Mensagens

O vento forte nas pontes do sul…

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Desde Vila Viçosa, regresso a Lisboa ao fim da tarde de domingo de Páscoa, e nos placards da autoestrada, a mensagem é clara: “Precaução: vento forte”... Sempre acreditei que quando crescesse deixaria de gostar de brincar com o pôr-do-sol. Pensamos tantas coisas destas a nosso respeito, sem nos darmos conta de que elas são tão intrinsecamente da genética da alma, e não da idade ou do tempo, que subsistiriam mesmo que vivêssemos mil anos. Na sexta-feira santa andei a brincar com o pôr-do-sol ali para os lados do palácio, e segui a frontaria caiada da porta do nó, até ao portão do meu antigo liceu. Não encontrei ninguém, mas o espaço e as pedras das ruas têm o condão de guardar a fala, o riso e o choro da gente, e apesar de quase ser hora de enterro do Senhor, ressuscitei mil lembranças que guardei nos bolsos fundos da memória. Nós temos esse condão de cruzar a nossa genética com a genética das ruas, e por mais camadas de cal que imponham às paredes das casas, a nossa silhu...

O meu Deus...

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O meu Deus ressuscita, tal qual o canto das ribeiras numa tarde de chuva, sempre que eu ofereço ao tempo adverso, o meu rumo e os meus aromas, fazendo do inócuo silêncio, uma canção perfeita que me espelha na rima de cada verso. O meu Deus foge então dos sacrários e dos altares, para caminhar pelas ruas no peito da gente, espreitando pelo riso e pela esperança que são próprios de quem vive contente. O meu Deus trocou os mantos de veludo pelos gestos talhados pela vontade, trocou a sumptuosidade dos templos pelas vielas, rejeitou a hipocrisia, trocando-a pelos beijos de amor, que o são de verdade. O meu Deus passou pela cruz, mas é a alegria que se abraça num sepulcro vazio. O meu Deus, todos os dias, e não só nas manhãs de Páscoa, é a minha vida inteira a repousar num abraço onde não se sente o frio.  

Na aparência de estar só...

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Na aparência de estar só, o silêncio nunca é a casa de quem escreve. Há gente que canta, que conversa connosco durante muitas horas, há gente que grita, e até há gente que, preparada para tomar corpo de letra, ressuscita. Quando se escreve constroem-se novas moradas ou reabilita-se a antiga, sempre na coerência de um sonho qualquer que nos persiga, e quem escreve, mais do que manchas de tinta, tem pedaços de terra presos à mão: ele é um agricultor que se empenha em mondar os seus parágrafos, para que não persiste mais nada, para lá das palavras que possam ser pão. Quem escreve tem o privilégio de baralhar os dias, as horas, as estações... não sendo raro acordar em dezembro para uma manhã de verão, naquilo que poderá soar estranho para quem não souber decifrar a linguagem imprevista do coração. O escritor tem face de esquizofrénico, de mendigo, de travesti, de marinheiro, de inconsequente, de herói, de vagabundo... Mas que importância tem isso, se apenas o invisível e univ...

Estes dias sem botox…

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A meio de uma tarde de primavera, e vindo de norte para sul, cruzei no outro dia, o vale do rio Douro, comprovando pela milésima vez, que esta é uma das rugas mais extraordinárias com que o tempo marcou a face e a idade da Terra. Horas antes, tinha entrado numa igreja em Vila Real, e tinha-me deparado com a azáfama de duas senhoras que cobriam com panos, duas imagens de santos já colocadas nos andores. Correndo o risco de ferir a sensibilidade dos meus amigos mais ligados à teologia, permitam-me que vos confesse não ser particular apreciador do tempo da quaresma. Primeiro porque não gosto dos dias que nos afastam das flores, e depois, porque nunca será no deserto que alguém se poderá encontrar: eu sou aquilo que semeio no coração e na vida dos outros, sendo neles que me revejo e, de caminho, encontro a Deus. Para além de que esta coisa do silêncio e do ruído é tão relativa… A cruzar o Douro lembrei-me, inevitavelmente, de Torga e de São Leonardo de Galafura: “ É lentam...

O repouso das gaivotas e dos mestres…

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Há dias em que as gaivotas se oferecem ao repouso nas colunas do cais, só para que os Homens tenham para si, o rio inteiro, sem desculpas para não navegar. E nesses dias, os Homens celebram os seus mestres e a partilhada sabedoria, em cada gesto de aproveitar o vento, seguindo mais adiante, para onde o coração manda. Na tarde do último sábado estive cerca de duas horas à conversa com o meu querido Padre António Simões e o meu amigo Manuel Almas, na sala dos meus pais, em Vila Viçosa. As palavras dos mestres nunca envelhecem, mesmo quando o corpo possa exprimir algum cansaço, rendido ao inevitável tempo, e as palavras dos mestres, nunca deixando de ser sábias, são simples e pequenas, cabendo com muita facilidade neste espaço restrito que somos nós. Durante esta semana partiu para o Céu, o Senhor D. Maurilio de Gouveia, Arcebispo de Évora durante 26 anos, exatamente aqueles que cruzaram a minha juventude e a de muitos amigos. Às vezes descobrimos em nós, detalhes grandes...

As mãos do mesmo amor…

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Depois de algumas lições, acho que, finalmente, consegui ensinar o meu pai a fazer selfies com o mínimo de qualidade. Trazemos enraizado este hábito de apontarmos caminhos e sorrirmos para onde nos pede o coração e a vontade, agora, buscando o “buraquinho” da câmara fotográfica do i-Phone, como antes olhando o céu para sorrirmos juntos, e ao mesmo tempo, para o papagaio de papel que fizéramos de manhã para lançámos ao vento. Entre nós os dois, quem aponta o caminho a quem, muito pouco importa ou importará, porque as nossas mãos são do mesmo amor. E quem nos olhar de perto ou de longe, e nos vir como dois corpos separados, talvez não consiga intuir como respiramos a mesma eternidade, tão imune é o nosso amor ao tempo e a qualquer cansaço. O amor, sim, este sentimento de até permitir-se morrer se sentimos que a nossa essência é o ar que falta no peito do outro. Quando vamos os dois dar um passeio e eu lhe peço para fazermos uma selfie , vejo pelo sorriso que o meu pai p...

Uma estrada de terra...

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A vida é uma estrada de terra que é fiel a todos os mais pequenos contornos de um rio, e a gente que vive é aquela que caminha descalça, não se resguardando das pedras, das mágoas e das sensações. De um lado teremos sempre o sal como destino, e do outro, em planícies ou em socalcos, acode-nos o pão e o azeite. Às vezes, entre a poeira e o cansaço, deixamos de ver o sol, e decidimos sentar-nos numa pedra grande, quiçá cravejada de musgo, afundando o rosto nos braços cruzados, e olhando para nada mais do que apenas o pensamento. Como se pudéssemos encontrar-nos bem e bonitos dentro de uma casa para onde entrámos depois de apagar a luz e fechar todas as janelas? Com o sol por detrás, como quem não nos quer, se nos abeirarmos da água e nos fixarmos no reflexo, nós seremos sempre maiores do que alguma vez nos julgámos, e os nossos braços erguidos e em pose de guerreiro, acrescentarão força ao argumento da nossa história. Ilusão? Nem sempre conseguimos ver aquilo que nos abr...