Mister Restaurador Olex 2012 e ela de cabelo armado e ao jeito muito próprio e eterno da D. Madalena Iglésias, mas num louro tal que aparecido em Fátima daria impressão de novo milagre do sol. Ele e ela, falam de amores, e eu não posso fugir ao incómodo por estar a escutar. Mas o capuccino está quentíssimo. Volto a olhar para eles. Pela conversa tive por momentos a impressão de que se trataria do Tony Carreira e da Ágata, em parceria artística e partilha de letras de canções. Amor, ciúme, traição, o picante do ilícito… O Português é romântico e eu já poupei uma ida ao Pavilhão Atlântico. Pimba. Regresso a Portugal e talvez mais movido pela curiosidade estilo visita ao Ground Zero de N...

Totus Tuus

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Faz hoje precisamente 30 anos que o Papa João Paulo II visitou Vila Viçosa. Etapa da sua visita a Portugal, um ano após o atentado na Praça de S. Pedro, em Roma, foi à sombra do “Pomar das Laranjeiras” que o Papa falou aos trabalhadores da terra durante uma Celebração da Palavra. Viviam-se ainda primaveras e verões mornos no período pós - Reforma Agrária. Desde essa manhã de sol de Maio que Vila Viçosa passou a ser a única localidade do continente Português,a sul do Tejo, que foi visitada por um Papa, sendo a “nossa” Igreja dos Agostinhos, o único templo que no mesmo território, mereceu a singularidade da visita da figura máxima da Igreja Católica. Foi um dia que ficou na história de Vila Viçosa e muito particularmente na história de cada um de nós. Tínhamos começado cedo a preparar a visita, e sem dificuldade pois há séculos que nós Calipolenses, nos habituámos a receber visitantes ilustres. Colocámos colchas em todas as janelas, brancas e amarelas, as cores do Vaticano na Aven...

A laranja nº 200

Esta é a 200ª laranja produzida neste Pomar e por isso quero torná-la especial. Sumarenta e mais doce que todas as demais, produzo-a directamente para todos vós, os meus queridos amigos, agradecendo por ela e com ela, a vossa amizade, companhia e presença que deu sentido a estes dois anos feitos de partilha, de comentários, escritos ou não, de palavras mais ou menos envergonhadas, dois anos de sentimentos expressos por lágrimas, saudade e risos, dois anos cheios de muitos e bons incentivos e de algumas e legítimas críticas. Será sempre a diversidade a alimentar e a garantir a riqueza da humanidade. Dois anos em que consegui o que mais queria: estar junto de vós, alimentar os meus dias da vossa amizade e reforçar os elos fortes que a vida, de forma privilegiada, nos ofereceu para que nos mantivéssemos unidos. Só pela vossa amizade foi possível manter e reforçar as memórias, não deixar morrer a história, da terra, dos nossos e de todos nós, foi possível pensar e repensar o presente, s...