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Um Fevereiro tão breve...

De intensidade de viver se escreve o tempo, e também os Homens, cuja grandeza jamais estará à mercê da banalidade avaliável pelas tão racionais métricas que se debruçam sobre a quantidade. Não interessa quanto se vive, mas sim o que se vive e como se vive. E assim, Fevereiro tem tudo para ser o maior mês deste ano e quiçá de todos os anos das nossas vidas… Pela força das palavras que transpiram a melhor poesia da alma, pelas cumplicidades ao luar, sorria ou chore a lua seguindo-nos o rasto do sentir, pelo conforto dos olhares partilhados, esses olhares que sorriem com a verdade que os lábios por vezes não sabem ter, pelos silêncios que os olhos enchem de palavras, pelas mãos dadas ao alento e ao alívio de todos os caminhos, pelos beijos com ou sem lábios, pelos infinitos abraços, pela música, o fado, a guitarra, a desafinação, pelo amor, pelo riso, pelas lágrimas travadas ou não por beijos, pelas rosas, pelas esperas que morrem sempre nos encontros, pelos golos do Benfica, pelo...

A minha geração

Quando era inverno juntávamo-nos na cavalariça do lado direito, na posição de quem entra ao portão principal do nosso improvisado mas eterno liceu. Era um longuíssimo espaço rectangular que abordávamos por uma entrada situada num dos topos e que mantinha as manjedouras em ambos os lados. Apesar do balcão e do bar, este espaço era o que menos conseguia camuflar as funções iniciais do edifício, construído para albergar os equídeos “motores” das viaturas que serviam os Senhores Duques de Bragança. Colocávamos em círculo, as cadeiras de plástico de cor laranja e pés de metal preto, e planeávamos juntos, um incrível futuro. Quando a primavera eliminava as nuvens, permitindo que o sol do Alentejo brilhasse e colocasse a descoberto os perfeitos aromas do campo, passávamos por vezes o portão da Tapada Real e buscávamos a Fonte dos Castanheiros para ali podermos planear esse futuro, inspirados pelo odor a poejo e hortelã que nos era oferecido pelas margens das ribeiras onde nos sentávamos...

Vergonha e revolta por sob o luar de Lisboa

No horizonte, o sol já desapareceu há um par de horas, deixando-nos esse breu, marca da noite, onde emerge o infinito ponteado das estrelas agrupadas em constelações, e a lua, que por estes dias, cheia e redonda, se oferece generosa às mais doces cumplicidades. Soam carros ao longe, e só eles e os nossos passos, quebram o silêncio que o frio impôs às ruas, empurrando a gente para a quietude dos seus lares, confortáveis abrigos devidamente aquecidos. É hora do jantar. E jantar buscará por certo, e quiçá em vão, o homem a quem a necessidade e o desespero empurraram para o intenso vasculhar dos contentores de lixo dispostos num semi-círculo. Metodicamente e sem nunca deixar cair algo de cada contentor, abre saco a saco, colocando o resultado da sua recolha num outro saco de plástico que lhe pende do braço. A necessidade matou-lhe a vergonha de ir procurar a comida no lixo e, vergonha de tudo, mas sobretudo de mim próprio, é o que eu sinto quando cruzo o meu com o seu olhar e o...

Transumância

Quando rumo ao sul deixamos a Estrela, cedo e aos primeiros passos do caminho, percebemos a sarracena pertinência de chamar Refúgio, Guardunha , ou para nós, Gardunha, à montanha que se impõe ao nosso olhar, gozo sublime e privilégio único do caminhante. E se por estes dias de inverno, altiva, a Torre exibe a neve, deixai vir a primavera, e toda a encosta da Gardunha que a mira buscando o norte, sem rival, de branco se vestirá na imponência da flor dos imensos cerejais que Maio, o maduro Maio, pintará de um encarnado tom de fruto. Busco Alpedrinha mas a surpresa revelada por cada curva do caminho, revelação feita de fontes, árvores e granito, justifica este impulso que me obriga a parar. A água escorre encosta abaixo, sangue da montanha por veias e artérias feitas de pedra, terra, plantas, musgos, líquenes…, festa das infinitas cores do campo para as quais a palavra é impotente na hora de buscar definição. E o som da água rima com o registo das lendas gravadas no granito e qu...

Heranças

Por mais que o tempo voe e por mais vida que passe, guardarei para sempre em mim a esperança e a preserverança de uma sementeira de trigo que as chuvas de inverno fazem seara, e pelo pisar de um campo já ceifado, em horas de sol de estio, saberei que é calor, essa brasa que tem infinitos tons de amarelo e laranja num horizonte que parece não ter fim, e tem ares de fogo. A frequência do meu coração vive ao ritmo da roupa, quase sempre branca, batida contra a pedra dos ribeiros, na arte das mãos mestras das minha avós, nessa magia de saber roubar ao campo, os aromas de poejo e esteva. E de poejos, coentros, hortelã, alabaças, beldroegas, em sopas ou açordas, sempre com o pão amassado pela avó Natividade, se me fará sempre o paladar, ideal gosto e supremo prazer, regado a água das fontes bebida pela cortiça de um “coxo” recentemente roubado ao tronco de um imponente sobreiro. E o vento? Eterno será para mim o voo a ritmos diferentes das azeitonas e das folhas das oliveiras, nesse la...

Os filhos tristes dos palhaços

No Largo do Rossio, em Vila Viçosa, mesmo ao fundo da minha eterna Rua de Três, as caravanas ao redor de uma colorida tenda, rompiam por vezes a previsível pacatez do espaço onde só nas manhãs das Quartas-feiras havia mercado e nos dias 29 de Janeiro, Maio e Agosto, as feiras anuais. Com melhor ou pior qualidade, passámos a ter uma animada banda sonora feita dos êxitos do momento, e tínhamos por dias, a estranha vizinhança de gente de quem, ao contrário dos demais, não conhecíamos nem o nome, nem a história. Era a chegada do circo. Nesses dias em que um carro com megafones apregoava ruas fora, leões, crocodilos, serpentes, palhaços, malabaristas, mágicos, trapezistas, contorcionistas… e a incontornável sessão de “grátis às damas”, apareciam sempre na nossa sala de aula, uns meninos diferentes, invariavelmente acompanhados por umas folhas de papel, e que se sentavam naqueles lugares que nas carteiras de madeira onde nos alinhávamos a par, permaneciam vazios durante o resto do an...

Os Anjos acabam sempre por ir morar no Céu

Não me recordo exactamente da data mas sei que foi algures num final de tarde de Abril de 2005. Eu estava a trabalhar num congresso no Porto e terei manifestado um entusiasmo tal pela presença da fadista Kátia Guerreiro na cerimónia de abertura do congresso, que uma colega que me acompanhava e que jamais tinha ouvido falar da fadista e muito menos alguma vez se tinha disposto a ouvir fado, por curiosidade, me acompanhou e sentou-se junto a mim na última fila da enorme sala já repleta de gente. Acreditei que ela aguentaria o primeiro fado e de que ao segundo inventaria uma desculpa e sairia da sala. Vi-a sorrir aos primeiros acordes da guitarra Portuguesa tocada pelo Paulo Valentim, e ao segundo fado… “Prendo o mundo nos meus braços Quando me abraças nos teus E por momentos escassos A terra dá-nos os céus.” Não saiu. Segredou-me ao ouvido: - Fantástico. Deixámo-nos ficar na cumplicidade dos sorrisos, dos olhares e da comoção, no ambiente de silêncio que a alma nos imp...