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Estes dias de amoras maduras...

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Gosto destes dias que nos põem amoras maduras sobre a mesa, ao lado de um caderno aberto e com folhas brancas para escrever. Poderemos sempre dissertar sobre a memória da dor que as silvas nos impuseram aos braços, ou então inventarmos versos de amora em ponto de açúcar, ao jeito de compota reservada para os dias de chuva que aí vêm. Confesso que sou fã incondicional da segunda perspetiva. Em dois dias consecutivos da semana que passou, tive o privilégio de abraçar dois companheiros que passaram há pouco pela sua estrada cravejada de silvas, e esses abraços, de onde emergiram sorrisos e flores, tiveram o jeito de uma mesa com toalha de linho, frutos maduros e tantos versos para o futuro. Que vão para o inferno todos os arranhões deixados pelo cancro, e que viva a vida, assim, às vezes dolorosa e incerta, sem manuais ou guias, mas sempre assente na fé e na vontade de agarrar o tempo, fazendo-o nosso por imposição, legítima, das vontades que a alma nos dita. Um abraço a ...

Estes “António´s” de que somos feitos…

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As salas de cinema são as únicas testemunhas do nosso sequestro pela arte (que dizem ser a sétima) de um filme. Apagam-se as luzes e lá se nos foge o tempo e o espaço, baralhando-se o tempo verbal e todos os lugares. E a gente que se deixa ir sem opor a mínima resistência. Fui ver o “Variações” na maior sala de um Centro Comercial, às 15.30 de um sábado a chamar para a praia, e só quando as luzes se voltaram a acender, restituindo-nos a idade, é que consegui perceber que éramos muitas dezenas e todos entre a “Febre (de Sábado de Manhã)” e o “Passeio (dos Alegres)”. A febre doce de uma revolução que não se cumpre no momento em que o lençol cobre os canhões e as chaimites inundadas de cravos, porque a liberdade chega em ondas, aos poucos, ao grito e ao gesto, alinhando-os com o pensamento e a vontade. O passeio triunfal dos vencedores pelas ruas que lhes oferece a vida, sem temerem mostrar qualquer cor mais “estranha” para onde lhes resvale a alma. Não batemos palmas ...

Esta água que nos quer...

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Estar de férias é virar as costas ao relógio, que ainda assim, manifestando total indiferença para com a nossa atitude, segue no seu ritmo normal, arrancando-nos cruelmente à infância. Sinto-o sempre de forma clara, mas muito especialmente neste “quem dá o braço a quem”, quando caminho com os meus pais a caminho da fonte do Gerês, algo indiferentes à linguagem açambarcadora dos jerricans. Fazemos o percurso cinco vezes por dia para que, chegados à base da montanha, tomemos um copo da água morna que o céu deitou sobre ela, apelando a que a enchesse com as suas melhores e maiores virtudes. E assim, cada gole de água é uma bênção e um padre nosso bebido da Terra, apelando ao céu vida e saúde. Tão íntima e eficaz se faz esta prece, que às vezes, mesmo sendo agosto, o dia emudece o sol e faz descer o céu até nós, deixando que as nuvens nos abracem de água, tal qual usa fazer com a serra. Então, no caudal do rio que corre além defronte, para lá dos odores da giesta, do medro...

Uma viagem a Jerusalém...

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Quando sobre a Caparica, o avião curva para a direita, procurando Lisboa, despeço-me do sol e agradeço-lhe a viagem desta tarde: a bordo da Terra, eu segui-o desde o oriente. Sei que ao repousar finalmente na minha cama, sentirei o balançar suave do meu barco à superfície doce do Mar da Galileia, olharei bem para o alto, para as montanhas a que fé foi dando nomes e virtudes, e, quase a adormecer, talvez faça renascer na pele das mãos, a textura suave das pedras onde nasceu e ressuscitou o meu Senhor. E por entre as janelas da memória, chamarei até mim o odor das especiarias que roubei às ruas de Jerusalém, esse incenso despretensioso e improvável que acaricia o passeio dos sacrários: Cristo a caminhar pelo gesto incessante dos nossos passos. Amanhecer em Jerusalém e adormecer em Lisboa, numa viagem à procura do sol. Dos meus sete dias na Terra Santa escolhi esta foto que tirei com a Joaquina em Emaús. Somos há muito amigos no Facebook mas apenas no conhecemos pessoalmente no a...

Um domingo de 2019 em Jerusalém

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Nas ruas sombrias de Jerusalém, bem cedo, de manhã, as pedras soletram todos os passos de um homem com uma cruz, exatamente quando o tempo mudou, já passaram duas vezes mil anos. Ajeito o passo e começo a andar, sentindo que a cidade é o mundo inteiro, e o homem é expressão divina no rosto de um homem que é muito mais do que apenas Ele: somos todos. I - O Homem é condenado à morte, apenas por querer ser livre e ser ele mesmo, pensando ou não de forma diferente dos demais.  II - O Homem carrega a cruz das suas noites sem luz e sem beijos, solitário nos recantos mais escuro e inóspitos das cidades. III - O Homem cai pela primeira vez, e talvez de uma balsa que trai sem pudor, a sua vontade de um porto de paz. IV - O Homem encontra a sua mãe, desempregado, sem rumo e sem poder corresponder à esperança das tardes em que ela o mimava por sobre todas as penas. V - A dor é intensa e requisita-se alguém que a alivie. Ainda existem Cirineus nas ruas de Jerusalém. VI - Uma mulher limpa o r...

Às portas de Jerusalém

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Os pássaros virão ao fim da tarde, e escreverão em voo, salmos sobre a nossa espera, com a tinta negra das suas asas que parecem ler-nos a prece. A morte é este repouso breve, doce e anónimo no longo Vale dos Reis, aguardando Deus, que regressará para entrar triunfante pelas portas douradas, levando-nos com Ele até ao Céu. Nenhuma cidade terá tanto de Céu quanto Jerusalém, sendo também, e estranhamente, a geografia da morte dos profetas. Nas pedras gastas de Jerusalém há o eco de mil palavras de Deus, por entre o grito da sua dor, e da nossa dor, quando cravejados de balas por termos acreditado que o poder dos Homens partilha o trono com Deus. É sábado em Jerusalém e eu visito o túmulo do Rei David depois de colocar a Kipá sobre a cabeça, sinalizando que Deus estará sempre sobre mim. Sobre mim e sobre a minha espera, que todos somos passageiros sentados nos vales ao redor de Jerusalém. Há homens que rezam ali, na Sinagoga, numa língua tão estranha, quanto os gestos que an...

Presépios e árvores de Natal...

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As pessoas que persistem são árvores frondosas que nos abraçam de sombra perfumada nos jardins da memória. De manhã procurei Aristides de Sousa Mendes em Jerusalém, nos jardins do Museu do Holocausto, e encontrei-o exatamente no dia em que passam 134 anos sobre o seu nascimento. É um pinheiro frondoso. De tarde , e quando o sol já se propunha deixar Belém, ajoelhei-me na gruta da natividade para saudar o Jesus menino, seguindo a geografia da fé e do Natal. Há momentos maiores do que nós, e ali eu fui muito mais do que apenas eu: os meus pais, os meus avós, o meu irmão, os amigos todos... A vida passou ali em 10 segundos, e com ela todos aqueles de quem sou feito. Mas entre Aristides e a natividade de Jesus, reflectindo o mundo, há muros e uma fronteira com gente armada.  No presépio do século XXI exige-se passaporte, e a crueldade mata a poesia das estrelas que definem os caminhos da liberdade. Estamos sentados no hotel em Jerusalém, da mesma forma que antes em Vila Viço...