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Vila Viçosa

Renasço sempre na hora de chegar, Ruas minhas, meu berço, eterno encanto. Eu, Ulisses, aqui cessando o pranto, Por te ver, minha Ítaca… e aportar. Das varandinhas te entrego o olhar Parnaso, poema e doce canto Nobre princesa com a cal por manto Cúmplice, fiel irmã do meu sonhar. E por ti se me morrem os cansaços Porto dos amigos e dos abraços, Esse sangue, força e raiz de querer. Terra, casa eterna e meu abrigo, Entrelaça-me a ti, dorme comigo, Há mil anos de uma vida por viver.

Alentejo – Algumas dicas para o viajante

Num assomo de bom gosto que saúdo enormemente, muitos dos meus amigos resolveram rumar ao Alentejo durante as suas férias de verão, instalando-se na costa mas também no interior. Assim, conhecedores que são da minha paixão pela terra onde tive o privilégio de nascer, foram muitos os que antes ou durante as suas incursões Alentejanas, me contactaram pelo telefone pedindo algumas dicas, conselhos e esclarecimentos. Sendo sempre um prazer falar com todos eles e não pretendendo eu jamais eliminar os motivos e pretextos para me contactarem, antecipo-me e com base nos “registos” das chamadas que fui gravando na memória, pro-activamente aqui vai um micro glossário que poderá ser útil no que às questões gastronómicas e afins diz respeito: Abalar – Ir embora Alabaças / Catacuzes – Espécie de espinafres bravos Almece – Soro branco que escorre do queijo e que se mistura com pedaços da coalhada e algum leite sendo então fervido Ânsias – Vómitos Aventar – Deitar fora Bogango – Abób...

Pelos caminhos de Domingas Gregório

A subida à Portela do Homem pelo Gerês é composta de curvas e contra-curvas e dessa inesgotável expectativa das pontes nos poderem revelar à direita a beleza de uma queda de água. Não podemos parar na berma, mas não nos importamos. No caminho, os metros que se seguem compensam-nos sempre em grandiosidade pela paisagem que “desperdiçámos” atrás na impossibilidade de uma fotografia. O campo impõe-se-nos à memória e dispensa todos os registos fotográficos. Passados os edifícios que restam da antiga fronteira e entrando na Galiza, apercebemo-nos que a Serra é a mesma de Portugal, a via romana que cruzamos é a mesma de que ouvimos falar em Braga e a fala do homem que nos atesta o carro é exactamente igual à nossa mas com um ligeiro abuso do som “xis”. A única fronteira que parece persistir é a económica pois o litro do diesel é substancialmente mais barato. Mas é breve a incursão na Galiza e, seguindo a nossa rota, cedo regressamos à pátria reentrando pelo Lindoso para depois cruzar ...

Minho

O sol nasceu há pouco e isso nos faz crer a claridade que inunda o vale já que as montanhas que o definem, altos impérios, fantásticos monopólios de verde, nos impedem a contemplação desse instante que faz o dia sobrepor-se à escuridão da noite. Mas as montanhas, mágicas, só por si, são já uma enorme compensação. E é pelo vale que sigo paralelo ao rio e por entre os muros de granito, na cumplicidade da vinha “enforcada” que dá um tecto aos quintais, e da imponência dos carvalhos. Aqui e ali há castanheiros que do alto do seu viço parecem piscar-me o olho, sabendo eu como sei que escondem dentro de si uma das maiores e melhores marcas do Outono: as castanhas. A estrada é estreita e leva-me a atravessar uma infinidade de aldeias onde os arcos coloridos erguidos ao alto me dizem ser Agosto e celebrar-se a festa do reencontro de todos no regresso dos emigrantes, heróis do trabalho e do nosso tempo. E nem importa se ainda falamos a mesma língua pois foi pela genética da alma que fomo...

O circo dos corruptos e a orfandade do eleitor

Sempre que um circo nos visitava em Vila Viçosa era possível que a mulher que se encarregava de nos vender as entradas na bilheteira, aparecesse mais tarde no espectáculo a protagonizar um número de contorcionismo ou de qualquer outra especialidade circense. Recordei-me desta polivalência artística quando esta semana assisti aos episódios que conduziram à demissão do Secretário de Estado do Tesouro por alegadamente ter estado antes envolvido na tentativa de venda de um “produto financeiro tóxico” ao Estado Português. A política é hoje efectivamente um circo alimentado pelos mesmos “artistas”, pessoas que oscilam entre o público e o privado ao ritmo da alternância no poder das forças políticas em que militam e que constituem o chamado “arco do poder”. Um circo em circuito fechado composto por gente em geral “sintetizada” nas incubadoras das juventudes partidárias, incompetentes travestidos de pessoas sérias, gente interessada apenas na defesa dos seus interesses de natureza económi...

Romaria

Rasgou-se o riso de todas as cores, Rufam bombos na festa dos sentidos. Almas… como arcos ao céu erguidos, No ar, o perfume, bênção das flores. O povo vem e lava as suas dores, Mágoas, farturas dos dias vividos, Arraial, luz e sonhos compartidos E na rifa saem perfeitos amores. Morteiro, só o fogo que sobe ao ar Que saúde é brinde e gente a cantar Tradição, tão-só este dia novo. A banda toca quando a Virgem passa, Desceu do altar a Cheia-de-Graça: Ave-Maria, Rainha do povo.

Gerês

A água corre incessante na ribeira, e do inevitável encontro com as pedras do seu caminho, infinitas em número e dimensão, lhe nasce o soluço que na quietude deste lugar se associa ao canto dos pássaros para a harmonia de um som mágico e exclusivo. É a música que nos embala no lento caminhar paralelo a esta estrada de água, vendo-a sempre correr de encontro a nós por entre as margens onde há fetos e hortelã, detendo-se aqui e ali em pequenos lagos onde habitam peixes irrequietos e vestidos de todas as cores. O céu apenas se imagina para lá do tecto verde e de folhas que a frondosa copa das árvores construiu por sobre nós, as árvores cujo tronco jamais conseguiremos abraçar, tantos os séculos de nobreza que o tempo acrescentou à sua idade. O céu e o sol dispensados pelo olhar mas presentes pela denúncia feita por semelhante concentração de vida no privilégio desta terra. Há uma pedra onde me sento, pedaço de granito que a ausência de musgo e trevos, denuncia carregar em si o fa...