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Desapertámos a alma para que os braços perdessem o pudor...

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Desapertámos a alma para que os braços perdessem o pudor, as mãos deitassem fora os limites entregando-se inteiras, e para que os nossos olhares tingissem os dias de um inesquecível tom de azul. O céu é este instante que nós sabemos criar, na praia onde os meninos brincam ao sol em rima perfeita com o ouro do meio-dia. Meninos que nasceram assim apenas para nos ensinarem a ser grandes... Porque somos maiores na área aumentada de um abraço, mais altos quando nos deixamos ser colo de alguém, somos pão de riso pelos gestos e pelas palavras, somos gigantes quando as mãos se oferecem em cadeias que parecem não ter fim. E a alma que flui em liberdade nessas praias onde todos brincamos com a areia e as ondas que vão e vêm cumprindo os caprichos da lua. Todos juntos não há quem não ande e quem não sorria… Não há mãos que faltem Todos juntos...

A menina que construía girassóis com as palavras...

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Na terra onde os pardais passam a primavera a brincar com as laranjas das árvores que adornam os passeios, existia uma menina com o inevitável nome de Maria, que vivia numa rua muito larga ladeada por casas imensas e com portas grandes onde tartarugas de metal serviam de puxadores e "campainha" para chamar os vizinhos. Nas portas fechadas, porque aquela que dava acesso à casa da pequena Maria estava quase sempre aberta, e era o cão que dormitava no tapete, que se espreguiçava ladrando ao ver-nos por perto, alertando os da casa que alguém se preparava para entrar. Entre risos e as gargalhadas mais sonoras da rua, a Maria era feliz e brincava com todos os outros meninos, apercebendo-se no entanto que eles cresciam mais do que ela; o que às vezes a deixava triste. A mãe, pessoa sábia e generosa, vendo-a assim apreensiva, oferecia-lhe palavras bonitas, ensinando-a a juntá-las para construir enormes girassóis onde ela se montava depois às cavalitas, ficando bem mais al...

Faremos voar o nosso abraço por sobre o asfalto que calou a giesta, e seremos nós a primavera que cumprirá os desígnios deste chão que se fez nosso.

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Faremos voar o nosso abraço por sobre o asfalto que calou a giesta, e seremos nós a primavera que cumprirá os desígnios deste chão que há muito se fez nosso. Porque sonhámos brincando sobre ele, acariciando o barro fresco da terra sob a luz de todas as luas. No irreverente rodopiar com que rasgarmos o vento, o nosso respirar cruzado nos contornos de um beijo inédito deixará palavras desenhadas como pétalas que se espreguiçam ao sol dos meios-dias de Maio. E ao longe os rouxinóis que cantam de dentro dos balsedos adornados de amoras reconhecerão neste voo o gesto cúmplice do seu destino de liberdade. Aquela liberdade que só o amor sabe fazer cumprir. Um beijo que voa dentro dos mais feliz dos abraços.

E quantas palavras tomo eu do mar nessas manhãs de inverno em que ando pelas praias, incessante, a procurar-me?

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Trouxe comigo no porão entre os meus segredos, um bolbo de estrelícias a que tu oferecerás terra, água, cuidados... e o sol que todos os dias beija a tua janela. Veio ali aconchegado entre o tanto de mim que floresce quando os teus beijos tomam a forma de um arado e rasgam a letargia da terra, o chão adormecido da minha espera. Por mais que a Terra dê razão a Foucault e imite o seu pêndulo, girando sobre si mesma e ao redor da luz, a verdade é que nem todos os dias se vestem de sol. Há instantes em que as nuvens escondem o azul do Atlântico, não conseguindo no entanto calar a voz das ondas que o vento amplia num eco imenso em tons de cinza. Monásticos segredos revelados… E quantas palavras tomo eu do mar nessas manhãs de inverno em que ando pelas praias, incessante, a procurar-me? O azul onde persistimos, os bolbos das flores que um dia se espreguiçarão ao sol da tua janela. Estrelícias… em nome da rosa ou de todas as outras flores. 

O Homem é muito mais aquilo que sente do que a idade que tem

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O amor, tal como tudo aquilo que é doce, deixa-nos sempre com a sensação de ter o tempo contado; e às duas por três, julgamos esse tanto do calendário, que até pode ser tudo e a eternidade, atribuindo-lhe um assinalável tom de escassez. Porque o tempo é teimoso e insiste em contrariar o pensamento. Sempre e em qualquer momento… Se não estou contigo e voa acelerado (para ti) o dito pensamento, o tempo espreguiça-se por entre uma inexplicável letargia que incomoda e tem gosto de saudade. Mas por outro lado, em qualquer outro dia, se estou nos teus braços ou estamos os dois sentados ao redor de um chá de cidreira, o pensamento fica quieto saboreando o mundo que os teus olhos lhe dão, voando o tempo como um louco a galgar etapas e a consumir minutos de qualquer maneira. É então que sentimos que escasseia. Ora, se atentarmos que todos os dias têm vinte e quatro horas, cada hora sessenta minutos, e estes sessenta segundos, num puríssimo e muito racional matemático rigor… Semp...

Que estranho arranjar-se um dia para falar de amor, se é a vida toda que me ofereces quando saímos os dois para namorar...

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Que estranho arranjar-se um dia para falar de amor, se é a vida toda que me ofereces quando saímos os dois para namorar. O previsível apaga-se rendido à surpresa e até o calendário acaba por se desmoronar... Pode até ser Fevereiro, chover ou fazer frio, mas o teu abraço que me aconchega debaixo de um chapéu verde enquanto caminhamos pelo Rossio, traz com ele o sol que inflama o céu nos dias quentes de Lisboa. Somos nós quem inventa e desenha as pétalas que ressoam das roseiras que suplantam o musgo da calçada, são nossos os corações doces que se escutam um ao outro trazendo-nos à memória aquelas letras das velhas canções que aprendemos no vinil… E dispensamos o chocolate. Deixamos que os gestos acompanhem os olhares no redigir de longas cartas sem papel e sem letras, mas que falam inevitavelmente de amor. Poemas com a rima informal da cumplicidade de quem se deseja com a profundidade de todas as células. Eu amo-te. É claro que sim, e não é só muito, é todo. Porq...

E os “Judas” que nunca se “enforcam”…

Exceptuando o contexto litúrgico e alguns enterros do entrudo realizados numas quantas localidades, a verdade é que a comemoração da Quarta-feira de Cinzas não é algo que se veja muito por aí. Eu acho que a principal razão se prende com a interminável Via Crucis e a contínua Quaresma de jejuns onde nos obrigam a passar o tempo. Jejuns do corpo e sobretudo da alma, naquele estado em que já nada se estranha. Vejamos… O fim-de-semana do Carnaval, supostamente de folia, é a estação perfeita para anunciar que “Portugal cai pela enésima vez” com a cruz da Economia sobre os ombros e com um “Simão de Cirene” em versão União Europeia que cobra demasiado para nos “ajuda” a chegar… ao Calvário, que é afinal onde tudo isto sempre acaba. - Classe média toma lá mais austeridade. Levas com uma folga no recibo de ordenado e vai gastá-la na Galp. A multidão divide-se e inverte os papéis. Os que antes cantavam “Grândola” agora assobiam (para o lado) a “Mula da Cooperativa”; e vice-versa. ...