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Morto nos braços de si mesmo...

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Eu nasci para percorrer sozinho todas as cidades do mundo, e no silêncio, rua a rua, vou-me diluindo na imensidão do universo, até à dimensão ínfima que me permite cruzar e entender todos os castelos, até mesmo os da diferença que aparenta ser mais impenetrável e impossível. Em modo pequeno entra-se e entende-se melhor o coração dos outros. Cruzo as ruas de Lyon até à margem do rio Saône e à estátua de um homem que caminha transportando-se a si próprio, morto, nos seus braços. Eu nasci para percorrer sozinho todas as cidades do mundo, e no silêncio, vou sentindo o quanto de mim sobrevive e respira, sentindo ao mesmo tempo o peso daquilo que deixei morrer sem pranto e sem dor, quando me tornei indiferente ao espaço e ao tempo. Quem não se dilui na dimensão do universo, toma o “importante” estatuto de uma montanha de pedra que jamais saberá o que é o amor. E um homem sem amor é um homem que jaz nos braços de si mesmo, mesmo que ainda consiga caminhar.

Ser do Benfica...

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Ser do Benfica é viver esta festa de olharmos para cima, e repararmos que não há nada nem ninguém entre nós o céu. Corremos então num grito pela cidade, e às duas por três, parece até que o Tejo se vestiu de encarnado e pôs papoilas no cabelo para ir passear até ao Marquês. Somos feitos de povo e somos orgulhosamente povo. Os nossos pés moram em Carnide, num bairro de Lisboa, a capital, mas o Homem é do tamanho do horizonte onde a alma o leva, e nós, definitivamente, temos dimensão de infinito num corpo que é do tamanho de Portugal. Não importa quando nascemos, e se o fizemos antes ou depois de alguém, na nossa idade cabe o tempo todo, e no golo de um segundo apenas conseguimos sempre provar a eternidade. Sim, somos lampiões acendidos pela força de lutar, porque mesmo que nos roubem o dia ou a noite, nós reinventaremos sempre um sol e o luar. E sim, por mais que o nosso fado se enleie no devaneio de outras canções, voltaremos sempre à essência do sangue que nos percorr...

Desabafos nas margens de um rio sossegado, com um copo de vinho na mão, e na companhia de um mês de maio que ainda ensaia a primavera…

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A prudência impõe telhados aos beijos, privando-os do céu e do luar. E os telhados, tal qual o chão firme, são os maiores obstáculos para quem ambiciona crescer para lá do presente de um qualquer instante. A vaidade impõe a aparência de capas sobre capas, para que, tal como acontece com as cebolas, alguém acabe a chorar perante o gosto amargo e pobre da essência real de que não cuidámos e que guardamos dentro. A cegueira ideológica, corporativa, religiosa, partidária... mais cedo ou mais tarde acaba por nos reciclar em autoclismos, com a heroicidade e a inteligência do pensamento a serem substituídas por descargas de água sobre os dejetos arremessados por comportamentos imbecis para os quais temos trancados os olhares e o sentido crítico. As operações plásticas disfarçam a idade, mas assaltam-nos a história, roubando-nos a possibilidade de nos rirmos com a vida e a cara toda. As injustiças provocam úlceras quando acumuladas no estômago, os joelhos em reverência, apoiados ...

Mãe

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Os bem mais de quarenta anos que separam estas duas fotos foram apenas um beijo com tanto de breve como de completo e intenso. Sim mãe, sob o sorriso cúmplice do pai, o tempo entre nós os três será sempre esse beijo, que apesar de ter a vida inteira, de tão perfeito sabe a breve. Nós somos feitos de ti na essência e na atitude, e alimentamo-nos do puro querer amniótico que persiste e extravasa o tempo escorrendo de todos os teus sentidos, das mãos, das palavras perfeitas... O parto cumpriu tão só o impulso de te olharmos de frente e podermos acariciar-te a face. Por muito que a idade nos persiga, contigo ao lado nós despimos os fatos e as cãs, regressando aos calções feitos do tecido que sobrava dos fatos do pai, para irmos a correr ter com os amigos e passarmos a tarde a brincar. Porque o teu amor será sempre a eternidade, e a eternidade é um beijo imenso e inteiro.   (Obrigado ao meu querido amigo José Manuel Marques pela excelente foto inspirada naquela ...

O vento forte nas pontes do sul…

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Desde Vila Viçosa, regresso a Lisboa ao fim da tarde de domingo de Páscoa, e nos placards da autoestrada, a mensagem é clara: “Precaução: vento forte”... Sempre acreditei que quando crescesse deixaria de gostar de brincar com o pôr-do-sol. Pensamos tantas coisas destas a nosso respeito, sem nos darmos conta de que elas são tão intrinsecamente da genética da alma, e não da idade ou do tempo, que subsistiriam mesmo que vivêssemos mil anos. Na sexta-feira santa andei a brincar com o pôr-do-sol ali para os lados do palácio, e segui a frontaria caiada da porta do nó, até ao portão do meu antigo liceu. Não encontrei ninguém, mas o espaço e as pedras das ruas têm o condão de guardar a fala, o riso e o choro da gente, e apesar de quase ser hora de enterro do Senhor, ressuscitei mil lembranças que guardei nos bolsos fundos da memória. Nós temos esse condão de cruzar a nossa genética com a genética das ruas, e por mais camadas de cal que imponham às paredes das casas, a nossa silhu...

O meu Deus...

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O meu Deus ressuscita, tal qual o canto das ribeiras numa tarde de chuva, sempre que eu ofereço ao tempo adverso, o meu rumo e os meus aromas, fazendo do inócuo silêncio, uma canção perfeita que me espelha na rima de cada verso. O meu Deus foge então dos sacrários e dos altares, para caminhar pelas ruas no peito da gente, espreitando pelo riso e pela esperança que são próprios de quem vive contente. O meu Deus trocou os mantos de veludo pelos gestos talhados pela vontade, trocou a sumptuosidade dos templos pelas vielas, rejeitou a hipocrisia, trocando-a pelos beijos de amor, que o são de verdade. O meu Deus passou pela cruz, mas é a alegria que se abraça num sepulcro vazio. O meu Deus, todos os dias, e não só nas manhãs de Páscoa, é a minha vida inteira a repousar num abraço onde não se sente o frio.  

Na aparência de estar só...

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Na aparência de estar só, o silêncio nunca é a casa de quem escreve. Há gente que canta, que conversa connosco durante muitas horas, há gente que grita, e até há gente que, preparada para tomar corpo de letra, ressuscita. Quando se escreve constroem-se novas moradas ou reabilita-se a antiga, sempre na coerência de um sonho qualquer que nos persiga, e quem escreve, mais do que manchas de tinta, tem pedaços de terra presos à mão: ele é um agricultor que se empenha em mondar os seus parágrafos, para que não persiste mais nada, para lá das palavras que possam ser pão. Quem escreve tem o privilégio de baralhar os dias, as horas, as estações... não sendo raro acordar em dezembro para uma manhã de verão, naquilo que poderá soar estranho para quem não souber decifrar a linguagem imprevista do coração. O escritor tem face de esquizofrénico, de mendigo, de travesti, de marinheiro, de inconsequente, de herói, de vagabundo... Mas que importância tem isso, se apenas o invisível e univ...