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Eu nasço em todos os instantes em que me abraço à minha liberdade

Eu nasço em todos os instantes em que me abraço à minha liberdade. O chão de milénios e as ruinas dos palácios de outrora enfeitam os jardins por onde ecoa perpétuo o grito dos heróis. Há gambiarras que rasgam a noite e projectam de nós sombras disformes enquanto buscamos o recanto de uma velha fonte que se rendeu ao tempo e desistiu da água. Lá muito em baixo, ao fundo e nas margens do rio, soa uma música que fala de amor e de navegar. Trovas do tempo em que crescemos. E a fonte parece ter sido esculpida para nos acolher nesta noite quente de verão varrida pelo vento, muito mais do que para soltar a água num caudal generoso e sem fim. Então, nós calamos o proibido, matamos as convenções e entregamo-nos a um abraço sem nos importarmos qual a sombra que dele projectam os focos e as gambiarras; sem queremos saber daquilo que dele se possa ver ou contar.  Somos nós. Eu estou abraçado a ti, e por ti à minha liberdade. Junto ao rio soltam fogo colorido e fazem festa. E...

O dia dos meus anos

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Muito dobrada e gasta pelo tempo, guardo no álbum uma foto do dia do meu terceiro aniversário. Um fato azul por certo costurado pela mãe, e uma pose de bem comportado, que toda a gente que me conheceu na altura é unânime em dizer que me assentava bem. De sonso, diria eu. Porque desde cortar o meu próprio cabelo com uma tesoura, de usar uma extensão eléctrica como microfone e ter queimado o queixo quando a liguei à corrente, para além de ser o maior consumidor de Mercurocromo da reserva que a minha saudosa vizinha Irmã Madalena tinha no hospital; de tudo fiz. Adorava contar histórias que eu inventava e de as escutar, aproveitando os serões de inverno para me abraçar às minhas tias e às minhas avós que usavam uns xailes fantásticos, macios e quentes. E gostava muito de rir. Hoje é dia 5 de Julho e cumpro 49 anos tendo passado já quarenta e seis anos desde a estreia do fato azul. Hoje já não cortei o cabelo, mas aparei a barba grisalha, cantei sem acesso a qualquer tomada...

Rimas e bolos, um texto para não diabéticos

O meu amigo Daniel Espanca ficou encantado porque o poema “Vivo contigo”, que faz parte do livro NÓS que eu e o Ângelo Rodrigues lançámos recentemente, fala de Bolas de Berlim. Durante a sessão de lançamento em Vila Viçosa pediu-me poesia com mais variedade de bolos e eu hoje faço-lhe a vontade: A história que vou contar É do tempo da minha avó Eterna como o “Folar” Doce como o “Pão-de-ló” Lá para os lados da linha Existia uma tia bem “Queque” “Babá” era o nome que tinha Dama de “Suspiros” e leque “D. Rodrigo” era seu marido Partilhava o seu “Travesseiro” Um “Russo” algo delambido “Pampilho” muito matreiro Já ia “Torta” aquela união Quando por quase nada Irrompe uma discussão E ele leva com uma “Queijada” Ela ouviu das boas Um “Jesuíta” foi chamado pela criada E enquanto se queimavam as “Broas” Acabaram à “Tigelada” Todo sujo na honra e na gravata Disse-lhe ele com uma raiva sem sim - Querias ser um “Pastel de Nata” Mas és gorda, uma “B...

A viagem nocturna dos poetas

Dizem que os poetas entrelaçam o pensamento no luar e saem pelas noites cavalgando terras infinitas colhendo delas as palavras que desenham mais tarde sobre folhas brancas que ficarão eternamente tatuadas pelo perfume da rebeldia. E nesses passeios imunes à neblina e ao impossível há pontes improváveis entre gente, lugares e instantes, há rosas irracionais a florescerem sem pudor em incansáveis primaveras, há a música dos dias que tomaram vida da raiz mais profunda da vontade… Há um paraíso desenhado sobre o breu; que os poetas jamais se renderão e assumirão para si um irremediável destino negro de solidão. Na noite de Julho que trouxe com ela a lua cheia e acendeu os luzeiros todos que o céu guarda, tomei a tua mão para que subíssemos juntos a serra até ao topo onde àquela hora o mar apenas se intui pela brisa salgada que corre veloz para nos envolver. Chegados, fiz-te ainda mais perto num abraço que se dissolveu nas sombras dos milhares de troncos beijados pela lua, um abra...

Um estranho chá das cinco

Falta muito pouco para as cinco da tarde, eu já acabei o trabalho e mantém-se aquela humidade terrível que se nos cola à pele. Estando na terra da única plantação Europeia de chá e sendo eu conterrâneo de D. Catarina de Bragança, nada mais natural do que sentar-me numa esplanada de Ponta Delgada e pedir um chá verde da Gorreana, mas gelado. O empregado responde com um não ao meu pedido, só tem Ice Tea engarrafado e com diferentes sabores, e eu tenho de lhe explicar que com um chá e um copo cheio de gelo eu próprio resolverei a situação. Ele traz o que lhe peço e fica a olhar para mim tão incrédulo que quase me faz sentir um excêntrico Harry Potter em missão feiticeira, ou então quiçá apenas um farmacêutico a manipular algo num patrocinado regresso aos primeiros anos da minha profissão. Mas não se queda ali por muito pois breve corre para junto das colegas com o objectivo de discutir as agruras do horário de trabalho, que pelo tom de voz com que o fazem partilham com a esplanada...

Julho

Irromperei por Julho levando comigo o canto à solta de uma paixão que partilha casa com a minha alma, as palavras mais irreverentes e doces, mil beijos guardados no desejo que nos buscará sempre nas tardes perfeitas junto ao rio, os instantes em que as asas das gaivotas se interpõem entre nós e o céu... e voam connosco na dança dos mais inquietos e ousados poetas. Seguirei, cúmplice da noite, no chão desenhado pela lua cheia sobre o mar e as suas sombras; sabendo que qualquer noite é apenas o breve hiato de um abraço desenhado para sonhar contigo. Seguirei pelo doce das ameixas maduras, o fresco tom rubro da melancia, o aroma de um verão sem reservas e tecido por dias longos que se espreguiçam nos areais quando o pôr-do-sol aviva o tom de sal da brisa que vem do mar. Seguirei pelo chão da vontade de todos os meus passos, pela liberdade. Caminharei pelas histórias que colherei dos livros nos recantos das palavras que adoçarei com o fresco tom de um chá gelado. Irromp...

Diário de bordo

Os dois cálices de Porto desentorpecem e soltam as confidências, mas com muito pouco de novidade nas palavras, habituados que estamos os dois à linguagem dos olhares e dos gestos, os infalíveis fiéis à verdade incapazes de respeitarem quaisquer silêncios que lhes sejam sugeridos. Eu amo-te, e o meu braço que te envolve inquieto desde o Chiado e a mão que te acaricia a cada minuto às vezes incompleto, não se têm cansado de o dizer. Porque o amor que semeias em mim transborda, suplanta todos os poros e todas as expressões; sinto-o aqui nesta mesa onde estamos frente-a-frente à sombra de uma casa de Lisboa. E entre nós, o néctar fresco da cor do ouro vai-se sumindo aos poucos nos tragos que enfeitam as palavras que falam de nós. Vejo-te perfeito e faço-te uma foto. Como se a minha memória pudesse alguma vez trair a eternidade guardada no teu olhar que abençoa este instante? Depois voltamos a caminhar... Não tardamos a sentar o nosso abraço à proa da cidade, olhando o rio e...