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Crescer sem “matar” a Cinderela…

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A Maria (chamemos-lhe assim) era minha companheira na Escola Primária de Vila Viçosa, e acreditava que os reis e as rainhas eram seres tão especiais que nem tinham de urinar ou defecar. Sempre que a contrariávamos, chamando à liça as grandes panelas de cobre existentes na cozinha do Paço, e o óbvio prenúncio da imensa quantidade de comida ingerida pelas reais criaturas, e que seria objeto de um processo digestivo, ela defendia-se dizendo que ao visitar o famoso Paço tinha visto todos os humanos e normais recantos, à exceção de casas de banho. Estávamos no início dos anos setenta, tínhamos seis ou sete anos, e era tão fácil acreditar nas lendas e nas histórias que os avós nos contavam ao serão, e que, despudoradamente nos treinavam na arte de misturar a realidade com a mais inusitada ficção. Nesse tempo desconhecíamos o impossível, e ainda nem sequer desconfiávamos das dores implícitas ao crescimento. Talvez só ali pelos catorze anos, nos tenhamos começado a aperceber de tal....

As viagens e as manhãs com flores…

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Das manhãs como esta, com sol e o oceano ao fundo, colho braçadas de flores que coloco junto ao peito, quando me encosto assim, ao parapeito, bebendo sumo de laranja e comendo um pedaço de pão com queijo. Depois faço-me à estrada com o destino marcado no GPS, e, na lembrança e na voz, uma música qualquer que guardei de outras “viagens”. Hoje rumo a norte, e quilómetro a quilómetro, e rio a rio, vou-me relendo aos poucos em tudo aquilo que o coração vai debitando no pensamento. Paro numa Área de Serviço para tomar um café, e reparo que chegou uma notícia ao meu telefone, confirmando a imprevisibilidade dos dias. Não há viagens nem caminhos iguais, mesmo que os pórticos das portagens possam ser os mesmos. Agora acodem-me ao pensamento as tardes de Vila Viçosa, os meus amigos, as empadas de galinha da D. Cesaltina e o capilé que ajudava a repor forças entre as brincadeiras na travessa do Belhuca ou no passeio largo em frente ao café do Sr. Cândido. Ainda bem que todos os dia...

“Cheirando a feno casado com hortelã”…

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Há muito de Ary no instante em que piso a plateia da Altice Arena para assistir à primeira Eurovisão de Portugal: “cheirando a feno casado com hortelã”. É o campo do qual sempre serei pertença, e eu, o menino que jamais deixarei que se apague em mim, “com um ribeiro à cintura”, tal qual a menina de 1971, porque o género pouco importa nestas coisas de sonhar, Faço questão de abrir os braços, não só porque o momento me parece enorme para o agarrar, mas porque preciso de reservar espaço para que caibamos todos. Hoje, diretamente do celeiro do Senhor Domingos, em Vila Viçosa, e trinta e oito anos depois de termos acreditado que o Cid venceria em Haia, aqui estou com todos os amigos, mesmo que de todos, só cá esteja eu. É preciso "amar pelos dois", três, quatro... A partilha dos sonhos cria os amigos eternos. “Corram descalços rente ao cais, abram abraços”, e eu cumpro essa vontade da Madrugada de 1974 cantada em 1975. Quem corre descalço, assim, de medos e de pre...

A minha mãe...

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No tempo em que me levavas pela mão até à missa das seis da tarde em São Bartolomeu, aos domingos, depois de termos preparado, juntos, um pudim Mandarim para o jantar, eu chamava por ti, às vezes, a meio da noite, para que viesses ajeitar-me a cama, porque ela estava enxovalhada. - Mãe! Ainda hoje, nos dias e nas noites “amarrotadas”, eu continuo a chamar por ti, e da mesma forma: como quem reza. Porquê? Porque o teu abraço me veste o céu. Continuamos a ir juntos à missa, mas agora sou eu quem te dá o braço, sentindo que, apesar de ter mais vinte e quatro centímetros de altura, jamais te acharei pequena. Pelo contrário, vejo-te gigante, e imagina tu, que, muitas vezes, quando caminhamos assim, penso que todo o melhor de mim são coisas que me deste. O demais, a pobreza onde essa excelência se dilui e às vezes se perde, são coisas que eu inventei. Mãe, também não me lembro, se alguma vez te disse que tu és a minha casa, que és o amor que não se cala mas onde o silênci...

A esquina entre Abril e Maio…

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Na esquina onde o tempo se despede de Abril, clamando por Maio, a água que o céu chorou emocionado pelas suas paixões, que são muito mais de mil, inspirará a terra para inventar as flores, naturalmente, sem presunção e sem ensaio. Abril ama a liberdade, que deixou no canto, na voz, nas mãos entrelaçadas, e até num cravo encarnado; e Maio tomará desse amor, o gesto, o gosto e a cor, perfumando os morangos e as cerejas, porque como é fácil de entender, a liberdade alimenta-nos, sendo, por isso, coisa doce para se comer. Abril calou o Homem velho, reinventando-o numa manhã de Páscoa e ressurreição, esperando que Maio, assim como todos os outros meses, não o devolvam aos túmulos bafientos, por entre um inusitado “deja vu” e a maior deceção. Na mesma esquina onde o tempo agora se despede de Abril, também um dia se despedirá de Maio, quando ele já estiver maduro. O tempo é assim, tem esquinas, para que nunca o aceitemos como inevitável, e possamos ajustá-lo a nós, moldando o futur...

Enquanto espero que Abril floresça…

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Há muito poucos dias entrei no Panteão Nacional. Parei o carro no Campo de Santa Clara, andei entre tuk-tuks , tomei a bica num café dinamarquês, e esperei depois na fila, calmamente, para poder comprar o bilhete. Os estrangeiros buscam a varanda e o Tejo, muito mais do que qualquer memória dos lusos heróis, e por isso, caminhei sozinho entre os túmulos “daqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Sophia repousa em frente de Eusébio, e ali no meio, eu estou entre o sagrado repouso das mãos que ofereceram letra à maior e melhor poesia da alma, e os pés, que em gestos aparentemente simples e banais, semearam gritos de festa e orgulho na alma de um povo que forçavam a ser pobre e triste. A semana arrasta-se entre tormentos e azias, navegando entre os únicos cabos que restam, os das vassouras e dos trabalhos, em caravelas atafulhadas de influências para cumprirem a vaidade. A guerra é o desfecho natural da entronização da imbecilidade, e é aroma da in...

Os dias que nascem a preto e branco, só muito raramente morrem sem qualquer cor…

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Por mais que insistam despejar chuva sobre os dias da primavera que sonhámos, nós estaremos sempre tranquilos e felizes, não só por sabermos nadar, mas também porque os beijos são insolúveis na água, tal qual no tempo. Gosto e não temo os dias que nascem a preto e branco, porque, vencendo aquele possível desconforto inicial, são afinal uma suprema oportunidade de pintar a vida com todas as cores que eu quero e me pede a alma. Para um assomo de paixão, peço emprestado, por momentos, o vermelho a um morango, convoco um pássaro para rasgar uma nuvem e me trazer uma nesga azul, do melhor céu, e com o pigmento amarelo de um qualquer malmequer do campo, consigo arranjar um tom muito honesto e que não envergonhe o sol. Multiplico por milhões a folha verde que pedi ao limoeiro, e teço facilmente, um viçoso relvado sobre o cansaço cinzento de uma muito previsível estrada de alcatrão. Depois de tudo isto, de que sou capaz, deito-me a descansar, recostado sobre um tufo de palha que ...