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Crescer nunca dói para quem tem amigos como tu

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As pedras do imenso passeio em frente ao Café Framar conhecem-nos os passos desde o tempo em que os embrulhávamos no riso farto das nossas longas tardes de brincar, quando as sirenes das oficinas de para lá de São Bartolomeu nos apanhavam a tatuar cumplicidades sob o cheiro intenso das laranjeiras da Praça. “Um, dois, três, macaquinho do Chinês”… Sim, nós não conseguimos estar quietos nem por um segundo. Talvez só quando a tua mãe nos chame para partilharmos uma torrada e um fresco Sumol de Laranja que fomos buscar ao Café do teu pai, aquele estabelecimento que nunca cumprirá a tua vontade de se chamar “Café Pinguim”. Mas conseguirás ter um cão. E o que terá em comum a gaveta da direita do roupeiro do meu quarto de agora com o passeio em frente ao Framar? Em palavras escritas nas longas cartas que trocávamos entre Portalegre e Lisboa nos tempos de Faculdade, a cumplicidade e o riso que persistem em infinitas histórias e no eterno non-sense. “Imensa paprikaaaaa”… O t...

Quando rasgamos a noite e a morte…

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Por mais intensa que seja a noite e o silêncio imposto ao toque dos sinos, jamais os pardais da árvore que me beija o parapeito, deixarão de me despertar com o seu canto desde o primeiro indício da madrugada. E por inspiração desse tom de liberdade me reinvento, que de aleluias o sol tinge a sina de todos os meus dias. Os lábios que sufocam irremediavelmente as palavras nos beijos de amor, as mãos que galgam o pudor para se entregarem às carícias, os pés que cumprem as vontades, os meus braços… e a alma que é pão e alento de toda esta festa; nada daquilo que somos poderá ter como destino o gélido sentido de um túmulo de pedra. Nós somos das manhãs e da fé que abandona os sepulcros e os deixa vazios sob as rosas que tecemos em rima com o canto e o voo dos pássaros. Nós somos da malta de sorrir. Quando rasgamos a noite e a morte… Sempre que nos reinventamos e ressuscitamos no alvor da Páscoa de Jesus, aleluia da Terra. (Nesta Páscoa, o meu sobrinho Luís ofereceu-me es...

O Homem de Jerusalém

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As ruas de Jerusalém têm a dimensão do universo inteiro, e as pedras soltas que salpicam de dor a aridez do meu caminho trazem-me aos pés descalços, os ais de tantos Homens esmagados contra as fronteiras desenhadas pelo poder e pela vaidade. Sortearam-me as vestes e o tempo, e sobre a nudez dos meus ombros açoitados pela injustiça, o madeiro imenso que absorve o sangue que escorre, enraizou nas obscuras florestas da opressão, da fome, da soberba, da desonestidade, do terrorismo, da violência, da pedofilia, da desigualdade, da homofobia… E só às vezes se cruza comigo a disponibilidade de um Cireneu. A água que se perdeu por entre as mãos dos Senhores do Mundo durante a esforçada e inútil lavagem da sua hipocrisia, incompetência e perversa ambição, é aquela pela qual clamam os meus lábios ressequidos e onde apenas acode o acre odor do desprezo que herdou do vinagre um gosto assim.       Escuto muito próximo, o choro das mulheres que acorreram à minha dor, as di...

Poesia

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O vento, irreverente, livre… tatuou o céu; e os desenhos de água alinham-se em rima com as palavras com que o teu olhar me reveste o pensamento enquanto eu vou cavalgando pela tarde. Esta espera fértil a que usam chamar esperança. O teu olhar que espreita por todas as esquinas simétricas ou assimétricas do tempo e da cidade. E são assim de água as sombras que me oferecem cais seguro enquanto te aguardo na Ribeira das Naus com o olhar fixo no horizonte… Talvez o mar aceite esta troca: eu entrego-lhe generoso o sol e ele faz-te chegar até aqui cruzando o Bugio. A barba vai aclarando ao ritmo do sal que escorre pela saudade que é imensa mas insuficiente para desalinhar-me a fé, até que tu chegas finalmente para deixares de ser apenas a minha espera. O sol deixou a sua cor impressa na água que tinge o céu. Água do Tejo e de Lisboa. E as palavras que fluem agora incansáveis dos beijos vêm arrumadas em versos de uma forma indefinida. Entre a água, a cidade, a espera, a ...

Pai

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O teu amor retira o sentido profano de todos os gestos e todas as palavras, e reveste-os do tom sublime e sagrado do melhor que têm os dias. Há um leito de pétalas de rosas tecido sob o teu olhar, o chão informal onde me enleio na Idade abraçando aquele tempo imortal de ser rapaz. E tudo volta sempre a ser possível, os horizontes sucumbem aos sonhos, e as vontades têm asas acendidas pela coragem que me ensinas... -Tu és capaz. Hoje, quando nos sentamos a enfeitar com sidra e “ervilhanas” os pores-do-sol de Verão do Gerês, como antes nas Segundas-feiras de Páscoa a jogar à bola sob os pinheiros mais sombrios do Castelo de Vila Viçosa. O tempo… O que é o tempo, se o amor nos reveste de eternidade?

Tudo aquilo que muito se espera e se deseja beneficia de tempo para se ir moldando a nós e tornar-se eterno...

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Despojamo-nos da prudência… Será descalços que deveremos atravessar todos os dias, sentindo o tempo na pele e marcando-o simultaneamente com os genéticos aromas infinitos que transpiramos. A História tatuando-nos de rugas e nós retribuindo, reescrevendo-a pela tinta da ousadia e pela coerência. Mais à frente, naquele ponto onde a estrada desenha uma curva que nos alimenta o futuro de uma doce expectativa, encontro-te num abraço sem prazo de validade e sem fronteiras. Onde acaba um e começa o outro? Jamais saberemos. Nem nós e nem quem nos espreite de fora, quer de longe ou de mais perto; porque é como se tudo em nós seguisse respeitosa e cegamente a vontade expressa pela alma que tinge o pensamento. Depois, quando o tempo bordeja um lago de águas calmas e que o céu tingiu de azul, o reflexo que desenhamos tem a força doce de uma romã a arrastar o rubor do Verão pelo Outono adentro. Sabemos nós que no interior deste abraço moram os beijos. Os beijos imprudentes e tam...

Há quem afirme que a esperança é a última a morrer...

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Há quem afirme que a esperança é a última a morrer, mas não é verdade porque ela é efectivamente eterna. Esta falsa e comum suposição resulta apenas do facto de nada ou ninguém lhe ganhar em força e idade, admitindo-se que depois de tudo e de todos… ela também sucumbirá algures pelo apocalipse. É da alma a esperança que entorno para os meus passos quando eles desenham uma rota sobre as pedras de todas as ruas, e até das vielas mais estreitas, rasgando a noite com um detalhe de luz que mimetiza o gesto generoso do luar. A alma que é minha, mas que é igualmente tua, por ser lá que tu vives sentado desenhando a esperança, sossegado à beira de um rio que corre tranquilo e sem soluçar. E sem nunca fazeres uma pausa, sem teres a mínima noção do tempo e nem da idade. Foi aliás pelo facto de não te imaginar a terminar de viver assim em mim, que cheguei à conclusão de que a esperança goza do poder da eternidade.