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Uma manhã e tanta coisa entre mim e o sol

É sábado e eu saio de casa um pouco depois das nove da manhã. Numa mesa da esplanada da pastelaria minha vizinha está um homem sentado sozinho, e com uma garrafa de cerveja entre ele e o sol que brilha com intensidade desde o seu espreguiçar ali para os lados do Cristo-rei. Cruzamos os olhares e eu visto a minha assumida faceta rural quando lhe desejo um bom dia. Ele rompe também a regra do anonimato urbano de pessoas que fingem nem se ver, e retribui o cumprimento por entre dois goles da cerveja que em breve ajudará a apagar aquele tremor que oferece à garrafa um estranho movimento. Talvez a voz deste homem esteja mais perto do Céu do que a minha e o seu desejo para mim se concretize muito mais facilmente do que o bom dia que lhe desejei… Nesta manhã, há tanta coisa entre mim e o sol… muito mais do que apenas uma garrafa mini de cerveja. Não tardarei a ter comigo um caderno Moliskine de capas vermelhas e folhas imaculadas que esperam pelas palavras que relatam olhares, pas...

O trevo e a sorte

Na manhã do último dia de 2014, e enquanto procurava poiso para as palavras de amor que me assaltavam à alma, mais do que ao pensamento; reencontrei entre as páginas em branco de um velho caderno que “mora” à minha cabeceira, um trevo de quatro folhas que um dia me foi oferecido pela minha querida amiga e colega Júlia Lameira. Já não me lembrava dele, mas depois de o rever, foi fácil recordar-me que o coloquei ali precisamente pela garantia de que mais cedo ou mais tarde o iria reencontrar por entre o tanto de bulício que carrega a vida. Eu sei que a sorte é tecida por nós na forma de sins e nãos com que vamos enchendo os dias, e de que nunca se colherá passivamente de um canteiro ou de um prado que albergue uma planta que fuja à normalidade e trivialidade de três folhas… Mas não pude deixar de sorrir vendo o trevo ali seguro entre as páginas de um caderno onde jamais supus poder escrever palavras tão felizes nascidas de um mágico e inédito sentir. Quando ali o coloquei, eu a...

2015 - O futuro é de quem ousa cumprir os sonhos e seguir-se a si mesmo

O calendário assinala hoje um novo ano. Novo? Só será o tempo que soubermos fazer nosso, alimentando-o de esperança e de tudo o que carregamos de sonhos e vontade. Por isso, sejamos heróis cavalgando rumo ao melhor e mais perfeito de nós mesmos. Matemos os fados mais tristes, rasguemos horizontes e ousemos “tomar” todos os minutos, como se cada instante fosse a chave secreta para aquele desejo persistente e essencial tão nosso como qualquer outro detalhe genético. Vivamos intensamente e com urgência… Que nenhuma gargalhada permaneça amordaçada por imperativo de qualquer bem parecer, que nenhuns lábios fiquem órfãos de beijos, que nenhumas palavras de amor sequem em nós sem serem ditas, que os braços cumpram o destino de todos os abraços, que as mãos se entreguem às carícias inscritas na alma, que a madrugada nunca cale a noite sem que cumpramos todos os secretos desejos inscritos no luar… Não traíamos nunca os sins e os nãos que nos crescem no ser, e não neguemos nada d...

A amar-te como nunca e a olhar Lisboa

O calendário assinala hoje a mudança de um ano velho para outro que chega e se faz novo. Acredito… Mas perdi-me na contagem do tempo no exacto momento em que chegaste; que não importa mais a história feita de esperar por ti, e o presente nunca terá nome, número ou sigla, é tão só a vida, algo inacessível a adjectivos e contagens. Porém, às vezes sentimos as estações a passar por nós, palpando-as no frio ou no calor, nos aromas… em tudo o que se vai incorporando na aragem do Tejo, o rio que nos oferece as margens para namorar. A brisa que passa por nós e pelos nossos beijos para depois ir perfumar Lisboa com a poesia de um grande amor. Já se sentia a primavera quando os meus braços palparam pela primeira vez o toque e o calor dos teus, e aquele não sei quê que existe em nós e nos tece em tudo e nos lábios, a palavra amor; deu um definitivo sinal de si. O sinal de um definitivo amor, o tal amor que sobrevoa as calçadas desenhadas a preto e branco da velha Olisipo. E entra...

2014

Cumpre-se a tradição e o Pomar das Laranjeiras atribui as suas “laranjas” relativas à colheita do ano que agora termina, classificando-as de acordo com os seus justos atributos. As “laranjas” no ano das selfies em que o “Espírito Santo” se apagou em vícios velhos que nem o “Novo” disfarça: LARANJA DOCE – O motor de arranque para uma justiça que se exige? Em Portugal há finalmente poderosos e famosos condenados e presos por corrupção (ou suspeita de). Apesar de alguns preocupantes e incompreensíveis arquivamentos, parece que arranca o motor para o fim de uma certa impunidade por detrás da pérfida avalanche do “vale tudo”. A ver vamos… LARANJA AMARGA – A corrupção Operação Marquês com um ex-Primeiro-Ministro preso, os Vistos Gold, o Banco Espírito Santo, o BPN, os submarinos e os blindados… Fica a clara sensação de que por debaixo da levíssima e aparente camada das públicas virtudes dos agentes políticos existe o charco pestoso dos mais pérfidos vícios de parcerias ...

Os amigos ao jantar

Sopa de tomate com linguiça frita Carne de porco Açorda de marisco Azeitona cordovil Tinto Alentejano num jarro A Tina que quer em garrafa… de marca E quase se irrita Chega a comida Achamos sempre que é demasiado Que há comida que nos aguente até ao entrudo… Mas comemos tudo Depois a conversa vai inevitavelmente para as desgraças… O meio século As hérnias As cirurgias As diarreias As frieiras As rugas As dores de coluna As azias Os anti-inflamatórios Reumatismo nas articulações da mão… E urge uma piada porque isto está à beira da depressão A Zinha dá uma das suas gargalhadas Já tardava E nem os temas Sócrates Maçonaria Soares Opus Dei Nos privam de entrar na avaria Eu digo que estamos todos melhor que o milho Mas ninguém concorda e recebo apupos que quase dão sarilho O Manuel declama o meu mais recente poema de amor As confissões de um enamorado… Mas lidas com a alma de quem lê uma lista de supermercado ...

O olhar dos amigos será sempre a casa onde nos sentamos para sorrir

Após a centrífuga acção do tempo, resistentes a tudo e à erosão do muito viver, permanecem fiéis e ao redor dos nossos dias aqueles que são especiais e indispensáveis: os amigos. São a nossa família eleita com base na mais pura genética do ser, um núcleo congregado pelos afectos e cumplicidades; laços por vezes bem mais verdadeiros e eficazes do que os derivados de qualquer outra inevitabilidade por herança de DNA. Mestres das palavras que nos fazem bem e nos constroem, dispensam-nas tantas vezes por nos saberem ler os olhares, os semblantes, as poses os gestos… Gente que está e a quem nunca necessitamos chamar… a gente que sorri instintivamente quando nos vê e sente sorrir… E chora connosco. Gente que é alento no caminho, antídoto de qualquer possível fraquejar, gente que nos rasga o desespero e faz sobressair o lado mais doce e solar. A gente do sim e do não, gente que não ajuíza mas sabe cuidar, uma espécie de zeladores da felicidade, companheiros instituídos pela alma...