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A personagem e a sua história…

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Até à última palavra do último parágrafo, a personagem poderá mudar a história. Quem pousa o livro, já cansado ou pronto para dormir, assinalando cuidadosamente a página que o devolverá ao enredo no dia seguinte, atribuirá, no uso da liberdade ou da criatividade, um desfecho que depois se irá ou não confirmar. Mas as personagens, principais ou não, terão sempre a última e decisiva palavra. Tudo isto se passa connosco no final de um dia triste, quando nos esquecemos que a manhã que sucede ao pranto poderá inverter o rumo da história, restituindo-nos o riso e o otimismo. A trama ainda não acabou, com a vantagem de o argumento depender, em grande parte, da ação do protagonista que cada um cumpre na sua própria história. E mesmo reconhecendo que muito do desfecho poderá estar na posse e no poder de outros, acreditar na força de nós mesmos, e do Sol, será meio caminho para podermos vencer, realinhando a história, por oferecermos forte resistência a qualquer triste fado. ...

Um ano novo e um lápis

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Na tarde do passado dia 24, e muito ansioso para saber se a noite de Natal lhe traria os presentes pedidos ao céu por e-mail, o meu sobrinho Luís, colado à janela, pediu à mãe que lhe desse um lápis para ele poder desenhar a lua, acelerando o tempo até ao momento que sonhava. Hoje, no início do ano de 2020 desejo que nunca vos falte uma janela, ou pelo menos, que tenhais a força para a poderem inventar em qualquer parede de betão, desejando, ao mesmo tempo, que a vida vos ofereça os lápis todos, e de todas as cores, para que possam, assim, ajudar a alinhar o tempo com a vossa vontade. De caminho, desenhem rosas sobre os silêncios e as saudades, aproveitem as linhas inóspitas do silêncio, alinhando-as ao jeito de uma pauta, e oferecendo-lhes as notas de uma boa canção, e, esmagando o coro perverso dos imbecis que dizem que o tempo morreu, desenhem gritos, beijos e afagos de todas as cores e de todas as formas, porque só num terreiro de fé e de liberdade, garantimos que ningu...

Natal de 2019

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Éramos rapazes e raparigas do Sul, mas sempre que chegava o Natal, não nos cansávamos de acariciar o Norte, buscando nessa face mais húmida das oliveiras, o musgo viçoso para o presépio. A par com as deixas da peça de teatro que ensaiáramos afincadamente, e que emocionaria os nossos pais, nada nos preocupava mais do que os verdes campos de uma Belém imaginada a partir das cores que a chuva de outono já plantara sobre a nossa terra, que por sinal até cumpre esse destino na sua graça: Vila Viçosa. E o presépio, assim como a peça, saía sempre bem, porque ao contrário daquilo que pensávamos então, mais importante do que tudo o que se vê, é o belo sentido do amor com que tudo se faz. Este ano, as nossas mãos, que antes tratavam o musgo por tu, acariciam a pequena chávena quente do café, quando no mesmo contexto de amigos, e na nossa terra, discutimos a colocação de uma caixa de madeira que permita eliminar dois degraus da casa dos meus pais, colocando-os em segurança perante as limita...

As quatro estações...

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Em modo de espera, o telefone do hospital deixa-me com as quatro estações, de Vivaldi. Poderia então ser transportado para o ano de 1996, e para um concerto, algures em Praga, numa igreja barroca onde todas as imagens pareciam ter sido tomadas por uma qualquer surpresa, com o seu ar de espanto a obrigar-nos a moderar o riso, não fosse ele perturbar a excelência da obra do músico veneziano. Mas não. A espera levou-me até ao início dos anos oitenta, e ao meu grupo de amigos, em Vila Viçosa. Chamávamo-nos “Sementes de Esperança” e organizávamos saraus onde líamos poemas de Jorge de Sena, e onde uma vez, para nos vestirmos de Outono, usámos uma velha saia de camilha de cor castanha. Descosemos um pedaço e o João Paulo enfiou por aí a cabeça, ficando com uma capa em tons de entre outubro e novembro. Vivaldi continua a soar desde o outro lado da linha... Viver é a arte de desenhar e construir as próprias estações, cumprindo o sonho, tantas vezes a partir de nada mais do q...

Estes dias de amoras maduras...

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Gosto destes dias que nos põem amoras maduras sobre a mesa, ao lado de um caderno aberto e com folhas brancas para escrever. Poderemos sempre dissertar sobre a memória da dor que as silvas nos impuseram aos braços, ou então inventarmos versos de amora em ponto de açúcar, ao jeito de compota reservada para os dias de chuva que aí vêm. Confesso que sou fã incondicional da segunda perspetiva. Em dois dias consecutivos da semana que passou, tive o privilégio de abraçar dois companheiros que passaram há pouco pela sua estrada cravejada de silvas, e esses abraços, de onde emergiram sorrisos e flores, tiveram o jeito de uma mesa com toalha de linho, frutos maduros e tantos versos para o futuro. Que vão para o inferno todos os arranhões deixados pelo cancro, e que viva a vida, assim, às vezes dolorosa e incerta, sem manuais ou guias, mas sempre assente na fé e na vontade de agarrar o tempo, fazendo-o nosso por imposição, legítima, das vontades que a alma nos dita. Um abraço a ...

Estes “António´s” de que somos feitos…

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As salas de cinema são as únicas testemunhas do nosso sequestro pela arte (que dizem ser a sétima) de um filme. Apagam-se as luzes e lá se nos foge o tempo e o espaço, baralhando-se o tempo verbal e todos os lugares. E a gente que se deixa ir sem opor a mínima resistência. Fui ver o “Variações” na maior sala de um Centro Comercial, às 15.30 de um sábado a chamar para a praia, e só quando as luzes se voltaram a acender, restituindo-nos a idade, é que consegui perceber que éramos muitas dezenas e todos entre a “Febre (de Sábado de Manhã)” e o “Passeio (dos Alegres)”. A febre doce de uma revolução que não se cumpre no momento em que o lençol cobre os canhões e as chaimites inundadas de cravos, porque a liberdade chega em ondas, aos poucos, ao grito e ao gesto, alinhando-os com o pensamento e a vontade. O passeio triunfal dos vencedores pelas ruas que lhes oferece a vida, sem temerem mostrar qualquer cor mais “estranha” para onde lhes resvale a alma. Não batemos palmas ...

Esta água que nos quer...

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Estar de férias é virar as costas ao relógio, que ainda assim, manifestando total indiferença para com a nossa atitude, segue no seu ritmo normal, arrancando-nos cruelmente à infância. Sinto-o sempre de forma clara, mas muito especialmente neste “quem dá o braço a quem”, quando caminho com os meus pais a caminho da fonte do Gerês, algo indiferentes à linguagem açambarcadora dos jerricans. Fazemos o percurso cinco vezes por dia para que, chegados à base da montanha, tomemos um copo da água morna que o céu deitou sobre ela, apelando a que a enchesse com as suas melhores e maiores virtudes. E assim, cada gole de água é uma bênção e um padre nosso bebido da Terra, apelando ao céu vida e saúde. Tão íntima e eficaz se faz esta prece, que às vezes, mesmo sendo agosto, o dia emudece o sol e faz descer o céu até nós, deixando que as nuvens nos abracem de água, tal qual usa fazer com a serra. Então, no caudal do rio que corre além defronte, para lá dos odores da giesta, do medro...