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O Homem é um coração…

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O Homem é um coração, e tudo o mais é cor para animar a festa de estarmos juntos, sabendo que quanto maior a diversidade, melhor e maior será a festa. Existiu um tempo em que acreditei que esta lição estava aprendida: vi a gente saltar sobre os restos do muro de Berlim, comovi-me num domingo à tarde, quando Nelson Mandela saiu da prisão, ouvi e bebi as palavras roucas de Sousa Tavares numa esquina do Carmo, agarrado a um megafone, a falar de povo e liberdade. Mas hoje, pelo que se diz e pelo que se escreve, sendo reflexo daquilo que se pensa e que se sente... Será o tempo que insiste sempre em voltar para trás, ou seremos nós que estamos viciados no ódio e desprezamos as duras lições da dor? Parece que basta um clique, e logo acorremos a esgrimir argumentos que ferem como espadas, porque nunca nada se construirá sobre o ódio, ficando apenas o deserto da terra e dos corpos queimados. Desamarrem as palavras de Cristo e dos profetas de todas as religiões do universo, disp...

Breve manual para os dias de chuva

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Mesmo quando o dia insiste, e nos rouba o céu, nós pintamos as casas de azul ou de amarelo, garantindo que não nos faltará o sol. Dispensamos a serventia das portas e das janelas, porque nos livros empoeirados da biblioteca da memória, temos guardados milhões de avionetas e naves espaciais   que nos levam para longe, ou para mais perto, sem sair do sofá, mesmo quando a chuva parece querer distrair-nos soando forte no seu encontro com as vidraças. São livros editados e reeditados pelo tanto que já fomos, ou sebentas alinhadas à pressa, com o muito que queremos ser. Depois, talvez pousemos as palavras escritas, deixando no entanto, que os discos continuem a encher a sala com as músicas que trouxemos da história, às vezes presas apenas por um assobio. Eu serei sempre este recanto enfeitado de conchas e de alecrim, um detalhe situado entre tudo aquilo que já “li” e as palavras onde corre o meu sangue, rimas alinhadas nas letras das minhas novas canções. Mesmo quando o ...

Cinquenta anos...

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Ao contrário daquilo que alguns intelectuais da moda andam por aí a afirmar, não conheço nenhuma mulher que tenha ficado mais feia depois de cumprir cinquenta anos, muito pelo contrário, todas elas, tal qual os homens, ficam infinitamente mais bonitas. Poderia acontecer que esta minha constatação fosse de natureza filosófica, excluindo a componente física e mais visível do assunto, mas nem é o caso, até porque são ténues as fronteiras que carregamos connosco, e se é verdade que “quem vê caras não vê corações”, já o inverso não se verifica, porque quem vê corações consegue ver caras. E se os corações forem grandes, as caras serão invariavelmente bonitas. Concordo que os cinquenta anos trazem muitas mudanças, mas sempre de encontro ao melhor da vida. Permitam-me que enuncie algumas: 1. Já não damos tempo ao tempo, porque o tempo que temos nos faz imensa falta para o tanto que queremos navegar; 2. Se os salmonetes forem frescos e acabados de pescar, que importa se vêm embrulhados ...

O ar desenhado pelos pássaros...

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Só nos lembramos do ar quando algo ou alguém nos asfixia, interrompendo bruscamente o ato tão natural, e quase desapercebido, de respirar. No mesmo sentido, há gente que não se dá conta de estar a usufruir dos benefícios da liberdade, mesmo quando, pela sua inexplicável verborreia, atenta contra ela em nome da fantasmagórica autoridade do tempo em que os casacos dos homens eram todos, obrigatoriamente, a preto e branco. Também os amigos que se entretêm a pendurar palavras e gestos feios no fio de afeto que os une, só se darão conta daquilo que perderam quando essa linha ceder ao peso e se cortar, devolvendo a alma à solidão. Sempre que estou em Vila Viçosa a passar uns dias com os meus pais, como aconteceu neste período entre o Natal e o Ano Novo, eu sinto de forma muito marcada, que estou a usufruir do ar melhor do universo, e, sentados os três à conversa no serão junto à braseira, eu tenho uma claríssima noção do ouro valiosíssimo e escasso que impregnam esses instantes de...

A meia-noite e o tempo novo…

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Jamais declinarei a responsabilidade de fazer velho ou novo, qualquer tempo, endossando a fatura, passivamente, para o calendário. Aliás, parece-me que esta noção de tempo novo ou velho, segundo o relógio, só existe para alguém poder fazer negócio, comercializando uma espécie de carnaval, e muito “glamour”, algures entre Dezembro e Janeiro. Acredito que os vendedores de espumante e de cuecas azuis possam contribuir também, decisivamente, para a divulgação do conceito. O tempo não envelhece, nós é que deixamos apagar a esperança. O tempo não morre, nós é que nos demitimos de ressuscitar, acomodando-nos à luz fraca que mora nos sepulcros, numa traição impiedosa ao sol que nunca desiste de nos vir trazer a madrugada. A contagem do tempo feita pelo calendário é importante para efeitos fiscais, para nos caracterizar no Cartão de Cidadão, para cumprir ciclos eleitorais... Mas os anos, os dias e os minutos novos somos nós que os definimos pela convicção com que lhes oferec...

O Natal é um beijo

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Quando eu era rapaz o Pai Natal não existia, e na manhã de Natal, os avós e os tios chegavam cedo a nossa casa com um presente, anunciando vir trazer-nos o Menino Jesus. Até há muito pouco tempo eu acreditei que o Menino seria essa camisola ou esse par de meias embrulhado com algumas guloseimas, mas hoje sei que o Menino Jesus era afinal o beijo que nos davam por entre um abraço que desmentia o frio de dezembro. Porquê? Porque Jesus não é algo que se vista e que nos adorne, porque Jesus não será nunca um jogo ou um pretexto que nos distraia numa tarde de amigos, e porque Jesus não é o que se embrulha em papel escolhido a gosto e submetido ao gesto de cada um. Pelo contrário, Jesus é o amor, e o amor sente-se e partilha-se na verdade de um beijo. Para além disso, se a saudade é o filtro que despreza o acessório e retém apenas o que importa, dessas gélidas manhãs Calipolenses ficaram os beijos, como detalhes de um amor incondicional e único, que foi cimento daquilo que sou....

Três apontamentos que colhi deste advento…

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De tão intensa, esta dor, alguém jamais ousará dar-lhe um nome. À saída da missa de domingo, em Vila Viçosa, cruza-se comigo a mãe de um amigo que partiu há algum tempo. Traz no rosto aquele jeito de quem chora mesmo sem chorar, e na mão uma rosa branca do andor da Senhora da Conceição, que na véspera tinha saído em procissão. Entre o Céu e a Terra, ou mesmo só por aqui, todas as mães falam a linguagem das rosas, porque o amor supremo, tal qual a dor onde os seus beijos morrem, jamais conseguirá dizer-se.   Estou com um grupo de colegas no parque onde se insere a nossa empresa e vendemos livros para ajudar a associação Cais. Se interpelamos alguém dizendo que estamos em nome desta associação, pedindo uns segundos de atenção, uma em cada dez pessoas param para nos ouvir. Se optamos por dizer que somos colegas de uma das empresas do parque, e que estamos ali para ajudar a Cais, param em média seis pessoas em cada dez. Há uma surdez seletiva que elimina a m...